LaNCE - Laboratório de Neuropsicolingüística Cognitiva Experimental

 

Como usar o Novo Deit-Libras: Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Libras) baseado em Linguística e Neurociências Cognitivas

Novo Deit-Libras: Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Libras) baseado em Linguística e Neurociências Cognitivas é fruto de um vasto programa de pesquisas em lexicografia da Língua de Sinais Brasileira e cognição de surdos, que começou no início de 1989 no Laboratório de Neuropsicolinguística Cognitiva Experimental. Ele representa o desdobramento de uma série de obras anteriores, como o Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Capovilla & Raphael, 2006b, 2006c), a Enciclopédia da Língua de Sinais Brasileira, volume 1, 2, 3, 4 e 8 (Capovilla & Raphael, 2004a, 2004b, 2005a, 2005b, 2005c), e o Manual ilustrado de sinais e sistemas de comunicação em rede para surdos (Capovilla, Raphael, & Macedo, 1998), dentre outros.

O Novo Deit-Libras compõe-se de:

1) Uma Apresentação e uma Introdução, que situam o Novo Deit-Libras no programa de levantamento e documentação lexicográfica de Libras, bem como no programa de pesquisa sobre avaliação e intervenção educacional e clínica do desenvolvimento de linguagem oral, escrita e de sinais do surdo brasileiro;

2) Três capítulos introdutórios, que explicam:

2.1) Como usar o Novo Deit-Libras;

2.2) Como fazer soletração digital de caracteres alfanuméricos em Libras; e

2.3) Como ler e escrever sinais de Libras no sistema de escrita visual direta de sinais SignWriting;

3) O Corpo Principal do dicionário de sinais de Libras, que documenta 9.828 sinais numa série de formas incluindo:

3.1) Os 14 mil verbetes em Português que correspondem aos 9.828 sinais de Libras;

3.2) Os 56 mil verbetes em Inglês que correspondem aos 14 mil verbetes em Português;

3.3) A soletração digital dos 14 mil verbetes em Português que correspondem aos 9.828 sinais de Libras;

3.4) A classificação gramatical dos 14 mil verbetes em Português que correspondem aos 9.828 sinais de Libras;

3.5) De um a três exemplos do uso funcional adequado de cada um dos 14 mil verbetes em Português em frases bem formadas;

3.6) A escrita visual direta de cada um dos 9.828 sinais de Libras via sistema SignWriting;

3.7) A descrição escrita detalhada da forma de cada um dos 9.828 sinais de Libras (i.e., a análise de sua composição sublexical no nível quirêmico);

3.8) A ilustração gráfica da forma de cada um dos 9.828 sinais de Libras;

3.9) A descrição escrita detalhada do significado de cada um dos 9.828 sinais de Libras;

3.10) De uma a três ilustrações gráficas do significado de cada um dos 9.828 sinais de Libras;

3.11) A análise da composição sublexical dos sinais de Libras no nível morfêmico, de composição morfêmica;

3.12) A análise da etimologia e da iconicidade dos sinais de Libras;

4) O Subdicionário Inglês-Português, que arrola alfabeticamente os 56 mil verbetes do Inglês e os seus respectivos 14 mil verbetes do Português, e permite a qualquer leitor de Inglês localizar qualquer sinal de Libras ainda que não leia Português;

5) O Índice Semântico, que lista 34 categorias semânticas, divididas em suas principais subcategorias, a que pertencem todos os sinais do dicionário; e o Conteúdo Semântico, que agrupa todos os sinais em suas respectivas categorias temáticas, na ordem exata em que elas se encontram listadas no índice;

6) A Bibliografia, que, segundo as normas da American Psychological Association, arrola alfanumericamente, cerca de 2.000 referências, incluindo não apenas aquelas citadas nos diversos capítulos, como, também, algumas das referências pertinentes na literatura científica que foram empregadas para elaborar a presente obra, e que permitem ao leitor aprofundar-se nos diversos temas nela abordados;

7) O Apêndice, que traz a Lei nº 10.436 que dispõe sobre a Língua de Sinais Brasileira - Libras e dá outras providências; e o Decreto nº 5.626 que regulamenta a lei nº 10.436.

A seção seguinte fornece uma breve visão da estrutura do Novo Deit-Libras.

1) Visão sinóptica da estrutura do Novo Deit-Libras

O Novo Deit-Libras é composto de cinco partes.

1.1) Introdução

Introdução intitula-se Novo Deit-Libras: Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Libras) baseado em Linguística e Neurociências Cognitivas – por um novo paradigma na dicionarização das línguas de sinais. Ela explica como o presente dicionário promove, incorpora e ilustra uma mudança de paradigma na lexicografia das línguas de sinais de todo o mundo.

1.2) Os capítulos introdutórios

Há três capítulos introdutórios. O primeiro capítulo se intitula Como usar o Novo Deit-Libras: Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da Língua de Sinais Brasileira. Ele explica a estrutura do dicionário e mostra como usá-lo para encontrar todas as informações desejadas. O segundo capítulo se intitula Alfabeto manual de Libras, números em Libras e formas de mão usadas em Libras. Ele ilustra o sistema alfanumérico manual de Libras usado na soletração digital de letras e números em Libras, bem como as formas de mão adicionais usadas no Novo Deit-Libras. O terceiro capítulo se intitula Como ler e escrever os sinais de Libras: A escrita visual direta de sinais SignWriting. Ele explica detalhadamente o sistema de escrita visual direta de sinais SignWriting, demonstrando didaticamente como ler e escrever sinais de Libras em SignWriting por meio de um vasto número de ilustrações. O sistema internacional de escrita visual direta de sinais SignWriting consiste numa espécie de Alfabeto Fonético Internacional (ou, mais apropriadamente, Sistema Quirêmico Internacional) que permite escrever a forma de qualquer sinal de qualquer língua de sinais do mundo. Assim como a escrita alfabética transcreve os fonemas que compõem a fala (i.e., as unidades básicas das línguas faladas), a escrita visual direta em SignWriting transcreve os quiremas que compõem a sinalização (i.e., as unidades básicas das línguas de sinais). Assim como a escrita alfabética beneficia o ouvinte porque ela transcreve os sons da fala que ele usa para pensar e comunicar-se oralmente, a escrita visual direta de sinais beneficia o surdo porque ela transcreve as articulações de mãos, posições de mãos, e movimentos de mãos, além de expressões faciais, na sinalização que ele usa para pensar e se comunicar em sinais. A escrita visual direta de sinais beneficia o surdo porque é muito mais fácil escrever na língua com que se pensa. Por isso, SignWriting registra os sinais do ponto de vista expressivo, isto é, do sinalizador. Quando o surdo escreve o que pensa na língua em que se dá o pensar, tal pensar torna-se mais claro, preciso e formalizado. Os maiores benefícios da escrita visual direta de sinais, tanto para a herança cultural da língua de sinais quanto para o desenvolvimento cognitivo e linguístico do surdo, advêm quando as crianças surdas aprendem a ler e escrever em sinais na mesma época em que as crianças ouvintes aprendem a ler e escrever alfabeticamente. Um dos objetivos do Novo Deit-Libras é auxiliar os professores a tornar isto possível para as crianças surdas, já que o Novo Deit-Libras apresenta o léxico de sinais de Libras todo escrito e transcrito no alfabeto quirêmico internacional SignWriting, e traz esse capítulo que ensina como ler e escrever todos os 9.828 sinais documentados de Libras em SignWriting. Mais detalhes sobre esse sistema de escrita podem ser encontrados em Capovilla e Sutton (2006), e em Capovilla, Viggiano, Raphael, Neves, Mauricio, Vieira, e Sutton (2006).


1.2) O corpo principal

O corpo principal do Novo Deit-Libras contém 9.828 sinais, cada qual documentado numa série de formas em sua própria entrada individual. Cada entrada contém de dez a doze dos seguintes elementos:

1.2.1) A soletração digital do verbete usando caracteres especiais da fonte de soletração digital em Libras. Essa soletração digital auxilia a criança surda a penetrar na composição grafêmica das palavras escritas, quebrando essas palavras escritas em suas letras componentes, e vertendo as letras em formas de mão individuais. O mecanismo de soletração digital converte letras escritas em formas de mão, e é essencial para permitir empreender processamento grafêmico, que é a base dos processos de decodificação que um leitor deve dominar para ler proficientemente. O primeiro e mais rudimentar estágio de leitura consiste no logográfico-ideográfico, que é típico do processamento cerebral hemisférico direito e se limita ao mero reconhecimento visual global grosseiro de palavras escritas como totalidades estanques. A soletração digital possibilita ao surdo ultrapassar esse primeiro estágio logográfico-ideográfico e adentrar o segundo estágio de leitura: o de processamento grafêmico serial perilexical, ou de decodificação, que é típico do processamento cerebral hemisférico esquerdo, e essencial para permitir leitura e escrita proficientes (Capovilla & Capovilla, 2002a, 2004e);

1.2.2) Uma a cinco ilustrações do significado do sinal de Libras e dos verbetes a ele associados em Português e Inglês. Tais ilustrações de significado permitem à criança surda apreender diretamente o sentido do sinal sem depender do Português, e facilitam a memorização do sinal e dos verbetes em Português e Inglês, bem como o seu uso no dia a dia. Assim, as ilustrações de significado permitem à criança surda apreender diretamente o significado não apenas dos sinais de Libras (ainda que ela não saiba ler Português) como, também, dos verbetes escritos em Português e Inglês que correspondem a esse sinal, auxiliando essa criança a melhor compreender e memorizar os verbetes em Português e em Inglês (Capovilla & Ameni, 2008; Capovilla & Capovilla, 2006d; Capovilla, Capovilla, & Macedo, 2007; Capovilla, Capovilla et al., 2005a, 2005b; Capovilla, Capovilla, Viggiano, Raphael, & Luz, 2004);

1.2.3) Uma ilustração precisa da forma do sinal (i.e., de sua composição quirêmica) por meio de setas e em estágios, o que permite uma melhor compreensão da sequência temporal das unidades sublexicais que compõem o sinal;

1.2.4) A escrita visual direta do sinal em SignWriting, cuja leitura sinaliza diretamente à mente do surdo, assim como a decodificação da escrita alfabética fala diretamente à mente do ouvinte, e que permite aos consulentes, tanto surdos quanto ouvintes, concentrar-se nos quiremas enquanto unidades mínimas dos sinais que permitem distinguir entre dois sinais lexicais que compõem pares mínimos (Capovilla, Raphael, Viggiano, Neves, & Luz, 2000);

1.2.5) Os verbetes do Português e do Inglês que correspondem ao sinal, o que permite indexar alfabeticamente os sinais e traduzir de Libras para o Português e o Inglês;

1.2.6) O escopo de validade do sinal em termos do(s) estado(s) brasileiro(s) em que ele é, com certeza, empregado correntemente;

1.2.7) A classificação gramatical dos verbetes em Português, o que permite ao surdo compreender o comportamento das palavras do Português e aprender a usá-las adequadamente;

1.2.8) A definição do significado representado pelo sinal e pelos verbetes do Português e do Inglês, o que permite ao surdo aumentar o seu conhecimento do mundo, bem como de Libras, do Português e do Inglês;

1.2.9) Exemplos que ilustram seu uso linguístico apropriado dos verbetes correspondentes ao sinal, que permitem ao surdo usar corretamente as palavras do Português correspondentes aos sinais de Libras; e, aos ouvintes, usar corretamente os sinais de Libras correspondentes às palavras do Português;

1.2.10) A descrição detalhada e sistemática da forma (i.e., composição quirêmica) do sinal, que, juntamente com a ilustração, permite ao leigo reproduzir fielmente cada sinal de Libras;

1.2.11) A descrição da etimologia do sinal a partir da análise de sua estrutura morfêmica, ou seja, dos morfemas metafóricos moleculares (Brennan, 1990a, 1990b; Capovilla, Capovilla et al., 2005; Capovilla, Raphael, & Mauricio, 2009; Capovilla, Viggiano et al., 2005) que o compõem, e uma breve análise do parentesco semântico entre esse sinal e vários outros sinais que compartilham alguns dos mesmos morfemas moleculares;

1.2.12) A descrição da iconicidade do sinal, ou seja, de como ele materializa o significado defronte os olhos do observador e permite ao observador apreender esse significado de um modo fenomenologicamente imediato (Capovilla, Sazonov et al., 1997).

1.3) O Novo subdicionário Inglês-Português, ou New English-Portuguese thesaurus

O Novo subdicionário Inglês-Português lista alfabeticamente os 56 mil verbetes do Inglês em 14.000 entradas individuais, sendo que cada entrada contém de um a vários verbetes em Inglês. O Novo subdicionário Inglês-Português é definido em Inglês como New English-Portuguese thesaurus. Como o Inglês é uma língua franca lida em todo o mundo, quando um consulente estrangeiro que não sabe ler Português, desejar encontrar o sinal de Libras que corresponde a um dado significado, basta que ele consulte a palavra correspondente a esse significado em Inglês no New English-Portuguese thesaurus. Ao encontrar o verbete em Inglês no New English-Portuguese thesaurus, esse consulente saberá qual é o verbete que, em Português, corresponde ao significado cujo sinal em Libras ele deseja encontrar no Novo Deit-Libras. A partir desse verbete em Português e da ordem alfabética, esse consulente estrangeiro pode consultar o Novo Deit-Libras para encontrar o sinal em Libras que deseja. Deste modo, o New English-Portuguese thesaurus, ou Novo subdicionário Inglês-Português, permite ao consulente estrangeiro que lê Inglês localizar todo e qualquer sinal de Libras documentado no Novo Deit-Libras, ainda que ele não conheça sequer uma palavra em Português e sequer um sinal de Libras.

1.4) O Índice Semântico e o Conteúdo Semântico

O Índice Semântico lista as principais categorias e subcategorias temáticas a que pertencem todos os sinais do dicionário. O Conteúdo Semântico agrupa todos os sinais em suas respectivas categorias temáticas, na ordem exata em que elas se encontram listadas no índice. Isso permite encontrar os sinais semanticamente aparentados, facilitando sua aprendizagem, compreensão e uso funcional no cotidiano. Assim, o Índice Semântico e o Conteúdo Semântico consistem em importantes ferramentas para a aprendizagem dos sinais, e podem ser usados para preparar aulas temáticas para enriquecimento do vocabulário instrumental de Libras. Os 9.828 sinais do Novo Deit-Libras distribuem-se em 34 campos semântico-gramaticais. Ordenados por número decrescente de sinais, esses campos são os seguintes: 

1.4.1) Pessoas (1.791 sinais, como os de etnia e relações interpessoais);

1.4.2) Gramática (1.746 sinais, como os de adjetivos e advérbios, conjunções e expressões, preposições e locuções prepositivas, pronomes demonstrativos e indefinidos e interrogativos e pessoais e possessivos);

1.4.3) Trabalho (1.570 sinais, como os de profissões e profissionais, locais de trabalho, procedimentos e dificuldades profissionais, equipamentos e materiais de trabalho);

1.4.4) Verbos (1.406 sinais arranjados alfabeticamente);

1.4.5) Educação (1.275 sinais, como os de etapas e locais de ensino, matérias e materiais escolares, disciplinas e cursos);

1.4.6) Casa e procedimentos domésticos (922 sinais, como os de móveis e utensílios e decoração e materiais de construção e limpeza);

1.4.7) Família e relações familiares (684 sinais, como os de composição familiar e parentesco, e de laços afetivos e conflitos familiares);

1.4.8) Medicina, saúde e sexualidade (665 sinais, como os de deficiências e doenças e medicamentos e exames e métodos contraceptivos e de intervenção médica e hospitalar);

1.4.9) Corpo humano (617 sinais, como os de fases do desenvolvimento e movimentos e estados e funções fisiológicas);

1.4.10) Preocupações sociais, violência e drogas (556 sinais, como os de segurança e violência, armas e legislação e drogas);

1.4.11) Meios de comunicação (496 sinais);

1.4.12) Localidades geográficas (472 sinais, como os de continentes e ilhas, países, estados, cidades, regiões, bairros, nacionalidades, naturalidades);

1.4.13) Alimentação (469 sinais como os de frutas e verduras e matinais e legumes e tubérculos e bebidas e doces e condimentos);

1.4.14) Lazer (429 sinais, como os de locais e equipamentos e atividades de lazer, jogos e brinquedos e brincadeiras);

1.4.15) Esportes (420 sinais, como os de profissionais do esporte e esportistas, modalidades e atividades esportivas, instrumentos esportivos, e times de futebol);

1.4.16) Lugares (414 sinais, como os de tipos de moradia e empresas e estabelecimentos comerciais, e instituições educacionais e governamentais e religiosas e financeiras e comerciais e de apoio social);

1.4.17) Animais (405 sinais, como os de animais aéreos, aquáticos, terrestres, insetos e aracnídeos);

1.4.18) Natureza (391 sinais, como os de características e produtos da natureza);

1.4.19) Artes e cultura (385 sinais, como os de atividades artísticas e culturais, personagens e profissões, instrumentos musicais);

1.4.20) Meios de transporte (385 sinais, como os de tipos de transportes, aeroportos e terminais rodoviários, estações e linhas de metrô e de trem, equipamentos e documentos obrigatórios, medidas de segurança, tráfego de pedestres e veículos, marca de veículos);

1.4.21) Religião (362 sinais, como de atividades e sentimentos religiosos, entidades religiosas, igrejas e aparatos religiosos, tipos de religião e denominações religiosas);

1.4.22) Economia e finanças (312 sinais, como os de banco e operações bancárias, orçamento e situação econômica);

1.4.23) Eventos (289 sinais, como eventos comemorativos ou trágicos, ou sociais ou naturais);

1.4.24) Orientação temporal (287 sinais, como os de dias da semana e meses do ano e estações do ano, e de referenciais temporais, ações e distribuição temporal de eventos);

1.4.25) Leis (249 sinais, como os de procedimentos legais, infrações e crimes e suas consequências);

1.4.26) Política (233 sinais, como os de sistemas e cargos políticos, jogo político e processo eleitoral);

1.4.27) Objetos pessoais (216 sinais);

1.4.28) Orientação espacial (182 sinais, como os de equipamentos e aparelhos de orientação espacial);

1.4.29) Quantidades e medidas e qualidades (170 sinais);

1.4.30) Documentos (138 sinais);

1.4.31) Vestuário e acessórios (134 sinais);

1.4.32) Números e numerais (107 sinais, como os de operações matemáticas);

1.4.33) Cores (58 sinais, como os de tipos e propriedades de cores);

1.4.34) Informática (54 sinais, como os de equipamentos e suas partes e processos e procedimentos).

2) Descrição sistemática do Corpo Principal do Novo Deit-Libras

Esta seção concentra-se no Corpo Principal do Novo Deit-Libras que contém 9.828 de sinais de Libras, cada qual em sua própria entrada, e com um a cinco verbetes correspondentes em Português, tendo, cada um desses, de um a doze verbetes correspondentes em Inglês, num total aproximado de 14 mil verbetes em Português, e 56 mil verbetes em Inglês. Em cada entrada individual, um determinado sinal de Libras é documentado numa série de formas a partir de doze elementos distintos, como ilustrado nas Figuras 1 a 6. A presente seção lista esses doze elementos e fornece uma descrição sumária de cada um deles.

A Figura 1 ilustra três sinais, cada qual com sua entrada.

abocanha r abocanhar (sinal usado em: RJ, RS) (inglês: to catch with the mouth, to snap, to bite, to bite off): v. t. d. Apanhar com a boca ou com os dentes. Abocar. Aboquejar. Ex.: O jacaré abocanhou o indefeso peixe. (Mãos abertas, dedos separados e curvados, mão esquerda palma para cima, mão direita palma para baixo, acima e atrás da esquerda, com a boca aberta. Mover a mão direita em direção à esquerda, tocando-a e fechando a boca.)
Amolar(-se)   amolar (sinal usado em: SP, RJ, SC, RS) (inglês: to bother, to annoy, to importune, to disturb, to molest), amolar-se (inglês: to become disgusted), amolação (inglês: bother, molestation, nuisance): Amolar: v. t. d. Aborrecer. Enfastiar. Cacetear. Chatear. Enfadar. Importunar. Maçar. Ex.: Durante a festa aquele rapaz amolou os garçons. Amolar-se: v. pr. Aborrecer-se. Enfastiar-se. Cacetear-se. Chatear-se. Enfadar-se. Importunar-se. Maçar-se. Ex.: Amolou-se com a insistência do rapaz. Amolação: s. f. Ato ou efeito de amolar, de chatear, de enfadar, de enfastiar. Ex.: Numa conversa, a amolação ocorre quando uma pessoa não dá ao seu interlocutor a chance de falar, mas monopoliza a fala, como se ela fosse a única que tem algo importante a dizer. (Mão esquerda aberta, palma para cima; mão direita horizontal aberta, palma para a esquerda, tocando a palma esquerda. Mover a mão direita para a esquerda e para a direita, sobre a palma esquerda, inclinando a palma para cima e para baixo, duas vezes.)
Animar(-se)   animar (sinal usado em: SP, RJ, MS, RS) (inglês: to stimulate, to cheer up, to encourage, to boost), animar-se (inglês: to take heart, to cheer oneself up, to resolve to do something, to gather oneself together), animação (inglês: liveliness, joy, enthusiasm, animation), animado(a) (inglês: encouraged, animated, lively): Animar: v. t. d. Dar animação, vigor, vivacidade; ativar, incentivar: Ex.: Sua chegada animou a festa. Animar-se: v. pr. Ganhar vida, expressão ou movimento. Ex.: Animou-se com o novo emprego. Animação: s. f. Ato ou efeito de animar ou animar-se. Alegria. Entusiasmo. Ex.: Havia uma grande animação na festa. Animado(a): adj. m. (f.). Bem disposto para a vida. Alegre. Entusiasmado. Ex.: Ficou animado com a notícia da viagem. (Fazer este sinal alegrar, alegrar-se, alegre, alegria: Mãos horizontais abertas, palmas para trás. Movê-las para cima, tocando as pontas dos dedos nos ombros, várias vezes e sorrindo.)

Figura 1. Ilustração da entrada de três sinais: 1) abocanhar; 2) amolar – amolar-se – amolação; 3) animar – animar-se – animação – animado.

2.1) A soletração digital do verbete usando caracteres especiais da fonte de soletração digital em Libras

Conforme ilustrado, cada entrada começa com a soletração digital do verbete em Português que corresponde ao sinal da entrada. Essa soletração digital do verbete é feita usando caracteres especiais da fonte de soletração digital em Libras, e é uma das inovações do Novo Deit-Libras em relação ao Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Capovilla & Raphael, 2006b, 2006c). Por exemplo, como pode ser observado na Figura 1, por meio dos caracteres especiais de soletração digital, o sinal abocanhar, aparece escrito como abocanhar.

Tais caracteres de soletração digital de Libras constituem uma ponte entre a forma lexical do sinal de Libras e forma ortográfica da escrita alfabética da palavra em Português que corresponde a esse sinal. Essa ponte é de grande importância, dada a inexistência de qualquer relação de codificação ou mapeamento entre a forma ortográfica da palavra em Português e a forma lexical do sinal de Libras. A soletração digital das palavras do Português por meio dos caracteres especiais da fonte de soletração digital em Libras permite aos surdos usar as formas de mão de Libras como ferramenta metalinguística para quebrar o código alfabético, ou seja, para analisar (i.e., quebrar) uma palavra escrita em suas menores unidades (i.e., os grafemas).

2.2) A ilustração do significado do sinal e dos verbetes a ele associados em Português e Inglês

Ao lado da soletração digital do verbete aparece a ilustração do significado do sinal, para permitir à criança surda apreender diretamente o sentido ou significado do sinal sem depender da leitura do Português. Isso facilita a memorização do sinal e dos verbetes correspondentes em Português e Inglês, bem como o uso cotidiano do sinal e desses verbetes. A cada entrada são fornecidas de uma a quatro ilustrações de significado. Por exemplo, há duas ilustrações de significado para cada um desses sinais: animar – animar-se – animado – animação (Figura 1), basquete (Figura 2), acautelar-se (Figura 3), e respirar – respiração (Figura 5). Como o Novo Deit-Libras contém cerca de duas vezes mais sinais que as edições anteriores, ele contém cerca de três vezes mais ilustrações de significado que as edições anteriores.

O Novo Deit-Libras contém 9.828 entradas, cada qual com uma a quatro ilustrações de significado, num total estimado de pelo menos 7.000 dessas ilustrações de significado, supondo apenas uma ilustração de significado por entrada e excluindo repetições. Dessas 7.000 ilustrações, pelo menos 3.000 foram herdadas do Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da Língua de Sinais Brasileira – Libras (Capovilla & Raphael, 2006b, 2006c). Essas últimas 3.000 ilustrações de significado ou figuras, bem como as suas correspondentes 3.000 palavras escritas, encontram-se reunidas num complexo banco de dados de figuras e palavras (Capovilla & Roberto, 2008, em preparação), que traz os dados de univocidade de cada uma dessas figuras, bem como o grau de familiaridade com as formas ortográficas das palavras correspondentes a cada uma dessas figuras.

A univocidade de uma figura diz respeito ao grau de concordância em sua nomeação por parte de observadores. Quando os mais variados observadores usam basicamente apenas uma palavra para denominar uma dada figura, diz-se que essa figura é unívoca, ou seja, que ela tem univocidade alta. Quando eles recorrem a um relativamente grande número de palavras diferentes para denominar uma dada figura, diz-se que a univocidade dessa figura é baixa. A univocidade é uma propriedade complexa que envolve, antes de tudo, a iconicidade ou clareza denotativa de uma figura. Se o significado de uma figura não for imediatamente transparente ao observador, raramente essa figura tenderá a evocar em observadores diferentes um mesmo nome de modo consistente. Considerando-se como icônica a figura que representa um dado significado de maneira imediatamente aparente (i.e., que permite apreender ou depreender esse significado de modo seguro e consistente), quanto mais unívoca uma figura, tanto mais apropriada ela é para representar o significado de um sinal. E, conforme explicado, representar o significado de um sinal é precisamente o objetivo maior da ilustração de significado do presente Novo Deit-Libras, de modo a permitir ao consulente, surdo ou não, especialmente o ainda não alfabetizado, compreender diretamente o significado de um sinal por meio da inspeção da ilustração.

Quando a ilustração do significado de um sinal se encontra ao lado da ilustração da forma desse sinal, a inspeção dessa ilustração de significado frequentemente revela similaridade entre a forma do sinal e a forma do objeto, animal, ou comportamento por ele representado. Isso é sempre válido no caso dos morfemas molares, como explicado alhures (Capovilla, Capovilla, Raphael, & Macedo, 2005) e mais adiante neste próprio capítulo, já que os morfemas molares tendem a materializar, perante o observador, as propriedades do referente que eles representam como ocorre, por exemplo, em sinais como abocanhar (Figura 1) e paraquedas – paraquedista – paraquedismo, tênis e basquete (Figura 2). Ao emparelhar a ilustração do significado de um sinal com a ilustração da forma desse sinal, o Novo Deit-Libras revela as origens representacionais icônicas de uma miríade de sinais de Libras, nos casos em que ela existe, permitindo ao leitor perceber espontaneamente o grau em que o sinal mapeia, ponto a ponto, as propriedades formais daquilo que ele representa. Contudo, a semelhança entre a forma do sinal e a forma do significado é apenas um dos aspectos pertinentes a um dado subconjunto de sinais que fazem uso de representação analógica do significado (i.e., os sinais que correspondem a morfemas molares).

Paraquedas   paraquedas (CL) (sinal usado em: SP, RJ) (inglês: parachute), paraquedista (inglês: sky-diver, parachutist), paraquedismo (inglês: sky-diving, parachuting): Paraquedas: s. m. Aparato usado para diminuir a velocidade de objetos e pessoas em queda livre, permitindo um pouso suave. É composto de uma peça de náilon que é inflada pelo vento quando ele se abre e de cujas extremidades partem cordas de náilon presas à carga, conferindo estabilidade ao conjunto. Também conhecido como pára-quedas. Ex.: Leonardo da Vinci idealizou e desenhou o paraquedas, em 1514. Paraquedista: s. m. e f. Pessoa que salta de aviões usando paraquedas. Ex.: O paraquedista realizou uma bela demonstração. Paraquedismo: s. m. Esporte de salto com paraquedas. Ex.: O paraquedismo é um esporte fascinante. (Mão esquerda aberta, palma para baixo, dedos separados e curvados; mão direita em V invertido, palma para trás, abaixo da mão esquerda, mãos ao lado esquerdo da cabeça. Movê-las para baixo e para a direita, acompanhando o movimento com os olhos.) Etimologia. Morfologia: Trata-se de sinal formado por: 1) um morfema metafórico molar que representa meios de transporte, 2) um morfema metafórico molar que representa concretamente características conspícuas do comportamento humano em atividades de jogos, esportes e lazer, emulando a pantomima envolvida, e 3) o morfema Pessoa. O primeiro morfema metafórico molar está presente nos sinais avião, balão – dirigível, barco, helicóptero, jangada, e pousar. O segundo morfema metafórico molar está presente em sinais como dançar – dança, surfar, saltar obstáculos, torcer – vibrar, lutar boxe, jogar boliche, jogar cartas, jogar dados, jogar bilhar, andar na corda bamba e jogar basquete. O morfema Pessoa, em sua primeira articulação é codificado pela mão em 2 com os dedos apontando para baixo, que aparece sempre associada a movimento dos dedos ou da mão, como nos sinais mergulhar – submergir, surfar, bruxa, tobogã, subir, descer, brincar (de amarelinha), andar à toa, aparecer, alegre, acrobata - trapezista, cavalinho de balanço, calçada, deitar, contemplar-se, escalar, idêntico, e cair. Iconicidade: No sinal paraquedas a mão esquerda na altura se encontra aberta e com a palma para baixo, simulando o paraquedas aberto, os dedos se encontram abertos simulando as cordas do paraquedas; logo abaixo, a mão direita fechada, com os dedos indicador e médio distendidos, representa o paraquedista suspenso pelas cordas; sendo que esse conjunto (de mão esquerda representando o paraquedas e mão direita representando o paraquedista) se move numa diagonal para baixo, representando o deslocamento no espaço e o pouso.
tenis   tênis (4) (esporte) (sinal usado em: SP, MS, RJ, BA, RS) (inglês: tennis): s. m. Jogo praticado por dois ou quatro jogadores numa quadra dividida ao meio, transversalmente, por uma rede, e que consiste em rebater uma pequena bola usando uma raquete, com o objetivo de fazê-la passar sobre a rede e atingir a quadra adversária sem ser rebatida de volta. Ex.: O Brasil foi campeão do torneio de tênis de Wimbledon, Londres, em 1959 e 1960, com a tenista Maria Esther Bueno. (Mão em A, palma para frente. Movê-la para baixo e para a esquerda, e para cima e para a direita, acompanhando os movimentos com o corpo.) Etimologia. Morfologia: Trata-se de sinal formado por morfema metafórico molar que representa concretamente características conspícuas do comportamento humano em atividades de jogos, esportes e lazer, emulando a pantomima envolvida, como nos sinais jogar basquete, jogar voleibol, jogar pingue-pongue, jogar bolinha de gude, jogar pebolim, pular corda, jogar peteca, soltar pipa, mergulhar, nadar, submergir – mergulhar, cavalgar, dirigir carro, caminhar – andar a pé, caçar, pescar, e navegar. Iconicidade: No sinal tênis - jogar tênis a mão simula segurar e movimentar uma raquete com movimentos amplos como se estivesse rebatendo a bola.
basquete   basquete, basquetebol (1) (sinal usado em: SP, PR, SC, CE, RJ, RS) (inglês: basketball): s. m. Jogo disputado numa quadra esportiva, entre dois times com cinco jogadores cada um, cujo ponto ou “cesta” é obtido fazendo a bola passar por dentro de um aro metálico que forma a boca de um saco de rede, sem fundo, também chamado cesta. Foi inventado em 1891 por um pastor canadense a fim de permitir a prática de esporte à noite, em recinto fechado. Ex.: Geralmente os jogadores de basquete são muito altos. (Mão aberta, palma para baixo. Movê-la para baixo e para cima, com movimentos rápidos. Então, mãos verticais abertas, mão esquerda palma para trás, mão direita palma para frente, na altura do ombro direito. Movê-las para frente e para cima.) Etimologia. Morfologia: Trata-se de sinal formado por morfema metafórico molar que representa concretamente características conspícuas do comportamento humano em atividades de jogos, esportes e lazer, emulando a pantomima envolvida como nos sinais dançar – dança, surfar, saltar de paraquedas, saltar obstáculos, torcer – vibrar, lutar boxe, jogar boliche, jogar cartas, jogar dados, jogar bilhar, e andar na corda bamba. Iconicidade: No sinal basquete, basquetebol - jogar basquete o sinalizador simula bater a bola no chão e, então, segurá-la ao alto e arremessá-la para dentro do cesto, acima. Ou seja, primeiro a mão aberta, com palma para baixo, balança para baixo e para cima, como se estivesse batendo a bola de basquete no chão da quadra; em seguida, o conjunto das mãos em concha, palma a palma, se projeta de perto para longe da cabeça, num amplo arco para cima e para frente, como se estivesse arremessando a bola para o cesto.
Figura 2. Ilustração da entrada de três sinais: 1) paraquedas – paraquedista – paraquedismo, 2) tênis e 3) basquete.

Como a maioria dos sinais representa significados mais abstratos, sendo composta de morfemas mais moleculares, seu significado não é imediatamente aparente. Nesses casos, paradoxalmente, a clareza denotativa da ilustração pode ser ainda mais importante para a apreensão do significado do sinal. Nesses casos, é importante que as ilustrações de significado do sinal tenham elevada clareza denotativa. O banco de Capovilla e Roberto (2008, em preparação) avalia precisamente o grau de univocidade de 2.310 das ilustrações de significado do presente Novo Deit-Libras, permitindo obter o grau de transparência denotativa de cada uma das ilustrações de significado para alunos desde o Ensino Superior, passando pelo Ensino Fundamental, até a Educação Infantil.

Contudo, a univocidade é uma propriedade complexa que envolve não apenas a iconicidade ou clareza denotativa de uma figura, como, também, a capacidade que essa figura tem de evocar um e apenas um nome para sua nomeação. Quanto mais unívoca uma ilustração de significado, isto é, quanto maior a habilidade de uma figura de evocar uma dada palavra em Português, tanto mais apropriada é essa ilustração de significado para ensinar essa palavra correspondente em Português. Permitir evocar uma dada palavra em Português para nomear um sinal de Libras é um dos mais importantes objetivos da ilustração de significado do presente Novo Deit-Libras, como recurso para o ensino-aprendizagem do Português para a criança surda. O banco de Capovilla e Roberto (2008, no prelo) avalia precisamente o grau de univocidade de 2.310 das ilustrações de significado do Novo Deit-Libras. Isso permite aos surdos não alfabetizados apreender o significado dos sinais (a partir de ilustrações de significado com elevado grau de transparência denotativa) e aprender a ler e escrever mais facilmente as palavras em Português correspondentes às figuras e aos sinais que acabaram de aprender por meio do Novo Deit-Libras.

O banco de Capovilla e Roberto (2008, no prelo) divide-se em cinco sub-bancos. O primeiro sub-banco traz o grau de univocidade de cada uma das 2.310 figuras avaliada por 1.375 universitários. O segundo sub-banco é composto apenas das 1.080 figuras consideradas unívocas por pelo menos 70% dos universitários, e traz o grau de univocidade dessas 1.080 figuras avaliado por 1.926 alunos do segundo ciclo (de 5a. a 8a. séries) do Ensino Fundamental. O terceiro sub-banco é composto apenas das 780 figuras consideradas unívocas por pelo menos 70% dos alunos do segundo ciclo do Ensino Fundamental, e traz o grau de univocidade dessas 780 figuras avaliado por cerca de 2.600 alunos do primeiro ciclo (de 1a. a 4a. séries) do Ensino Fundamental. O quarto sub-banco é composto apenas das 660 figuras consideradas unívocas por pelo menos 70% dos alunos do primeiro ciclo do Ensino Fundamental, e traz o grau de univocidade dessas 660 figuras avaliado por 2.200 alunos da 3ª. série da Educação Infantil. O quinto sub-banco é composto apenas das 405 figuras consideradas unívocas por pelo menos 70% dos alunos da 3ª. série da Educação Infantil, e traz o grau de univocidade dessas 405 figuras avaliado por 3.600 crianças de 2a. e 1a. séries da Educação Infantil, e de 2a. e 1a. séries do Maternal.

Portanto, conhecer o grau de univocidade de cada uma de 2.310 das 7.000 ilustrações de significado do Novo Deit-Libras, desde o Ensino Superior, passando pelo Ensino Fundamental, até a Educação Infantil, é importante não apenas para permitir apreender o significado dos sinais (em especial dos sinais correspondentes a morfemas metafóricos molares) como, também, para permitir aprender a ler e escrever as palavras correspondentes aos nomes dessas ilustrações (e sinais) em Português, já que o Novo Deit-Libras é um poderoso instrumento para aquisição do Português pelo aluno surdo. Neste sentido, é auspicioso o fato de que o banco de Capovilla e Roberto (2008, no prelo) contém não apenas o grau de univocidade de 2.310 das figuras ou ilustrações de significado do Novo Deit-Libras, como, também, o grau de familiaridade com a forma ortográfica das 2.310 palavras escritas correspondentes a essas ilustrações de significado.

O grau de familiaridade das palavras foi obtido por meio do cômputo da frequência de ocorrência dessas palavras em cartilhas, gibis e literatura infantil do Ensino Fundamental, tendo sido colapsadas todas as palavras, independentemente de suas variadas desinências, em torno de um lexema em comum Assim, as frequências de ocorrência de diferentes palavras com diferentes funções gramaticais como verbo (e.g., o verbo beber, com suas diferentes formas e concordâncias verbais como bebi, bebemos, beberão, bebendo, bebido), substantivo (e.g., bebida, bebedouro) e adjetivo (e.g., beberrão, bebum) foram somadas e agrupadas sob o mesmo lexema (no caso, beb-). Então, as frequências de cada uma das palavras-lexema foram somadas e divididas pelo número de palavras-lexema, chegando-se, assim, à frequência média de ocorrência de palavras para cada uma das séries do ensino fundamental. A essa frequência média, foi atribuído o grau ou valor 5. No banco de Capovilla e Roberto (2008, no prelo), a frequência de ocorrência ou grau de familiaridade das palavras é expresso numa escala de 1 a 9 graus, sendo que o grau 5 equivale a frequência média; ao passo que 6 (médio-alta), 7 (alta), 8 (muito alta) e 9 (extremamente alta) correspondem a +1, +2, +3 e +4 EP (erro-padrão) acima da média, respectivamente; e 4 (médio-baixa), 3 (baixa), 2 (muito baixa), 1 (extremamente baixa) correspondem a -1, -2, -3 e -4 EP (erro-padrão) abaixo da média, respectivamente. A validade desse modelo vem sendo corroborada numa série de estudos (e.g., Capovilla & Ameni, 2008; Capovilla, Sousa-Sousa et al., 2008; Capovilla, de Martino et al., 2009; Capovilla, Graton-Santos, & Sousa-Sousa, 2009), que demonstram que a habilidade de leitura orofacial das palavras é função direta da familiaridade com as formas ortográficas dessas palavras, o que corrobora a noção de que a habilidade de leitura orofacial da criança surda se desenvolve à medida que ela vai se alfabetizando.

2.3) A ilustração precisa da forma (i.e., composição quirêmica) do sinal em estágios

Logo à direita da ilustração do significado do sinal aparece uma ilustração da forma do sinal mostrando a sequência temporal de estágios que compõem o sinal, bem como os quiremas que compõem simultaneamente cada um desses estágios. A ilustração da forma do sinal permite apreender melhor a sequência de unidades sublexicais que compõem o sinal. Por exemplo, conforme a Figura 1, a forma do sinal abocanhar encontra-se ilustrada em dois estágios, ao passo que a do sinal amolar – amolar-se – amolação, em três estágios. Essa ilustração da forma dos sinais em estágios, cada qual com setas indicando o tipo, a forma, o sentido, e a amplitude do movimento, permite uma melhor compreensão da sequência de unidades sublexicais que compõem o sinal. A estratégia de ilustrar a forma de sinais numa sequência temporal definida de estágios sucessivos, cada qual composto de quiremas que se realizam simultaneamente, objetiva contemplar as duas concepções teóricas sobre a estrutura do sinal, tanto a visão clássica que enfatiza a simultaneidade dos quiremas (Stokoe, 1960; Stokoe, Casterline, & Croneberg, 1965; Klima & Bellugi, 1979), quanto a visão mais contemporânea que enfatiza o sequenciamento temporal dos quiremas (Liddell, 1984, 1990, 2000; Liddell & Johnson, 1989). Enquanto a concepção clássica propõe que os sinais tendem a diferir em termos de um ou outro quirema, dentre os diversos quiremas que os compõem simultaneamente, a concepção contemporânea atenta ao fato de que dois sinais podem ter precisamente os mesmos quiremas, mas articulados em ordem diferente, ou numa sequência diferente. 

A Figura 3 ilustra dois pares de sinais cuja explicação não requer mais que a concepção clássica. Os sinais telefonista e surdez constituem pares mínimos que diferem apenas em um quirema (a forma de mão que, em telefonista é mão fechada e em surdez é mão em 1), já que compartilham todos os demais quiremas (incluindo locais de articulação: orelha e boca, e forma e plano e direção do movimento: em arco no plano XY da orelha para boca). Do mesmo modo, os sinais desculpar – desculpar-se – desculpa e acautelar-se – prevenir-se também constituem pares mínimos que diferem apenas em um quirema (a expressão facial que é neutra em desculpar e com protrusão de lábios em prevenir-se), já que compartilham todos os demais quiremas (incluindo a articulação da mão em Y, a orientação da palma para trás, e o local de articulação: o queixo).


Desculpar(-se)   desculpar (sinal usado em: SP, RJ, MS, MG, PR, SC, CE, PB, RS) (inglês: to forgive, to excuse, to apologize, to pardon, to acquit, to condone; to beg pardon, to excuse oneself), desculpar-se (inglês: to beg pardon, to excuse oneself), desculpa (inglês: apology, excuse, pardon): Desculpar: v. t. d. Julgar com indulgência, relevar. Perdoar. Ex.: Ela não o desculpou. Ex.: Mais uma vez, desculpou-o de seus achaques. Ex.: Queira desculpar a minha pressa. Desculpar-se: v. pr. Pedir desculpa(s). Ex.: Desculpou-se pelo atraso. Desculpa: s. f. Ação de desculpar ou de se desculpar. Alegação atenuante ou justificativa de culpa. Absolvição. Escusa. Evasiva. Perdão. Ex.: Após a discussão, ele pediu desculpas por ter agido impensadamente. (Mão em Y, palma para trás, tocando o queixo.)
acautelar-se   acautelar-se (2) (prevenir-se) (sinal usado em: SP, CE) (inglês: to prevent, to caution; to take precautions, to be on one’s guard, to take measures beforehand, to provide against): v. pr. Precaver-se. Preparar-se de antemão para evitar. Ex.: A senhora deve acautelar-se contra o câncer de mama consultando o ginecologista. Ex.: O senhor deve acautelar-se contra câncer de próstata consultando o urologista. Ex.: O motociclista deve acautelar-se contra o trauma cranioencefálico usando capacete. (Fazer este sinal prevenir-se: Mão em Y, palma para trás, tocando o queixo, com lábios unidos e protuberantes.)
telefonista   telefonista (1) (sinal usado em: SP) (inglês: telephone operator): s. m. e f. Pessoa que, em companhia ou posto telefônico, tem por ofício atender os usuários e efetuar ligações. Pessoa encarregada do serviço telefônico de uma empresa ou repartição. Ex.: A telefonista transferiu a ligação para a sala do diretor. (Mão fechada vertical, palma para a esquerda, dedos polegar e indicador tocando-se pelas pontas. Tocar os dedos na orelha direita e na boca.)
surdez   surdez (sinal usado em: SP, CE, RS) (inglês: deafness, lack of hearing): s. f. Perda auditiva profunda (isto é, com limiar auditivo igual ou superior a 85-90 dB), ou pelo menos severa a profunda (isto é, com limiar auditivo igual ou superior a 70 dB) em que, mesmo com o uso de aparelhos auditivos de amplificação, a pessoa não consegue compreender a fala que ocorre no nível usual de conversação. Ex.: A surdez deve ser diagnosticada o quanto antes, para possibilitar intervenções adequadas. (Fazer este sinal surdo: Mão em 1, palma para a esquerda. Tocar a ponta do indicador na orelha direita, virar a palma para trás, e tocar a ponta do indicador nos lábios.)
Figura 3. Ilustração da entrada de quatro sinais: 1) desculpar – desculpar-se – desculpa; 2) acautelar-se; 3) telefonista; 4) surdez.

A Figura 4 ilustra o caso mais simples de dois sinais que diferem apenas pela presença de um estágio adicional. O sinal formiga é idêntico ao sinal barata (que corresponde ao sinal antena de inseto) acrescido de um estágio final representando o tamanho diminuto desse inseto. 

barata   barata (1) (sinal usado em: SP, RJ, CE, MS, MG, PR, SC, RS) (inglês: cockroach): s. f. Nome comum a todos os insetos ortópteros onívoros e de hábitos noturnos, de corpo marrom, achatado e ovalado, antenas compridas multiarticuladas e, às vezes, asas. É encontrada em todas as regiões do mundo, constituindo uma praga que infesta ambientes humanos e da natureza. Ex.: Não devemos deixar os alimentos expostos ao ar pois, assim procedendo, estaremos evitando o aparecimento das repulsivas baratas. (Fazer este sinal antena (inseto): Mão em V, palma para frente, tocando o centro da testa, balançar alternadamente os dedos indicador e médio.)

formiga   formiga (2) (CL) (sinal usado em: DF, MG, RJ) (inglês: ant): Idem formiga (1). Ex.: As formigas saíram do formigueiro e andaram pela terra. (Fazer este sinal antena (inseto): Mão em V, palma para frente, tocando o centro da testa, balançar alternadamente os dedos indicador e médio. Em seguida, mão vertical fechada, palma para frente, dedos indicador e polegar quase unidos pelas pontas.)
Figura 4. Ilustração da entrada de dois sinais: 1) barata; 2) formiga.

A Figura 5 ilustra um caso para cuja explicação a concepção contemporânea de “simultaneidade mais sequenciamento temporal” parece mais adequada que a concepção tradicional de apenas simultaneidade. Podem-se considerar como pares quase mínimos os sinais respirar e violento – bruto (que são pares quase mínimos, e não pares mínimos, devido à diferença de expressão facial, que é neutra em respirar e negativa em violento – bruto) bem como os sinais violento – bruto e cheiro ruim, de outro lado (que são pares quase mínimos, e não pares mínimos, devido à diferença de movimento dos dedos que está ausente em violento – bruto e presente em cheiro ruim). De fato, apesar dessas pequenas diferenças entre os sinais de cada par, esses sinais compartilham os mesmos quiremas em cada um dos dois estágios que os compõem, sendo que a principal diferença está na ordem entre os estágios e não nos quiremas que compõem esses estágios. Assim, essencialmente, há um estágio em que a mão se encontra fechada e em contato com o nariz, e um estágio em que a mão se encontra aberta, mais para baixo, e com dedos espalhados e espalmada para baixo. A principal diferença entre os dois sinais parece consistir na ordem em que esses dois estágios ocorrem.

A ilustração em estágios permite contemplar essa visão teórica mais contemporânea, que enfatiza a dimensão temporal, ao mesmo tempo em que contempla a visão tradicional de simultaneidade. Segundo essa visão mais tradicional (que se atém apenas à simultaneidade), os sinais de cada um desses pares não constituiriam pares mínimos propriamente ditos, já que diferem em dois quiremas que ocorrem simultaneamente, e não em apenas um quirema. Esses dois quiremas seriam o sentido do movimento da mão (que é de cima para baixo no sinal violento e de baixo para cima no sinal respirar) e o movimento de abrir-fechar da mão (que é de abertura no sinal violento e de fechamento no sinal respirar). Ou seja, segundo essa visão mais tradicional que enfatiza a simultaneidade, a interpretação seria de que, no sinal violento – bruto, a mão se abre enquanto se move para baixo, ao passo que no sinal respirar - respiração a mão se fecha enquanto se move para cima. Assim ao colocar grande ênfase na simultaneidade dos quiremas enquanto traço definidor das línguas de sinais e distintivo em relação às línguas faladas, a concepção tradicional falha em identificar como pares mínimos sinais que, embora compartilhem os mesmos quiremas, diferem apenas pela ordem temporal com que eles são articulados. Em contraste, como a visão contemporânea concebe a ordem dos estágios como sendo uma característica definidora dos sinais e capaz de distinguir entre pares mínimos, ela pode considerar como pares mínimos (ou pares quase mínimos) os sinais respirar e violento e os sinais violento e cheiro ruim.

2.4) A escrita visual direta do sinal em SignWriting

Logo à direita da ilustração da forma do sinal aparece a escrita visual direta do sinal por meio do sistema de escrita visual direta de sinais SignWriting. A escrita do sinal em SignWriting constitui uma espécie de alfabeto quirêmico internacional que permite escrever todo e qualquer sinal de toda e qualquer língua de sinais. Depois de ter aprendido a ler sinais em SignWriting, a criança surda passa a experimentar o texto como se estivesse assistindo à própria sinalização ao vivo. É o mesmo que ocorre com a criança ouvinte que, depois de ter sido alfabetizada e aprendido a fazer decodificação grafêmica e fonêmica fluente, passa a experimentar o texto como se estivesse ouvindo a si mesma a declamá-lo. A escrita visual direta de sinais passa a sinalizar de modo direto à mente da criança surda como se ela estivesse assistindo à sinalização ao vivo, assim como a escrita alfabética passa a falar diretamente à mente da criança ouvinte como se ela estivesse ouvindo a declamação do texto pelo próprio autor. Quando a criança ouvinte é alfabetizada e aprende a fazer decodificação fluente da escrita alfabética, ao ler os textos ela passa a experimentar o mesmo fluxo da fala interna que o próprio autor do texto experimentou enquanto escrevia. Do mesmo modo, quando a criança surda aprende a ler sinais em SignWriting, ao ler textos escritos em SignWriting ela passa a experimentar o mesmo fluxo da sinalização interna do autor do texto em SignWriting. Do mesmo modo que a escrita alfabética fala ao ouvido do ouvinte, a escrita SignWriting sinaliza à mente do surdo. Como a escrita visual direta de sinais SignWriting mapeia os quiremas que compõem os sinais do mesmo modo que a escrita alfabética mapeia os fonemas que compõem as palavras, quando a criança surda aprende a fazer leitura visual dos elementos quirêmicos da escrita de sinais em SignWriting, ela passa a experienciar o fluxo da sinalização interna com que pensa naturalmente, do mesmo modo como, por meio da decodificação dos elementos grafêmicos da escrita alfabética, a criança ouvinte pode experienciar o fluxo da fala interna com que ele pensa naturalmente.

respirar   respirar (sinal usado em: RJ, MS, RS) (inglês: to breathe, to inhale and exhale), respiração (inglês: breathing, respiration): Respirar: v. int. Inalar e expelir o ar dos pulmões. Ex.: Foi à varanda para respirar. v. t. d. Inalar (ar) inflando os pulmões. Ex.: Respire este ar puro da montanha! Respiração: s. f. Ato ou efeito de respirar, com inspiração e expiração pelos pulmões. Ex.: A asma torna difícil a respiração. (Mão aberta, palma para baixo, dedos separados, na altura do peito. Mover a mão em direção ao nariz, fechando-a em S.)
bruto   bruto(a) (sinal usado em: SP, MS, PR, PB, SC, RJ, RS) (inglês: rude, rough, coarse, brute, ill-mannered, stupid, brutal, brutish): adj. m. (f.). Não refinado. Não polido. Rústico. Rude. Grosseiro. Malcriado. Tosco. Irracional. Bárbaro. Feroz. Violento. Imoderado. Inconsciente. Irrefletido. Estúpido. Insensato. Ex.: Ele sempre foi muito bruto com seus irmãos. (Fazer este sinal violento (bruto): Mão fechada, palma para baixo, ao lado direito do nariz. Movê-la para baixo, abrindo-a, com expressão negativa.)
cheiro   cheiro (2) (estranho, desagradável) (sinal usado em: SP, RS) (inglês: stink, stench, fetidness, rammishness): s. m. Cheiro forte, diferente, estranho, incomum, incômodo. Mau cheiro. Fedor. Ex.: Depois de ter ficado perdido na floresta por duas semanas, ele exalava um cheiro estranho, o que fez com que se sentisse muito envergonhado. (Fazer este sinal cheiro, com expressão facial negativa: Mão aberta, palma para baixo, dedos para frente, à frente do corpo. Mover a mão para trás, oscilando os dedos, fechá-la em S e tocar o dorso da mão na ponta do nariz.)
Figura 5. Ilustração da entrada de três sinais: 1) respirar – respiração; 2) bruto; 3) cheiro.

2.5) Os verbetes do Português e do Inglês que correspondem ao sinal de Libras

Logo depois da soletração digital do verbete principal, aparecem em negrito os diversos verbetes em Português que se aplicam ao sinal, e que permitem indexar alfabeticamente esse sinal. Depois de cada verbete em Português, aparecem os diversos verbetes em Inglês correspondentes a cada um deles. Esse arranjo permite traduzir de Libras para o Português e de Libras para o Inglês. O subdicionário Inglês-Português , que se encontra ao final do corpo principal do Novo Deit-Libras permite fazer o caminho oposto, ou seja, traduzir não só do Inglês para o Português como, também, de Inglês para Libras. O corpo principal do Novo Deit-Libras contém 9.828 sinais, cada qual numa entrada, sendo que a cada entrada corresponde(m) um a cinco verbetes em Português, cada qual com um a doze verbetes correspondentes em Inglês, num total aproximado de 14 mil verbetes em Português, e 56 mil verbetes em Inglês. A Figura 1 ilustra três entradas, cada qual com um sinal. A primeira entrada traz o sinal abocanhar; a segunda, o sinal amolar – amolar-se – amolação; e a terceira entrada, o sinal animar – animar-se – animação – animado. Considerando a relação entre sinal e verbetes correspondentes em Português, na primeira entrada o sinal tem um verbete correspondente em Português; na segunda entrada, três verbetes; e na terceira entrada, quatro verbetes. Na primeira entrada o verbete em Português (i.e., abocanhar) tem quatro verbetes correspondentes em Inglês (i.e., to catch with the mouth, to snap, to bite, to bite off); na segunda entrada, os três verbetes em Português (i.e., amolar, amolar-se, amolação) têm um total de nove verbetes correspondentes em Inglês (i.e., to bother, to annoy, to importune, to disturb, to molest; to become disgusted; bother, molestation, nuisance); e na terceira entrada, os quatro verbetes em Português (i.e., animar, animar-se, animação, animado) têm um total de quinze verbetes correspondentes em Inglês (i.e., to stimulate, to cheer up, to encourage, to boost; to take heart, to cheer oneself up, to resolve to do something, to gather oneself together; liveliness, joy, enthusiasm, animation, encouraged, animated, lively). Assim, considerando a relação entre sinal e verbetes correspondentes em Inglês, ao sinal da primeira entrada correspondem quatro verbetes em Inglês; ao sinal da segunda entrada correspondem nove verbetes em Inglês; e ao sinal da terceira entrada correspondem quinze verbetes em Inglês. Em comparação com a edição anterior, o Novo Deit-Libras contém o dobro de sinais, e várias vezes mais verbetes em Português e Inglês.

indexação alfabética dos verbetes em Português correspondentes aos sinais de Libras no corpo principal de sinais permite encontrar qualquer sinal de Libras a partir do conhecimento de seu verbete correspondente em Português. A indexação alfabética dos verbetes em Inglês correspondentes aos sinais de Libras no subdicionário Inglês-Português permite encontrar qualquer sinal de Libras a partir do conhecimento de seu verbete correspondente em Inglês. Assim, o subdicionário Inglês-Português permite a qualquer leitor de Inglês localizar qualquer sinal de Libras a partir de seu verbete correspondente em Inglês, o que abre a Libras ao estudo científico internacional. O subdicionário Inglês-Português também permite ao surdo brasileiro aperfeiçoar-se quando se trata de verter em Português e Inglês os seus pensamentos formulados originalmente em Libras, bem como quando se trata de traduzir mensagens do Português e Inglês para a Libras, o que aumenta substancialmente sua compreensão de leitura de textos escritos em Português e em Inglês.

descrição sistemática a seguir explica como aparecem os verbetes no Novo Deit-Libras.

2.5.1) Explanação sistemática dos verbetes

2.5.1.1) Distinção de gênero (i.e., modo como aparecem os verbetes no feminino)

Os verbetes aparecem sempre no gênero masculino, seguido do feminino.

Quando, em Português, a distinção entre os gêneros masculino e feminino envolve apenas a última letra, o verbete aparece no masculino seguido de (a). Por exemplo:

  •  bonito(a) significa bonito e bonita.

Quando, em Português, a distinção entre os gêneros masculino e feminino não consiste apenas na troca da última letra, o verbete aparece no masculino seguido do feminino entre parênteses. Por exemplo:

  •  alemão (alemã) significa alemão e alemã.

2.5.1.2) Números entre parênteses após os verbetes

Quando houver mais de um sinal para o mesmo verbete, os sinais são numerados como (1), (2), (3), etc. Tal numeração para sinais que correspondem a um mesmo verbete diferencia entre os sinais:

Que têm o mesmo significado, mas diferentes procedências em termos de seus estados de origem. Por exemplo:

·         alho (1) (sinal usado em: SP, PR, SC, RS) e alho (2) (sinal usado em: MG);

Neste caso, aparece, entre parênteses, a(s) sigla do(s) estado(s) de origem do sinal, como no exemplo, as siglas de SP, PR SC, RS para alho (1) e MG para alho (2);

Que têm significados diferentes. Por exemplo:

·         achar (1) (encontrar pessoas ou objetos),

·         achar (2) (encontrar pessoas ou objetos)

·         achar (3) (localizar objetos),

·         achar (4) (obter, conseguir).

 
2.5.1.3) Explicação ou complemento, entre parênteses, após os verbetes

Alguns verbetes são seguidos de uma explicação ou de um complemento que aparece entre parênteses, em negrito e itálico. Seus propósitos são:

Especificar o significado preciso do verbete para evitar ambiguidades. Por exemplo:

·         acabar (deixar pronto);

Estabelecer distinção entre verbetes iguais com significados diferentes. Por exemplo:

·         ansiedade (1) (agitação) e ansiedade (3) (angústia);

Especificar a natureza informal de um sinal que é usado como gíria. Sempre que um sinal tenha sido criado por um determinado grupo social e estendido a outros devido à sua expressividade, a palavra gíria aparece ao seu lado, entre parênteses, em negrito e itálico. Por exemplo:

·         a fim de (gíria);

Especificar a procedência de um sinal. Quando o sinal que designa o nome de um país tem origem na Língua de Sinais daquele país, aparece a nota sinal oficial do país, entre parênteses, em negrito e itálico. Por exemplo:

·         Argentina (2) (sinal oficial do país).

 2.5.1.4) Verbetes que são nomes de organizações

Algumas organizações e empresas podem ser conhecidas mais por sua sigla ou por seu nome completo. Ambas as formas são usadas no dicionário para facilitar a sua localização e a compreensão clara do significado da sigla. Assim, quando a indexação alfabética é feita pela sigla, esta é seguida do nome completo da organização ou empresa, entre parênteses, em negrito e sem itálico. Reciprocamente, quando a indexação alfabética é feita pelo nome da organização ou empresa, esta é seguida da sigla, entre parênteses, em negrito e sem itálico. Por exemplo:

·          APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) e

·          Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE).


2.5.1.5) Siglas de estados, entre parênteses, após os verbetes

Todos os verbetes são seguidos da(s) sigla(s) do(s) estado(s) correspondente(s), entre parênteses, em itálico e negrito. Os estados citados são: São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Mato Grosso do Sul (MS), Paraná (PR), Santa Catarina (SC), Minas Gerais (MG), Bahia (BA), Ceará (CE), Pará (PA), Rio Grande do Sul (RS), Distrito Federal (DF), Paraíba (PB), e Curso Letras-Libras (Letras-Libras). Por exemplo:

·          caminhão (2) (sinal usado em: RJ, MG, BA, DF, PR, CE, SC, RS).

2.5.1.6) Classificadores

O conceito de classificador diz respeito aos diferentes modos como um sinal é produzido, dependendo das propriedades físicas específicas do referente que ele representa. Os classificadores geralmente representam algumas características físicas do referente como seu tamanho e forma, ou seu comportamento ou movimento, o que confere grande flexibilidade denotativa e conotativa aos sinais. O sinal cair, por exemplo, é classificador, pois sua forma varia de acordo com o objeto referido, ou seja, que sofre a queda (e.g., papel, copo, pessoa). Quando um sinal funciona como classificador, sendo que sua forma específica varia dependendo das circunstâncias particulares de seu uso, a sigla CL aparece após o verbete, entre parênteses, em negrito e itálico. Por exemplo:

·          cair (pessoa) (CL) e cair (caneta) (CL).

2.5.1.7) Inglês

Os verbetes em Inglês encontram-se em itálico, entre parênteses e precedidos da palavra inglês:, também em itálico. Por exemplo:

·          baú (CL) (inglês: trunk, chest)

2.5.1.8) Verbetes que se referem a marcas registradas

Quando os verbetes correspondem a nomes de marcas registradas, eles são seguidos por â sempre que se encontram em Português, e por Ô, que significa trademark, quando se encontram em Inglês. Por exemplo:

·          Banco Itaú â (inglês: Itau Bank ä).

2.5.1.9) Verbetes com mesmo significado que aparecem mais de uma vez (quando há mais de um sinal de Libras para o mesmo verbete em Português)

Quando há mais de um sinal de Libras para o mesmo verbete do Português, as ocorrências desse verbete são numeradas sequencialmente. Nestes casos, em vez ter repetidas a classificação e a definição, aparece o termo Idem, em itálico, seguido do nome e do número do verbete, em negrito e em itálico. Por exemplo:

·          vovô(ó) (1) (inglês: grandfather, grandpa (grandmother, grandma, granny)): s. m. (f.) Pai (ou mãe) do pai (ou da mãe). O mesmo que avô(ó). Ex.: Meu vovô é italiano e minha vovó é portuguesa.

·          vovô(ó) (2) (inglês: grandfather, grandpa (grandmother, grandma, granny)): Idem vovô(ó) (1). Ex.: Meu vovô e minha vovó comemoraram bodas de ouro no ano passado.

2.6) O escopo de validade do sinal

Logo após o verbete, aparece, entre parênteses, o escopo de validade do sinal em termos do(s) estado(s) brasileiro(s) em que ele é empregado correntemente. Esse escopo inclui sinais dos seguintes estados: SP, RJ, MG, MS, DF, BA, CE, PA, SC, PR, PB, RS, além do Curso Letras-Libras. Embora, um dado sinal possa ser empregado em diversos outros estados além dos estados que se encontram listados na entrada, esses estados listados são aqueles em relação aos quais foi encontrada documentação lexicográfica segura acerca do uso corrente do sinal naqueles estados. Por exemplo, conforme a Figura 2, o sinal desculpar – desculpar-se – desculpa ilustrado na entrada é de uso corrente em estados como SP, RJ, MS, MG, PR, SC, CE, PB, RS, ao passo que o sinal animar – animar-se é de uso corrente em estados como SP, RJ, MS, RS. Como exemplo adicional, conforme a Figura 3, o sinal formiga ilustrado naquela entrada é de uso corrente em estados como DF, MG e RJ. A definição do escopo de validade do sinal em termos do(s) estado(s) brasileiro(s) em que é empregado correntemente valoriza a cultura surda e a diversidade regional de Libras, que fazem de Libras um idioma naturalmente rico e complexo. A documentação das variedades regionais no léxico de Libras também permite escolher os itens lexicais mais apropriados para comunicação em Libras em diferentes regiões do país.

A validade do corpus de 9.828 sinais do Novo Deit-Libras foi avaliada em termos dos estados em que seu uso é bem documentado. Alguns desses sinais são mais regionais (i.e., com uso mais típico de uma dada região ou estado), ao passo que outros são mais nacionais (i.e., com uso mais difundido por várias regiões do Brasil). Essa validade regional dos sinais é fornecida em cada entrada, logo após o verbete em negrito, pela indicação entre parênteses: “(sinal usado em: )”, como em: “(sinal usado em: SP, RJ, SC, MS, CE, PR, MG, DF, BA, PB, RS, PA, Letras-Libras)”. Após análise de dezenas de publicações regionais de Libras que trazem sinais representativos empregados em seus estados de origem (bem como de publicações do Curso de Letras-Libras), foi constatado que cada um dos 9.828 sinais que compõem o Novo Deit-Libras tem validade documentada em pelo menos uma das 27 unidades da federação (i.e., em pelo menos um dos 26 estados, além do Distrito Federal, e também do Curso de Letras-Libras), cobrindo todas as regiões brasileiras. Os 9.828 sinais têm abrangência estadual documentada em publicações representativas dos sinais empregados em doze estados das cinco regiões brasileiras, tendo sido pesquisadas fontes publicadas das regiões Sudeste (SP, RJ, MG), Sul (RS, SC, PR), Centro-Oeste (DF, MS), Nordeste (CE, BA PB), e Norte (PA), além dos sinais documentados no Curso Letras-Libras. Esse levantamento de validade geográfica dos 9.828 sinais ou entradas de sinais do corpus do Novo-Deit Libras gerou um total de 23.850 referências de validade dos sinais nos estados da federação, considerando apenas os 12 estados com publicações avaliadas (SP, RJ, SC, MS, CE, PR, MG, DF, BA, PB, RS, PA).

A Tabela 1 sumaria esse levantamento. Conforme a tabela, houve pelo menos 5.426 sinais válidos para SP (22,8% das referências); 5.121 válidos para RJ (21,5% das referências); e 774 sinais válidos para MG (3,2% das referências), num total de 11.321 referências de validade de sinais para a região Sudeste (47,5% das referências). Assim pode-se dizer que o corpus de 9.828 sinais do Novo Deit-Libras foi mais representativo da região Sudeste (com 11.321 sinais válidos para a região, do total de 23.850 referências de validade nos estados, ou seja, 47,5% do total dessas referências). Isso se deve provavelmente ao maior número de publicações produzidas sobre os sinais de Libras empregados na região Sudeste, em relação às demais regiões. Ainda conforme a tabela, houve pelo menos 5.717 sinais válidos para RS (24,0% das referências); 1.693 sinais válidos para SC (7,1% das referências); e 1.277 válidos para PR (5,4% das referências), num total de 8.687 referências de sinais válidos para a região Sul (36,4% das referências). Assim, o corpus de 9.828 sinais do Novo Deit-Libras representou a região Sul com pelo menos 8.687 referências de validade nos estados, ou seja, 36,4% do total dessas referências. Ainda conforme a tabela, houve pelo menos 1.609 sinais válidos para MS (6,8% das referências) e 440 válidos para o DF (1,8% das referências), num total de 2.049 referências de sinais válidos para a região Centro-Oeste (8,6% das referências). Assim, o corpus de 9.828 sinais do Novo Deit-Libras representou a região Centro-Oeste com pelo menos 2.049 referências de validade nos estados, ou seja, 8,6% do total dessas referências. Ainda conforme a tabela, houve pelo menos 1.297 sinais válidos para CE (5,4% das referências), 288 sinais válidos para BA (1,2% das referências), e 173 sinais válidos para PB (0,7% das referências), num total de 1.758 referências de sinais válidos para a região Nordeste (7,4% das referências). Assim, o corpus de 9.828 sinais do Novo Deit-Libras representou a região Nordeste com pelo menos 1.758 referências de validade nos estados, ou seja, 7,4% do total dessas referências. Ainda conforme a tabela, houve pelo menos 35 sinais válidos para PA, num total de 35 referências de sinais válidos para a região Norte (0,1% das referências). Assim, o corpus de 9.828 sinais do Novo Deit-Libras representou a região Norte com pelo menos 35 referências de validade nos estados, ou seja, 0,1% do total dessas referências. Além das 23.850 referências de validade dos sinais nos estados, houve pelo menos 43 sinais válidos para o Curso Letras-Libras, que são de uso geral no Brasil. Portanto, ao todo houve 23.893 referências de validade dos sinais.

Embora a validade de ocorrência regional ou abrangência dos 9.828 sinais seja certamente muito maior que a indicada, preferiu-se uma abordagem conservadora, sendo que um dado sinal só foi considerado válido para um determinado estado depois que sua ocorrência foi efetivamente documentada em publicações sobre Libras daquele estado. À medida que o número e o escopo das publicações regionais de Libras forem aumentando, serão constatadas evidências cada vez maiores e mais sólidas da validade geográfica e abrangência desses sinais.

Tabela 1. Validade dos 9.828 sinais divididos por letras dos verbetes correspondentes e por 12 estados das regiões Sudeste, Sul, Centro-Oeste, Nordeste e Norte, num total de 23.850 referências de validade dos sinais nos estados.
Sudeste Sul Centro-Oeste Nordeste Norte
letra SP RJ MG RS SC PR MS DF CE BA PB PA
A 558 565 83 539 162 123 158 38 169 27 20 4
B 306 260 48 264 88 70 76 32 66 21 11 2
C 690 629 101 738 301 165 253 64 176 51 21

6

D 335 369 48 416 119 67 75 15 66 11 7 0

E

415 391 42 418 119 87 109 18 62

8

11

1

F 274 295 42 322 117 89 84 14

60

15 10 1

G

118 122 25 132 57 38 47 16 26

7

4 2
H 117 52 7 55 23 15 13

3

8 5

0

0
I 158 167 14 209 55 31 45 6 35 2 2

2

J

79

68

10

72 26 22 26 9 14 8 1 2
K 4 0 1 1 1 1 1 1 0 0 0 0
L 186 191 22 209 61 40 53 9 31 8 5 0
M 382 283 54 315 91 73 101 31 86 25 13 3
N 135 100 22 159 41 50 52 36 74 9 11 0
O 106 111 18 132 46 26 29 15 31 6 6 0
P 493 494 80 563 135 139 171 38 127 20 17 4
Q 61 62 10 78 27 22 18 12 18 3 2 0
R 210 216 25 278 12 40 67 15 51 15 10 0
S 310 253 41 301 109 84 97 27 84 21 10 1
T 246 231 39 268 89 44 66 19 54 14 8 4
U 68 44 8 40 9 6 9 2 9 2 0 1
V 150 189 30 180 56 39 46 18 41 9 3 2
W 1 2 0 0 1 0 3 0 3 0 0 0
X 10 12 3 11 5 2 4 1 1 1 1 0
Y 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0
Z 14 15 1 17 4 4 6 1 5 0 0 0
total 5426 5121 774 5717 1693 1277 1609 440 1297 288 173 35
% 22,750 21,472 3,245 23,971 7,098 5,354 6,746 1,845 5,438 1,208 0,725 0,147
total 47,467 36,423 8,591 7,371 0,147

2.7) A classificação gramatical dos verbetes em Português

Logo após o verbete em Inglês aparece a classificação gramatical do verbete em Português. Isso permite ao surdo compreender o comportamento das palavras do Português e aprender a usá-las adequadamente. Por exemplo, conforme a Figura 1, ao sinal desculpar – desculpar-se – desculpa correspondem três verbetes: desculpar, que é verbo transitivo direto (v. t. d.), desculpar-se que é verbo pronominal (v. pr.), e desculpa que é substantivo feminino (s. f.). Assim cada um dos verbetes em Português correspondentes a um dado sinal tem seus próprios verbetes correspondentes em Inglês e sua própria classificação gramatical. Em se tratando de substantivos e adjetivos masculinos que admitem variação de gênero feminino, a forma feminina do verbete aparece entre parênteses logo depois da forma masculina, tanto no verbete quanto na classificação gramatical. Isso é ilustrado na entrada do sinal bruto, na Figura 5, cujo verbete correspondente aparece como bruto(a) e cuja classificação gramatical aparece como: adj. m. (f.), ou seja, adjetivo masculino (feminino). Essa estratégia de acrescer “(a)” logo após a forma masculina do verbete é usada sempre que a forma feminina diferir da forma masculina apenas pela substituição do “o” final pelo “a” final, como é o caso de bruto e bruta. Quando a forma feminina diferir não apenas pela substituição de “o”  por “a”, mas pelo acréscimo de “a” (e.g., cantor, cantora), ou mesmo por formas mais variadas (e.g., imperador, imperatriz), as duas formas aparecem, sendo a feminina sempre entre parênteses depois da masculina. Em todos esses casos a classificação gramatical aparece sempre como s. m. (f.). Quando se trata de verbete comum aos dois gêneros (e.g., telefonista), sua classificação gramatical aparece como s. m. e f.

classificação gramatical dos verbetes em Português aperfeiçoa a compreensão do comportamento das palavras do Português e dos sinais de Libras, contribuindo para aperfeiçoar a compreensão e a produção de sentenças em Português.

A seção a seguir ilustra em mais detalhes como é feita a classificação gramatical no Novo Deit-Libras.

2.7.1) Explanação sistemática da classificação gramatical

Os verbetes encontram-se classificados gramaticalmente, segundo as normas da gramática do Português e sempre levando em consideração o significado específico do sinal. Tal classificação encontra-se em itálico na linha abaixo do verbete, precedendo a definição. Por exemplo:

·          bandeja (CL) (inglês: tray): s. f. Tabuleiro de várias formas, feitios e materiais para servir chá, café, etc., e para vários outros fins. Ex.: Ela trouxe as xícaras e o café em uma linda bandeja.

Foram usadas as seguintes abreviações:


adj.:   adjetivo;
adj. m.:     adjetivo masculino;
adj. f.:    adjetivo feminino;
adj. m. e f.:    adjetivo masculino e feminino (quando o verbete é comum aos dois gêneros);
adj. m. (f.):   adjetivo masculino (feminino) (quando o verbete feminino está entre parênteses);
adv.: advérbio;
fem.: feminino;
interj.: interjeição;
loc.: locução;
loc. adv.: locução adverbial;
loc. pron.: locução pronominal;
loc. prep.: locução prepositiva;
masc.: masculino;
num.: numeral;
pl.: plural;
pop.: popular;
prep.: preposição;
pron.: pronome;
pron. poss.: pronome possessivo;
s. m.: substantivo masculino;
s. f.: substantivo feminino;
s. m. e f.: substantivo masculino e feminino (quando o verbete é comum aos dois gêneros);
s. m. (f.): substantivo masculino (feminino) (quando o verbete feminino está entre parênteses);
v. int.: verbo intransitivo;
v. pr.: verbo pronominal;
v. t. d.: verbo transitivo direto;
v. t. d. i.: verbo transitivo direto e indireto;
v. t. i.: verbo transitivo indireto;
v. lig.: verbo de ligação.

Em alguns casos, os verbetes encontram-se classificados como expressão. Isto quer dizer que eles consistem num conjunto de palavras com um sentido completo. Por exemplo:

·          abrir os olhos (gíria) (inglês: to be careful, to open up one’s eyes (slang)): expressão. Procurar descobrir o que ocorre e conhecer as coisas como são, para tirar proveito ou evitar prejuízo. Ex.: Eu não sabia disso. Mas, agora que você me contou, pretendo abrir meus olhos.

Em outros casos, os verbetes encontram-se apresentados como sigla. Isto significa que se trata de uma abreviatura conhecida, usualmente de uma organização ou entidade. Por exemplo:

·          Derdic (Divisão de Educação e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação) (inglês: Division of Education and Rehabilitation on Communication Disorders): sigla, s. f. Divisão de Educação e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação, pertencente ao Departamento de Fonoaudiologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Fundada em 1969, ela possui uma Clínica que realiza diagnóstico multidisciplinar de pessoas Surdas e de pessoas com distúrbios da comunicação nas áreas médica, social, psicológica, audiológica e de linguagem; e uma Escola fundada em 1954, o Instituto Educacional São Paulo (IESP) para a educação e o atendimento de pessoas Surdas. Ex.: A Derdic presta serviços de atendimento à criança Surda.

 

2.8) A definição do significado representado pelo sinal e pelos verbetes do Português e do Inglês

Logo depois da classificação gramatical, aparece a definição do significado representado pelo sinal e pelos verbetes do Português e do Inglês, o que permite ao surdo aumentar o seu conhecimento do mundo, bem como de Libras, do Português e do Inglês. A definição do verbete aparece em itálico e é sempre feita conforme o seu significado em Libras. Por exemplo, na entrada do sinal bandeja, o verbete é assim definido: bandeja (CL) (inglês: tray): s. f. Tabuleiro de várias formas, feitios e materiais para servir chá, café, etc., e para vários outros fins. Ex.: Ela trouxe as xícaras e o café numa linda bandeja. Do mesmo modo como na entrada e na classificação gramatical, os sinônimos empregados na definição do significado também aparecem com a forma feminina entre parênteses. Por exemplo, na entrada do sinal bruto, lê-se: bruto(a): adj. m. (f.). Não refinado. Não polido. Rústico. Rude. Grosseiro. Malcriado. Tosco. Irracional. Bárbaro. Feroz. Violento. Imoderado. Inconsciente. Irrefletido. Estúpido. Insensato.

A definição do significado representado pelo sinal e pelos verbetes do Português e do Inglês permite ao surdo aumentar o seu conhecimento do mundo, bem como de Libras, do Português e do Inglês.

 2.9) Exemplos do uso linguístico apropriado dos verbetes correspondentes ao sinal

Logo depois da descrição do significado do sinal aparecem exemplos que ilustram seu uso linguístico apropriado em frases escritas em Português. Esse exemplo de uso cotidiano contribui para aumentar a compreensão do significado específico do sinal e do verbete a ele correspondente, permitindo empregá-los no sentido adequado em situações práticas de comunicação do dia a dia. O exemplo aparece em itálico, e é precedido pela abreviatura “Ex.: que significa exemplo. Por exemplo, na entrada do sinal bandeja, lê-se: bandeja (CL) (inglês: tray): s. f. Tabuleiro de várias formas, feitios e materiais para servir chá, café, etc., e para vários outros fins. Ex.: Ela trouxe as xícaras e o café em uma linda bandeja.

Esse item permite ao surdo usar corretamente as palavras do Português correspondentes aos sinais de Libras; e, aos ouvintes, usar corretamente os sinais de Libras correspondentes às palavras do Português. Por exemplo, na entrada do sinal bruto, aparece a frase “Ele sempre foi muito bruto com seus irmãos, que ilustra o uso do sinal e do verbete correspondente em Português. É apresentada pelo menos uma frase para cada verbete em Português correspondente ao sinal de Libras. Por exemplo, na entrada do sinal desculpar, pode-se observar que há pelo menos três verbetes em Português que correspondem a esse sinal: desculpar, desculpar-se, e desculpa. A entrada fornece pelo menos uma frase para ilustrar o uso de cada um desses verbetes. No caso: Ex.: Ela não o desculpou., Ex.: Desculpou-se pelo atraso., Ex.: Após a discussão, ele pediu desculpa por ter agido impensadamente. Essa frase escrita que ilustra o uso apropriado do verbete contribui para desambiguar esse verbete, o que ocorre usualmente quando um mesmo sinal tem diversos verbetes diferentes em Português.

A ilustração do uso dos verbetes correspondentes ao sinal em frases escritas em Português permite ao consulente apreender mais profundamente o significado do sinal. Segundo Wittgenstein (1953/2001) o significado de um termo lexical pode ser apreendido por meio do estudo das situações em que ele é empregado pela comunidade linguística. Ou seja, o significado de uma palavra ou de um sinal é revelado pela situação em que ele é empregado, tal como documentado por frases que ilustram esse uso. O fornecimento de exemplos do uso linguístico apropriado dos verbetes correspondentes ao sinal permite ao surdo usar corretamente as palavras do Português correspondentes aos sinais de Libras, e também permite aos ouvintes usar corretamente os sinais de Libras correspondentes às palavras do Português.

2.10) A descrição detalhada e sistemática da forma do sinal a partir da análise de sua composição quirêmica, que permite reproduzi-lo fielmente e sem ambiguidade

Logo depois da frase que ilustra o uso linguístico apropriado do sinal e do verbete, aparece uma descrição detalhada e sistemática da forma do sinal no nível de sua composição quirêmica. Essa descrição da forma do sinal juntamente com a ilustração dessa mesma forma, objetiva permitir ao leigo reproduzir fielmente o sinal de Libras de modo inteligível e eficaz. Essa descrição da forma do sinal aparece sempre entre parênteses. Ás vezes a descrição é precedida pela frase “Fazer este sinal”. Isso ocorre sempre que (sinônimos, sinais compostos, sinais iguais com significados diferentes decorrente de origem geográfica distinta) o sinal da entrada deriva de um sinal já documentado anteriormente em nossa pesquisa lexicográfica. Por exemplo, conforme a Figura 5, o sinal bruto (cuja correspondência com o verbete bruto foi documentada em SP, MS, PR, PB, SC, RJ, RS) corresponde ao mesmo sinal violento (cuja correspondência com o verbete violento já havia sido documentada em SP, SC, RS). Quando a ocorrência de um sinal é documentada associada a um determinado verbete em Português numa determinada área geográfica (i.e., num determinado conjunto de estados brasileiros), esse sinal é documentado numa entrada chamada “entrada original” indexada a partir desse verbete. Assim, o sinal violento foi documentado na entrada original do verbete violento como sendo usado em SP, SC, RS associado a esse verbete violento. Quando a ocorrência desse mesmo sinal é documentada associada a um outro verbete em Português em outra área geográfica (i.e., num outro conjunto de estados brasileiros, que pode ter ou não alguma intersecção com o conjunto anterior), esse sinal é documentado numa outra entrada chamada “entrada secundária” e indexada a partir desse outro verbete. Assim, o sinal violento foi documentado na entrada original do verbete bruto como sendo usado em SP, MS, PR, PB, SC, RJ, RS associado a esse verbete bruto. A partir desse ponto esse mesmo sinal pode ser referido como violento – bruto. Sempre que a descrição da forma do sinal, que ocorre entre parênteses e sem negrito, começar com a frase “Fazer este sinal”, trata-se de entrada secundária. Quando a frase “Fazer este sinal”  estiver ausente, trata-se de uma entrada original. Saber se se trata de entrada original ou de entrada secundária é importante, já que um sinal só é analisado em sua etimologia, morfologia e iconicidade em sua entrada original, nunca em sua entrada secundária, como explicado a seguir.

Assim, a descrição detalhada e sistemática da forma do sinal em termos dos quiremas que o compõem, juntamente com a ilustração dessa forma, permite ao leigo apreender mais precisamente os diversos elementos quirêmicos definidores da estrutura quirêmica dos sinais. A descrição detalhada e sistemática da forma do sinal em termos dos quiremas componentes permite superar as ambiguidades imanentes a qualquer ilustração visual da forma de itens lexicais linguísticos visuais como sinais. Ao mesmo tempo, a ilustração da forma dos sinais complementa a descrição detalhada e sistemática daquela forma, permitindo superar as ambiguidades imanentes a qualquer escrita alfabética que pretenda apreender as propriedades holísticas de estruturas visuais complexas como as dos sinais. Juntas, a descrição detalhada e a ilustração da forma permitem documentar e reproduzir fielmente cada sinal de Libras.

Quando há mais de um verbete em Português para um mesmo sinal de Libras, a descrição quirêmica começa pela citação do sinal originalmente descrito, por meio da instrução “Fazer este sinal” (sem itálico ou negrito), seguida do nome do sinal em versalete e negrito. Por exemplo, na entrada do sinal animar, lê-se: (Fazer este sinal alegrar – alegrar-se – alegre – alegria: Mãos horizontais abertas, palmas para trás. Movê-las para cima, tocando as pontas dos dedos nos ombros, várias vezes e sorrindo.)

Isto auxilia a compreender o parentesco semântico de um determinado sinal com outro sinal já documentado, bem como a compreender a composição de sinais complexos a partir do conhecimento dos sinais simples que participam de sua estrutura. Permite também localizar informações pertinentes à etimologia, à morfologia e à iconicidade do sinal, informações essas que encontram-se disponíveis apenas nos sinais originais.

O Novo Deit-Libras apresenta às vezes a soletração digital de uma palavra escrita em Português (ou de parte dessa palavra) para designar determinados significados. Isso só é feito quando inexiste um sinal lexical específico para designar esse determinado significado, e quando a soletração digital é a alternativa usual convencionada pela comunidade surda para fazer referência a esse significado no Brasil. O Novo Deit-Libras registra essa prática em determinadas entradas, como, por exemplo:

·      nunca (2) (inglês: never, at no time, ever): Idem nunca (1). Ex.: Nunca vi pintura mais bonita do que essa. Soletrar N, U, N, rapidamente.

·     currículo (curriculum vitae) (inglês: résumé, vitae): s. m. Aportuguesamento da expressão latina “curriculum vitae,” que significa “curso da vida.” Conjunto das indicações relativas ao estado civil, e aos estudos e aptidões profissionais de uma pessoa. Ex.: Preciso atualizar meu currículo para tentar um emprego novo. Soletrar C e V.

·         departamento (inglês: department): s. m. Repartição pública. Divisão, seção de uma empresa. Ex.: A sigla Detran significa “Departamento de Trânsito.” Soletrar D, E, P, A, R, T, A, M, E, N, T, O.

2.10.1) Explanação sistemática da descrição da composição quirêmica dos sinais: Os quatro elementos da descrição quirêmica

As descrições quirêmicas descrevem detalhadamente como articular o sinal e especificam os seguintes elementos: A articulação da(s) mão(s) e dos braços, a orientação das palmas, o local dessa articulação em relação ao corpo, o movimento no espaço da sinalização (i.e., o tipo, a amplitude, a velocidade, a frequência, a intensidade e a duração), e a expressão facial associada. Na classificação a seguir, para cada elemento básico dos sinais, são fornecidas as principais variáveis e seus respectivos valores:

2.10.1.1) Articulação da mão e do braço, e orientação da palma

Articulação da mão

·          Mão direita e (ou) esquerda: em números (1 a 9), em letras (A a Z), aberta, curvada, fechada, horizontal ou vertical.

·          Dedos direitos e (ou) esquerdos: abertos, cruzados, curvados, distendidos, dobrados, entrelaçados, flexionados, indicador destacado, indicadores destacados, indicador distendido, indicadores distendidos, ligeiramente curvados, paralelos, polegar destacado, polegares destacados, polegar distendido, polegares distendidos, pontas unidas, separados, soltos ou unidos. 

·          Relação entre as mãos e (ou) dedos: à direita e à frente, à direita e abaixo, à direita e acima, à direita e atrás, à esquerda e à frente, à esquerda e abaixo, à esquerda e acima, à esquerda e atrás, abaixo de, abaixo e à direita, abaixo e à esquerda, abaixo e à frente, abaixo e atrás, acima de, acima e à direita, acima e à esquerda, acima e à frente, acima e atrás, cruzadas, diante de, lado a lado ou perto de.

·          Mãos tocando-se: entre os dedos, pelas bases das palmas ou mãos, pelas laterais dos dedos, pelas palmas, pelas palmas dos dedos, pelas pontas dos dedos, pelas unhas, pelos dedos, pelos dorsos, pelos dorsos dos dedos ou pelos pulsos.

Articulação do braço

·          Braço esquerdo e (ou) direito: horizontal distendido, horizontal dobrado, vertical distendido ou vertical dobrado.

Orientação das palmas

·          Mão esquerda e (ou) direita: palma a palma, para a direita, para a esquerda, para baixo, para cima, para frente, para os lados opostos ou para trás.


2.10.1.2) Local da articulação

·          acima, abaixo, sobre, sob, ao lado, à esquerda, à direita, à frente, em frente, diante, atrás ou tocando em relação as seguintes partes do corpo:

·       abdome, antebraço ou antebraços, barriga, boca, bochecha ou bochechas, braço ou braços, cabeça, cintura (lado esquerdo ou direito), corpo, costas, cotovelo ou cotovelos, coxa ou coxas (lado esquerdo ou direito), dedos, dente ou dentes, dobra do braço ou dobra dos braços, dorso da mão ou dorso das mãos, lábio ou lábios (superior ou inferior), laterais da cabeça, lateral do corpo (esquerda ou direita), língua, nariz (lateral ou ponta), olho ou olhos, ombro ou ombros, orelha ou orelhas, palma ou palmas, parte interna do braço ou parte interna dos braços, parte superior do braço ou parte superior dos braços, peito, pescoço, ponta da língua, quadril ou quadris (lado esquerdo ou direito), queixo, rosto ou face.

2.10.1.3) Movimento

·      Mãos e braços: balançar, em curvas, em espiral, ondulatório, para a direita, para a esquerda, para baixo, para cima, para frente, para trás, tremular ou ziguezague.

·          Dedo ou dedos: balançar ou oscilar.

·          Língua ou ponta da língua: passando

·          Dobrar a(s) mãos(s) pelo(s) pulso(s): para baixo, para cima, para trás, para direita, para esquerda ou para frente.

·          Girar a(s) mão(s) pelo(s) pulso(s): para baixo, para cima, para trás, para direita, para esquerda ou para frente.

·          Girar a palma ou as palmas: para baixo, para cima, para trás, para direita, para esquerda ou para frente.

·          Em círculos horizontais: para a direita (sentido horário), para a esquerda (sentido anti-horário).

·          Em círculos verticais: para a direita (sentido horário), para a esquerda (sentido anti-horário), para frente, (sentido horário), para trás (sentido anti-horário).

·          Em arcos: para a direita (sentido horário), para a esquerda (sentido anti-horário), para frente, (sentido horário), para trás (sentido anti-horário).

·          Diagonalmente: para a direita e para baixo, para a direita e para cima, para a direita e para frente, para a direita e para trás, para a esquerda e para baixo, para a esquerda e para cima, para a esquerda e para frente, para a esquerda e para trás, para baixo e para direita, para baixo e para esquerda, para baixo e para frente, para baixo e para trás, para cima e para frente, para cima e para direita, para cima e para esquerda, ou para cima e para trás.

·           Intensidade do movimento: velocidade e (ou) frequência: alternado ou alternados, alternadamente, com força, duas vezes, lenta, lentamente, rápida, rapidamente ou várias vezes.

2.10.1.4) Expressão facial (quando aplicável)

·          alegre, alegria, boca aberta, boca semiaberta, bochechas infladas, bochechas sugadas, brava, contraída, dentes cerrados, lábios cerrados, lábios protrusos, lábios protuberantes, língua para fora, mostrando a ponta da língua, mostrando os dentes, olhos arregalados, olhos fechados, olhos semiabertos, sobrancelhas arqueadas, sorriso, sorrindo, testa franzida, triste ou tristeza, etc.

2.11) A descrição da forma do sinal a partir da análise de sua composição morfêmica que permite apreciar a sua origem (etimologia) e transparência denotativa (iconicidade)


Logo depois da descrição da forma do sinal no nível quirêmico, aparece a descrição no nível morfêmico. Como os morfemas são as menores unidades de significado, a enumeração dos morfemas que compõem o sinal permite uma apreensão mais profunda do significado codificado no sinal. Essa descrição é feita nas seções intituladas Etimologia e Iconicidade, que aparecem negritadas e em fonte levemente menor, como ilustrado na Figura 6.

A seção Etimologia divide-se em duas subseções, a de Morfologia e a de Iconicidade.

seção Morfologia analisa a estrutura morfêmica do sinal em termos de alguns dos morfemas moleculares (Brennan, 1990a, 1990b) que o compõem, e enumera vários sinais que compartilham esses mesmos morfemas moleculares (Capovilla, Capovilla et al., 2005; Capovilla, Raphael, & Mauricio, 2009. Capovilla, Viggiano et al., 2005). Isso permite apreciar o parentesco semântico entre o sinal da entrada e diversos outros sinais semanticamente aparentados e que compartilham alguns desses mesmos morfemas moleculares. Por exemplo, o sinal leitura labial – leitura orofacial é composto de dois morfemas: Fala – Comunicação Oral e Olhar - Ver - Observar - Cuidar. O morfema Fala – Comunicação Oral é codificado pelo local de sinalização na região da boca, já que indica comunicação oral, via voz, e ocorre em sinais como contar, declarar, dedurar, depoimento. Esse morfema é codificado não só pelo local (região da boca) como, também, pelo movimento a partir desse local. Esse morfema é caracterizado por três tipos de movimento: 1) movimento para frente e para os lados a partir da boca, como nos sinais cochichar, fluência (idiomas), comentarista, dar com a língua nos dentes, anúncio; 2) movimento circular em torno da boca, como no sinal cantar; 3) movimento alternado entre as mãos para frente e para trás a partir da boca, como no sinal declamar. Já o morfema Olhar - Ver - Observar - Cuidar é codificado pela articulação da(s) mão(s) em V, com os dedos apontados em direção ao objeto observado, como nos sinais olhar - ver, ler, veja! - olhe!, olhe para mim!, olhe pata trás!, tomar conta de - zelar, procurar, vigiar - supervisionar, inspetor de ensino, vigia, verificar, paixão à primeira vista, encarar-se, notar - perceber, analfabeto, e emprestar.

A seção Iconicidade analisa e descreve como o sinal representa seu significado. Ela revela a relação entre a forma do sinal e a forma do referente a partir de uma lógica analógica do tipo “como se”, que é típica do processamento cognitivo pelo hemisfério direito, permitindo apreender de um modo intuitivo o significado que está por trás da forma do sinal. Revelando as estratégias de representação analógica que materializam o significado do sinal diante dos olhos do observador, essa seção provê experiências de familiaridade íntima e intuitiva com a linguagem figurativa e metafórica dos sinais, permitindo ao observador construir um modo de apreensão fenomenológica imediata do significado dos sinais. Por exemplo, conforme a Figura 5, no sinal leitura labial – leitura orofacial a mão em V (típica do ato de ver) aponta para a boca e a circunda, como se a estivesse inspecionando. No sinal retroprojetor a mão esquerda representa a imagem impressa na transparência, ao passo que a direita representa a máquina que recolhe a imagem para cima concentrando-a no prisma e a projeta para frente na tela.

leitura labial   leitura labial, leitura orofacial (sinal usado em: SP, SC, RS) (inglês: lip-reading, speech-reading): s. f. Interpretação do significado do que é dito pela observação dos movimentos labiais do orador. Ex.: A leitura labial (leitura orofacial) é um importante recurso do surdo para auxiliar sua comunicação com os ouvintes, sendo bastante empregada pelos ouvintes em auxílio à compreensão da fala. (Mão em V, palma para baixo, dedos para trás, diante da boca. Mover a mão em pequenos círculos verticais para a esquerda (sentido anti-horário) ao redor da boca.) Etimologia. Morfologia: Trata-se de sinal formado pelos morfemas: 1) Fala – Comunicação Oral, e 2) Olhar - Ver - Observar - Cuidar. O morfema Fala é codificado pelo local de sinalização na região da boca. Diferentemente da comunicação por sinais, que é codificada na região do peito, a comunicação oral, via voz, é sinalizada na região da boca, como nos sinais contar, declarar, dedurar, comunicação social, depoimento, (e por movimento para frente e para os lados a partir da boca, como nos sinais cochichar, fluência (idiomas), comentarista, dar com a língua nos dentes, balbuciar, anúncio), (ou por movimento circular em torno da boca, como nos sinais cantar e ler lábios - leitura orofacial), (ou por movimento alternado entre as mãos para frente e para trás a partir da boca, como no sinal declamar). O morfema Olhar é codificado pela(s) mão(s) em V, com os dedos apontados em direção ao objeto observado, como nos sinais olhar - ver, ler, veja! - olhe!, olhe para mim!, olhe pata trás!, tomar conta de - zelar, babá, procurar, vigiar - supervisionar, inspetor (inspetoria) de ensino, vigia, portaria de prédio, verificar, paixão à primeira vista, encarar-se (neutro), encarar-se (confrontar-se), notar - perceber, analfabeto, e emprestar. Iconicidade: No sinal leitura labial - leitura orofacial - ler lábios, a mão em V, com os dedos para trás, diante da boca, se move em pequenos círculos ao redor da boca, representando a ideia de olhar a boca e conseguir identificar o que está sendo dito, por meio da leitura orofacial. A mão em V com dedos apontando para o objeto é típica do morfema Olhar (sendo que a direção para a qual os dedos apontam indica o objeto direto desse verbo transitivo direto), e está presente em sinais como olhe para mim!, leitura, contemplar-se, dentre outros.
Retroprojetor   retroprojetor (CL) (sinal usado em: SP, RS) (inglês: overhead, overhead projector): s. m. Aparelho óptico que, através de um feixe luminoso e de um conjunto de lentes, amplia e projeta em uma tela as imagens e os textos que haviam sido impressos em transparências de acetato. Ex.: O professor usou um retroprojetor para mostrar os gráficos da pesquisa. (Mão esquerda aberta, palma para cima, dedos para frente; mão direita aberta, palma para baixo, dedos para frente, acima da mão esquerda. Bater a palma direita na palma esquerda, mover a mão direita ligeiramente para cima unindo as pontas dos dedos e, então, abrir a mão separando os dedos.) Etimologia. Morfologia: Trata-se de sinal formado pelo morfema Projetar - Emitir - Espalhar - Difundir codificado pelo movimento da(s) mão(s) e sua simultânea abertura, com o espalhamento dos dedos e a sua projeção no mesmo sentido do movimento da(s) mão(s), como nos sinais abajur, bomba, cesto de papel, confete, diamante, luz, farol de veículo, poste de luz, flash, fogos de artifício, projetor de slides, telegrama, mágica, prejuízo, mancha, epidemia, semáforo, ovo, e militar. Iconicidade: No sinal retroprojetor, a palma de apoio representa a base transparente do retroprojetor; a mão direita representa a transparência sendo colocada na base; a mão direita que se fecha enquanto se move para cima, representa a imagem que é capturada da transparência e projetada para cima concentrando-se no prisma; e finalmente, essa mão que, então, se abre projetando os dedos para frente, representa a projeção da imagem na tela.
procurar   procurar (sinal usado em: SP, RJ, MS, CE, PR, RS) (inglês: to seek, to search, to look for): v. t. d., v. t. d. i. Buscar. Dedicar-se a encontrar. Averiguar. Sondar. Ex.: Preciso procurar a chave do carro, não sei onde a deixei. Ex.: Procurei-lhe o livro que havia perdido. (Mão esquerda em S horizontal, palma para a direita; mão direita em V, palma para cima, dedos apontando para frente, dorso da mão direita tocando a mão esquerda. Mover as mãos para a direita e para a esquerda, enquanto a mão direita descreve pequenos círculos horizontais para a direita (sentido horário) sobre a esquerda. Acompanhar o movimento com o corpo, e com expressão interrogativa.) Etimologia. Morfologia: Trata-se de sinal formado pelo morfema Olhar - Ver - Observar - Cuidar codificado pela(s) mão(s) em V, com os dedos apontados em direção ao objeto observado, como nos sinais olhar - ver, ler, ler os lábios – leitura orofacial, veja! - olhe!, olhe para mim!, olhe pata trás!, tomar conta de - zelar, babá, vigiar - supervisionar, inspetor (inspetoria) de ensino, vigia, portaria de prédio, verificar, paquerar-se, paixão à primeira vista, encarar-se (neutro), encarar-se (confrontar-se), notar - perceber, analfabeto, e emprestar. Iconicidade: No sinal procurar, a articulação de mão em V gira sobre a mão de apoio, como se fosse a antena giratória de um radar varrendo ou perscrutando o campo num movimento de rotação da antena no eixo vertical da mão de apoio (no plano XY), e de translação de todo o conjunto do radar num arco do lado esquerdo do corpo para o direito (no mesmo plano XY), acompanhado da expressão facial tensa de um operador de radar. O mesmo morfema Olhar - Ver - Observar - Cuidar aparece associado a outros morfemas (como o de Local Fixo) compondo os sinais mais complexos, como vigiar, vigia, tomar conta de – zelar, e babá, cuja inter-relação semântica é evidente.
Figura 6. Ilustração da entrada de três sinais: 1) leitura labial leitura orofacial; 2) retroprojetor; 3) procurar; em que constam informações sobre etimologia, morfologia e iconicidade.

A descrição da forma do sinal a partir da análise de sua composição morfêmica permite apreciar aspectos relevantes de sua origem (i.e., etimologia) e clareza denotativa (i.e., iconicidade ou transparência) desse sinal. Essa descrição intuitiva do modo como o sinal representa o significado é feita a partir de uma lógica analógica do tipo “como se”. Por exemplo, a forma do sinal retroprojetor poderia ser apreciada numa frase do tipo: “É como se a mão capturasse a imagem da transparência no vidro horizontal, concentrando-a no prisma acima, e em seguida a projetasse para frente na tela”. A descrição de como a forma do sinal captura, materializa e cristaliza o significado do sinal permite ao observador apreender esse significado de um modo fenomenologicamente imediato aumentando sua intimidade e familiaridade com o sinal, e torna a forma do sinal intimamente compreensível e intuitiva para o observador. Ao apreciar o sinal a partir de sua intimidade, o observador passa a compreender a motivação da forma do sinal, ou seja, como a forma do sinal captura e cristaliza a motivação original dos surdos ao criar esse sinal.

A descrição da motivação subjacente à forma do sinal a partir da análise de sua composição morfêmica revela aspectos relevantes de sua etimologia e iconicidade, e funciona como uma espécie de arqueologia do inconsciente do sinal, que permite apreciar alguns dos aspectos relevantes à motivação subjacente à origem do sinal que se mantêm cristalizados na forma desse sinal. O estudo da motivação da forma do sinal, ou seja, de como a forma do sinal reflete o significado desse sinal, é essencial para elucidar como o sinal é apreendido e processado pelo hemisfério direito, bem como para compreender a transparência denotativa do sinal e a sua eficácia pragmática como veículo de comunicação entre surdos e ouvintes. De fato, a transparência denotativa do sinal, ou seja, sua capacidade de transmitir de modo imediato um dado significado inequívoco é uma propriedade altamente relevante à eficácia pragmática do sinal como veículo de comunicação entre surdos e ouvintes.

A iconicidade de um sinal pode ser compreendida como variando ao longo de uma escala, desde os sinais opacos no extremo inferior, passando pelos sinais translúcidos no meio da escala, até os sinais transparentes no extremo superior. Sinais transparentes são sinais gestuais cuja forma reflete diretamente seu significado de modo claro e imediato de modo a permitir a observadores ingênuos apreender holisticamente esse significado. Sinais opacos são sinais não gestuais, cujo significado não pode ser apreendido a partir de sua forma, já que a relação entre a forma do sinal e o significado desse sinal é arbitrária, incomum e não convencional fora da comunidade linguística de Libras. Nos sinais gestuais transparentes, o significado pode ser apreendido diretamente a partir da forma porque a relação entre a forma e o significado é ou altamente natural (analógica) ou altamente familiar, usual e convencional, mesmo para membros de fora da comunidade linguística de Libras. Assim, um sinal gestual é transparente quando atende a uma ou ambas as condições: 1) constitui gesto natural que mapeia analogicamente ponto a ponto algumas das propriedades visuais da forma do referente que ele representa; 2) constitui gesto arbitrário mas altamente familiar, comum e convencional, mesmo para membros de fora da comunidade linguística de Libras, por ser típico da gestualidade da cultura ouvinte local ou mesmo por pertencer à gestualidade da cultura universal, como ocorre no caso dos gesto emblemático.

O estudo da transparência do significado de um sinal (i.e., de sua clareza denotativa) permite apreciar, desde uma lógica holística e intuitiva típica do processamento cognitivo do hemisfério direito, como um sinal foi criado originalmente para representar analogicamente as propriedades visuais dos referentes, como ele pode preservar resquícios dessas origens, e como esses resquícios permitem apreender o significado subjacente ao sinal de um modo fenomenicamente imediato. Embora esse estudo comece tratando os sinais como entidades gestuais holísticas e indivisíveis que representam de modo imanente um significado discreto e específico (i.e., como morfemas molares), logo fica claro que a maior parte das entidades gestuais não constituem entidades indivisíveis, mas configuram totalidades compostas, elas próprias, de combinações específicas entre dois ou mais dos mesmos elementos gestuais particulares (i.e., morfemas moleculares) que tendem a ocorrer em outros sinais. Essa constatação permitiu observar que esses elementos gestuais particulares tendem a co-ocorrer em frequência maior nos sinais com significado compartilhado (i.e., com algum parentesco semântico) do que naqueles sem esse significado compartilhado. A constatação de que sinais com algum parentesco semântico tendem a apresentar alguns dos mesmos elementos gestuais particulares permitiu identificar e caracterizar esses elementos gestuais particulares como morfemas metafóricos moleculares. Isso foi feito a partir da inspeção dos elementos em comum à forma dos sinais pertencentes aos mesmos campos semânticos. A concepção de que esses elementos gestuais particulares, que funcionam como unidades de significado, constituem morfemas moleculares foi seminal. Ela permitiu empreender o início da análise da estrutura morfêmica do léxico de Libras, que consistiu em identificar e caracterizar alguns dos morfemas moleculares específicos que compõem o léxico de Libras a partir da constatação de que os mesmos morfemas tendem a ocorrer em sinais pertencente aos mesmos campos semânticos. Isso permitiu perceber que o grau de parentesco semântico é expresso na proporção de morfemas semânticos compartilhados. A partir da identificação e caracterização de alguns dos diversos morfemas que compõem a estrutura sublexical dos sinais de Libras, pode-se empreender uma análise mais profunda da semântica e morfologia dos sinais, que revela que o significado preciso de um sinal depende da combinação específica entre os diferentes morfemas moleculares que o compõem.

O fato de que a maior parte dos sinais gestuais de Libras parece ser composta de uma combinação particular entre morfemas metafóricos moleculares é o que permite a esses sinais serem, ao mesmo tempo, gestualmente transparentes e linguisticamente precisos. É a combinação complexa de diversos elementos linguísticos específicos (morfemas moleculares), que permite ao sinal codificar precisamente significados altamente intrincados enquanto retém sua transparência. É a transparência de cada um desses diversos elementos que permite ao sinal reter sua clareza denotativa enquanto alcança precisão na codificação do significado complexo. Assim, é a combinação específica entre morfemas moleculares que permite ao sinalizador combinar as vantagens de codificação precisa de complexidade e de transparente clareza denotativa na sofisticada codificação, e clara representação de significados complexos e intrincados. É a inspirada e precisa combinação específica entre morfemas moleculares que permite a um sinal preservar a sua transparência e clareza denotativa enquanto codifica de modo preciso um significado complexo e intrincado.

Assim, embora o estudo tenha começado identificando sinais gestuais particulares como entidades holísticas indivisíveis ou morfemas molares, logo ficou claro que a maior parte dos sinais gestuais é composta por uma combinação particular entre morfemas moleculares, e que é essa característica que permite a esses sinais combinar as vantagens de precisão e de clareza denotativa na representação de significado. Isso permite a um sinal preservar a clareza denotativa mesmo quando tem de representar de modo mais preciso um significado mais complexo.

Breve histórico

Originalmente inspirado no Random House American Sign Language Dictionary (Costello, 1994), o Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da Língua de Sinais Brasileira começou a ser elaborado em 1997, e foi finalmente lançado no início de 2001 em dois volumes com 1.860 páginas, em plena época de efervescência cultural e luta pelo reconhecimento oficial de Libras como idioma da comunidade surda brasileira, tendo servido como instrumento dessa luta bem sucedida. Lançado pela Edusp em parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, com apoio da Fundação Vitae, da Fapesp, e da Brasil Telecom, foi imediatamente recebido como um grande, auspicioso, oportuno e original avanço. Em poucos anos, ao longo de três edições, cada qual com diversas tiragens, por demanda da Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação, bem como da Unesco e de diversas Secretarias Municipais de Educação e de Apoio à Pessoa com Deficiência, alcançou a marca de mais de 60 mil exemplares distribuídos.

Ao documentar pela primeira vez o léxico de Libras de uma comunidade estimada em 6 milhões de habitantes (incluindo surdos e deficientes auditivos), e ao fazê-lo numa colaboração produtiva original entre a universidade pública e gratuita e a Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (Feneis), o Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da Língua de Sinais Brasileira aliou rigor científico, sensibilidade artística e representatividade linguística com um forte senso de oportunidade histórica, participou de modo original e decisivo dos tremendos avanços de cidadania da comunidade surda brasileira do início do século 21, com o reconhecimento oficial de Libras como idioma nacional, ao lado do Português, o que tem permitido a sua distribuição via Programa Nacional do Livro Didático a milhares de escolas públicas de todos os municípios do país. Apresentado pelo presidente da Feneis, pelo famoso neurologista Oliver Sacks, dentre outras autoridades do Brasil e do exterior, essa obra constituiu um avanço extremamente oportuno e de inestimável importância histórica, tendo recebido diversas resenhas elogiosas, e prêmios no Brasil e exterior, e pondo a Libras no mapa linguístico em bases como o Ethnologue, em que é chamada bzs (http://www.sil.org/iso639-3/documentation.asp?id=bzs).

Três anos depois do lançamento da primeira edição do Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da Língua de Sinais Brasileira, começou a ser lançada a Enciclopédia da Língua de Sinais Brasileira: O mundo do surdo em Libras (Capovilla & Raphael, 2004a, 2004b, 2005a, 2005b, 2005c). Diferentemente do Dicionário , que traz os sinais de Libras arranjados por ordem alfabética dos verbetes, a Enciclopédia traz os sinais de Libras arranjados em campos semânticos como educação, higiene e saúde, geografia e história, cidadania e política, e assim por diante. Constitui, por isso, importante material para aprendizagem de Libras, para elaborar exercícios de conversação em Libras e para verter o currículo escolar para Libras. Por outro lado, em sua forma computadorizada a Enciclopédia digital de Libras (Capovilla et al., 2003; Capovilla, Duduchi et al., 2006; Duduchi & Capovilla, 2006) traz os sinais indexados por elementos quirêmicos de sua estrutura sublexical, tais como a articulação da mão (Capovilla & Raphael, 2006a), o local de articulação, a orientação da palma, o movimento descrito pela mão, e a expressão facial associada, o que permite ao surdo prescindir do conhecimento do Português para localizar qualquer sinal de Libras, e ser capaz de resgatar qualquer sinal a partir apenas dos elementos sublexicais da estrutura quirêmica do sinal em que está pensando. Desta forma, a Libras passou a poder ser efetivamente usada como metalinguagem para adquirir leitura e escrita alfabéticas do Português.

Até recentemente essa história de avanços sucessivos nas estratégias de indexação de sinais tinha apenas três capítulos: O primeiro, com a estratégia de ordenação alfabética de verbetes inaugurada pelo Dicionário; o segundo, com a estratégia de agrupamento dos sinais de Libras por campos semânticos que foi inaugurada pela Enciclopédia; e o terceiro com a estratégia de indexação quirêmica dos sinais que foi inaugurada pela Enciclopédia Digital. O último e quarto capítulo dessa saga está sendo escrito agora, com a estratégia de indexação dos sinais de Libras pelos elementos da estrutura morfêmica desses sinais. Essa estratégia combina as vantagens de um sistema de indexação linguística (i.e., facilidade de classificar informação, ou seja, de armazenamento e recuperação de sinais) com as vantagens de um sistema semanticamente orientado (i.e., facilidade no acesso intuitivo e uso pragmático dos sinais). Como os morfemas são as menores unidades de significado empregadas num dado sistema linguístico, uma indexação de sinais baseada na estrutura morfêmica seria altamente vantajosa pois os morfemas de sinais, ao mesmo tempo em que codificam significados recombinativos específicos, são eles próprios compostos de fonemas (ou no caso de sinais, de quiremas) que são as menores unidades mínimas formais capazes de distinguir entre dois itens lexicais discretos, no caso, entre dois sinais. Se eficiente, essa indexação poderá, no futuro, ser empregada como interface para o resgate eficiente de sinais em tempo real durante conversações empregando sistemas de comunicação entre surdos e ouvintes, e de telecomunicação cifrada entre surdos estrangeiros com diferentes línguas de sinais (Capovilla et. al., 2003; Capovilla, Duduchi et al., 2006; Duduchi & Capovilla, 2006).

O passo inicial consiste em ensaiar esboços de análise morfêmica de sinais para iniciar a compreensão das relações entre os morfemas do Português e os morfemas de Libras. Como os morfemas são as menores unidades de significado de que se compõem os sinais, sinais aparentados em significado tendem frequentemente a compartilhar os mesmos morfemas, assim como ocorre em palavras aparentadas em significado. Um dos primeiros e mais importantes frutos dessa análise seria um sistema capaz de auxiliar a compreensão de leitura profunda de palavras de um determinado idioma por parte de leitores surdos ainda neófitos nesse idioma escrito, ou seja, com relativamente baixo vocabulário de leitura desse idioma. Esse sistema poderia auxiliar o surdo a penetrar na estrutura morfêmica das palavras novas desse idioma, e a empreender análise morfêmica dessas palavras escritas simplesmente vertendo os morfemas das palavras em morfemas de Libras. Ao aprender as unidades mínimas desse sistema de decodificação morfêmica, o surdo teria aberta uma nova rota semântica e profunda, que lhe permitiria apreender diretamente o significado profundo de palavras novas que ele ainda não teria tido oportunidade de aprender de modo explícito e específico.

Na estrutura sublexical morfêmica dos sinais destacam-se os morfemas metafóricos. A noção de morfema metafórico remonta a Brennan (1990a, 1990b). Tais morfemas reaparecem em sinais diferentes conferindo-lhes parentesco semântico, e se combinam conferindo significados mais complexos e precisos a um grande número de sinais. O mesmo se dá com as palavras, cuja estrutura sublexical também codifica significados por meio de morfemas, que também são passíveis de descrição mais fina no nível fonêmico. Por exemplo, tomemos a palavra falada /gatinhos/ e sua palavra escrita correspondente GATINHOS. Ela é composta de quatro morfemas: GAT (i.e., felino), INH (i.e., pequeno), O (i.e., macho), e S (i.e., mais de um). A análise morfêmica revela tratar-se de um conjunto de pelo menos dois (i.e., morfema S) felinos (i.e., morfema GAT) pequenos (i.e., morfema INH) dos quais pelo menos um é macho (i.e., morfema O). Por sua vez, os quatro morfemas são compostos de diferente número de fonemas (no caso da palavra escrita, grafemas): O morfema GAT é composto de três grafemas (i.e., os grafemas simples G, A, e T); o morfema INH é composto de dois grafemas (i.e., o grafema simples I e o grafema composto NH); e os morfemas O e S são compostos de um grafema simples cada um. Um esboço original de análise preliminar da estrutura morfêmica de Libras pode ser encontrado de modo abreviado em Capovilla, Capovilla, Raphael, e Macedo (2005), e, de modo expandido, em Capovilla e Raphael (2005c). O Novo Deit-Libras incorpora a análise da estrutura morfêmica à descrição dos sinais.

Os morfemas metafóricos mais concretos correspondem a unidades mais holísticas, gestálticas e com significado representacional mais específico e claramente aparente, com alto grau de transparência icônica denotativa. Esses morfemas constituem unidades irredutíveis complexas, de relativamente alta especificidade e relativamente baixa recombinatividade, sendo, por isso, ao mesmo tempo menos arbitrários e mais transparentes e próximos à mímica e à pantomima. Capovilla e Raphael (2005c) identificaram centenas de morfemas metafóricos concretos em Libras. Já os morfemas metafóricos mais abstratos correspondem a unidades de significado mais amplo e geral, aplicáveis a um conjunto maior de circunstâncias e, por isso, menos unívocas, isto é, menos passíveis de representação inequívoca por palavras ou imagens específicas. Não só os conceitos representados são mais abstratos como, também, a maneira de representação é menos analógica e menos transparente à consciência. Nesse caso, não havendo relação de analogia física entre a forma do sinal e a do referente por ele representado, não se pode falar de mapeamento ponto a ponto, e nem em materialização de objetos defronte o observador. Esses morfemas constituem unidades irredutíveis mais elementares, de relativamente baixa especificidade e relativamente alta recombinatividade, sendo, por isso, mais arbitrários, opacos e distantes da mímica e pantomima.

Após varrerem todos os sinais da edição original do Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Capovilla & Raphael, 2006b, 2006c), os pesquisadores Capovilla, Capovilla et al. (2005) e Capovilla e Raphael (2005c), identificaram e exemplificaram 30 morfemas metafóricos abstratos que participam da estrutura morfêmica de cerca de cerca de 900 sinais, e várias centenas de morfemas metafóricos concretos. Tais morfemas abstratos são sumariados abaixo e uma parte deles encontra-se ilustrada nas Figuras 7 e 8 por meio de alguns sinais que os contêm.

Os sinais ilustrativos arrolados na Figura 7 são:

1) Pessoa (Com mão fechada e polegar distendido como no sinal companheiro, com a mão fechada e dedo indicador distendido como no sinal discípulo, ou com a mão em 2 com dedos voltados para baixo como no sinal andar a pé); 2) Projetar - Emitir - Espalhar - Difundir (codificado pela mão se movendo em direção ao espaço à medida que se abre e os dedos se espalham como no sinal ensinar); 3) Recolher – Absorver – Condensar – Copiar – Extrair – Subtrair – Escurecer (codificado pela mão aberta com os dedos espalhados se fechando à medida que se move para a direção oposta à dos dedos, como no sinal copiar); 4) Pegar – Agarrar (codificado pela mão aberta com os dedos espalhados se fechando à medida que se move em direção ao objeto e no mesmo sentido dos dedos, como no sinal agarrar); 5) Capturar (composto de uma etapa de agarrar seguida de uma etapa de recolher). Na primeira etapa (i.e., agarrar) a mão aberta, com a palma voltada para um objeto virtual e com os dedos curvados em posição de garra, se move em direção a esse objeto e se fecha sobre o objeto, como a agarrá-lo. Na segunda etapa (i.e., recolher), a mão fechada, contendo já o objeto virtual, se volta em direção ao corpo. Nesta segunda etapa, o fechamento da mão, recolhimento dos dedos, e movimento da mão no sentido oposto ao dos dedos, frequentemente em direção ao corpo, sendo a palma usualmente voltada para o objeto, como no sinal receber; 6) Desaparecer – Sumir – Escurecer - Esvanecer; codificado pela(s) mão(s) que começa(m) aberta(s) e com os dedos espalhados e distendidos, e que se fecha(m) à medida que se move(m), dando a ideia de esvanecimento ou escurecimento ou desaparecimento, como no sinal sumir – desaparecer); 7) Olhar - Ver - Observar - Cuidar (codificado por mão em V com dedos voltados para o objeto observado, como no sinal olhar - ver); 8) Ok - Certo - Correto - Justo (codificado pela mão aberta com polegar e indicador unidos pelas pontas e movimento para baixo, como no sinal certo- certeza - justo - certo!); 9) Verdade – Legítimo – Oficial (codificado por mão em P, como no sinal verdade (1)) ou mão aberta com polegar e dedo médio unidos pelas pontas, como no sinal verdade (2)); 10) Ponderar (codificado pelo movimento de alternância das duas mãos, para cima e para baixo, como no sinal pesar); 11) Justiça (codificado pelo movimento alternado para cima e para baixo das duas mãos abertas com polegar e indicador unidos pelas pontas, como no sinal justiça); 12) Interrogação (codificado por expressão facial interrogativa, com cabeça voltada para trás e, às vezes, com sobrancelhas erguidas e boca entreaberta, como no sinal quê?); 13) Negação – Ausência (Sem - Nada - Não) codificado por expressão facial contraída e eventual movimento de negação com a cabeça, como no sinal não poder, ou por bochechas sugadas, como no sinal ingênuo); 14) Ênfase-Interjeição-Prontidão–Clareza (codificado pelo movimento súbito para baixo da mão sinalizadora que culmina no ato de bater dorso ou lateral da mão aberta, punho fechado, ou ponta de dedo contra a mão de apoio espalmada para cima, como no sinal crer);

 

companheiro discípulo andar a pé
ensinar copiar agarrar
receber sumir, desaparecer olhar, ver
certo, certeza, justo verdade verdade
pesar justiça quê?, quem?
não poder ingênuo, inocente crer, acreditar

Figura 7. Ilustração de alguns sinais formados por morfemas metafóricos abstratos de Libras.

Os sinais ilustrativos arrolados na Figura 8 são:

15) Mente (Cognição) e Atividade Cognitiva (codificado pelo local de sinalização na região da cabeça, como no sinal esquecer); 16) Sentimento – Emoção (Atividade Emocional) (codificado pelo local de sinalização na região do peito, como no sinal amar - paixão); 17) Melancolia (Sofrimento - Dor - Esgotamento - Vergonha - Resignação - Tristeza - Culpa - Depressão – Embaraço) (codificado por expressão de coitado, movimento e postura para baixo, com ombros caídos, cabeça baixa e costas curvadas, como no sinal angústia); 18) Mania (Alegria - Energia - Vibração - Prazer - Expectativa) (codificado por expressão alegre, movimento e postura para cima, com cabeça alta, ombros retos, costas eretas, peito estufado, como no sinal comemoração); 19) Cólera (Raiva - Ódio - Rancor - Agressão) (codificado por expressão facial brava, movimentos e postura tensos e agressivos, voltados para frente, envolvendo desafiar, confrontar, coagir, oprimir, ferir, arranhar e esmurrar, punhos fechados, cenhos cerrados, lábios contraídos ou dentes expostos, como no sinal bronca); 20) Tomar Turnos na Comunicação (codificados pelo movimento alternado entre as mãos para frente e para trás, ou para cima e para baixo, como no sinal assembleia); 21) Tomar Turnos na Comparação (codificado pelo movimento alternado entre as mãos espalmadas, para frente e para trás ou para cima e para baixo, se aproximando e se afastando do sinalizador, como no sinal comparar); 22) Fala – Comunicação Oral (codificado pelo local de sinalização na região da boca e por movimento para frente a partir da boca, como no sinal avisar); 23) Sinalização–Comunicação por Língua de Sinais (codificado pelo local de sinalização na região do peito e por movimento circular em torno do peito, como no sinal conversar em libras); 24) Inflar-SoprarExpirar Engrossar Engordar - Encher - Crescer - Acumular (codificado por bochechas infladas, dando ideia de recipiente ou órgão sob pressão positiva, como na primeira parte do sinal abarrotar); 25) Sugar - Aspirar - Esvaziar - Absorver - Adstringir Emagrecer - Afinar Encolher - Escoar - Murchar - Definhar - Secar - Esvair-se (codificado por bochechas sugadas, dando ideia de pressão negativa pelo ato de sugar, como na segunda parte do sinal magro); 26) Ferir verbalmente (Provocar – Zombar – Chatear - Censura – Discutir – Xingar – Brigar - Vingar) (codificado por duas articulações de mão (i.e., mão em adaga ou mão em revólver), movimento forte e frequentemente expressão facial negativa, como no sinal vingar-se); 27) Domínio (codificado pela mão fechada, com os dedos indicador, médio e polegar distendidos, como no sinal esperteza); 28) Irradiação - Propagação - Fluxo (codificado pela(s) mão(s) aberta(s) balançando e (ou) dedos balançando, frequentemente enquanto a(s) mão(s) se move(m) para uma direção, como no sinal brilhar); 29) Trabalhar (Emprego) (codificado pelas mãos horizontais em L que se movem alternadamente para a frente e para trás na altura da cintura, de cada lado do corpo, como no sinal trabalhar); 30) Mudar - Substituir - Transferir (codificado pelo movimento das mãos de um a outro ponto no espaço, representando a noção de mudar algo de tempo ou espaço, como no sinal transferir); 31) Prisão - Preso (codificado pelas mãos em V com os dedos indicador e médio de uma mão cruzados perpendicularmente sobre os dedos indicador e médio da outra mão, compondo metafóricas grades de prisão, como no sinal paciência); 32) Enquadre - Delimitação de Espaço (codificado pelas mãos em L aproximadas pelas pontas dos polegares e com indicadores apontando no mesmo sentido, e se movendo em conjunto como no sinal aparecer na mídia); 33) Passado (antes no tempo), codificado pelo movimento para trás, como no sinal passado, ou pelo movimento circular no sentido anti-horário, como no sinal anteontem); 34) Futuro (depois no tempo), codificado pelo movimento para frente, como no sinal futuro, ou pelo movimento circular no sentido horário como no sinal atrasar).


esquecer amar, paixão angústia
comemoração bronca, repreensão assembleia
comparar avisar conversar (conversa) em libras
abarrotar magro vingar-se, vingança
esperteza brilhar trabalhar

transferir, mudar

adiar, mudar paciência
aparecer na mídia anteontem atrasar
Figura 8. Ilustração de alguns sinais formados por morfemas metafóricos abstratos de Libras.

No Novo Deit-Libras, as entradas incorporam a análise da estrutura morfêmica dos sinais de Libras, como nas duas entradas ilustradas na Figura 9, que analisam os morfemas componentes dos sinais absorver e Comunicação Total.


absorver   absorver (2) (líquido) (sinal usado em: SP, RS) (inglês: to absorb, to suck up, to take in, to imbibe): v. t. d. Sorver (líquido). Embeber-se de. Ex.: As árvores absorvem água e sais minerais do solo. (Mão aberta, palma para baixo, dedos separados. Mover a mão para cima, fechando-a e sugando as bochechas.) Etimologia. Morfologia: Trata-se de sinal formado pelos morfemas: 1) Sugar - Aspirar - Esvaziar - Absorver - Adstringir Emagrecer - AfinarEncolher - Escoar - Murchar - Definhar - Secar - Esvair-se, e 2) Recolher – Absorver – Condensar – Copiar – Extrair – Subtrair . O morfema Sugar é codificado por (bochechas sugadas, como nos sinais canudo de beber, sacolé, aspirador de pó), (ou codificado pelo ato de tragar, como nos sinais drogas, maconha), (ou codificado por expressão de alívio, de tensão ou esvaziamento, como na segunda parte do sinal orgasmo), (ou codificado por expressão de adstringência, como nos sinais limão, amarga), (ou codificado por expressão de escoamento, como nos sinais coar – filtrar, extrair), (ou codificado por expressão de murchar, como nos sinais definhar – murchar, imã), (ou codificado por expressão de emagrecimento ou magreza ou pouca espessura, como nos sinais magro, emagrecer, caveira, fino, contrair-se). O morfema Recolher é codificado pelo movimento da mão desde o espaço ou algum objeto que está nele em direção ao corpo do sinalizador, com o fechamento da mão e o recolhimento dos dedos, como nos sinais achar objeto, conseguir, amar, apanhar objeto - catar, cheirar - perfumado, copiar, telepatia, gostoso, recolher, respirar, fotografar-me - ser fotografado - retrato, secar, xerocopiar, resumo, filho, e aceitar. Iconicidade: No sinal absorver a mão aberta e espalmada para baixo se move para cima, recolhe os dedos e se fecha enquanto as bochechas são sugadas, como a indicar um líquido sendo sugado de uma superfície para uma esponja.
Comunicaçao Total   Comunicação Total (sinal usado em: SP, PR, SC, RS) (inglês: Total Communication): s. f. Ato, efeito ou meio de comunicar-se (os surdos ou com os surdos) por meio de vários sistemas de comunicação, simultaneamente. Filosofia educacional para a educação de surdos que faz uso de vários sistemas de comunicação simultaneamente. Ex.: A Comunicação Total foi um progresso em relação ao Oralismo, mas precisou ser substituída pelo Bilinguismo quando pesquisadores escandinavos descobriram que as professoras não sinalizavam todas as palavras que pronunciavam e que não pronunciavam todas as palavras que sinalizavam, mas que alternavam entre sinais e fala, dificultando, assim, a compreensão da aula por parte de crianças surdas que fossem incapazes de ler lábios ou de compreender sinais. (Mão esquerda em C, palma para a direita; mão direita em T, palma para a esquerda. Movê-las alternadamente para frente e para trás.) Etimologia. Morfologia: Trata-se de sinal formado pelos morfemas: 1) Sinalização – Comunicação por Língua de Sinais, e 2) Tomar Turnos na Comunicação. O morfema Sinalização é codificado pelo local de sinalização na região do peito e por movimento circular em torno do peito como se observa nos sinais falar (em libras), conversar (em libras) – conversa (em libras) – conversação (em libras), convencer (em libras), e entrevistar (em libras). A exceção é constituída pelos sinais fofocar (em Libras) – fofoca (em Libras) – fofoqueiro (em Libras), linguarudo (fofoqueiro), nos quais a boca aberta com a língua de fora não diz respeito ao morfema Fala – Comunicação Oral (que é codificado pelo local de sinalização na região da boca), mas sim ao morfema Linguarudo (que é codificado pela língua para fora e movimento para frente a partir dela). Assim como o sinal língua (linguagem) – idioma é articulado na região da boca com a língua de fora e movimento de projeção e de vibração a partir dela, muito embora a Libras também seja um idioma e nem por isso é articulado pela língua mas sim pelas mãos, do mesmo modo os sinais linguarudo e fofoqueiro são articulados na região da boca com a língua de fora e movimento de projeção a partir dela, muito embora o ato comunicativo de fofocar por meio de Libras não envolva a língua mas sim as mãos. Ou seja, nos dois casos as formas dos sinais estão mais precisamente relacionadas com alusão às figuras de linguagem do que com a descrição da forma física dos comportamentos propriamente representados. Temos ainda o sinal balbuciar, que é articulado na região da boca mas sem a projeção da língua. O morfema Tomar Turnos na Comunicação é codificado pelo movimento alternado entre as mãos para frente e para trás, ou para cima e para baixo, como nos sinais assembleia, comunicar, conversar em língua de sinais, convencer, dialogar, entrevistar, reunir, política, debater - discutir, declamar, interação, internet, intercâmbio, e chat. Iconicidade: No sinal Comunicação Total, a mão esquerda em C, e a mão direita em T, são movidas alternadamente para frente e para trás. Comparando o sinal Comunicação Total com o sinal comunicação oral, pode-se perceber que se trata essencialmente do sinal comunicação oral, só que articulado em frente ao peito em vez de em frente à boca, com a boca fechada, e com clara inicialização de mão (i.e., a mão esquerda articula a primeira letra da palavra comunicação, e a mão direita articula a primeira letra da palavra total). Isso corrobora belamente a presente interpretação do morfema Fala – Comunicação Oral.
Figura 9. Duas das diversas entradas de sinais em que constam informações sobre morfologia, as dos sinais absorver e Comunicação Total

Por fim, no Novo Deit-Libras, as entradas também incorporam a etimologia de diversos sinais de Libras, explicando a sua origem, como nas duas entradas ilustradas na Figura 10, que descrevem o porquê das formas de sinais como bairro aclimação (que constitui articulação rítmica do número 17 que, no passado, correspondia ao número da linha de ônibus que servia ao Bairro da Aclimação) e bairro paraíso (que alude à maçã do paraíso bíblico descrito em Gênesis).


Aclimaçao   bairro Aclimação (sinal usado em: SP) (inglês: Aclimacao neighborhood): Bairro da zona sul da cidade de São Paulo. Ex.: Na Aclimação existe um famoso parque de mesmo nome, onde há shows frequentemente. (Mão direita vertical fechada, palma para frente inclinada para baixo, dedo indicador distendido e dedo polegar tocando a lateral do dedo indicador. Balançar o indicador para baixo, duas vezes.) (Etimologia: Trata-se de articulação rítmica do número 17 que, no passado, correspondia ao número da linha de ônibus que servia ao Bairro da Aclimação.)
Paraiso   bairro Paraíso (sinal usado em: SP) (inglês: Paraiso neighborhood): Bairro da zona sul da cidade de São Paulo, próximo à Avenida Paulista. Ex.: A Avenida Dr. Rafael de Barros fica no bairro Paraíso. (Fazer este sinal maçã: Mão em C horizontal, palma para trás, diante da boca. Girar a palma para cima.) (Etimologia: Trata-se de alusão à maçã do paraíso bíblico descrito em Gênesis.)
Figura 10. Duas das diversas entradas de sinais em que constam informações sobre etimologia.

Todas essas características fazem do Novo Deit-Libras: Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Libras) baseado em Linguística e Neurociências Cognitivas (Capovilla, Raphael, & Mauricio, 2009) uma obra ímpar, de surpreendentemente vasto escopo e notável profundidade, para fazer jus à grande complexidade linguística de Libras e a um dos maiores desafios postos à ciência da Neuropsicolinguística Cognitiva, que é o de desenvolver novos modelos científicos e ferramentas tecnológicas capazes de subsidiar uma guinada científica na educação brasileira rumo à eficiência na produção da competência.