A necessária educação emocional - Jornal da USP, 11/6/2012 Imprimir E-mail
Notícias - Na Mídia

Professores do ensino fundamental e médio precisam ser preparados para ensinar crianças e adolescentes a lidar com a morte, dizem especialistas em evento no Instituto de Psicologia

4-Ceclia-Bastos
A professora Carlyne faz palestra durante o evento no Instituto de Psicologia: "A gente tem que legitimar a dor do enlutado em sala de aula e ouvir o sentimento do aluno"


Em abril do ano passado, doze crianças foram assassinadas na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, por um ex-aluno da própria escola. Num dos colégios em que leciona em São Paulo, a professora de Língua Portuguesa Carlyne Paiva recebeu o pedido da coordenadora pedagógica para abordar o tema com os alunos. “Estavam todos muito abalados, se perguntando se aquilo poderia acontecer na escola deles também”, conta.

Carlyne foi a “escolhida” porque utiliza ferramentas de sua disciplina – histórias e poemas – para trabalhar sobre morte e perda com os estudantes de ensino fundamental II e médio. No caso do massacre de Realengo, pediu aos alunos que falassem sobre o que estavam sentindo. As próprias crianças propuseram fazer um minuto de silêncio em homenagem às vítimas, reunir-se numa roda de orações (da qual só participou quem quis) e enviar cartas de apoio aos colegas do Rio. “A gente tem que legitimar a dor do enlutado em sala de aula e ouvir o sentimento do aluno”, defende a professora.

Poucas semanas depois, a própria Carlyne experimentou o luto, com a perda da mãe. Foi então que seus alunos do sexto ano (crianças de 10, 11 anos) proporcionaram o acolhimento à sua dor: entregaram-lhe cartas e cartões com mensagens do tipo “pera aí, você ainda tem a gente pra cuidar!”; deram-lhe um banner com a foto da turma e fizeram ainda uma festinha em sala de aula porque não queriam ver a professora triste. “Adultos não fariam isso. Os abraços de muitos adultos foram uma formalidade, mas aquilo que as crianças fizeram veio do coração. Foi o melhor presente que alguém já me deu”, diz Carlyne. Sua conclusão: vale a pena falar sobre o tema na escola, até para que as crianças desenvolvam condições de lidar com a morte – um fato natural e inescapável da vida – de forma mais saudável.

Perdas – Embora a imagem da comunidade escolar esteja associada à fase inicial da vida, ela também não escapa das perdas. Professores, funcionários, familiares de alunos e mesmo crianças morrem ao longo do ano letivo. A morte, portanto, tem que estar, digamos, no currículo. “Se falar disso não é nossa tarefa, qual é então a tarefa da educação?”, pergunta a professora Miriam Guimarães, coordenadora de capacitação da Associação pela Saúde Emocional da Criança (Asec). “A educação que inclui a dimensão emocional melhora as relações em sala de aula”, defende Miriam. Afinal, lembra ela, se há uma disciplina chamada Educação Física, por que não oferecer também a sua congênere?


Carlyne e Miriam foram as palestrantes do módulo “Morte na Escola”, uma das mesas da 1ª Jornada Morte e Luto, promovida pelo Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM) do Instituto de Psicologia (IP) da USP, no dia 30 de maio. A boa presença de público e a relevância dos temas discutidos fizeram com que, desde logo, as jornadas estejam confirmadas como evento anual do IP.


Miriam apresentou o Programa Amigos do Zippy (www.amigosdozippy.org.br), iniciativa da Asec que tem parceria com o LEM há oito anos. O programa capacita os professores para lidar com a dimensão emocional das crianças em sala de aula e já envolveu mais de 4 mil docentes de vários Estados. Os seus relatos, de acordo com a coordenadora, atestam que os mestres se sentem aliviados em saber que estão “livres” para responder aos alunos, por exemplo, que não sabem o que acontece depois da morte. Conforme, aliás, testemunhou Carlyne Paiva, o professor deve ressaltar que há diversas ideias e concepções a respeito, e não lhe cabe oferecer “a” resposta, até para não criar conflito com as diferentes orientações religiosas das famílias das crianças.


Para Miriam Guimarães, as famílias também ficam agradecidas ao saber que os professores podem desenvolver o tema de maneira adequada. “Os professores conhecem bem seus alunos e são os melhores para falar sobre a morte quando se sentem mais capacitados a fazê-lo”, diz. A escola, argumenta, não pode ocupar-se apenas dos aspectos cognitivos e deixar de lado os emocionais – até porque muitas dificuldades de aprendizagem não estão ligadas exclusivamente ao cognitivo.

Falar abertamente – É na tentativa de “evitar o sofrimento” que os adultos cometem muitos erros ao falar da morte para as crianças, diz a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto (Lelu) da PUC de São Paulo. “Ah, mas a criança vai ficar emocionada. E?…”, pergunta. “Isso é dificuldade de adulto.”
A psicóloga defende que, ao falsear a realidade da morte, especialmente de alguém da família, o adulto fecha a possibilidade de troca e interdita a experiência à criança. Para Maria Helena, é preciso deixar claro que aconteceu uma mudança, que aquela pessoa não voltará mais e que haverá dificuldades – porém, que elas serão enfrentadas em conjunto. “Crianças em luto precisam de continuidade com seus grupos e suas rotinas, e não ruptura; de contato, e não isolamento; e de conexão. É preciso falar o que aconteceu. A criança entenderá. Da maneira dela, mas entenderá”, afirma.


A criança deve inclusive ser levada ao velório, considera Maria Helena, embora não deva ficar muito tempo e nem assistir aos momentos mais pesados, como o fechamento do caixão. Depois, um adulto de sua confiança pode levá-la para realizar alguma atividade, deixando-a livre para fazer perguntas. “Esse é o melhor caminho para saber o que se passa na cabeça dela”, aponta.


A jornada teve ainda uma mesa sobre tragédias e emergências e o lançamento do DVD Falando de morte na escola, produzido pelo LEM. Assunto para as próximas edições não faltará, como disse a professora Maria Júlia Kovács, coordenadora do LEM, ao avisar que só havia tempo para mais uma questão da plateia numa das mesas: “É a última pergunta neste recinto, porque as perguntas continuam pelo resto da vida”.


A morte como espetáculo
Os recorrentes massacres envolvendo jovens que matam professores e alunos em escolas são manifestações de crimes tipicamente midiáticos, em que a origem está no perfil psicológico do assassino, mas seu gesto final é da ordem do espetáculo. Ao falar da cobertura desses crimes na mesa “Mídia e Tragédias”, o jornalista Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, levantou vários questionamentos sobre o porquê dessas coberturas despertarem tanto fascínio e audiência.


Para Bucci, o sensacionalismo realça o que é abjeto e não aceitável, provocando um paroxismo de sensações, mas também tocando em pontos do prazer, do desejo e do gozo. “O sensacionalismo busca o medo e aí tenta encontrar cenas que o ilustrem. A notícia apenas favorece a exploração dessas sensações limítrofes”, argumenta.

4-Francisco-Emolo
Eugênio Bucci: o fascínio das tragédias

O jornalismo, para o professor, não tem condições de equacionar sozinho o problema, porque as questões envolvidas ultrapassam em muito o seu campo. “Elas mergulham nos subterrâneos de uma sociedade que aprendeu a idolatrar a força dos que dizem viver além da lei e que entendem a vida como se ela fosse um filme, no qual é melhor ter o papel de bandido do que não ter papel nenhum”, afirma.

Antes que seja imposta umacensura ou a supressão do direito   de  ver esse  tipo de coisa, cabe à imprensa criar espaços críticos nos quais possa questionar esses relatos e permanecer em diálogo constante com a sociedade.


Por Paulo Hebmüller
Fotos: Cecília Bastos e Francisco Emolo

Jornal da USP,  11/6/2012
 


Instituto de Psicologia da USP

Av. Prof. Mello Moraes 1721
CEP 05508-030
Cidade Universitária - São Paulo - SP

Your are currently browsing this site with Internet Explorer 6 (IE6).

Your current web browser must be updated to version 7 of Internet Explorer (IE7) to take advantage of all of template's capabilities.

Why should I upgrade to Internet Explorer 7? Microsoft has redesigned Internet Explorer from the ground up, with better security, new capabilities, and a whole new interface. Many changes resulted from the feedback of millions of users who tested prerelease versions of the new browser. The most compelling reason to upgrade is the improved security. The Internet of today is not the Internet of five years ago. There are dangers that simply didn't exist back in 2001, when Internet Explorer 6 was released to the world. Internet Explorer 7 makes surfing the web fundamentally safer by offering greater protection against viruses, spyware, and other online risks.

Get free downloads for Internet Explorer 7, including recommended updates as they become available. To download Internet Explorer 7 in the language of your choice, please visit the Internet Explorer 7 worldwide page.