| V3N1A06 - Sobre geração, cuidado e amor: uma compreensão de "Sonata de Outono" |
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Artigos Originais
Sobre geração, cuidado e amor: uma compreensão de "Sonata de Outono"
About generation, care and love: an understanding of "Autumn Sonata"
Jéssica de Sousa1 Pontifícia Universidade de São Paulo
RESUMO O presente trabalho pretende uma leitura do filme de Ingmar Bergman "Sonata de Outono" (1978), com foco na relação mãe-filha, tendo em vista que esta relação possui uma marca diferenciada: está referida a questão da origem. Através de uma compreensão da relação das personagens apresentadas no filme, deparamo-nos com considerações acerca da geração, do cuidado e do amor, temas concebidos como possibilidades de ser do homem. Palavras-chave: relação mãe-filha; geração; cuidado; amor ABSTRACT ABSTRAT: The present study aims the comprehension of Ingmar Bergman's film "Autumn Sonata" (1978), focusing on a distinguished aspect of the mother-daughter relationship, the origin. Through an understanding of the bounds of the characters featured in the film, we are faced with considerations about generation, care and love; the themes are conceived as man's possibilities of being. Key-words: mother-daughter relationship; generation; care; love
O existir humano se dá em diversas possibilidades. O cotidiano clínico aproxima o terapeuta da possibilidade de experimentar os mais diversos dilemas e questões que o existir traz à tona através da palavra alheia. Somos guiados por outros olhos, outras vozes. Porém, o que vemos, o que ouvimos não é, de fato, absolutamente desconhecido. Dessa forma, o convite para estar junto à experiência humana está posto também fora das paredes da clínica: está na música, na literatura, no cinema. Tantos os convites para nos aproximarmos da realidade que o outro viveu e, que ainda assim, é nossa. Nesse contexto, o presente trabalho aborda uma questão constante no cotidiano clínico: a relação entre mãe e filha – levando em consideração a pertinência dos temas geração, cuidado e amor – através da interpretação compreensiva do filme "Sonata de Outono" (1978) de Ingmar Bergman.
A visita, aparentemente cordial e alegre, vai desnudando a complexa trama existente na relação entre a mãe e a filha. O primeiro indício da fragilidade que sustenta os laços entre elas aparece quando Eva conta a Charlotte que Helena, sua irmã portadora de uma doença nervosa degenerativa, está morando com a família, afim de que possa ser melhor assistida. No meio da noite, um pesadelo. A porta do quarto de Charlotte se abre e Helena entra intempestivamente no aposento. Joga-se em cima da mãe, seu corpo está rígido. Charlotte é tomada por uma onda de pavor e acorda assustada. Quando Eva encontra a mãe acordada na sala, ambas iniciam um diálogo corajoso – na medida em que se disponibilizam a percorrer a escuridão de culpa e ódio que habita cada uma delas – porém, violento. Eva acusa a mãe de falta de amor, de abandono, de não a ver, de não a escutar e, por fim, acusa-a de ser a responsável pelo adoecimento de Helena. Assim, ao longo da noite, o pesadelo de Charlotte é trazido à realidade com uma lucidez apavorante. Charlotte a escuta, defende-se e surpreende-se com sentimentos que desconhecia em si. Não entende sua culpa, reconhece o ódio da filha e o próprio ódio. Diz que quer ajuda. Um grito ecoa pela casa. É Helena, que chama pela mãe. Já está fora do seu quarto, caída no chão. Quando Eva e Charlotte a encontram, estica, com dificuldades, os braços em direção à mãe. Charlotte deixa a casa na manhã seguinte. Já no trem, junto com um velho amigo, fala de seus concertos, das discussões que tem com alguns violinistas e de uma saudade persistente, mas ela não sabe dizer do que tem saudade. Ao mesmo tempo, Eva está andando pelo quintal de sua casa. Está muito triste e abatida. Pensa na mãe e em como esta de repente lhe pareceu velha e cansada. Tem medo de cometer suicídio. Sente que o filho está a seu lado. Olha para uma janela acesa: é o quarto de Helena. Imagina que Viktor, seu marido, está lhe contando que Charlotte foi embora. O filme termina com Viktor lendo uma carta que Eva escreveu para a mãe, depois de sua partida:
A relação entre mãe e filha possui uma marca diferenciada de todas as outras: é uma relação referida à origem. Do ponto de vista existencial, origem é diferente de começo. O começo das coisas possui um marco cronológico; responde a essa lógica. A origem está para além do começo, está no campo da atualização, do instante; é o sentido de uma vivência que permanece no presente. A mãe é 'de onde viemos' e a quem estamos intrinsecamente ligados, primeiramente, pelo cordão umbilical. Tanto do ponto de vista biológico, quanto do psicológico, o cordão umbilical marca uma relação de dependência. Durante as 38 semanas de gestação2, é essa ligação entre mãe e filho que garante a sobrevivência e o desenvolvimento do filho. Poucos dias depois do nascimento do bebê, o cordão murcha, seca e caí, mas, em termos afetivos, ele pode nunca deixar de existir. Isso significa que o sentido da ligação afetiva que o cordão umbilical expressa é constantemente atualizado no decorrer da vida, na forma de dependência ou independência. No caso do filme, vemos uma relação em que o cordão umbilical psicológico não foi rompido. A constatação de Eva de que é na sua infelicidade que a mãe encontra seu triunfo não deixa de ser terrível e verdadeira: denuncia a competição colocada à prova na relação entre elas. A competição pode ser entendida como uma saída mais cômoda para Charlotte, pois mantendo o relacionamento com a filha numa certa superficialidade, ela se isenta de colocar seus verdadeiros sentimentos e temores em questão. Assim, a competição é uma saída mais fácil do que caminhar pelo árduo terreno de se relacionar verdadeiramente: de estar afetivamente implicada nas situações vividas e de se responsabilizar pelos atos cometidos. Quando Eva conta a Charlotte sobre as aulas que leciona na paróquia, esta imediatamente lhe descreve a turnê de sucesso que obteve nos Estados Unidos, evidenciando o jogo competitivo, no qual o fracasso de uma é o sucesso da outra.
A relação humana só existe no contato. O contato, no entanto, pode se dar de diversas maneiras, e, considerando a relação mãe-filho, é comum a pensarmos imediatamente como uma relação amorosa. O contato amoroso promove a disponibilidade de estar com o outro. Na fala de Eva, entretanto, podemos inferir que Charlotte experimentava um modo de ser indiferente em relação à filha. Isso nos leva a pensar que uma relação amorosa se dá além do âmbito biológico, ser mãe não é suficiente para nutrir amor pela própria filha; e que o amor não é, em nenhuma circunstância, uma relação simplesmente dada, e sim construída, como veremos adiante. Segundo Winnicott (1956), "a falha materna provoca fases de reação à intrusão e as reações interrompem o 'continuar a ser' do bebê. O excesso de reações não provoca frustração, mas uma ameaça de aniquilação" (p. 403). Pode haver, portanto, para o humano, um comprometimento psíquico advindo da falta do contato amoroso. O próprio existir entra em questão quando não assegurado pelo amor primordial. No fim das contas, é essa a acusação de Eva à mãe: a falta de amor. Sua fala denuncia o desamparo a que era lançada diante das mensagens ambíguas da mãe; não sabia se era amada ou odiada e, assim sendo, não sabia se deveria amar ou odiar. Para Rollo May (1999), "(...) o processo de nascer do ventre materno, diferenciar-se da massa, substituir a dependência pela escolha existe em todas as decisões de nossa vida e é o que encontramos mesmo diante da morte" (p.99). Este processo assegura a realização da individualidade e é garantido quando a criança experimenta no ambiente materno uma segurança para vir a ser. Na primeira cena do filme, Eva nos é apresentada por Viktor, seu marido, que lê uma passagem de um dos livros publicados por ela:
Na obra de Winnicott o cuidado é um tema central. Segundo o autor, é a partir dos cuidados (contato, manejo corporal etc.) que as experiências sensoriais do bebê são gradualmente integradas à sua constituição psíquica (Winnicott, 1945, p. 224). Para Eva, que teve uma infância marcada pela indiferença e ausência materna, a sua existência, ou seja, seu poder ser, está constantemente ameaçado. A fala da personagem marca a falta em que vive e na qual, provavelmente, sempre viveu: a falta do amor.
Charlotte é uma mãe afetivamente ausente. Dedica-se à carreira e não ao exercício da maternagem. Em Orestia (apud May, 1999, p. 103), Ésquilo narra a tragédia Orestes e Electra, irmãos renegados pela mãe, Clitemnera, que lança o filho ao exílio e conserva a filha como serviçal. Para Rollo May (1999), "o mais chocante do drama, quando relacionado aos problemas de hoje (...) é a sugestão de que existem mães como Clitemnera" (p. 105). A acusação de falta de amor da mãe em relação à filha é inconcebível, segundo Charlotte. Porém, do mesmo modo que o cordão umbilical marca uma relação para além do campo biológico, ser mãe também não se restringe a esse âmbito: a maternagem não é somente biológica; é um modo do homem ser e se relacionar com os outros, se dá na presença do cuidado. Ser mãe não exige apenas a capacidade de parir uma criança, diz respeito à capacidade de gerar. Charlotte não pode apreciar novas qualidades que a experiência da vida traz, não pode gerar, não pode ser mãe; é engolida pela concertista. Diante da cobrança da filha, vislumbra o que poderia ser um arrependimento, arrependimento do que não realizou. A capacidade de gerar, de criar com o outro, exige a disponibilidade para se relacionar – não de forma precária, indiferente, e sim, de forma amorosa –, barreira quase intransponível para Charlotte. Ela nunca conseguiu retribuir as ofertas de amor e carinho de seu marido e suas filhas, nunca se lançou à construção de um modo de ser amoroso.
Charlotte reconhece a necessidade de sentir-se amada e de controlar os sentimentos de todos à sua volta. Reconhece a incapacidade de retribuir, de entrar em contato com o desamparo e com a fragilidade inerentes à condição de relacionar-se, de estar com o outro. Werther, personagem trágico de Goethe, quando experimenta o amor, o descreve para seu amigo dessa forma: "eu a encontrei, senti seu coração, a grande alma, em cuja presença eu parecia crescer para além de mim mesmo, por que eu era tudo que podia ser" (Goethe, 2002, p. 13). A experiência descrita pelo personagem está relacionada ao que poderia significar "crescer para além de si mesmo" e se tornar "tudo que podia ser", sensações que o sentimento amoroso nos remete, e que estão relacionadas com a plena satisfação que a existência de um outro pode trazer à nossa vida. O amor pode ser experimentado como uma sensação de que se é "tudo que se pode ser", de satisfação plena. Mas ser "tudo que se pode ser" por um outro – ou, na presença dele – concomitantemente traz à tona a impotência frente ao fato dessa satisfação depender da correspondência desse outro. Isso significa que quem ama dá ao amado o poder lhe satisfazer – plenamente – e lhe fazer crescer para além de si mesmo; e, ao mesmo tempo, dá a possibilidade de lhe magoar. Saint-Exupéry (2009) escreve à amada:
A constatação do autor demonstra que amar é, então, poder entrar em contato com a vulnerabilidade das relações humanas. A figura de Charlotte, entretanto, é a representação dolorida da indiferença e insensibilidade que uma mãe pode nutrir em relação à própria filha. Diante disso Eva e Charlotte são levadas a perder a ingenuidade que atravessa a "acusação inconcebível" de Eva: de que o amor materno é incondicional e absoluto. Afirmação também colocada em questão na tragédia de Ésquilo. A esse respeito, Winnicott (1999) escreve:
O amor, o contato amoroso, não pode ser reduzido a gestos ou palavras – como "minha amada filhinha" – só pode ser concebido como construção, como um esforço de ser de modo amoroso, que se realiza através do cuidado. Também Safra (2006, p. 33) aponta que o amor, mais do que um sentimento destinado a outra pessoa, é um acolhimento do outro, um sair de si. No entanto, a mãe, antes de tudo, é humana. É capaz de exigir sem nunca doar, de fazer doer na filha a dor que nunca pôde admitir em si. Assim, o amor é o ponto central do diálogo entre filha e mãe, o amor que Charlotte exigia e que Eva buscava sem sucesso.
Eva é categórica: Charlotte é culpada. É culpada pela doença de Helena, culpada pela dor irreparável e pela incapacidade de viver o amor a que Eva foi lançada. No filme, Charlotte nos intriga. Diante do ódio da filha, seria ela capaz de experimentar a culpa que lhe é atribuída? Ser enquanto existência é escolha: o homem decide pela própria vida e é responsável por suas decisões; assim, a possibilidade de viver a culpa sempre está presente. Porém, o modo como Charlotte se relaciona com as filhas é também o modo como vive a própria vida; relaciona-se com o mundo de forma superficial, indiferente. Não toma para si a responsabilidade por suas próprias escolhas, não consegue enxergar as próprias limitações afetivas. Acreditava que amava as filhas. E, neste contexto, não, não pode se sentir culpada. No entanto Charlotte é culpada por selar um destino em sua escolha: o destino de ser só. Quando foi incapaz de entregar amor às filhas, negligenciou a pureza do amor que lhes tinham. Sente falta de estar em casa, de ter uma família, mas quando chega ao lar, percebe que é de outra coisa que sente falta. Algo de que não consegue ter precisão.
A culpa de Charlotte não anularia toda a dor infringida à Eva e Helena, por sua invalidez afetiva. Mas podemos pensar o que esse reconhecimento traria à tona no relacionamento com a filha. Eva poderia perdoar-lhe diante da redenção e do reconhecimento da culpa: um outro panorama abrir-se-ia para o relacionamento delas. Eva reconhece a impossibilidade materna. A culpa permanece nela, que pode compreender. Então, culpa-se por fazer a mãe se deparar com o que não podia suportar. Culpa-se por fazer a mãe "fugir", mais uma vez, tomando a saída menos implicada. Não pode perceber que é a mãe que escolhe viver a vida isentando-se de experimentar um contato amoroso, que por um lado é arriscado, mas por outro, garante a possibilidade de estar com o outro. A escolha de Charlotte é não se responsabilizar; é, mais uma vez, dizer não a uma possibilidade amorosa de contato. Mas Eva não pode deixar de ter esperança, mesmo dizendo-se incapaz de perdoar a mãe. Charlotte exige o perdão de Eva – da mesma forma como exigia seu amor – sem se redimir. Não busca efetivamente uma tentativa de reparar o sofrimento que causou à filha, não se arrepende. Diante do ódio da filha, não pode mais, assusta-se com a própria insensibilidade, desespera-se. Charlotte, amedrontada pelo ódio monstruoso e insuportável de Eva, vive a constatação de que é tudo que realizou. Não há desculpas, não há perdão. Há esperança?
O outono, assim como a primavera, é uma estação de transição. Nelas ocorrem as transformações necessárias para o solstício de inverno e o de verão. O outono é o anúncio da escassez que virá com o inverno: as folhas secam e caem das copas das árvores, os dias ficam mais curtos, as cores perdem a vivacidade. Neste cenário encontram-se Charlotte e Eva; no outono afetivo. Reside aí a coragem de seu encontro; coragem de encarar a feiúra expressa nos sentimentos secos e sem cor, de encarar a morte daquilo que se almejava e, ainda assim, poder conservar a esperança de uma redenção, a promessa do perdão. Há a esperança de que nem tudo está perdido, de que "não pode ser tarde demais" (Bergman, 1978, p.127), de que depois do inverno, chegará, novamente, a primavera, com a renovação da vida.
Eva, diante de muitas tentativas fracassadas de manter uma relação amorosa com a mãe, não deixa de conservar a esperança. Uma esperança incerta, porém, inabalável. Ela aceita a escolha da mãe – constata que independente de seu esforço e sua vontade, a escolha do outro é livre. Resta-lhe apenas a possibilidade aceitar essa prerrogativa. Nesse sentido, sua esperança retrata o amor que nutre em relação à mãe, apesar de saber que não há retribuição, reconhecimento ou acolhimento para esse sentimento, ele, ainda assim, resiste. A esperança deve ser intacta: é a expressão de um amor que sobreviveu e a promessa de que o perdão é possível.
Bergman, I.(1978). Sonata de outono. 2ª. Edição, tradução de Jaime Bernardes. Editora Nórdica, Rio de Janeiro. Bergman, I. (Diretor). (1978). Sonata de outono (Höstsonaten) [DVD]. Alemanha, França, Suécia. Goethe, J. W. V. (2002). Os sofrimentos do jovem Werther. Tradução: Marion Fleischer. 2ª. Edição, São Paulo: Martins Fontes. May, R. (1999). O homem a procura de si mesmo. 26ª. Edição, tradução de Áurea Brito Weissenberg. Editora Vozes. Petrópolis. Newcombe, N. (1999). Desenvolvimento Infantil: a abordagem de Mussen. Artes médicas sul, 8ª. Edição, Porto Alegre. Safra, G. (2006). A hermenêutica na situação clínica: o desvelar da singularidade pelo idioma pessoal. São Paulo: Edições Sobornost. Saint-Exupéry, A. (2009). O amor do pequeno príncipe, cartas a uma desconhecida. Tradução de Alcilda Barbosa Caldeira Brant – Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Winnicott, D. W. (1999). Conversando com os pais. 2ª. Edição, tradução de Álvaro Cabral, São Paulo: Martins Fontes. __________. (2000a). Desenvolvimento emocional primitivo. In D. W. Winnicott, Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Tradução de Davy Bogomoletz. Rio de Janeiro: Imago. (original publicado em 1945) __________. (2000b). A preocupação materna primária. In D. W. Winnicott, Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Tradução de Davy Bogomoletz. Rio de Janeiro: Imago. (original publicado em 1956)
1 Psicóloga graduada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. 2 Segundo Newcombe (1999) o período de gestação completa é de 38 a 42 semanas após o último período menstrual da gestante (p.80). |




