14 set 2020

Quantos “tudo bens” cabem em um momento em que não está tudo bem? É comum evitarmos abrir para o outro como nos sentimos para não transmitir fragilidade. Embora todos nós tenhamos um vasto repertório de emoções, é bastante comum que diante de circunstâncias difíceis, façamos uma breve seleção de boas emoções titulares para não ter que sofrer com o restante do time. Nesses momentos, recorremos ao bom-humor, ao “tudo bem” e cancelamos as emoções que não somam na encenação

De acordo com a psicóloga Susan David, psicóloga na Faculdade de Medicina de Harvard (Estados Unidos), em sua palestra do Ted Talk: “O dom e o poder da coragem emocional”, essa resposta rápida se justifica porque tradicionalmente fomos ensinados a ler emoções como boas e más, positivas ou negativas e, em um favoritismo cultural, priorizamos nos sentir bem inclusive quando as circunstâncias pedem emoções não tão saborosas.

Especialistas em “estar bem”
De acordo com o psicólogo Dan Josua, sentir é um anseio básico do ser humano mas, com frequência, ficamos presos a uma ideia binária de emoção que nos leva a selecionar quais delas devem ou não serem sentidas. Essa prática está relacionada a cultura de que o sofrimento pode ser evitado e que, portanto, cabe ao indivíduo escolher por quais emoções quer ser impactado.

Nesse sentido, a dificuldade que enfrentamos em lidar com nossas emoções acontece porque nos convencemos facilmente de que é preciso se livrar das sensações ruins, para maximizar as sensações de prazer —comportamento reconhecido pelo psicanalista Sigmund Freud e elaborado nas premissas da psicanálise.

A grande armadilha é que não existe um remédio que blinde alguém do sofrimento e, tampouco, que faça com que emoções “negativas” desaparecem. Podemos não nomear nossas emoções ou optar por não lidar com elas mas, expostas ou não, elas ainda vão agir em nós e impactar a forma com a qual lidamos com as circunstâncias que nos atravessam.

Não vejo, não sinto
É preciso apenas um breve passeio por nossa coleção de memórias para nos depararmos com situações em que a realidade foi ao menos ligeiramente maquiada para evitar algum tipo de emoção. Seja em um conflito em relacionamento, em problemas de trabalho, cancelar emoções ou deixá-las no congelador acontece com qualquer pessoa.

Esse desvio não é inteiramente um problema, afinal, em diversas circunstâncias algumas doses de repressão emocional acabam sendo importantes para preservar a saúde mental ou até mesmo para tomar uma ação —por exemplo profissionais de saúde diante de um quadro de emergência. A questão é que levado ao extremo, travar uma batalha para não sentir nada de ruim pode acabar intensificando ainda mais os rastros deixados por nossas emoções.

Os pesquisadores Gabriel Siqueira e Daniel Augusto, do Grupo de Pesquisa sobre Bem-Viver do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) explicam que o ato de “reprimir emoções” está diretamente relacionado ao desejo de não evocar uma memória que remete à um afeto negativo. Assim, reprimir emoções seria como uma reação de distorcer a memória, ou a realidade, para que ela seja um pouco mais fácil de encarar.

Ainda conforme os pesquisadores, ponderando sobre o medo no contexto da pandemia: “o medo é uma emoção difícil de reprimir, mesmo que as suas manifestações externas sejam contidas, o medo opera diretamente no sistema nervoso, acarretando em uma série de reações químicas no corpo, as quais envolvem hormônios como o cortisol. Uma pessoa que é exposta a muitas experiências que suscitam medo, por exemplo, medo de se contagiar, medo de perder uma pessoa querida, medo de perder o emprego, e que por alguma razão tenha dificuldades em lidar com essa emoção, pode ao longo do tempo sofrer com os efeitos de cortisol em excesso em seu organismo”.

Reprimir ou negar a realidade são respostas rígidas face à imprevisibilidade da vida e ambas podem comprometer o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento mais adaptativas, mais flexíveis às circunstâncias que se colocam à nossa frente.

O endereço das emoções
Se as emoções são uma forma de traduzir e sentir a realidade com ela se apresenta, é importante não perder de vista que a realidade também impacta como vamos sentir nossas emoções.

Segundo a psicologia social comunitária —uma vertente da psicologia que se desenvolve através do estudo da realidade latino-americana, ou seja, da história, da vida social e política desta região — as emoções são próprias das relações de afetos, e refletem os conteúdos específicos que descrevem o humor de cada pessoa. As emoções, portanto, são constituídas na interação e resultam das relações e das estruturas sociais.

Significa dizer que só podemos entender as emoções a partir do sujeito dessas emoções, ou seja, do indivíduo e do contexto social no qual ele está inserido.

O psicólogo Alessandro de Oliveira dos Santos, professor-doutor do Departamento de Psicologia Social e Trabalho do Instituto de Psicologia da USP explica que para discutir emoções no contexto da sociedade brasileira, é necessário levar em consideração as diferentes hierarquias sociais constituídas, principalmente, em marcadores sociais como raça-etnia, gênero e classe social. “Para um grande número de pessoas, os problemas da existência material são tantos e tão complexos, que por não terem garantidas condições mínimas de sobrevivência há pouca energia ou disposição para focar em questões emocionais”, enfatiza o especialista.

Nesse sentido, quando se trata de olhar para as emoções se faz ainda mais necessário salientar a singularidade de cada pessoa e de suas condições de vida, afinal a exposição à situações de vulnerabilidades e discriminações impactam no atravessamento das emoções e na forma como as pessoas experienciam suas vidas.

Sentar com minhas e nossas emoções
Há quem diga que o que a vida nos requer são doses de coragem – -como já foi mapeado por Guimarães Rosa em seu livro Grande Sertão Veredas. Há ainda quem veja na alegria algo indispensável para viver ou enxergue a satisfação como motor essencial para a execução das coisas. Mas, independentemente das emoções que nos dão prazer em sublinhar, todas elas, de uma forma ou de outra, nos ajuda a traduzir a realidade e nos dá ferramentas para lidar com ela.

“A beleza da vida é inseparável da sua fragilidade”, disse David em sua palestra, ainda assim, em momentos de grande complexidade, de mudanças econômicas, política e tecnológica sem precedentes vemos como as pessoas têm tendência a se refugiarem cada vez mais em respostas rígidas às suas emoções. Então, resta a dúvida: como pensar a flexibilização das respostas emocionais face à imprevisibilidade da vida?

De acordo com o Santos, uma abordagem que tem sido bastante investigada nas últimas décadas é a observação das emoções, o reconhecimento de como determinada situação afeta o nosso estado psicológico e fisiológico —aprendendo como as respostas emocionais tendem a se manifestar no nosso corpo. “A partir desse exercício de observar nossas emoções e nossas reações, com a prática, é possível entender que nós somos muito mais do que nossas emoções e sentimentos e somos capazes de modular nossas respostas em função de viver bem com as demais pessoas que nos circundam”, conclui.

Sentir as coisas e ser afetado por emoções, se permitir enxergar com mais empatia a realidade e as emoções que atravessam as pessoas à nossa volta, acolher o medo e a angústia como emoções que compõem nosso repertório é também estar inclinado a reconhecer essas emoções no repertório do outro.

Mais do que esse exercício empático e de mergulho no que vem de dentro, encarar nossas emoções nos dá a possibilidade desmascarar a realidade – uma jornada desconfortável, certamente, mas que em troca nos dá acesso a um diagnóstico social preciso, um lugar real, existente, no qual podemos agir e projetar soluções duradouras, igualitárias e equânimes.

Por Giulia M. Ebohon

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