Curiosidade e fascínio pelo ser vivo - Jornal da USP, 26/3/2012 Imprimir E-mail
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MEMÓRIA
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Morto no dia 14 de março, o professor do Instituto de Psicologia César Ades deixa um legado de importantes pesquisas sobre o comportamento animal.


Apaixonado pelo comportamento animal e fascinado pelas relações humanas, César Ades, professor do Instituto de Psicologia e ex-diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA), ambos da USP, morreu na noite do dia 14 de março, em decorrência de traumatismos sofridos em um atropelamento, quando andava pela avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo. Aos 69 anos, ele deixa formada uma geração de psicólogos e etólogos.


Formado em Psicologia Experimental e Etologia (área que estuda o comportamento animal), teve uma carreira proeminente, deixando um legado de importantes pesquisas, 50 orientações e livros, entre outras atividades. Foi diretor do IEA de 2008 a 2010, diretor do Instituto de Psicologia entre 2000 e 2004, vice-diretor dessa unidade de 1998 a 2000 e docente do Departamento de Psicologia Experimental. “Foi uma personalidade de grande relevância no meio acadêmico brasileiro, por sua importância científica na área de psicologia experimental e grande dinamismo como professor e gestor bem-sucedido nas direções que assumiu”, ressalta Emma Otta, atual diretora do Instituto de Psicologia da USP.


Francisco Dyonísio Cardoso Mendes, professor da Universidade de Brasília, amigo de doutorado de Ades, diz que ele foi aluno do primeiro etólogo do Brasil, Walter Hugo de Andrade Cunha, mas na verdade foi Ades quem expandiu a etologia no País. “Uma vez alguém lhe perguntou qual era a sua linha de pesquisa. Ele disse que era a curiosidade. Ele trabalhava com praticamente qualquer bicho. E, por seu carisma, ajudou a difundir a importância de entender o comportamento animal.”


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César Ades: entusiasmo pela ciência e pelo ser humano


Aberto às diferenças – “Homem de olhar curioso, multidisciplinar, mente brilhante e, o mais importante, muito carinhoso com todos.” Assim Carine Savalli Redigolo, doutoranda em Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia, define Ades.

Com a voz embargada, Carine conta o quanto o seu orientador era “uma pessoa incrível”, atenta a todos os detalhes e extremamente ativo. “Uma das poucas pessoas entusiasmadas e animadas pelo comportamento animal. Até mesmo durante seus passeios pela Cidade Universitária não deixava de observar uma teia de aranha e relatar o comportamento dela”, ressalta.


Ela lembra que Ades, mesmo diante das diferenças de ideias entre os seus orientandos e pares, sempre tinha um abraço afetuoso, garantindo que as diferenças não diminuíam a amizade. “Ele foi um orientador que sempre dividiu suas ideias, partilhou conhecimento e promoveu a troca de experiências entre todos que com ele se envolviam de alguma forma. Foi ele quem me entusiasmou a fazer o segundo doutorado e me ensinou a gostar de animais como nunca havia pensado antes”, destaca Carine.


Para a professora Vera Bussab, colega de departamento, Ades era uma pessoa cativante e envolvente. Sempre acolhia com entusiasmo as novas questões e tinha diversos ângulos para retratar e olhar os temas em estudo. “Raramente se vê um professor com capacidade de envolvimento, buscando sempre fomentar a curiosidade do aprendiz”, ressalta.


Ades nasceu no Cairo, Egito, em 18 de janeiro de 1943, e veio ao Brasil aos 15 anos. Graduou-se em Psicologia em 1965 pelo Instituto de Psicologia da USP, tornando-se professor titular do Departamento de Psicologia Experimental em 1994.


As principais linhas de pesquisa de Ades relacionavam-se com etologia e comportamento animal. Era editor da Revista de Etologia, membro do conselho editorial das revistas Behavior and Philosophy e Acta Ethologica e integrava o International Council of Ethologist, a International Society of Comparative Psychology e a Sociedade Brasileira de Etologia, da qual foi fundador e vice-diretor de 2008 a 2010.


Seu fascínio pelo ser vivo o fez traçar uma trajetória de investigação pelas mais diferentes espécies, quebrando paradigmas sobre as capacidades de algumas delas. Ele demonstra isso com o comportamento da aranha, aracnídeo que gostava muito de estudar, afirmando que, assim como os cachorros, elas têm memória e são capazes de aprender.

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Outra façanha do professor foi observar a vocalização dos muriquis, maior primata das Américas, concluindo que estes têm uma espécie de vocabulário com pelo menos 38 chamados diferentes. E entre os cães vira-latas, descobriu o quanto são capazes de aprender a “falar” o que querem, por meio de um painel com símbolos arbitrários.


É unânime entre os colegas de ofício que César Ades sempre tinha um sorriso e palavras agradáveis para todos. Além de produzir conhecimento, também contava histórias. Entusiasmava-se e tinha curiosidade pelas pessoas e animais. Estava sempre disposto à reflexão, era um pesquisador sistemático que buscava sempre integrar as áreas de conhecimento.


Vera Bussab o via como uma referência em sensatez e sensibilidade humana. “No velório foi uma comoção muito forte para todos os integrantes do Instituto de Psicologia. Todos, professores, funcionários e alunos, têm algo a contar sobre César Ades. Ele nunca passava sem deixar um afeto registrado.”


Vera conta ainda que ele não dirigia, não fumava, gostava muito de andar para observar as pessoas e a natureza com seus insetos e animais. Deixou duas filhas, morava só, e mantinha bom relacionamento com a ex-esposa.






Editorial
DOIS HUMANISTAS


As mortes recentes de César Ades e de Aziz Ab’Sáber foram um choque não só para a Universidade, mas para toda a comunidade acadêmica brasileira – e também a internacional. A de Ades se revestiu ainda mais de assombro pelo absurdo como se deu. Mas não cabe aqui neste espaço tecer comentários sobre o caótico trânsito das grandes cidades ou elencar tudo o que esses dois grandes professores e pesquisadores fizeram pela ciência. No mais, os textos das páginas 12 e 13 desta edição se ocupam de fazer a justa homenagem à memória desses dois homens.

Talvez aqui, em um espaço exíguo mas nem por isso menos importante, caiba mais um convite à reflexão acerca da falta que Ades e Ab-Sáber farão para a cultura brasileira. Porque, mais do que expoentes em suas áreas de atuação – o primeiro na Psicologia Experimental, o segundo na Geografia –, ambos ocuparam um espaço muito mais amplo no espectro cultural do País, extrapolando suas atividades acadêmicas estritas e ajudando, de várias maneiras, o Brasil a pensar (e entender) o Brasil.

Poderíamos chamá-los de humanistas – talvez os últimos exemplos plenos dessa estirpe multifacetada e de gostos e curiosidades tão variadas. Em um tempo de determinismos e habilidades específicas, César Ades e Aziz Ab-Sáber farão muita falta. Não apenas pelas muitas perguntas que ajudaram a responder. Mas também pelas várias questões que ousaram formular.

Por IZABEL LEÃO
Jornal da USP, 26/3/2012

 


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