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Rio de Janeiro, 5/7/2008

HIPOCONDRIA ATINGE 8% DA POPULAÇÃO BRASILEIRA

Por Cristine Gerk, Jornal do Brasil

RIO - Uma mancha na pele é sinal de câncer, taquicardia indica mal cardíaco crônico, desarranjo intestinal é o primeiro sintoma de Aids. O convívio com a constante impressão de ser vítima de uma doença grave oculta é uma realidade para cerca de 8% dos brasileiros, vítimas da hipocondria. Embora o nome tenha sido banalizado, este mal psicológico ainda é pouco conhecido e menos ainda admitido pelos que sofrem com o problema.

A estudante L. A., de 24 anos, foi diagnosticada como hipocondríaca este ano. Acreditava ter um câncer ósseo por ter achado um caroço na perna e sempre que sente fraqueza, indisposição ou tem irritação na pele acha que está com Aids:

– Já fiz o exame de HIV, que deu negativo, mas não acreditei, comecei a duvidar do laboratório. Vou muitas vezes a médicos, de todas as especialidades, tendo queixa ou não. Ginecologista, cardiologista, endocrinologista, dermatologista, nutricionista. Sempre fico pesquisando na internet sobre doença, o Google é meu pior aliado – conta L. A.

Alerta permanente
Marco Antônio Brasil, coordenador do programa ABP Comunidade, da Associação Brasileira de Psiquiatria, explica que a hipocondria gera um estado constante de alerta:

– A preocupação excessiva com a saúde pode passar a ser uma condição incapacitante, ou seja, a atividade social, profissional e a qualidade de vida do paciente é comprometida – descreve Brasil.
– A pessoa deixa de fazer certas coisas e toma remédios demais, que inclusive acabam prejudicando mesmo a sua saúde. }

Segundo Telmo Kiguel, coordenador do departamento de psicoterapia da ABP, os hipocondríacos não se percebem como tal e não aceitam que têm problemas emocionais.

É difícil para um médico dizer para o paciente que ele é hipocondríaco, porque sua resposta será considerá-lo um profissional incompetente para lidar com a sua enfermidade física. – A hipocondria está ligada a distúrbios narcisistas. Todo afeto e tesão de vida do indivíduo está voltado para dentro dele. No fundo, ele só olha para o próprio umbigo. É comum também o medo excessivo da morte – completa Kiguel.

O hipocondríaco é ansioso, às vezes depressivo, e está sempre se auto-avaliando e verificando. Segundo Kiguel, uma característica muito importante é que ele duvida dos médicos e dos diagnósticos:

– O paciente vai ao médico, o profissional tranqüiliza e diz “isso é uma dor normal, uma cólica que a mulher tem todos os meses”, e a pessoa continua, mesmo assim, a achar que tem algo mais grave – acrescenta Kiguel. – O paciente passa por muitas avaliações médicas, nenhuma serve. Ele briga, se frustra.

Geralmente o paciente também tem dificuldade de expressar sentimentos, característica dos psicossomáticos, que demonstram fisicamente o mal-estar pela dificuldade de falar de emoções e pelo pobre autoconhecimento.

– A pessoa se sente perseguida pelos órgãos, que estão “aprontando para ela”. Se um dia sentiu uma dor ou diferença na atuação de um órgão, já é sinal de alerta. Se está com gripe, é pneumonia. Se a menstruação foi demais, vai ficar anêmica – exemplifica Kiguel.

A causa da hipocondria ainda é um mistério. Pode haver uma pré-disposição genética, mas provavelmente a influência é dos primeiros anos de vida. Pais e mães que falam o tempo todo de remédios, casos de doença na família ou episódios de mal-estar na infância podem provocar a má interpretação de sintomas no futuro. Os sintomas podem ficar mais intensos depois de um evento estressante, por exemplo, a morte de uma pessoa amada.

– Os sintomas associados à hipocondria são sempre físicos. Como qualquer doença mental mais séria, às vezes é associada a outros sintomas psiquiátricos – explica Leila Salomão Tardivo, professora do instituto de psicologia da USP.

O diagnóstico é geralmente suspeitado pelo clínico geral ou por médicos de especialidades diversas, que não detectam nada em exames, e confirmado pelo psiquiatra ou psicólogo, com conversas e a avaliação do histórico do paciente.


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