Pesquisa no IP analisa os métodos de diagnóstico da dislexia - 29/9/2011 Imprimir E-mail
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As recentes notícias sobre a criação de políticas públicas para diagnosticar e tratar crianças com dislexia e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) em crianças de escolas municipais vão na contramão do real motivo da queixa de dificuldades de aprendizagem e leitura no processo de escolarização das crianças. Este assunto deu origem à idéia do projeto de pesquisa de mestrado de Sabrina Gasparetti Braga, que questiona os métodos utilizados. 
 

Para a pesquisadora, não é possível diagnosticar um distúrbio especificamente de leitura e escrita como se fosse uma doença física sem investigar o contexto do processo social em que a criança vive.
 

Em sua dissertação, “Dislexia: a produção do diagnóstico e seus efeitos no processo de escolarização”, orientada por Marilene Proenca Rebello de Souza, Braga fez um estudo de um caso único de uma criança, estudante de escola municipal, que recebeu o diagnóstico de dislexia quando tinha oito anos de idade. 
 

O estudo foi realizado quando a criança já estava com doze anos. Foi feita uma investigação da história que desencadeou o diagnóstico de dislexia, e, como se encontra a situação de Vinícius (nome fictício) hoje na escola, ou seja, que conseqüências foram geradas na sua vida escolar desde esse diagnóstico.
 

No caso estudado, o neurologista se baseou apenas no contato com a avó de Vinícius para diagnosticar o Transtorno de Défict de Atenção e Hiperatividade (TDAH), que indicou o tratamento com medicação e o encaminhou para uma associação que também confirmou a dislexia. 

“Não se pode diagnosticar TDAH em crianças, porque não se trata de uma questão estritamente biológica, e sim uma questão social, de relações interpessoais que envolvem fatores que vão além das dificuldades no processo de escolarização”, diz Braga.
 

O diagnóstico não seguiu as regras estabelecidas pelos protocolos de procedimento criados por pesquisadores que defendem a existência do TDAH ou dislexia. Ou seja, o médico e a própria associação não entrevistaram a família e as professoras de Vinícius e nem a coordenadora pedagógica da escola em que o menino estudou.
 

Em seu estudo, a pesquisadora entrevistou as professoras que acompanharam Vinícius desde o início de sua escolarização, além da mãe e a própria criança. Com as informações obtidas nos depoimentos, a pesquisadora pôde comprovar que Vinícius é capaz de aprender. No seu caso, não se trata de doença, e sim de dificuldade que a criança encontrou no processo de escolarização.
 

Outra questão importante observada pela pesquisadora é a medicação que essa criança toma desde que foi diagnosticada a TDAH acompanhada pela dislexia. Vinícius descreve que, desde os oito anos de idade, quando começou a tomar os remédios, sempre apresentou dores de cabeça, no coração, paralisação das pernas e que não consegue dormir sem o medicamento. O menino diz se sentir o tempo todo doente. A orientadora pedagógica da escola em que Vinícius estuda diz que ele sempre relata estar com dor e que já não acreditam nele.
 

“Não se diz que a criança tem uma doença ou que a criança tem dislexia ou transtorno de hiperatividade. Tem que se entender qual é a rede de relações que faz com que essa criança passe por tais dificuldades. Mas não é doença, logo não deve ter tratamento médico”, afirma Braga.
 

"Vinícus foi diagnosticado como portador de uma doença. De acordo com a professora,  ele tem problemas ortográficos, mas é o mesmo problema de toda a classe, e é agitado também como as outras crianças da escola. Ele percebe que é como os outros, mas foi rotulado e, por isso, se sente doente realmente”, declara Sabrina.


Além das conclusões expostas em sua dissertação, a pesquisadora acredita que a presença de um psicólogo no ambiente escolar é importante para mediar a interação professor-aluno e investigar as relações escolares e sociais para que favoreçam a aprendizagem do aluno e não seja depositada na criança, ou em nenhuma das pessoas relacionadas a ela, a culpa pela situação de queixa.

 
Por Idalina Nogueira e Islaine Maciel




 

 


Instituto de Psicologia da USP

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