Novos métodos de ensino modificam cenário brasileiro Imprimir E-mail
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Avaliações de desempenho educacional mostram insuficiências em diversas áreas; tecnologia, metodologias e planos de aulas inovadores surgem como alternativas

Por Ana Helena Corradini, Juliana Lima e Laura Raffs, pela Agência Universitária de Notícias

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Aulas tradicionais costumam não agradar estudantes e obter bons resultados. Imagem: Reprodução (Secretaria da Educação do Estado de São Paulo)

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O desempenho das escolas brasileiras medido em avaliações nacionais e internacionais mostra níveis insatisfatórios de desenvolvimento. Em busca do avanço nos rankings e na qualidade da educação, surgem por todo o país projetos inovadores de ensino como uma  alternativa para a educação brasileira. Dados recentes da ANA (Avaliação Nacional de Alfabetização) 2016 mostram que mais da metade dos estudantes do 3º ano do ensino fundamental em escolas públicas têm níveis insuficientes de leitura e matemática.

A pesquisa demonstra que os avanços brasileiros foram nulos desde 2014, ano em que 56,1% dos alunos com idade superior a 8 anos (faixa etária de 90% dos avaliados) possuíam níveis insuficientes de leitura. Em 2016, esse número caiu apenas para 54,73%. Já os números referentes à alfabetização dos alunos do terceiro ano do ensino fundamental permaneceram o mesmo durante o período.

A ANA não é a única a trazer avanços pequenos na educação brasileira. O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), teste internacional aplicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), indica que em 2015 no Brasil, o desempenho dos estudantes do ensino básico estava abaixo de alunos de outros países avaliados em ciências, leitura e matemática. São, respectivamente, 401 pontos (a média é de 493), 407 pontos (a média é de 493), e 377 pontos (a média é de 490).

Para o professor Marciel Consani, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA – USP), o que existe no Brasil é um problema de desenho do currículo escolar como um todo. A escola não é pensada como um itinerário coerente que integra os vários ciclos. “Dá a impressão de que o problema da primeira infância é um, o problema do ensino fundamental é outro, o problema do acesso ao mercado de trabalho é outro, e por fim, a universidade fica pairando sobre tudo, olhando para o que está embaixo dela, mas também sem estabelecer uma conexão direta”, diz.

Ocimar Alavarse, professor da Faculdade de Educação da USP, pontua que um dos principais fatores responsáveis por esses resultados insatisfatórios é a falta de um acompanhamento mais individualizado dos alunos por parte das escolas. Além disso, o professor condena a valorização apenas daqueles estudantes que apresentam melhores desempenhos, o que ele classifica como um “espírito olímpico” já impregnado na sociedade, em que o importante é vencer.

O movimento Todos Pela Educação, fundado em 2006, tem como objetivo engajar o poder público e a sociedade brasileira em um compromisso de efetivar o direito das crianças e dos jovens a uma educação básica de qualidade. Caio Callegari, coordenador de projetos da ONG, explica que a preocupação principal é fomentar o diálogo nas instituições. “A escola tem que estar preparada e realmente comprometida em fazer o diálogo com os estudantes, cotidianamente, para conseguir, de fato, construir uma escola que seja atrativa para eles”, explica.

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Método alternativo X inovador

A frase popular “o Brasil tem estudantes do século 21, professores do século 20 e uma escola do século 19” se conecta com a falta de comunicação e interação entre os atores da educação e com a inexistência de um objetivo comum. As aulas tradicionais são, geralmente, desinteressantes para os alunos, desestimulando e impedindo um aprendizado completo e prazeroso.

É nesse cenário que surgem novas possibilidades de ensino, voltadas para uma geração que já não se adapta mais aos sistemas e metodologias desenvolvidas em séculos passados. Os métodos alternativos buscam mudar a estrutura de ensino, como por exemplo, com o uso de aulas em círculo (sala horizontal), em que o professor não é uma autoridade perante os alunos, ou a sala de aula invertida, onde alunos e professores trabalham juntos.

A Escola da Ponte, em Portugal, é um exemplo. A escola de ensino básico faz parte da rede pública do país e não possui aulas ou turmas. Os alunos desenvolvem projetos e pesquisas em grupo ou individualmente, de acordo com seus interesses, com o auxílio de seus professores.

No Brasil, algumas escolas e organizações não governamentais (ONGs) utilizam estruturas alternativas. O método de círculo ou roda, de Paulo Freire, é como se constrói o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) de Belo Horizonte. A ONG, fundada em 1984 pelo educador e antropólogo Tião Rocha, desenvolveu também outras pedagogias, como a do brinquedo, que busca ensinar brincando.

O professor Consani afirma que existem, atualmente, muitas iniciativas pontuais, projetos pilotos e correntes de pensamentos pedagógicos nesse sentido, que se revelam produtivas. Entretanto, alerta que o desafio brasileiro é manter o caráter público da educação e achar soluções que possam atender às demandas das escolas como um todo. “Acho preocupante a ideia de ‘educação alternativa’, gosto mais quando se fala em ‘alternativas para a educação’, porque a ideia seria operar uma transformação global em que as inovações pedagógicas estivessem todas contextualizadas rumo a um objetivo de sociedade”, explica.

Já os chamados métodos inovadores de ensino são técnicas inseridas em aulas, como o uso de dispositivos, para explicar e exemplificar conteúdos. Eles representam um suporte, mas não são, por si só, métodos de ensino.

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, maior rede pública da América Latina que conta com mais de 5 mil escolas e cerca de 3 milhões de alunos, vem modernizando suas salas de aula.  No dia 6 de novembro de 2017, a Assembleia Legislativa Paulista promulgou a lei que passa a permitir o uso de celulares em sala de aula. A ideia é que a ferramenta seja utilizada para fins pedagógicos estimulando a criatividade de alunos e professores. Atualmente, diversos profissionais e unidades já utilizam a ferramenta com a criação de material  audiovisual ou aplicativos que reforçam a aula tradicional.

Algumas escolas do ensino público do estado de São Paulo, por exemplo, utilizam plataformas como jogos eletrônicos para suporte de ensino. A plataforma Matific é utilizada para ampliar e reforçar conteúdos matemáticos para alunos do ensino fundamental da rede, por meio de um jogo de simulações de compras em mercados. Práticas multidisciplinares, com o auxílio de jogos de tabuleiros, danças e dinâmicas também são frequentes em unidades do estado.

Para o professor Alavarse, a tecnologia pode, por um lado, atuar como dispositivo de ensino, facilitando o acompanhamento dos alunos, na medida em que permite emitir resultados individuais de forma mais rápida e prática. Por outro, ele defende que o problema principal não é a plataforma escolhida para o ensino – se a lousa, livro ou computador –, mas a maneira que o conteúdo é explorado pelas crianças. “Não é a tecnologia que vai produzir os melhores resultados. Os melhores resultados virão, do meu ponto de vista, de uma preocupação com o sucesso de todas as crianças”, conclui.

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Ensino superior

Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), “o Brasil é um dos países que menos gastam com alunos do ensino fundamental e médio, mas as despesas com estudantes universitários se assemelham às de países europeus”. O país gasta, anualmente, US$ 3,8 mil (R$ 11,7 mil) por aluno do primeiro ciclo do ensino fundamental (até a 5ª série), enquanto dispõe mais do que o triplo desse valor aos estudantes universitários: US$ 11,7 mil (R$ 36 mil).

Mesmo assim, o ensino superior brasileiro enfrenta os mesmos problemas da educação básica. A Universidade do Estado do Rio De Janeiro (Uerj), por exemplo, enfrenta atualmente uma crise financeira que resultou em fechamentos de serviços como o restaurante universitário e atrasos de pagamentos, o que gerou paralisações, greves e atrasos no ano letivo.

O dinheiro investido nas universidades brasileiras é destinado não só ao ensino, mas também à área de pesquisa, atividades de extensão e prestação de serviços, como os hospitais universitários. A USP também enfrenta problemas financeiros e aprovou no início do ano regras sobre limites com despesas de pessoal.

Ao mesmo tempo, o governo federal reduz a cada ano o investimento em ciência e tecnologia. Segundo dados oficiais do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e análises da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o corte proposto em 25% trará uma redução de R$5,9 bilhões para R$4,4 bilhões, correspondendo a menos da metade do orçamento de cinco anos atrás.

O Censo da Educação Superior 2015, divulgado pelo Inep, avaliou quesitos como permanência, conclusão e desistência nas universidades e faculdades do país nos anos de 2014 para 2015. Ele registrou uma queda no número de ingressantes, tanto na rede pública (- 2,6%), quanto na rede privada (- 6,9%). Já o número de concluintes na rede pública diminuiu 0,8% e na rede privada a variação foi um de aumento de 15,9%.

Embora o ensino superior esteja marcado por uma tradição, os métodos educacionais também estão se inovando. O professor Rafael Grohmann, docente do curso de Educomunicação na USP, trabalha desde 2012 com métodos alternativos, utilizando dispositivos educomunicativos e desenvolvimento de projetos. Sua inspiração foi um trabalho de alunos da Universidade Federal Fluminense, em que se construiu uma dublagem sobre os discursos de autores como Adorno e Lazarsfeld em cima de uma cena da telenovela Celebridade, da Rede Globo. Atualmente, além das dublagens, seus alunos desenvolvem projetos como uma pesquisa sobre a relação de cidadãos idosos com os meios de comunicação em bairros de maior e menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de São Paulo.

Ele comenta a dificuldade e estranhamento que os estudantes sentem ao realizar esses trabalhos, principalmente porque estavam acostumados com os métodos tradicionais e engessados das escolas e experiência com o vestibular. Essas abordagens servem como complementos dos estudos tradicionais. Apesar das dificuldades, o docente acredita que essas tentativas de ensino apresentam muitas vantagens: a participação ativa dos alunos serve para maior absorção de conteúdo, além do fato de que os projetos podem ser reaproveitados e divulgados para a sociedade, tendo, assim, um impacto social.

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Vínculo aluno-escola

O processo de aprendizagem não envolve apenas a metodologia escolhida, mas também se relaciona com o campo cognitivo e social do estudante. A família e a própria escola precisam trabalhar juntas para proporcionar um ambiente saudável para o estudo e conhecimento da criança e adolescente. Os pais têm o papel, segundo a psicóloga Maria Isabel, do Instituto de Psicologia da USP, de valorizar a atividade do filho e incentivá-lo a frequentar as aulas. Mas a escola possui uma importância maior, já que é a responsável por acolher a criança, aceitar suas diferenças, investigar suas dificuldades, suas possíveis causas, e trabalhar em cima desse cenário.

Quando um estudante possui um rendimento inadequado é importante que a escola saiba qual o universo em que ele está inserido. “Uma criança de classe média tem mais contato com a leitura e escrita. Já uma criança de classe socioeconômica mais baixa nem sempre tem. Quando a professora ensina a grafia das letras, para a criança, esse universo se torna uma incógnita e, então, ela começa a ter dificuldade”, explica a especialista.

De acordo com o mais recente Censo Escolar feito pelo Inep, entre 2014 e 2015, 12,9% e 12,7% dos alunos matriculados na 1ª e 2ª série do ensino médio evadiram da escola. O levantamento também mostra que entre 2007 e 2013 houve uma queda progressiva na evasão escolar brasileira, mas o quadro se altera em 2014, quando as taxas aumentam.

O professor Alavarse reconhece o impacto do nível socioeconômico no processo de aprendizagem e acredita que as escolas deveriam ser sensíveis às condições em que vivem os estudantes. “Isso significa desenvolver mais paciência com as crianças e proporcionar mais esforços para o sucesso na aprendizagem delas”, explica.

A escola, na tentativa de resolver o baixo desempenho do estudante, exerce um papel que não é seu, ao diagnosticar os alunos, incentivando que famílias tratem o comportamento turbulento como um transtorno, déficit de atenção ou hiperatividade, o que pode levar ao tratamento com medicamentos. Para Maria Isabel, a falta de aulas que instiguem o aluno a aprender e a dificuldade em acompanhar o conteúdo são fatores que influenciam o comportamento da criança. Uma aula expositiva, em que o estudante apenas copia o que o professor escreve no quadro, é aquela que “passa do papel do professor para o papel do aluno sem passar pela cabeça de ninguém”, diz.

A psicóloga defende também que os métodos se adequem à idade das crianças. O processo na educação infantil, por exemplo, pode ser mais concreto para facilitar o entendimento, como o método Montessori. Para ensinar aritmética, por exemplo, utiliza-se materiais lúdicos: um pequeno cubo para representar uma unidade, uma régua para uma dezena, uma placa para uma centena, e um cubo para o milhar. Com a evolução do conhecimento, ao longo do ensino fundamental e médio, o processo de aprendizagem se torna cada vez mais abstrato.

A psicóloga acredita que quando o aprendizado é mecânico não consegue realmente transmitir a informação, e defende que o adulto é o mediador entre o conhecimento e a criança. A escola precisa ter o compromisso com o bem-estar e aprendizado da criança. “Acho que quem ajuda muito nisso é o estilo de gestão, o diretor possui um papel importante que faz a diferença no processo de inclusão”, defende.

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Formação de professores

A Todos Pela Educação expõe que os professores precisam se preparar para o cotidiano escolar e tornar o currículo mais denso, com preparação tanto teórica, como uma reflexão sobre a educação, quanto prática, respeitando sua função social: formar o estudante. “Os professores precisam ser muito mais preparados para a questão da didática, por não ser uma habilidade nata, mas uma habilidade que se constrói”, afirma o coordenador de projetos.

Em São Paulo, a rede estadual mantém ativa a EFAP, sua Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Professores, que conta com cursos presenciais e ensino a distância (EAD), pensados na melhoria da qualidade do ensino e recepção dada aos alunos, com cursos voltados para novas metodologias de ensino, aperfeiçoamento profissional, inclusão social e novas tecnologias.

Os métodos de ensino, sejam alternativos, inovadores ou tradicionais, não conseguem solucionar todos os problemas da educação por si só. A mudança é uma resposta aos tempos modernos. Esse processo demanda ações em conjunto de alunos, professores, gestores e sociedade.

O professor Consani acredita que por mais que as diretorias de ensino, o MEC, as secretarias de educação conduzam políticas públicas que tragam inovações pra escola, existe ainda uma cultura escolar com uma mentalidade pautada em hierarquias, nos micropoderes da escola. E existe o “mito do ensino forte”, que diz que o ensino não pode ser uma coisa agradável e interessante, tem que ser árduo. “Essa cultura é muito classista, conservadora e retrógrada e, de certa forma, anula os benefícios que as iniciativas inovadoras trazem para a educação pública”

 


Instituto de Psicologia da USP

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