A felicidade a qualquer preço? | Viver Mente e Cérebro, set. 2017 Imprimir E-mail
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Cultivamos o mito de que se nos amamos e permanecemos juntos tudo ficará bem. Mas em civilizações como a nossa, obcecadas com a satisfação, prevalecem também a competição e a inveja

Por Christian Ingo Lenz Dunker

altButão e Costa Rica disputam atualmente o título mundial de felicidade. Nos anos 30, o troféu coube às Ilhas Salomão, onde os antropólogos mostraram que havia liberdade com os costumes sexuais e compreensão para com a educação das crianças. Na Idade Média os paraísos medievais eram feitos de comida abundante e segurança, assim como as utopias modernas giraram em torno da liberdade e da igualdade. As variações de conteúdo sugerem uma constante: a felicidade é composta do que nos falta, mais exatamente, da relação com o que nos falta. Se entre nós e o que nos falta está o trabalho, temos uma relação com a felicidade. Se entre nós e o que nos falta está o amor, eis que a felicidade muda de figura. Se nos falta dinheiro, poder ou fama, ali estará a substância da felicidade.  

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A felicidade depende da teoria da transformação que carregamos conosco. Se entre nós e o que nos falta existe apenas e tão somente uma imagem, a transformação desta imagem será o processo mesmo a que chamaremos felicidade.  Se entre nós e o que nos falta existe um oceano (que nos levaria às Ilhas Salomão), então nossa felicidade tem estrutura de viagem. Se entre nós e a felicidade está a presença incômoda de pessoas indesejáveis e seus costumes perturbadores, então nossa felicidade seguirá a gramática da guerra ou da segregação. 
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O terceiro critério de produção da felicidade diz respeito ao outro. Por exemplo, nos faltam asas, mas em geral não nos lamentamos sobre isso. Afinal, ninguém tem asas. Nossa felicidade depende de como supomos a felicidade de nosso vizinho. Se ele aparecesse com asas biônicas, imediatamente nos tornaríamos seres infelizes, afetados por esta privação. Civilizações obcecadas com felicidade, como a nossa, são também culturas de inveja e da competição. 

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É porque nossa felicidade depende de nossa teoria transindividual da transformação em relação ao que nos falta que a tarefa de educar nossas crianças tornou-se um desafio contemporâneo. Queremos tanto fazê-las felizes porque isso realiza nossa felicidade, satisfação perdida. Aqui a armadilha tem sido fatal. Imaginamos que o encontro de contrariedades reais traz infelicidades, por isso tentamos poupar nossos alunos de experimentarem sua própria falta. Supomos, depois, que nossa teoria da transformação será igual à deles (afinal, vivemos mais, sabemos como é o mundo), por isso não trabalhamos para que eles construam responsabilidade ou implicação com a felicidade que lhes concerne inventar.  Além disso, sancionamos a ilusão da felicidade indiferente, baseada no conforto e na satisfação de si, custeada pelo mito de que se nós nos amamos e ficamos juntos e protegidos tudo vai terminar bem. Infelizmente, usado desta maneira o amor mata ou imbeciliza. 

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Praticada dessa maneira, produzimos com eles uma felicidade feita de negação de diferenças reais (que, portanto, não serão tratadas), de recusa de falsidade nas experiências de reconhecimento (que, portanto, serão odiadas) e de imperativos de sucesso que correspondem à realização, empobrecida, de nossa própria felicidade, não da deles. É assim que estamos prometendo uma felicidade venenosa e ainda queremos fazer das escolas uma extensão deste projeto mórbido. Precisamos de uma felicidade mais cara – esta está dando errado. 

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Christian Ingo Lenz Dunker, psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

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Este artigo foi publicado originalmente na edição de agosto de Mente e Cérebro, disponível: ImpressaAndroidIOS e WEB

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