27 Maio 2019

Por Tamara Nassif – Agência Universitária de Notícias

“Precisamos entender que o racismo é um problema social, não só dos negros” (Foto: Martin Neuhof)

A mestranda Maiara Benedito, em sua dissertação “A relação entre Psicologia e Racismo: as heranças da clínica psicológica”, feita no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), apontou que psicólogos não-negros têm dificuldade em tratar questões raciais trazidas por pacientes negros. Depois de tantas vezes ouvir as palavras “acho que você, por ser uma psicóloga negra, pode me entender um pouco mais”, buscou entender como profissionais tratam dessa temática do racismo em atendimentos de intervenção psicológica, como terapia e escuta clínica.

De acordo com Maiara, o que muitas vezes acontece é a não compreensão do racismo como elemento inerente à sociedade: “Boa parte dos psicólogos não-negros tem dificuldade em perceber que existem questões que vão além da patologização, porque são vistas de cunho individualizado quando, na verdade, são um problema social”. Muito disso advém do fato de que eles provavelmente não sabem o que é viver em uma realidade maculada pelo racismo, ou ainda não o entendem em sua totalidade.

Resgate Histórico

Maiara explica que o racismo é estrutural. Isso significa que ele está presente na sociedade brasileira desde os primórdios de sua formação, com a colonização ibérica no continente americano e o estabelecimento de um regime escravocrata. O objetivo era de transformar a população negra em mercadoria e ferramentas de trabalho. Vinha amontoada em porões de navios negreiros e as parcelas dela que sobreviviam a essa viagem eram submetidas a torturas e mantidas em condições subumanas de trabalho. Em meio à naturalização de tantas violências, a Lei Áurea surgiu, em 1888, três séculos depois do início da escravidão no Brasil, como uma resposta ao movimento abolicionista que vinha ganhando força.

No entanto, embora a escravidão estivesse legalmente abolida, nenhum direito foi assegurado aos negros. Sem acesso a terras e a qualquer tipo de indenização por tanto tempo de subjugo, muitos permaneciam nos locais em que antes eram explorados ou se submetiam a trabalhos pesados e informais. A pesquisadora argumenta que as condições desumanas não se extinguiram por completo, o que reflete diretamente no contexto atual. Se no momento da abolição não houve uma forma de compensar o longo e violento processo ao qual os negros foram submetidos e a mentalidade dos brancos não mudou pela simples outorga da lei, o que de fato foi feito para assegurar igualdade racial?

É nesse sentido que se define racismo estrutural. Trata-se de uma série de hábitos, práticas e comportamentos intrincada nos costumes de uma sociedade e que promove, de modo direto ou indireto, disparidade e preconceito racial. A Lei de Cotas, por exemplo, que ganhou visibilidade no Brasil a partir dos anos 2000, é uma forma de reparar historicamente o abismo e danos sociais provocados pelo racismo desde 1550, cujo objetivo é integrar a população negra no cenário universitário e, por conseguinte, no mercado de trabalho. Por ser quase imperceptível, o racismo estrutural é muitas vezes negligenciado – e é aí que entra a pesquisa de Maiara.

Para a psicóloga, é essencial que se faça esse resgate histórico para que se possa compreender o papel dos brancos nesse processo, bem como os privilégios que tinham já naquela época e que se propagaram até os dias atuais, mesmo que sob outros moldes. “Fala-se muito do processo da escravização aqui no Brasil, mas pouco sobre o papel dos brancos. Quando passamos a entender que os privilégios e as diferenças existem desde aquela época e que temos um reflexo disso agora na sociedade, conseguimos também propor mudanças e alterar a realidade”, explica.

Foto: Martin Neuhof

A pesquisa

Em sua pesquisa, Maiara buscou conversar com profissionais na Psicologia que já estudassem questões etno-raciais. Nessas entrevistas, a partir da pergunta disparadora “como as questões raciais se expressam no campo da clínica e nesse dispositivo utilizado?”, conseguiu coletar uma série de informações que se relacionavam de alguma forma e traçou uma análise de dados. Além disso, também categorizou algumas das questões raciais presentes nos atendimentos e as relacionou com a Psicanálise Vincular, de René Kaës.

Para o psicanalista francês, os seres humanos são sujeitos apenas enquanto pertencentes a um grupo, e existe uma aliança que se forma entre indivíduos de um mesmo grupo. O racismo seria uma dessas alianças: inconscientemente forma-se um vínculo entre essas pessoas, que, também inconscientemente, se unem e transmitem de geração em geração a ideia de que é necessário inferiorizar outras pessoas por conta de uma característica que precisa ser eliminada – no caso, a negritude. Maiara explica que, quando se reproduz o racismo, acredita-se nessas alianças, mesmo que sem perceber.

“Não sei se, enquanto profissionais, os psicólogos não-negros manifestam o racismo, mas isso é uma questão que vai além da profissão. Os psicólogos não-negros continuam sendo indivíduos no mundo e, como nós não descolamos totalmente de quem somos, acredito que isso acaba refletindo também no meio profissional”, acrescenta.

Quanto às categorias traçadas para analisar as questões raciais, uma das principais seria “Desejo e Culpa”. Maiara explica que um dos sentimentos mais comuns é essa ambivalência: “existe o desejo de querer estar em um relacionamento com uma pessoa não-negra, e existe também a culpa de estar, em especial quando fazem parte do movimento negro, que, de certa forma, cobra para que essas pessoas se relacionem só com negros”.

Outra categoria seria enquadrar o racismo em uma mesma análise que outros tipos de preconceito, como LGBTfobia e discriminação contra deficientes físicos. Para Maiara, colocar todas essas violências em um mesmo lote também é uma violência, porque não há a compreensão de particularidades e contexto de cada uma delas. Ela acrescenta ainda que não se trata de uma “competição” entre quem é mais violentado, mas de entender as particularidades de cada um desses tipos de violência. Não entender que a realidade de uma pessoa branca ou não-negra e LGBT é diferente da realidade de uma pessoa negra e LGBT, nesse sentido, também é uma forma de segregar e de negligenciar esses preconceitos, justamente por colocá-los dentro de uma mesma esfera de análise.

Assim, na maioria das vezes profissionais não-negros não conseguem entender a fundo essas questões e lidar com elas em atendimentos psicológicos. Maiara cita que, inclusive, já houve casos em que psicólogos diziam que o racismo não existe, e, na visão dela, isso é muito preocupante.

Para além das entrevistas e da base teórica, a própria questão de por que só profissionais negros conseguem entender e lidar com problemas relacionados ao racismo, por exemplo, é uma quebra do código de ética da profissão de psicólogo. Maiara explica: “Por que só uma psicóloga negra pode dar conta de acolher as questões do racismo? Se fosse assim, eu só poderia atender uma gestante se eu estivesse grávida, só poderia atender uma pessoa que perdeu os pais se eu tivesse perdido os meus”.

Resultados

Um dos principais resultados de sua pesquisa foi entender os impactos da negligência do racismo na saúde mental de pacientes. Ela diz que existem muitos reflexos nas pessoas negras, como o de se sentirem insuficientes e culpados, vindos dessa não integração plena em uma sociedade que as violenta e as segrega. Explica que “tudo isso afirma que o racismo tem um peso na saúde mental das pessoas negras imensurável. Quando negligenciado, elas tomam as questões raciais de uma forma mais individualizada, que as fazem pensar que são o problema. Perceber que metade da população brasileira se sente assim também é um processo muito difícil de se alcançar sozinho”.

Além disso, um outro ponto que a pesquisa trouxe foi de justamente ressaltar a importância de um resgate histórico para a compreensão do racismo e de privilégios que pessoas não-negras usufruiam – e ainda usufruem. Maiara afirma que a necessidade disso não vem para culpar os não-negros pelo o que aconteceu no passado, mas de exigir que haja uma consciência desses privilégios adquiridos desde aquela época, para que seja possível rever o que tem sido feito nos dias atuais e reverter essa situação.

Por fim, a psicóloga insiste: “A ideia não é que os negros lidem com isso sozinhos, mas de que brancos e negros construam pares nessa luta anti-racista, cada um compreendendo o seu papel nessa história. Precisamos entender que o racismo é um problema social, não só dos negros”. Para tanto, ela afirma que brancos e não-negros devem, em primeiro lugar, validar o discurso de um sofrimento referente ao racismo, e até perguntar se existe algo que possa ser feito caso ocorra novamente.

É importante, também, começar nos próprios núcleos sociais: “Às vezes temos receio de pontuar algo como racista, porque a discussão racial ainda é levada muito como individual. Se eu falo pra minha mãe que ela é racista, ela não vai entender e vai ficar ofendida. Mas cabe aqui entender que não se trata de ser uma boa pessoa ou não, mas de que isso é reflexo de reproduções que são geracionais”.

Ela ainda alerta para o cuidado de não desvalidar o que é individual. Maiara afirma: “A vida de uma pessoa negra não se resume ao racismo e, ao assumir isso, deixa-se de olhar para quem ela é e a história de vida dela. Tirar a individualidade de alguém também é desumanizar, e o que é o racismo se não a desumanização de pessoas negras?”.

 

Publicado originalmente em Agência Universitária de Notícias

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