Adiamento da maternidade: tese de doutorado defendida no IP aponta desconhecimento e idealização no fenômeno contemporâneo - 5/6/2012 Imprimir E-mail
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1Postergar a chegada dos filhos é uma escolha cada vez mais presente em nossa sociedade. O avanço na ciência, com o desenvolvimento de métodos contraceptivos e de técnicas de fertilização mais eficazes, e as transformações na sociedade, como a massiva presença das mulheres nas salas de aulas e no mercado de trabalho e o distanciamento entre atividade sexual e reprodução, são dois ramos fortes que sustentam tal escolha. No entanto, esse contexto facilitador, atrelado a discursos circulantes de poder e de controle, pode ter feito do adiamento da maternidade um fenômeno muitas vezes carregado de desconhecimento e de idealizações.


Foi pensando nessa relação contemporânea com a escolha da maternidade - e as angústias que ela vem causando - que Maria Galrão Rios Lima desenvolveu a tese de doutorado intitulada Um estudo sobre o adiamento da maternidade em mulheres contemporâneas, defendida recentemente pelo programa de Pós-Graduação Clínica do IPUSP.


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A pesquisa de Maria Rios baseou-se na vivência de oito mulheres habitantes da região metropolitana de São Paulo, todas com idades entre 35 e 41 anos, com mais de oito anos de escolaridade, em um relacionamento estável e que optaram por ter o primeiro filho depois dos 35 anos. Para definir tais características, foram levados em consideração fatores como nível de fertilidade, grau de controle sobre a concepção e influência na decisão reprodutiva. As mulheres, então, foram divididas em dois grupos iguais, diferenciadas pelo fato de terem ou não o filho após a idade estabelecida.


A análise feita pela pesquisadora propôs-se a pensar especificamente a influência dos fatores conjugalidade, carreira profissional e história de vida da família na determinação da escolha da postergação. A tese, porém, não teve o propósito de fazer generalizações. Reconhecendo os aspectos comuns e discrepantes às vivências relatadas de mães e não-mães, procurou refletir o fenômeno do adiamento em diálogo com reflexões psicossociais e psicanalíticas apresentadas no trabalho.


A construção de uma carreira profissional, apesar de relevante, não se mostrou primordial na decisão do adiamento. Rios aponta mais importância na procura de uma estabilidade financeira do que no próprio desenvolvimento da carreira.

Já a conjugalidade apareceu como um aspecto de extrema relevância na postergação da maternidade. Nessa união, chamaram a atenção dois quesitos: a escolha de um “parceiro-ideal” e de uma conjugalidade desvinculada da parentalidade. Sobre a escolha

do parceiro, Maria Rios observou um alto grau de idealização. Com relação à conjugalidade desvinculada da parentalidade, todas as mulheres entrevistadas deram grande importância à vivência de uma relação conjugal plena e sem filhos por um espaço de tempo.


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Abordando a questão da sociologia da família contemporânea, Rios coloca em pauta uma transformação no modelo conjugal tradicional. “A conjugalidade hoje seria valorizada a partir do momento em que ela é fonte de satisfação para o sujeito. O foco não é casar para constituir uma família. É o casamento para satisfação pessoal. Talvez por isso elas valorizem tanto esse tempo a dois”.


Mas a partir da hora em que a satisfação se volta para o nascimento do filho, Rios levanta a questão de que a maternidade pode ir além do “querer ou não querer”. Ela explica que os discursos que circulam em nossa sociedade a respeito de mulheres “superpoderosas” e de uma medicina infalível são responsáveis por criar uma ilusão de controle. Como se a gravidez fosse totalmente independente do quesito idade e como se os tratamentos médicos fossem 100% garantidos. Mas os discursos não representam fielmente a realidade, são, portanto, idealizados, e Rios chama a atenção para o “grande potencial de gerar sofrimento” que eles possuem.


Curiosamente, Rios verificou que “muitas vezes, as mulheres fazem um uso bastante defensivo do discurso contemporâneo, da possibilidade de poder e de controle sobre a reprodução para” – mais uma vez, em caráter defensivo – “camuflar as angústias e o sofrimento psíquico decorrentes da dificuldade de integração entre as questões de onipotência/impotência, de maturidade/imaturidade em face da concepção”.


Outra ideia recorrente no adiamento é que a idade avançada proporcionaria mais maturidade para lidar com a maternidade. Mas, diante das análises, Rios concluiu que a idade em si não determina a maturidade. Ela está mais ligada à experiência de vida e aos recursos psíquicos de cada uma.


Sobre os resultados obtidos ao longo das análises, Maria Rios espera que eles contribuam para uma “visão menos idealizada e mais autêntica da maternidade, justamente para se poder viver de forma mais saudável e criativa, dentro dos conceitos winnicottianos  apresentados na tese”, em que há uma relação entre sentir-se real e poder fazer.


Por Ana Paula Machado

 


Instituto de Psicologia da USP

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Cidade Universitária - São Paulo - SP

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