(Ent)Revista TransFormações em Psicologia: Marlene Guirado Imprimir E-mail
Publicações - Revista Transformações


(ENT)Revista TransFormações em Psicologia

Marlene Guirado

Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo


A Psicologia, como campo do saber, é reconhecida por sua diversidade epistemológica. Visando a conhecer as experiências de pessoas que transitaram por diferentes lugares nesse campo, a Revista TransFormações em Psicologia entrevistou Marlene Guirado, professora associada do Departamento da Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo - IPUSP. A entrevista foi realizada em meados de 2013. Em sua fala, Marlene esmiúça o desenvolvimento de sua prática e das teorias que constrói e em que se embasa.


Revista TransFormações em Psicologia: Marlene, você teve, no começo de sua carreira, uma proximidade com a etologia. Sabemos que hoje você trabalha com outras teorias. Gostaríamos de saber um pouco mais da sua trajetória, dessas mudanças, escolhas, o que a levou a isso...

Marlene Guirado: Quando você falou que eu gostava de Etologia, eu me remeti à minha dissertação de mestrado. Na verdade, não é bem que eu gostava de Etologia, eu tinha um interesse muito mais voltado para a situação concreta que era a internação de crianças em instituições. Eu trabalhava numa creche que era um internato. Logo no final da minha formação em Psicologia, eu entrei para trabalhar lá. Eu tinha uma experiência de trabalho em Educação enquanto fazia Psicologia, e antes até.

Eu fui trabalhar nessa creche/orfanato e eu acompanhava algumas crianças que sofriam muito quando elas eram internadas e vinham diretamente da FEBEM [Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor]. Sofriam também quando não vinham da FEBEM, mas quando vinham era um sofrimento muito especial, era um sofrimento, assim, como numa espécie de inércia. Quando eram muito pequenas e elas vinham da FEBEM, elas iam definhando. Era como se tivesse uma característica assim: a dor não doía, definhava. E quando elas vinham da família, eu observava que elas tinham uma reação muito violenta. Como eu entrei aqui na pós-graduação logo que terminei a graduação, interessei-me pelo estudo da separação materna e internação na instituição, e me interessei especificamente por um autor que chama John Bowlby [1907-1990].

Eu não tinha estudado Bowlby na graduação. Não me lembro como eu tive acesso ao Bowlby, mas não foi na graduação; eu acho que foi mesmo pesquisando por conta do trabalho nessa creche. E o Bowlby é quem fazia um trabalho entre a Etologia e a Psicanálise. A Psicanálise dele é muito precária, a Etologia dele é mais forte. Então, eu fiz minha dissertação de mestrado preocupada mais com a separação das crianças e os efeitos dessa separação, nas crianças em relação às suas famílias, e a interação com a instituição. Como o Bowlby trabalhava com etologia, eu segui a pista do Bowlby. Foi no mestrado que eu percebi, também, que o Bowlby não bastava. Eu fui, então, estudar o René Spitz [1887-1974] e ele já não tem tanta Etologia quanto o Bowlby, tem mais Psicanálise. Nesse tempo, eu já estava estudando mais o Freud, mas queria mais e fui procurar grupos de estudos, mas não tinha ninguém nesse mundo que fazia grupo de estudos de Freud. Todo mundo só fazia grupo de estudos de Freud por Melanie Klein, por Lacan, então eu estudei alguns meses Freud por Klein e era um desastre completo.

Aí eu comecei a estudar Freud por Lacan e estudei bastante tempo, só que Freud por Lacan não existe, existe Lacan. E aí eu estudei, fui me envolvendo, quem sabe um dia chegava o Freud, mas não chegou. Aprendi um pouco de Lacan, até para ver que não era aquilo que eu queria, até o dia que eu consegui dizer no grupo que não, que havia um equívoco naquelas coisas todas, que eu não queria estudar mais Lacan, simplesmente porque não era Lacan que eu queria estudar. Era Freud.

Revista TransFormações em Psicologia: Marlene, no “Instituição e relações afetivas” [1986] você usa o Lacan para fazer a sua intervenção na FEBEM. Parece que, no começo do capítulo, você tenta usar o Freud, mas para aquilo que você se propôs não é possível e aí você acaba usando o Lacan. Tem a ver com esse começo que você estudou o Freud pelo Lacan?

Marlene Guirado: Então, “Instituição e Relações Afetivas- um estudo feito na FEBEM-SP” é a minha tese de doutorado. Primeiro foi “A Criança e a Instituição FEBEM:considerações feitas a partir de alguns casos de internação”. A dissertação virou livro: “A Criança e a FEBEM” [1980].É um livro que, para dizer a verdade, é contundente na maneira de descrever. Ele é descritivo de uma situação, muito mais do que interpretativo, do que analítico. Mas ele é um viva à sensibilidade de escrever e de recortar na descrição a situação candente, que era a de separação e internação na FEBEM, a partir das observações. Aí eu continuava fazendo essas coisas: estudando Freud, depois Spitz. E aí eu comecei a estudar o Lacan e comecei a fazer o doutorado. Então, o doutorado, quando eu defendi, eu já tinha me apartado dos grupos lacanianos. Mas eu sabia trabalhar com o discurso lacaniano. Porque nunca, nunca eu trabalhei com ele naquela cadeia de significantes esvaziada de sentido.

Uma coisa que eu aprendi com Lacan foi a pensar a questão da posição do sujeito na fala, e isso foi muito importante para mim. Pensar que eu podia, por exemplo, entender que o que os meninos me falavam era passível de ser analisado tomando a posição que eles ocupavam enquanto falavam – os meninos já maiores da tese de doutorado. Porque eu fiz entrevistas com meninos e meninas adolescentes internados na FEBEM e analisei o discurso deles. Do Lacan, eu tomei isto e até hoje é importante para mim. Já revisto, fora da compreensão estruturalista lacaniana, em outra perspectiva, mas é importante. Eu não teria chegado a isto com o Freud, por exemplo.

Outra coisa em que não daria para chegar com o Freud, para analisar os discursos com o conceito de instituição do José Augusto Guilhon Albuquerque [1941-] era tomar a questão na representação do discurso. Com o Freud não daria para chegar aí. Então eu precisei instrumentalizar o discurso teórico-conceitual lacaniano para trabalhar com representação no discurso, porque, com ele, eu pude dizer que não teria nada além nem aquém da linguagem; que está tudo lá. Então, deu para trabalhar. Mas, por exemplo, eu deixei completamente de lado, propositadamente, toda a discussão das estruturas discursivas e estilos de discurso. Eu sabia deles. Pensei nisso. Eu analisei do jeito que hoje eu analisaria, mesmo: completamente livre. Eu fiz um roteiro de entrevista que os lacanianos detestariam, porque o meu roteiro de entrevista primava, e prima até hoje, pelo fato de as pessoas falarem sobre o cotidiano, sobre o fazer deles, sobre o dia deles. Imagina, isso não tem nada a ver com um discurso provocado ou não provocado por um lacaniano em uma sessão, por exemplo. Isso não é alvo de análise, ao contrário, é Imaginário puro. E os lacanianos dizem, em todas as bancas das quais eles participam, que eu trabalho com Imaginário. E eu digo: “Sim, senhor, é verdade”.

Revista TransFormações em Psicologia: Então não se pode dizer que nesse momento é que surgiu a Análise Institucional do Discurso.

Marlene Guirado: Sim. Na minha tese de doutorado, surgiu a Análise Institucional do Discurso. Surgiu concretamente. Como análise. É que eu não tinha ainda todo o jogo conceitual que eu tenho hoje para justificar, por isso que eu precisei de meia-dúzia de termos do discurso lacaniano. Hoje eu não precisaria de jeito nenhum deles. Olha, porque isso foi em 1985, faz trinta anos. Trinta anos, conceitualmente, é meio mundo. Mas naquela época eu não tinha, então eu não sabia que eu não pensava com o estruturalismo. Eu não sabia. Eu pensava com a pragmática, do Jakobson [1896-1982]. Eu não pensava com o estruturalismo. As contradições teóricas não estão na análise concreta que eu fiz. Eu tenho mais contradição na justificativa teórica do método, naquele trabalho, do que na análise. A análise é límpida, ela é certeira. Agora, para justificar eu tive que fazer uma manobra. Não me arrependo, sabe, passou. Até porque tinha o Luiz Carlos Nogueira, que tinha sido meu professor de Lacan, que estava na banca. Ele só não gostou de eu ter feito análise institucional. Mas ele gostou das coisas que eu falei. Então, depois dali... A minha análise era muito mais condizente com o que eu faço, gosto de fazer e continuo fazendo até hoje. Eu acho que ali foi o instante de criação e o instante de fundação da Análise Institucional do Discurso, privilegiado na análise concreta entre os discursos. Já na parte que eu tentei justificar, eu fiz o possível com os recursos conceituais que eu tinha na época, foi aí que eu cresci muito.

Revista TransFormações em Psicologia: Foi depois desse momento que você descobriu o Michel Foucault [1926-1984], pelo Guilhon.

Marlene Guirado: Pelo Guilhon. Naquele momento, eu só tive o conceito de instituição dele, e também é muito restrito em relação ao Foucault porque ele insiste muito na tônica repressiva das relações de poder e Foucault não, mas foi a partir daí que eu cresci muito. Eu não conhecia praticamente nada quando escrevi minha tese de doutorado. Aí eu me apaixonei pelo Foucault. Então vem todo o resto até chegar na minha livre docência em que eu comento o método. É um trabalho muito importante para mim, o da livre docência, mas é sobretudo um trabalho importante por eu ter podido resgatar, no plano conceitual, uma organização que a análise concreta do discurso que os meninos e as meninas da FEBEM já tinham feito. É incrível isso. Quando eu pego para analisar, hoje, eu falo “meu Deus, faria a mesma coisa?”. Não sei. E hoje eu me dedico mais ao trabalho na clínica, pensando a clínica psicanalítica como análise de discurso. Hoje é o que eu faço predominantemente, e eu jogo minhas fichas para produzir alguma coisa nova. Essa analítica da subjetividade me provoca a pensar, é uma análise que não se fecha em uma teoria prévia.

Então, não é que eu tinha um interesse na etologia, eu tive interesse já concreto. Essa perspectiva institucional, esse trabalho institucional sempre me chamaram atenção e foi ele o carro chefe de tudo que eu pude pensar. Agora, eu sou uma pessoa que tem uma inquietação intelectual que é sempre muito puxada pela experiência concreta mesmo, pelo trabalho concreto. Por isso que me faz sentido fazer pesquisas a partir daí.

Revista TransFormações em Psicologia: É uma experiência concreta, mas sempre através do discurso, da análise que você faz dos discursos?

Marlene Guirado: É, porque para mim o trabalho é sempre no e com o discurso só. Quando eu aprendo com Foucault a ideia de discurso-ato, eu falo “puxa, mas é verdade”, quer dizer, é discurso acompanhar uma criança que definha, ela chora. Começa a chorar e dali a pouco já não chora mais, só escorre uma lágrima. E o choro era, em ato, a expressão, a comunicação dela; a partir da hora que ela não chora mais, ela só se debruça naquelas gradezinhas do internato e a lágrima corre, e depois a lágrima seca, esse é o jeito dela expressar que está morrendo. É com ela que a gente vai lidar e é isso que a gente tem que entender e é com isso que a gente tem que trabalhar.

Foi isso que me fez fazer a pergunta “por que essas crianças vêm para cá assim? E as outras vêm ainda brigando?”. Para dizer que estão sofrendo. Porque para essas parece que a dor já dói, elas se abandonam, numa inércia que vai levá-las à morte. Se não houver uma ação imediata, vai levar à morte. Então, isso que me levou a fazer a primeira pergunta “como é essa separação quando essa criança é levada para a FEBEM e não para um lugar que pode acolhê-la mais de imediato, com o mínimo de aconchego, de uma comunicação, para poucos, com o atendimento de necessidades básicas, também de comunicação, também de contato e não só de comida. Então, isso levanta perguntas que eu vou buscar responder e aí é nessa busca de respostas que eu aprendo.

Revista TransFormações em Psicologia: E hoje você ainda leva o trabalho em instituições?

Marlene Guirado: Eu dou supervisão para instituições, ainda hoje, e a instituição em que eu trabalho é essa Universidade de São Paulo que me apresenta desafios cotidianos. Eu estou no consultório, estou numa instituição.

Revista TransFormações em Psicologia: E você vê diferença entre o trabalho nas instituições concretas como a FEBEM e o trabalho na clínica?

Marlene Guirado: Sim, tem uma diferença, claro, porque são lugares diferentes que a gente tem instituídos. Uma coisa é ter uma clientela feita de pessoas que me procuram diretamente para uma terapia ou para uma análise e eu me posto como analista ou como terapeuta e outra coisa é alguém que está lá e não tem na vida nenhuma outra forma de sobrevivência sem a custódia de uma instituição e uma instituição que visa uma tal de ressocialização. Agora eles dão outro nome pra isso mas que quer dizer a mesma coisa: medida socioeducativa. Eles estarem sob medida socioeducativa quer dizer que eles estão lá por ordem do juiz para serem educados e depois serem devolvidos a sua comunidade quando o juiz determinar, então estão num sistema entre a educação e a justiça, mas estão ali completamente à mercê, a vida deles inteira está à mercê dessas duas grandes instituições. Criam-se lugares de atendimento e de demanda que são muito diferentes, mas são instituições.

Dependendo do que se demanda e do que se oferece como serviço são diferentes, mas são lugares de demanda e de relação de clientela do mesmo jeito. Eu me posto da mesma maneira. Aí eu estou criando uma relação que é institucional. É com isso que eu trabalho, eu tenho que prestar atenção nisso, o lugar que eu ocupo para esta pessoa que demanda meu trabalho no consultório, o lugar que eu ocupo para ela e o lugar que ela tem pra mim também, é isso que vai criar expectativas, é ali que vai ser gestada a transferência e é isso que vai ser alvo de análise, é isso que vai criar cenas de discurso para serem trabalhadas, afetos, tudo.

Revista TransFormações em Psicologia: Marlene, é por conta da sua intervenção em instituições concretas que você precisa ampliar o panorama epistemológico para além da psicanálise?

Marlene Guirado: É por isso. É por isso que a psicanálise não dá conta. Eu preciso lidar com a psicanálise, por exemplo, na especificidade que ela tem para descrever alguns casos. Para falar, por exemplo, de um registro dessa memória inconsciente que a gente está discutindo do bloco mágico, ela fala do conceito de transferência. A transferência é importante até para trabalhar nas instituições de outro tipo se eu puder pensá-la como esse jogo de expectativas que se cria pela relação de demanda, que se cria em qualquer contexto institucional com, claro, as características e especificidades desses contextos.

O conceito de transferência é importante. Por exemplo, na Análise do Discurso, na Análise Institucional, não tem um conceito como esse; mas eu não vou poder trabalhar com a transferência como o Freud trabalha, precisa repensar esse conceito como reedição de modelos, de estereótipos infantis, de relação com as figuras significativas como pai e mãe que se reeditam no presente, sabe, uma relação direta dos núcleos infantis para agora. Não dá pra pensar assim, tem que pensar já com todas as reedições que foram sendo feitas em diferentes instituições que a gente foi vivendo e fazendo até chegar no momento comigo, na relação terapêutica ou analítica, ou até chegar por exemplo num monitor de uma instituição como a Fundação CASA [Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente], ou até chegar num psicólogo da Fundação CASA, tem que ser repensado. Até chegar com vocês atendendo aqui na clínica, numa relação em que vocês [alunos dos IPUSP] também tem uma transferência com a clientela daqui que não é a mesma que vocês vão ter no consultório: é mediada pela supervisão que vocês fazem que cria uma expectativa diferente. Vocês estão diante do paciente e na iminência de fazer uma supervisão, tem um dever a cumprir com relação ao supervisor, vocês têm uma expectativa dividida entre o paciente e o supervisor. Tudo isso configura quadros diferentes que não dá para tomar o conceito de transferência puro tal como Freud pensou, tal como Lacan pensa, tal como Klein pensa e querer interpretar o paciente em função disso.

Revista TransFormações em Psicologia: E, epistemologicamente, voltando um pouco para a questão original, digamos: Você descobriu Freud, mesmo que através da Klein, do Lacan, até que você descobriu o Freud por si, aí você passou por Guilhon de Albuquerque, Foucault e na sua tese de livre docência você também coloca o Maingueneau [1950-]. Como foi essa descoberta mais recente?

Marlene Guirado: Do Mainguenau? O Freud foi muito curioso, porque eu sempre trabalhei em instituição e em um belo dia, eu resolvi começar a fazer análise. Todo mundo falava que o psicólogo tinha que fazer análise, mas eu trabalhava muito bem com instituição e não tinha a menor pretensão de trabalhar em consultório porque, como eu fazia um trabalho político fora da universidade eu achava que ser analista de consultório era um trabalho muito burguês; eu, naquela época, era comunista de carteirinha. Isso faz tempo, nunca fiz movimento estudantil, mas fazia um trabalho político fora, comunidade de base, essas coisas assim. E trabalho institucional pela profissão, trabalho em educação, esse orfanato, comecei a fazer meu mestrado, estava nessa coisa toda e comecei a estudar o Freud, mas não queria trabalhar em consultório não. Comecei a estudar o Freud assim, desse jeito torto e comecei a fazer terapia, até que um dia a minha psicanalista, ela disse para mim que (bom, eu gostava dela, ela era muito legal [risos], mesmo)... ela ficou me provocando a começar um atendimento em consultório, e eu disse pra ela que eu não tinha jogo de cintura para trabalhar em consultório porque eu ia ter uma interpretação só pra fazer e ia repetir essa interpretação pro paciente todos os dias até o fim da terapia, e que isso não era muito elegante. Eu não teria a inventividade que eu tinha dentro de uma instituição, de sacar as coisas, relacionar, organizar, pensar; no consultório eu iria emburrecer, é verdade [risos].

Aí depois, não sei como, eu comecei a dar supervisão institucional num consultório emprestado. A pessoa para quem eu dava supervisão institucional mudou-se para o Rio de Janeiro e ela também tinha um consultório e me encaminhou a paciente, aí Marlene Guirado não conseguiu dizer não [risos] e aceitou a paciente dela; comecei a atender e não é que deu! Deu para atender, eu comecei a atender e foi! Foi meio casual, mas eu não tinha uma interpretação só para dar, eu estava estudando Lacan naquela época, e estava fazendo a tese de doutorado e comecei a estudar o Freud sozinha. Parei Lacan, passei a estudar Freud sozinha e comecei até a ensinar o Freud. Nesse intervalo de tempo eu comecei a dar aula de Psicologia do Desenvolvimento aqui no lugar da professora dessa disciplina quando eu era aluna. Eu comecei a dar aula de Desenvolvimento aqui e tinha que dar Freud, aí eu rachei o bico de dar Freud, e comecei a estudar Freud sozinha, por mim, para dar desenvolvimento e os alunos começaram a me procurar para dar grupo de estudos de Freud. Eu comecei a dar, me tornei uma especialista em Freud, e comecei a gostar dele e a perceber que o Freud era um pensador (ele é um pensador!), e que tudo aquilo que se tinha tentado entender e que estava aprendendo pelos outros, não era o Freud.

A psicanálise freudiana tinha limite para aquele trabalho que eu queria fazer, um limite muito claro, até que eu fui entendendo que ela tinha um limite muito claro também pro consultório. E aí que foi produzindo essas coisas todas. Um dia, eu entrei em contato com um livro chamado “Novas Tendências na Análise do Discurso” de Dominique Maingueneau [1993].

Eu já conhecia a definição de instituição de José Augusto Guilhon de Albuquerque, eu já estava fazendo análise dos meus discursos com aquela definição precária do Guilhon Albuquerque (precária, assim, para tudo que eu queria fazer). Eu estava fazendo uns cursos com ele, estava muito provocada pela situação toda que eu acompanhava na FEBEM, e percebia que o que eu analisava eram os discursos, eles me davam uma ideia geral. E eu falava com o Zé Augusto sobre o discurso e ele não sacava muito; aí eu percebia que a gente trabalhava na psicologia com o discurso. Ninguém ia na casa do paciente para vasculhar nada, a gente ouvia e trabalhava com isto. Comecei a fazer essas relações na minha cabeça, e comecei a diferenciar joio de trigo, e nisso comecei a estudar o Foucault. E um dia cai na minha mão um livro chamado “Novas tendências na análise do discurso”. Aí eu entrei em contato com o autor, soube que ele era vivo. Sabe essas coisas de acaso, acontecimento? O Yves de la Taille, professor do IP, ia viajar pra França, professor daqui e eu falei para ele “Leva uma cartinha por mim pra este cara? Ele é professor assim, assim, assim...”, e levou! Escrevi a carta em inglês porque não sabia escrever em francês, e ele me respondeu a carta muito simpático; a partir daí, convidei ele para vir ao Brasil e ele veio e começou uma amizade com o Dominique Maingueneau. Eu percebi que ele, no “Novas tendências...”, tem um conceito que se chama gênero de discurso, e me parecia que é o equivalente do conceito de instituição na linguística. Não é a mesma coisa porque é um conceito teórico diferente, mas é o equivalente, e foi isso que eu escrevi na carta para ele: eu acho que trabalhamos com conceitos equivalentes, mas que são de áreas diferentes e ele se interessou! Ele falava português, para minha sorte, ele tinha uma tia que mora no Brasil. E a gente tem mais ou menos a mesma idade, aí pronto, ficamos amigos, nos correspondemos, ele veio dar um curso aqui no meu curso de pós-graduação, e a coisa foi por aí. Agora, o que eu acho que é importante, é isso que eu falei, que eu fui me acostumando a pensar nas fronteiras. Eu não faço nenhuma questão de dizer que uma coisa é igual à outra, eu faço questão de manter que as coisas são diferentes, e mesmo assim elas podem se manter em fronteiras que são produtivas para o pensamento, e é isso que me desafia a pensar. Eu não preciso dizer que as coisas são a mesma coisa para eu poder produzir, deixa que eu faço o meio de campo, entende? E não me incomodo mesmo. Produzir na tensão dessa fronteira é uma coisa com que eu me acostumei a fazer. Desde muito cedo, eu me acostumei a produzir nessa tensão das fronteiras. Se eu era comunista e um dia resolvi atender no consultório e pensei: “porque não? Uma pessoa que precisa de um atendimento e que eu posso ouvir...”. Eu comecei a poder fazer através do Lapassade [1924-2008] uma crítica ao Marxismo, eu cheguei no Foucault e tal. Porque não? Para mim, é tranquilo. É isso.

Então, a epistemologia, para mim, é importante por causa dessa coisa de se perguntar como é que se produz um conhecimento, como é que se produz uma verdade. Você pode imaginar o prazer que é, para mim, ler o Foucault. Eu não sou filósofa, eu não faço filosofia, eu não faço Foucault. Mas ele é pra mim um apoio no jeito de pensar, eu posso pensar assim. Eu posso pensar, inclusive, que conhecimento a psicanálise produz. E isso me dá o conforto. Eu não preciso ficar desesperada porque eu tenho essa distância da psicanálise, então eu faço isso com muito conforto.

Revista TransFormações em Psicologia: E hoje, como você lida com o Marxismo? Porque chama a atenção, por exemplo, nas aulas, você usar o termo Marxiano e não Marxista. Digamos que você teve um afastamento progressivo do Marx.

Marlene Guirado: Eu tive. Olha, hoje, para mim, é inegável o modo marxista de análise da realidade social. É inegável como um método de análise mesmo. Mas ele é inegável como método de análise que teve um momento histórico importante, e ainda se mantém como análise de um certo nível das relações econômicas, das relações sociais. Mas ele não é o único, ele não se presta a tudo. Para nós, que fazemos Psicologia, ele está longe de ser o método que permite trabalhar as relações de poder, as relações de comunicação, relações afetivas. É necessária uma mediação do que não está, por exemplo, na relação de classe social, na relação econômica, na ideologia, na repressão, que Louis Althusser [1918-1990] coloca na dominação de Estado. Essas coisas marcam, não respondem por uma aproximação com a Psicologia, não. Freud e Marxismo... não deu.

Acho que foi uma tentativa importante, mas já existem outras que permitiriam uma aproximação mais orgânica, mais de dentro com o que hoje a gente faz em Psicologia e Psicanálise. Com o que é Psicologia e Psicanálise para pensar as questões da subjetividade, hoje. Pode ser que daqui a pouco, historicamente, sejam outras.

Tem mais um problema que eu vejo no Marxismo, que são os marxistas. Essa coisa desse amor, por exemplo, desse apego com a ideologia do erro do outro. O  equívoco do outro, o equívoco da burguesia, a ignorância do outro. A cimentação que o outro faz de uma realidade incongruente, nas suas condições materiais. Só o marxismo é uma chave de análise lúcida, crítica, só o marxismo é práxis. Isto, para mim, é o canto do pensamento marxista hoje. Ele vira, por exemplo, quando análise, uma análise ideológica da ideologia que vai com uma chave; com Freud e Marxismo, você vai como uma chave buscar a ideologia no discurso, você vai chegar no óbvio. Você chega, ao final, no que é o seu ponto de partida. “Ah, esse discurso tem ideologia.” Claro! Todos tem! Vai ver o discurso do marxista, tem uma ideologia marxista. Um conjunto de ideias que tem uma chave de leitura que é marxista. Então, é de doer quando o Althusser chega no final da primeira parte do discurso do “Aparelhos Ideológicos do Estado” [1998] e diz que o único discurso científico possível é o discurso do método marxista de análise da realidade social porque a única prática razoável é a práxis marxista, a prática crítica marxista. É de doer, não existe isso. Toda e qualquer prática tem um nível de reconhecimento e um nível de desconhecimento. Em todos os embates, por exemplo, que a gente acaba tendo com quem tem esse discurso marxista, você esbarra na ideologia deles como um muro, sabe? Que você conversa, conversa, conversa, conversa, conversa e você fala assim: “estamos entendidos?” “Não, se você tirar essa palavra, aquela, aquela outra...” e são todas ideológicas... Desisto. Desisto.

Referências

Althusser, L. P. (1998). Aparelhos Ideológicos de Estado. 7ª ed. Rio de Janeiro: Graal.

Guirado, M. (1980). A Criança e a FEBEM. São Paulo: Perspectiva.

Guirado, M. (1986). Instituição e Relações Afetivas - o vínculo com o abandono. São Paulo: Summus.

Maingueneau, D. (1997). Novas Tendências na Análise do Discurso. Campinas, SP: Pontes.

 


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