26 nov 2019
Sair do mercado de trabalho para cuidar da família também exige reflexões sobre a vida profissional da mulher e seu desejo legítimo de fazer uma pausa na carreira

A competitividade do mercado de trabalho exige cada vez mais dedicação e competência dos profissionais, além de pressioná-los a ter desempenho superior para manter sua posição ou, eventualmente, crescer na carreira. No caso das mulheres, as exigências profissionais somam-se as demandas da maternidade e aumentam ainda mais os desafios do dia a dia. Divididas entre a carreira, as atividades domésticas e o desejo de acompanhar a infância dos filhos, muitas mães se veem diante do dilema de continuar ou não a trabalhar.

decisão é difícil, já que envolve questões socioeconômicas, divisão de responsabilidades entre o casal e o amor e o cuidado materno. Segundo a psicanalista Belinda Mandelbaum, a demanda dos filhos será grande em qualquer idade, porém, diferentes de acordo com a fase da vida. A escolha depende de diversos fatores e varia conforme a realidade da família, sua classe social e suas características individuais.

Portanto, é preciso colocar na balança se o casal conta com uma rede de apoio, tem condições de pagar por cuidadores ou por uma escola, a vontade da mulher de exercer plenamente a sua maternidade e se ela está disposta a se tornar dependente economicamente do marido ou de outros familiares. “Eu acho que neste cenário, muitas vezes a mulher se vê impelida a deixar o mercado de trabalho para dar conta das tarefas domésticas, pois essa dupla jornada vai ficando muito difícil”, observa.

A especialista pontua que a movimentação das mães em relação ao mercado de trabalho oscila bastante – elas deixam o emprego, se dedicam aos filhos, eles crescem e elas voltam a trabalhar. Ou, mesmo que eles ainda sejam pequenos, conseguem fazer outros arranjos para se manterem profissionalmente ativas. “Uma em cada cinco mulheres acaba deixando o trabalho para se dedicar ao lar. Algumas se veem obrigadas a isso e uma pequena parcela opta por esse movimento porque quer viver plenamente a situação de ser mãe ou de dona de casa”, destaca Belinda, que é professora associada do Departamento de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Laboratório de Estudos da Família, Relações de Gênero e Sexualidade.

Uma decisão conjunta

Antes de decidir, a mãe precisa refletir bastante sobre o assunto e observar fatores como as vantagens de se trabalhar fora, a independência financeira e a ascensão na carreira. Quando a decisão de parar de trabalhar para se dedicar a família é tomada, o casal precisa se preparar para esta transição.

“É absolutamente legítimo querer ter a experiência de plenamente ser dona de casa e mãe, talvez deixando uma porta aberta para retomar a atividade de trabalho em outro momento, quando as crianças crescerem”

Será preciso se reorganizar financeiramente para suprir todas as necessidades, analisar o impacto na carreira de mulher, avaliar as chances de ela retomar o trabalho quando quiser e que estratégias serão necessárias para isso. “Quando a mãe tem a possibilidade de deixar o mercado de trabalho, a família deve compreender um desejo legítimo da mulher de poder se dedicar plenamente as crianças, sem estar dividida entre o trabalho e a casa”, ressalta.

Para a psicanalista, a reflexão e a tomada de decisão consciente são fundamentais para uma adaptação tranquila a nova realidade. Isso vai contribuir para que de fato ela se sinta realizada com a experiência de ser mãe e dona de casa. Outro ponto enfatizado por Belinda é que esta possibilidade de escolha não está aberta a todas as mulheres. “É importante levar em consideração a importância do trabalho para as mulheres no mundo de hoje em termos de realização pessoal e autonomia”, lembra. “Mas também é absolutamente legítimo querer ter a experiência de plenamente ser dona de casa e mãe, talvez deixando uma porta aberta para retomar a atividade de trabalho em outro momento, quando as crianças crescerem, por exemplo”, finaliza a professora.

 

Por Carla Bastos Dias
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