O direito de rir

 

Por Yves de La Taille

psico.usp, n.1, 2016

Yves La TailleNo dia sete de janeiro de 2015, em Paris, dois irmãos chamados Kouachi penetraram no prédio da revista Charlie Hebdo, mataram friamente vários caricaturistas e saíram gritando que o Profeta Mohamed havia sido vingado. Vingado do quê? Para eles, de uma das piores das ofensas: ser objeto de humor. Os cartunistas assassinados haviam ousado rir e fazer rir do Profeta. Ora, do Profeta, ninguém tem o direito de rir.

O massacre comoveu o mundo e durante semanas presenciou-se forte solidariedade para com as vítimas, solidariedade esta que se cristalizou na expressão Je suis Charlie [“Somos por Charlie”]. Todavia, passada a comoção, ficou a pergunta: temos direito de rir de tudo e de qualquer jeito?Alguns humoristas acham que sim. Disse, por exemplo, Danilo Gentili: “Eu não tenho nenhum critério para escolher o alvo de minha piada; meu único critério: se for engraçado”. Rafinha Bastos pensa da mesma forma: “Minha missão é subir no palco e ser engraçado”. Marcela Leal é categórica: “Humorista não deve ter responsabilidade. Ele deve divertir as pessoas”. Volto a Rafinha Bastos, que no vídeo "O Riso dos Outros" justifica a sua piada segundo a qual as moças feias deveriam agradecer a seus estupradores: “É humor, cara!”.Parece tão simples! Piada é apenas piada, então, o direito de rir não deveria sofrer limitação alguma. Afinal, humor desencadeia o riso, e riso é alegria! Então, qual o problema? Mas acontece que as coisas não são tão simples assim!  Existe, é claro, uma forte relação entre riso e alegria. Neste caso, alguns autores falam em “riso positivo”, como, por exemplo, rir ao conquistar uma vitória ou ao celebrar algum acontecimento com amigos. Porém, se classificamos o riso em “riso positivo” é que também podemos classificá-lo pelo seu oposto: o “riso negativo”, aquele que se associa a algum sentimento ele mesmo negativo, triste. Por exemplo, como bem o notou Darwin em seus estudos sobre a expressão dos sentimentos, o riso pode acompanhar o sentimento de vergonha, que certamente não é motivo para alegria. Tampouco a insegurança e a timidez são estados alegres, mas não raramente causam o riso em quem os experimenta. Outro exemplo de riso negativo é aquele que pode ser chamado de “histérico” por traduzir-se pela expressão exagerada e incontrolada da emotividade: a raiva e a frustração podem assim ser expressas pelo riso. Mais um exemplo: o que Dupréel chama de “riso de exclusão”, aquele que um grupo faz soar para mostrar a alguém que o acham ridículo e que não será aceito. O “riso de exclusão” é uma das formas do “riso de humilhação”, infelizmente tão frequente, e a que Chico Buarque se refere na sua canção Não sonho mais: 

Quanto mais tu corria

Mais tu ficava

Mais atolava

Mais te sujava

Amor, tu fedia e empestava o ar

Tu que foi tão valente

Chorou para a gente

Pediu piedade

E, olha que maldade,

me deu vontade de gargalhar 

Finalmente, lembremos a observação incontornável do filósofo Bergson: “O riso é sempre um pouco humilhante para quem é dele objeto”.  Um pouco, ou até muito, como o lembra Lorenz: “O riso pode se transformar numa arma cruel quando ele bate injustamente um ser humano indefeso: é criminoso rir de uma criança”. Pode-se falar em certos casos em “assassinato psíquico” porque se conhecem os efeitos deletérios da humilhação, efeitos estes que podem levar ao suicídio, como o foi o caso da enfermeira Jacintha Saldanha, vítima em 2012 de um trote (ela acreditou que estava falando com a família real da Inglaterra, engano este que veio a público). 

Acredito que o que acaba de ser escrito desmente frontalmente que o riso é sempre alegria e que o direito de rir é amplo e irrestrito. Afinal, como afirmar que o humorista não deve ter responsabilidade social se os efeitos de seu trabalho podem causar sofrimento? Isto posto, como equacionar limites ao direito de rir? A questão é complexa e remeto o leitor ao meu livro Humor e tristeza: o direito de rir (Papirus, 2014) se quiser se aprofundar no tema. Pretendo aqui apenas dar duas pistas, restringindo-me ao riso desencadeado pelo humor. Primeira pista. As modalidades de humor podem ser classificadas de várias formas: ironia, pastelão, sátira, non sense, cinismo, comédia, caricatura, etc. Para nosso tema, proponho duas grandes classes: o humor existencial e o humor de zombaria. O humor existencial toma como objeto destinos, mazelas, problemas, etc. de nossas vidas. Vejamos dois exemplos, o primeiro sobre a velhice: “A velhice é quando a sua mulher lhe diz: ‘Vamos subir ao nosso quarto e fazer amor’, e você responde: ‘Minha querida, é uma coisa ou outra’” (Buttons). O segundo sobre a solidão: “Quando eu era pequena, eu tinha duas amigas secretas. E elas nunca queriam brincar comigo” (Rudner). Já o humor de zombaria aponta para um aspecto considerado ridículo de alguém, de algum costume, de algum grupo social. As famosas “piadas de português” são exemplos de humor de zombaria, como também o são as piadas sobre loiras. Vejamos o que o humorista Coluche disse de um grupo profissional: “Os tecnocratas: se alguém lhes desse o deserto do Saara, cinco anos depois eles teriam que comprar areia em outro lugar”. E Marx Twain sobre médicos: “Uma morte natural é quando a gente morre sozinho, sem a ajuda de um médico”. O que é comum ao humor existencial e ao humor de zombaria é o fato de serem críticos (nem todo humor é crítico, como o atestam o non sense e os chistes). Mas enquanto o primeiro não visa a ninguém em particular, o segundo costuma nomear as suas “vítimas”. Logo, se houver alguma restrição ao direito de rir, tal restrição deve apenas incidir sobre o riso de zombaria. “como afirmar que o humorista não deve ter responsabilidade social se os efeitos de seu trabalho podem causar sofrimento?” 

Mas alguém poderá dizer que o direito de crítica é um aspecto da liberdade de expressão e que esta, sendo irrestrita, nada deve limitar o direito de fazer humor de zombaria. Mas não é tão simples. Por um lado, não é verdade que a liberdade de expressão seja ilimitada, do contrário a difamação seria lícita. Por outro, e é o que importa aqui, devemos lembrar que o humor de zombaria ridiculariza seu objeto: ora, ser objeto de ridículo pode ser humilhante e não podemos fechar os olhos sobre esse aspecto. Então, dirão alguns, que se proíba o humor de zombaria em razão de sua característica ofensiva. Isso é, grosso modo, o que pensam os chamados de “politicamente corretos” que se insurgem cada vez que se “goza” de alguma nacionalidade, etnia, sexo, religião, profissão, etc. Todavia, uma postura radicalmente proibitiva dessas coloca no mínimo três problemas. O primeiro: sem humor de zombaria, a cultura ficaria definitivamente triste. O segundo: sem ele, seria amputada uma forma de criação humana que gerou apreciáveis obras (pensa-se em Mafalda, por exemplo). O terceiro: coloca sob tutela moral quem não precisa dela. Então, quem precisaria dela? Penso que a resposta está na decisão de um grande humorista francês, Devos, que afirma seguir o seguinte critério: “se você degrada coisas já degradadas, você as ameaça de morte”. Dito pelo avesso, pode-se fazer humor de zombaria sobre valores socialmente fortes. Ameaçam-se de “morte” portugueses, loiras, argentinos, economistas, políticos, etc. quando se faz humor de zombaria a seu respeito? Não. Em compensação, grupos sociais fracos, como negros, homossexuais, certas religiões dependendo do lugar, mulheres também dependendo do lugar, podem ficar ainda mais fracos quando objeto social de humor de zombaria. Escreveu Pascal Boniface: “É muito diferente zombar da morte de De Gaulle numa França gaullista, na qual a oposição era fraca e a liberdade de imprensa menos consequente do que hoje, e zombar, hoje em dia, dos muçulmanos, que não estão em posição de poder na França, não têm apoio na mídia, são estigmatizados e têm dificuldades de integração. Dito de outra forma, não é a mesma coisa bater no forte ou no fraco. No primeiro caso, trata-se de coragem, no segundo, não. Os verdadeiros dissidentes não batem nos fracos, mas sim nos fortes. Aí está a coragem”. Eu acabaria o presente texto com mais uma observação, que corresponde à segunda pista: em geral, o humor de zombaria reservado aos grupos sociais fracos, costuma ser aviltante. Exemplo de “piada” sobre negros: “Por que é que preto gosta de boxe? Porque tem um assalto a cada três minutos”. Sobre judeus: “Por que os judeus pediram dinheiro aos suíços? Para pagar a conta de gás”. Sobre mulheres gordas: “Sua mãe é tão gorda que, quando ela cai da cama, é dos dois lados ao mesmo tempo”. Sobre homossexuais: “Como podemos fazer sentar quatro pederastas numa só cadeira? Virando a cadeira de ponta-cabeça”. Trata-se de rir cruelmente do mundo.Pelo contrário, o verdadeiro humor, que não costuma colocar problemas para o direito de rir, se caracteriza pelo rir de um mundo cruel. Um só exemplo, de autoria de Oscar Wilde: “Um verdadeiro amigo é aquele que te apunhala pela frente”. Deixo o leitor com o alerta de Doron Rabinovici: “Hoje em dia, é preciso, sobretudo, se perguntar quem ri, com quem ri e contra o quê”. Eu acrescentaria: e de que forma.  Prof. Dr. YVES DE LA TAILLE é docente do Departamento de Psicologia da Aprendizagem,do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da USP