Christian Dunker: "Las Vegas mostra os malefícios do excesso de normalidade" | Revista Época, 4/10/2017 Imprimir E-mail
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O psicanalista chama a atenção para os riscos de uma vida orientada apenas para a obediência e o ajustamento levarem ao sentimento de falta de autenticidade e irrelevância

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Por FLÁVIA YURI OSHIMA

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No último domingo, ao menos 58 pessoas foram mortas e 527 ficaram feridas depois que um homem disparou tiros durante um festival de música country em Las Vegas. O americano Stephen Craig Paddock atirou da janela do 32º andar de um hotel por volta das 22h (horário local) contra 22 mil pessoas, e depois se suicidou. Foram encontradas 23 armas no quarto do hotel, e outras na casa de Paddock, totalizando 47 armas sob sua posse. Ele foi o responsável pelo maior ataque a tiros da história recente dos Estados Unidos.

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Stephen Paddock tinha 64 anos, era branco, nasceu nos Estados Unidos, não era militar e não tinha histórico criminal. Morador do estado de Nevada, era um contador aposentado, com boa condição financeira, que gostava de jogos de pôquer. Em entrevista à TV americana CBS, Eric, irmão do atirador, disse que Paddock “provavelmente não tinha nem multas por estacionar em lugar errado”. Até então, o único caso de criminalidade relacionado ao nome Paddock é do pai, Stephen Paddock, um ladrão de bancos que já esteve entre os mais procurados pelo FBI, a polícia federal americana, na década de 1960. Segundo o irmão, o atirador não tinha nenhuma filiação religiosa ou política. Apesar de o Estado Islâmico ter reivindicado o ataque, o FBI afirmou que Paddock não tem conexão com o Estado Islâmico ou qualquer outra "organização terrorista internacional". O presidente Donald Trump disse a jornalistas que o autor do ataque era "um doente, um demente".

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ÉPOCA conversou sobre o massacre de Las Vegas com Christian Ingo Lenz Dunker, psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia ds USP, autor de "Transformações da Intimidade: políticas do sofrimento cotidiano" (UBU, 2017).
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Christian Dunker, psicanalista, professor e escritor, na FLIP de 2016.  (Foto: Bárbara Lopes)
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Época - Segundo a ONG Gun Violence Achive somente em 2017 houve 273 ataques com arma (até o dia 2 de outubro). As razões variam, mas não é incomum por lá esse tipo de ataque sem motivo aparente, feito por pessoas sem antecedentes criminais, muitas vezes feito até por adolescentes.  É possível estabelecer alguma relação entre esses ataques e a cultura americana?

Christian Dunker - Parece óbvio que a tenção social aumente quando as instâncias de autoridade, que representam e servem de suporte para o que entendemos como o poder, passam a incitar o ódio contra minorias e estrangeiros. Isso acelera o choque de civilizações que já existe num país multicultural como os Estados Unidos. O retorno da narrativa fundacional por meio da qual os desbravadores fundaram um país com suas próprias mãos e com seu esforço de colonizar e conquistas indígenas e os obstáculos naturais, tenha que reproduzir este mesmo sentido de conquista com as próprias mãos em termos de justiça e de tratamento dos conflitos sociais. Quando um conflito entre negros e brancos em Charlotesville é apreciado, pelo próprio presidente, como um problema no qual os dois lados têm problemas é natural que a violência cresça, contra si e contra aqueles que já são o destino consagrado da opressão, ou seja, as minorias.  

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Época - É possível identificar algum tipo de relação com o que ocorreu em Las Vegas e com o ataque a Realengo, no Rio de Janeiro?

Dunker - A tragédia de Realengo foi premeditada por uma pessoa que passou anos em estado de isolamento social, configurando sua vida a partir dos prejuízos sofridos em sua escola. Stephan Paddock não parece responder a uma trajetória semelhante. Ele não ataca um lugar, até onde se sabe, que tenha uma correlação significativa com sua história de vida, mas uma espécie de símbolo da cultura nacional americana, a música ligada ao rodeio.

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Época - De que forma a liberação de armas contribui para esse tipo de incidente.  Ela é o principal motivador desse tipo de ataque conforme alguns defendem?

Dunker - Não penso que a disponibilidade de armas tenha concorrido significativamente para o incidente, talvez para a sua magnitude, mas o atirador certamente não teria sido impedido em caso de uma dificuldade maior de acesso a armamento. O problema não está na legislação de acesso real à armas, mas no que isso representa em relação à leitura que a população produz de seus esquemas sobre a lei e sobre o uso da força. Aparentemente, a facilidade para porte e aquisição de armas nos Estados Unidos tem a ver com um conceito: o de defesa da própria propriedade, inclusive defesa contra o Estado. Este conceito tem efeitos muito deletérios na forma como nos relacionamos com a lei e com o laço social, efeitos que concorrem para a formação de rebeliões periódicas contra o sistema, sinalizada pelos assassinatos em massa.

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Época - Esse tipo de comportamento necessariamente indica distúrbio psicológico mais grave ou depressão?

Dunker - Não indica. Se há algo que se destaca no perfil do assassino é a sua excepcional tendência para normalidade. Nosso preconceito é que tende a tornar invisível os malefícios do excesso de normalidade. Uma vida sentida como inautêntica, irrelevante, orientada apenas para a obediência e o ajustamento pode, e frequentemente inverte-se em um ataque contra as regras em relação às quais se consagrou, recebendo em troca uma forma de vida pouco rica e desinteressante.

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Época - Culturalmente (na educação das escolas, como orientação de famílias e de serviços sociais) há algo que possa ser feito para ajudar pessoas que têm esses impulsos a encontrar outras formas de válvula de escape para que a situação não chegue a esse ponto?

Dunker - Sabe-se que a solidão e o isolamento são situações muito maiss patógenas dos que os quadros graves constantes nos manuais de psicopatologia. A humilhação social, o sentimento de irrelevância e o desconhecimento com relação às estratégias para reconhecer e tratar o mal-estar psicológico são fatores que concorrem para a periculosidade dos sintomas.  Ainda é muito popular a ideia de que o sofrimento psíquico é uma espécie de fraqueza moral, que deve ser resolvida individualmente ou então pela submissão a padrões de normalidade.  Muita coisa aconteceu até que um ato destes fosse possível, mas como prevenir isso se nossa cultura é cada vez mais indiferente ao mal-estar alheio tratando o nosso sofrimento como apenas um fracasso de individualização e autonomia?

 


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