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Site G1, São Paulo, 23/01/2007

MACACO-PREGO ELUCIDA EVOLUÇÃO DA TECNOLOGIA
Uso de ferramentas pelo primata mostra 'pré-requisitos' de espécies tecnológicas. Trajetória evolutiva do animal tem semelhanças intrigantes com a do homem.

Por Reinaldo José Lopes

Um primata esperto, altamente sociável, que teve de deixar a floresta fechada e se embrenhar na savana, desenvolvendo tecnologia, habilidades de caçador e um cérebro avantajado. Se você acha que já viu essa história ao ler sobre a evolução humana, pense de novo: essa, segundo o etólogo (especialista em comportamento animal) Eduardo Ottoni, do Instituto de Psicologia da USP, pode ter sido a trajetória evolutiva do modesto macaco-prego.

Ottoni e seus colegas estudam as tradições culturais do macaquinho brasileiro e conseguiram comprovar que ele é um hábil usuário de ferramentas. Tal como alguns chimpanzés, nossos primos evolutivos mais próximos, os bichos usam uma combinação de "martelo" e "bigorna" (uma pedrinha menor e um substrato duro, feito de rocha ou madeira) para quebrar coquinhos e extrair a polpa nutritiva desses frutos. 


Macaco quebra-coquinho com pedra no Piauí

A descoberta fez a cabeça dos cientistas fervilhar. Afinal, nossa linhagem e a do macaco-prego estão separadas há 40 milhões de anos, o que indica que a capacidade tecnológica e cultural evoluiu entre esses bichos de forma totalmente independente. Esse fato, unido aos demais paralelos entre a história desses macacos e a nossa própria história como espécie, pode se tornar uma ferramenta poderosa para entender por que, afinal, um animal decide enveredar pelo caminho da tecnologia.

Em entrevista ao G1, Ottoni explora o mundo fascinante e ainda pouco conhecido da tecnologia animal, e o que ela pode revelar sobre nós mesmos. Confira trechos da conversa, em texto abaixo.


Prof. Eduardo Ottoni

G1 – Professor, em primeiro lugar, como é que a gente define o uso de instrumentos entre animais? Como é que se traça a fronteira entre o dique de um castor, ou um ninho muito elaborado de uma ave, por exemplo, e um instrumento verdadeiro?

Eduardo Ottoni – Tem dois aspectos nessa sua pergunta, e em nenhum deles eu acho que seja muito fácil traçar alguma fronteira. Cada vez mais a gente está percebendo que essa de traçar fronteiras é algo que está exclusivamente no nosso pensamento. Às vezes é útil como forma de estruturar a realidade, mas na prática o mundo funciona com gradações, misturas complexas. Cada vez eu saberia menos responder onde é que está a fronteira dessas coisas. Na verdade, a minha pergunta seria onde está a fronteira do que a gente pode chamar de cultural, e isso está cada vez mais nebuloso.

Mas quando você pergunta o que define o uso de ferramentas, um aspecto é o aspecto formal – o que a gente vai chamar de ferramenta. E aí a gente tende a seguir uma definição que começou com a [primatologista britânica] Jane Goodall, e que fala, muito resumidamente, em um objeto separado, solto no ambiente, que é manipulado diretamente pelo organismo como uma extensão da mão, da pata, do bico, para alterar a forma, a posição ou algum aspecto de outro objeto.

Essa ainda é uma definição razoavelmente ampla, e existem limites nebulosos do que a gente chamaria de uma ferramenta. Por exemplo, eu não tenho certeza se eu chamaria uma teia de aranha de ferramenta – é um objeto destacado do corpo, mas que saiu do corpo. Tem autores muito liberais que chamam aquela cusparada do peixe-arqueiro, que ele usa para derrubar um inseto que passa voando, como ferramenta.

Assim, quando um macaco-prego, num comportamento que já era conhecido antes do nosso trabalho, bate o coco contra um substrato, seja no chão, seja num tronco de árvore, isso a gente não chama de ferramenta, não é um objeto independente ou solto. Agora, quando ele usa uma pedra, que é um objeto solto como extensão da mão – na verdade são duas, continua havendo o substrato, e por isso a gente usa a metáfora do martelo e da bigorna – aí já constituiria, pela definição, uma ferramenta.

Agora, essa é uma delimitação prática da gente. Mais interessante que isso é o mecanismo que capacita o bicho a fazer isso. Independente do mérito da teia de aranha dentro dessa definição, uma teia é algo que uma aranha nasce razoavelmente pronta para fazer...

G1 – Já sabendo fazer...

Ottoni – Isso não quer dizer que não haja desenvolvimento no sentido de maturação, ou mesmo de aprendizagem – a aranha precisa colocar a teia dentro de um suporte. Tudo isso tem ajustes. Mas o básico já está lá.

Quando a gente fala em aprendizagem, existem dois lados da questão. Toda aprendizagem é individual, mas algumas aprendizagens individuais dependem criticamente da mediação social. E é aí que está talvez a distinção mais interessante: ferramentas que o bicho não só não nasce pronto para utilizar, como também não dependem simplesmente de uma interação com o ambiente natural, mas de uma tradição comportamental que tem algum componente de transmissão social.

G1 – E que exige o contato com outros membros da espécie que já dominam aquela técnica.

Ottoni
– Exato. Tem coisas que a gente pode aprender sozinho. E tem coisas que nem ocorreria à gente que são possíveis se não tivesse uma interação social por trás disso. Uma aranha tem uma série de limitações que não tornam isso prático. Primeiro, com raríssimas exceções, as aranhas nem são sociais. Depois, elas não têm nem um sistema nervoso tão capaz de processos longos e complexos, nem um span [duração] de vida que permita essa coisa toda. Então, como estratégia evolutiva para uma aranha ou outro invertebrado, esse processo de automatizar o máximo possível foi melhor.

Agora, para animais com razoável grau de encefalização [tamanho relativo do cérebro] e destreza, e que contam com vida social intensa, como um primata, por exemplo, surge uma via outra de informação, além da genética e além dos determinantes ambientais, muito valiosa. Tem essa oportunidade de comer etapa, de se beneficiar da inovação de outro indivíduo e de incorporar isso ao patrimônio comportamental daquela população através de processos de transmissão social.

G1 – O sr. meio que já respondeu a minha segunda pergunta: quais seriam os requisitos básicos para desenvolver o uso de ferramentas. Teríamos, então, um cérebro razoavelmente desenvolvido; um tempo de vida que te permita absorver esses conhecimentos; e uma sociedade que permita trocar esses conhecimentos. Mais alguma coisa?

Ottoni – Talvez você tenha notado pelos artigos que a nossa pesquisa se beneficiou muito de uma série de idéias, e também trouxe benefícios para esse modelo, do [primatologista] Carel van Schaik, que estuda os orangotangos. A coisa da duração de vida é geral para os primatas, e ele estava se perguntando que fatores permitiriam que certas espécies de primatas particularmente bem dotadas para o surgimento de tradições tecnológicas.

O grau de encefalização varia muito. Numa espécie com um cérebro razoavelmente bem dotado e uma destreza manual básica, dadas esses pré-condições mais elementares, ele chamou a atenção para a tolerância social, que também é uma coisa que a nossa parceira Dorothy Fragaszy já havia levantado nesse sentido. Quanto maior for a tolerância que os adultos exibem em relação aos jovens, mais de perto o jovem pode observar seja lá o que for que o adulto faz, e mais detalhes ele pode apreender.

Então, esse é o terceiro ponto, além de um bom cérebro e de pressões ambientais – porque ninguém faz isso por hobby. Algumas espécies dependem de alimentos muito fáceis de obter. Mas se você tiver um cérebro grande e tiver grandes vantagens adaptativas em explorar recursos mais defendidos – alimentos encapsulados, por exemplo – então talvez a chave para que uma técnica de forrageamento baseada em ferramentas se estabeleça é a tolerância social.

E o macaco-prego se destaca nesse sentido. Os adultos são muito tolerantes em relação aos jovenzinhos, o que permite que esses bichos vão lá filar os pedacinhos de comida que o outro está quebrando. A minha hipótese é que eles não estão indo lá aprender nada: eles estão querendo obter esse recurso, que talvez inclusive seja fundamental em épocas de seca na caatinga. Mas, ao irem filar, e sendo extremamente tolerados pelo dominante – eles chegam a comer metade do que ele produz – eles também estão se expondo ao comportamento do outro e aprendendo.

E, se você for me perguntar o impacto que isso tem para o estudo do próprio ser humano, a gente vai ver que talvez seja crucial, porque aparentemente nós também somos uma espécie que passou por esse processo de autodomesticação. E viramos um bicho muito mais dócil – embora tenhamos essa imagem meio brutal do ser humano, como padrão de comportamento social dentro de grupos normais, que se conhecem, na verdade nós somos um primata extremamente tolerante.

G1 – O sr. também mencionou a destreza manual. Mas a gente às vezes vê exemplos de uso de ferramentas entre animais que não têm mão – eu me lembro de um trabalho recente com golfinhos, e alguma coisa entre aves. É uma barreira absoluta ou relativa?

Ottoni – É verdade. Como essa pesquisa se expandiu muito na área primatológica, e como tem muito a ver com a evolução humana, a gente tem um grande fetiche pela mão, mas é surpreendido de vez em quando.

Esse estudo de tradições culturais, por exemplo, começou não com tecnologia de ferramentas, mas com pesquisas sobre comunicação: tradições no canto das aves, tradições nas vocalizações de golfinhos e baleias. Uma ave, tudo bem – ela tem bico, tem pata, e às vezes usa a pata destramente. Mas um golfinho – a gente pensava em tradições de comunicação, não espera que um golfinho saia por aí usando ferramentas.E não deu outra – está lá o caso daquela linhagem [de golfinhos-nariz-de-garrafa australianos], mas é o único, aparentemente é raro. É uma matrilinha [linhagem de descendência materna] em que as fêmeas usam aquelas esponjas na ponta do nariz para pegar animais que ficam no fundo do mar. Os machos inclusive pegam mais peixes, o forrageamento deles é diferente. Aquilo é usado como uma proteção para o nariz das fêmeas.

G1 – E a correspondência entre a pressão seletiva para achar novas fontes de alimento e o uso de ferramentas, isso está claro? Um trabalho recente com chimpanzés, no Congo, lança dúvidas sobre isso...

Ottoni – É uma conjunção de fatores. Nenhum deles é suficiente, eu diria. As tradições humanas, por exemplo – muitas delas não têm mais correlação com necessidade de coisa alguma. A gente pode inventar qualquer besteira que não tem nenhum significado adaptativo e isso se difundir culturalmente, virar uma moda, durar um tempo. E mesmo no caso dos macacos-pregos, a gente tem uma polêmica entre pesquisadores, que foi objeto de uma troca de cartas na revista “Science” entre a gente e o grupo da Phyllis Lee [da Universidade de Stirling, na Escócia].

Ali eles colocavam como grande pressão potencial para o desenvolvimento da tecnologia entre os macacos-pregos a questão do alimento, porque na caatinga e no cerrado – embora isso tudo ainda esteja por ser determinado, na verdade –, uma das coisas que permitiu ao macaco-prego ocupar essas áreas é justamente o acesso ao fruto encapsulado.

Agora, eu acho que isso é uma parte importante da história de por que a cognição desses macacos em geral evoluiu nesse sentido. Mas eu não acredito que isso seja a causa imediata determinando quais populações contemporâneas usam ferramentas. Você olha na mata atlântica e na Amazônia, e a gente praticamente não tem nada sobre uso de ferramentas. E é uma ilusão achar que a mata atlântica ou a Amazônia sejam mais ricas em alimento – não é verdade. Em alguns lugares pode ser e em outros, não.

E mesmo em matas muito pobres eles não vão além do uso do substrato. O jatobá, que em outros lugares eles quebram com pedras mas dá para quebrar batendo bastante no substrato, eles descem da árvore e quebram no chão, ou batem na árvore mesmo, mas não usam ferramenta.

Em termos imediatos, para determinar se essa ou aquela população usa ferramentas, parece que a terrestrialidade é mais importante.

G1 – Quer dizer, o hábito de descer para o chão?

Ottoni – Isso, porque na caatinga e no cerrado eles precisam andar longas extensões pelo chão. E não só pelos alimentos encapsulados – a gente conseguiu determinar concretamente que muitas vezes ele não têm outra opção de alimentação – mas também por maior dependência de carne. Eles são bem mais carnívoros que a média dos primatas, caçam bastante coisa pequena, inclusive vertebrados. E ao andar pelo chão liberam as mãos, eles caminham mais bipedalmente [eretos], isso possibilita carregar mais martelos até as bigornas potenciais.

Na serra da Capivara (PI), a quantidade de bons martelos é muito grande – é difícil reconhecer um sítio de quebra [de coquinhos] se você não vir o macaco quebrando, porque tem seixo em cima daqueles blocos de arenito direto. Mas em Gilbués [também no Piauí] esses seixos são muito mais raros. Você olha a um quilômetro de distância e diz “ah, lá é uma bigorna” e, ao chegar, vê os restos de coco, vê tudo. Lá claramente o bicho teve de transportar por alguma distância e estabelecer um sítio de quebra. Depois disso, o martelo fica ali.

Então, a gente acredita que, sem essa pressão ambiental, seria difícil, a não ser que se trate de um bicho com muito tempo livre, coisa que a carnivoria também pode fornecer. Mas isso não quer dizer que todos os grupos sejam capazes de desenvolver esse comportamento.

No caso do Parque do Tietê [na capital paulista], por exemplo, os bichos estão em semiliberdade, são provisionados, roubam comida de outros bichos – isso não é a falta de comida. Mas mesmo assim eles acabam fazendo [a quebra], porque o bicho tem uma tendência tão grande para isso, essa coisa acaba saindo.

G1 – A grande questão, depois de tudo isso, é o que esses dados implicam para entender animais tão tecnológicos quanto nós. Como o sr. vê isso?

Ottoni – Quando a gente descobriu tecnologia em chimpanzés foi uma coisa absolutamente impactante, mas a gente ainda está dentro dos hominóides [grupo que reúne humanos e grandes macacos]. Então isso podia sair uma idiossincrasia da nossa própria família, uma mutação fortuita que aumentou o cérebro. Podia ser um problema histórico da nossa evolução.

Quando a gente olha o macaco-prego – separado há 40 milhões de anos dessa linhagem, e com outras linhagens no meio que não fazem nada disso – não tem uma continuidade evolutiva disso. Então, eu acho que a nossa pergunta amadurece, nossa ciência avança, para perguntas mais gerais e mais sistêmicas.

Por um lado o macaco-prego acaba sendo uma coisa irresistivelmente comparável, porque é um animal que saiu da floresta e foi indo para a savana, a trajetória que a gente sabe que foi a dos hominídeos. E até em certo sentido parecido com a retração da floresta – além do desmatamento, a Amazônia teve todos aqueles ciclos de expansão e contração [durante a Era do Gelo] que a gente pode comparar com o que aconteceu com as savanas na África.

E mesmo na questão da plasticidade comportamental – primata em geral é espécie ameaçada, mas eu conheço colegas que trabalham com macaco-prego e encontraram o bicho como praga agrícola. Você tira a floresta dele e ele vai lá olhar o que você plantou no lugar.

Então, o bicho saindo da floresta, tornando-se mais bípede, com um grau de encefalização que só perde para o dos hominóides, com aumento da carnivoria, predando não só lagartos como aves e até um caso de macaco-da-noite recentemente predado por eles, e sociedade tolerante são um paralelo irresistível [com o homem] de se olhar, inclusive para entender a evolução da tolerância social humana.

 


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