“Certas questões sempre estiveram vivas em minha mente”

João Frayze-Pereira: A ligação entre a arte, loucura e psicologia

Por Ariane Alves
Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme



psico.usp, n.1, 2016

João FrayzeQuais são os diálogos possíveis entre Psicanálise e Arte? E entre Filosofia e Psicologia? que é a loucura? Como eu entendo o “outro”? São perguntas como estas que, desde a adolescência, movem João Augusto Frayze-Pereira, psicanalista e Prof. Dr. do Instituto de Psicologia da USP. 

A escolha de Frayze pela profissão se deu na adolescência. Fase um tanto introspectiva em que pôde contar com referências artísticas trazidas pelos seus avós, que eram muito envolvidos com a pintura e a música —, ele sabia apenas que desejava adquirir, ao longo de sua graduação, “meios de compreensão da humanidade e do homem, de pensar as razões do ser humano, sua origem e destino”. Um professor lhe indicou o curso de Psicologia, que era então novo na USP e oferecia a oportunidade de conciliar teoria e prática. Porém, ele nunca deixaria de estudar as questões filosóficas e antropológicas que despertavam seu interesse. 

Várias experiências importantes marcariam a vida de Frayze ainda na Graduação. Seu primeiro contato com a metodologia de Walter Hugo de Andrade e Cunha, importante professor da área de Etologia do IPUSP, iniciou uma parceria que se prolongaria no mestrado e doutorado. Ao analisar o comportamento de um louva-deus, Frayze se pegou estudando a pergunta “o que é observar?”, que o acompanharia pelo resto da vida. 

Outro acontecimento eternizado em sua memória foi o contato com os índios da aldeia Xavante, ainda nos anos 1960. Devido à sua aproximação com a área de Antropologia, viajou ao Mato Grosso com o intuito de se relacionar com pessoas de costumes completamente desconhecidos - um imprevisto havia cancelado a esperada visita à tribo Bororo, da qual Frayze havia levantado muitas informações. Lá, pôde vivenciar uma “experiência radical em relação com a alteridade”, tendo mantido uma boa interação com os índios. “Me dei conta de que você só se conhece pela mediação com o ‘outro’”, afirma. De volta à USP, viu-se iniciando a carreira de professor no curso de Ciências Sociais do campus de Presidente Prudente. Desde essa época, ele transmite seus conhecimentos e inquietudes por meio do ensino. 

Sempre atento à complexidade do ato de perceber, desenvolveu o tema em vertentes diversas ao longo da pós-graduação, estudando a questão da ambiguidade no mestrado e a recepção da arte no doutorado. Este último, intitulado Arte Incomum e integrante da XVI Bienal de São Paulo (1981), aumentou o contato de Frayze com a temática da loucura. A leitura de obras de Michel Foucault e outros autores também lhe rendeu um convite da Editora Brasiliense para que escrevesse O que é Loucura, da coleção Primeiros Passos. 

Além de Foucault, Frayze foi muito influenciado pelo fenomenólogo Maurice Merleau-Ponty, cujas ideias lhe foram apresentadas por Marilena Chauí, durante um curso. Por terem proposto novos modos de pensar a humanidade e o mundo que nos cerca, os dois filósofos serviram de base para que o professor do IPUSP conciliasse a paixão pelo universo artístico com as teorias aprendidas e desenvolvesse duas linhas de pesquisa: Psicologia social da arte e arte e psicanálise. Frayze também foi responsável pela criação do Laboratório de Estudos em Psicologia da Arte. 

O psicanalista enxerga seu consultório como um ateliê. Compara o estudioso da mente humana com o espectador de uma obra de arte - nesta analogia, a vida do paciente. Tal visão tem grande influência do contato com artistas que lhe confidenciavam ao longo de suas pesquisas. Assim como a carreira de docente, a formação em psicanálise veio como um processo natural. 

Conciliando as várias vertentes de sua trajetória de pensador ativo, João Augusto Frayze-Pereira ostenta, hoje, uma sólida formação e guarda em sua ágil memória muitos momentos importantes, como o Colóquio Internacional “Arte-Dor”, que organizou em 1995, e os nomes de todas as pessoas influentes em sua carreira, pelas quais não esconde ser muito grato. Conta com muitas publicações e artigos sobre os mais diversos assuntos em sua vida profissional. 

Seus alunos da pós-graduação — vínculo que mantém com a USP após a aposentadoria —  o definem como um orientador exigente, propositor de novas visões sobre os objetos de estudo e de interlocuções entre os trabalhos. João Frayze permanece assim dando sua contribuição às reflexões sobre  psicologia, arte, filosofia, loucura − cultura! Em entrevista à psico.usp Frayze comenta, ao falar de seus filhos, que após a infância é preciso “ir para a cultura” Como vemos, suas atividades ainda estão longe de acabar, e as contribuições ao IPUSP continuarão sendo sempre muito bem-vindas.