Pesquisadores do IPUSP analisam as questões de gênero e sexualidade, em conformidade com a crescente necessidade de uma discussão mais ampla sobre a temática

 

Por Aryanna Oliveira, Anátale Garcia e Carolina Sasse
Colaboração de Tatiana Iwata, Sofia Mendes e Islaine Maciel
Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme

psico.usp, n.2/3, 2016

VARAL

 Ju Bernardo

Dossiê GÊNERO 
Nunca se falou tanto sobre gênero: entre amigos; na publicidade; na militância política (ou nos discursos homofóbicos de políticos); nas revistas e jornais; em novelas, séries de televisão, e desenhos infantis; no ambiente escolar – especialmente nas universidades. E, na confluência desse cenário, provavelmente nunca se produziu tanto sobre gênero. Isso não quer dizer que o assunto começou a ser estudado recentemente, pelo contrário, hoje sabemos que pesquisas são feitas há décadas, acompanhando uma luta permanente na esfera social. Mas, nunca como agora se possibilitou a compreensão de toda a multiplicidade que a temática que envolve os LGBTs*. Falar sobre gênero, identidade e sexualidade não se resume a falar sobre homossexualismo (sim, com esse ismo de doença, que precisa ser contestado) e AIDS. Discutir a questão de gênero é muito mais do que rebater o eterno discurso repetitivo sobre promiscuidade, escolha e “desejo de aparecer”, é antes um meio de compreender de que forma os indivíduos se constituem e se constroem, seja na ótica da biologia, da psicanálise ou das ciências sociais. Seguindo essa perspectiva, pesquisadores, professores e alunos do IPUSP ampliam o debate com trabalhos desenvolvidos sobre a sexualidade e a questão de gênero.

Bem-vindos à discussão!

 


Troco as pessoas, troco os pronomes...
Até 2004, Laerte Coutinho era conhecido sobretudo por ser um dos mais populares cartunistas brasileiros. Através da ironia fina das tiras de Chiclete com Banana e Piratas do Tietê, entre outras, popularizou-se pela crítica com que “denuncia” as mazelas políticas e sociais. E foi baseado em um de seus personagens, Hugo, que abriu uma importante discussão sobre sexualidade e identidade de gênero, porque, ao mostrar o personagem como uma travesti, o cartunista estava para além do “engraçado” da charge, despindo-se a si mesmo, revelando sua trangeneridade.


laerte2Fotos: André Giorgi (Reprodução Portal IG)

Entretanto, esse processo não se deu da noite para o dia. Segundo Laerte, em vídeo gravado para o projeto Trip Transformações (criado em 2007 para identificar e reconhecer pessoas que promovem o avanço do coletivo com seu trabalho), foram necessários trinta anos, três casamentos e uma perda irreparável (a morte de um dos filhos em um acidente de carro) para que ele se permitisse um radical processo de mudança que culminou na descoberta – e revelação – de sua identidade de gênero. A cartunista (que prefere ser chamada pelos pronomes femininos, embora não repreenda quem ainda a chame por “ele”) confessa ter renegado e suprimido tanto quanto pôde o que ela entendia como sua homossexualidade (que depois foi mais bem entendida como bissexualidade) e, posteriormente, sua transgeneridade. Para ela, “a transgeneridade é uma espécie de último tabu, ainda maior do que o de orientação sexual, porque envolve pessoas que gostam de se expressar dentro do contexto homossexual feminino, mas que não são homossexuais, o que pira a cabeça de todo mundo”, explicou.

MUSICA.L UMúsica "meninos e meninas", Legião Urbana. Letra de Renato Russo
Manuscrito de Carina Müller Sasse


Essa confusão que se dá na “cabeça de todo mundo” em relação à “condição” de Laerte resulta de um constante equívoco que se estabelece entre a suposta noção de sexo biológico (ou seja, a ideia de coerência obrigatória entre o genital, a composição genética, as características físicas e o comportamento), a identidade de gênero e a orientação sexual. Os mais radicais – e aqui entram principalmente os discursos religiosos – defendem que devemos seguir orientados pelo dito sexo biológico, ou seja, se nasci com vagina serei mulher, desejarei e me relacionarei com homens, e se nasci com pênis sou homem e me envolverei apenas com o sexo oposto. Mas, essa condição pode ferir a orientação sexual dos indivíduos, que é a direção para onde aponta o interesse/desejo sexual/emocional de cada um. Afinal, deveria ser natural poder gostar de homens, mulheres, de ambos ou de nenhum.

Há também uma discussão ainda mais complexa no que se refere à identidade de gênero, terminologia que ganhou destaque após a teoria queer, popularizada com Judith Butler. Segundo a filósofa pós-estruturalista norte-americana, cada um de nós pode identificar-se com um gênero que não necessariamente o de nascimento, porque a chamada “identidade de gênero” é fruto de uma construção social, que se dá pelo constructo, pelas relações socioculturais de cada indivíduo. Dessa forma, o “eu” ao qual foi atribuído o gênero masculino ao nascimento pode, na verdade, se identificar com o feminino, e o “eu” ao qual foi atribuído o gênero feminino pode identificar-se com o masculino, assim como a identificação pode ser com os dois gêneros ou mesmo com nenhum.


Esses novos estudos explicam um sentimento conhecido por muitos transgêneros, que não necessariamente realizam procedimento para redesignação sexual, mas se veem diferentes da atribuição que lhes foi feita ao nascer. “Eu me olho no espelho e me vejo assim, não como mulher, nem como homem, mas como uma pessoa transgênera, eu me expresso desse jeito, eu adoro isso, eu me encontrei neste tipo de representação”, relatou Laerte no vídeo. Segundo a cartunista, não há nela um desejo de se vestir como mulher para ser, de fato, uma, mas a vestimenta é a representação de uma forma, de uma ideia que conversa com a sua busca pessoal, com o seu desejo de expressar sua identidade de gênero. “Ninguém está aqui brincando, eu não estou aqui fantasiada, não se trata de carnaval, é a vida mesmo”, completou.

Assim como Laerte, a hoje ex-atleta olímpica Caitlyn Jenner, antes Bruce, padrasto da socialite Kim Kardashian, também passou por processo de reenditificação de gênero. Em seu caso, todavia, houve intervenção cirúrgica para redesignação sexual, além de cirurgias no nariz, queixo, pescoço, testa e maxilar. Durante o processo de transição de gênero, pequenas mostras de suas mudanças físicas já podiam ser percebidas, mas foi somente na capa da edição de junho de 2015 da revista americana Vanify Fair que Jenner revelou ao mundo sua nova identidade: “Me chamem de Caitlyn”.

Em depoimento à revista, ela declarou: “se eu estivesse deitada em meu leito de morte e tivesse guardado esse segredo comigo e nunca tivesse feito nada para mudar o que sentia, estaria pensando: ‘Você estragou sua vida. Você nunca lidou consigo mesma’. Eu não quero que isso aconteça”, mostrando o quão segura estava na revelação de seu novo eu. Após a publicação, ela escreveu em sua conta no Twitter: “Estou tão feliz depois de uma longa batalha para poder viver o meu verdadeiro eu”, sendo bem acolhida pelos fãs, que enviaram mensagens de apoio. Apoio este que também veio da família, inclusive de Kris Jenner, sua ex-esposa – ainda que ela, num primeiro momento, tenha ficado chocada.

Se o “sair do armário” parece glamoroso quando o assunto são celebridades, na vida de pessoas comuns, que não figuram dentro da chamada cis-heteronormatividade, o revelar-se é muito mais complexo. Nesse processo estão envolvidos conflitos (internos e externos), um longo processo de descoberta e aceitação, além de muito preconceito e intolerância.

Seja através da identidade de gênero ou da orientação sexual, o descobrir-se “fora do padrão”, sendo transgênero – como Laerte Coutinho, Caitlyn Jenner ou Jo Camilo –, sendo gay – como o deputado federal Jean Willys ou o cantor Ricky Martin –, ou, ainda, estando dentro de qualquer outra “nomenclatura” que não a de cis-heterossexual, é complicado! Porém, se faz extremamente necessária a tentativa de compreender toda essa multiplicidade própria do ser humano.

A polêmica que envolve o gênero não é recente, como também não o é o intento de muitos pesquisadores do IPUSP. A dedicação dessas pessoas se volta para o estudo profundo da sexualidade e do gênero, pelo viés da psicanálise, do construcionismo, do marxismo, da teoria queer etc., ou seja, pelas novas vertentes de estudo.

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Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Constantemente, estamos expostos a discursos e a práticas sociais. Via de regra, ambos acabam sendo aprendidos e internalizados, e esse processo é natural a todo ser humano. É desse modo que aprendemos, por exemplo, as normas exigidas para o convívio social ou as situações que devemos temer para preservar a nossa segurança e, consequentemente, sobrevivermos. E, infelizmente, é assim, também, que muitos julgamentos infundados são incorporados às nossas práticas cotidianas, em forma de preconceitos.


Hoje, é notória a discriminação que sofrem todos aqueles que se identificam (ou são identificados) como parte do grupo LGBT. A ignorância, o desprezo e, muitas vezes, a repulsa por essa comunidade se pauta no discurso hegemônico que, cotidianamente, martela que o binarismo de gênero e a cis-heteronormatividade devem ser os referenciais a partir dos quais se julgaria o que seria sexualmente patológico no ser humano - o que significa dizer que tudo aquilo que foge à concepção de “homem é aquele que tem pênis e é atraído por mulheres” e “mulher é aquela que tem vagina e é atraída por homens” não é bem recebido ou mesmo aceito pelo senso comum.
Todavia, como afirma o psicólogo e pesquisador do IPUSP, Rafael Kalaf Cossi, em sua dissertação, “as identidades sexuais apresentam uma dimensão real, portanto, são ilimitadas e imprevisíveis”. Cossi tem se dedicado desde o mestrado ao trabalho em Psicologia Clínica, mostrando a importância da psicanálise nas questões de sexualidade e identidade, já que a teoria passa a contemplar novas possibilidades corporais e de gênero como legítimas, problematizando a condenação à anormalidade dos sujeitos não-heterossexuais e não-cisgênero.

Assim, o psicólogo recupera as ideias de Robert Stoller, pioneiro na pesquisa sobre gênero em psicanálise, que considerava que “a identidade de gênero se expressa no indivíduo a partir da convicção que ele tem quanto ao pertencimento a este ou aquele sexo. Tal convicção não é inata, mas adquirida, e precocemente: por volta dos dois ou três anos, o sentido de ser homem ou mulher já está estabelecido”. Nesse sentido, se livrar da cis-heteronormatividade patologizante é um objetivo que a psicanálise se propõe a contemplar, o que implica a legitimação das novas possibilidades sexuais e de gênero, que, por consequência, deixam de ser rotuladas como anormais.

Ainda assim, não são poucos os argumentos biológicos usados como um artifício da intolerância contra aqueles que não se enquadram nos padrões de sexualidade e de gênero esperados. O debate não pode se estruturar em torno desse raciocínio, porque o órgão genital de um indivíduo não necessariamente condiz com a sua identidade de gênero – como ocorre nos casos de Laerte e Caitlyn. A propósito, o debate gerado pela concepção de que o indivíduo escolhe a sua sexualidade também é pouco produtivo, porque sugere que uma pessoa é capaz de definir para quem aponta o seu desejo, seja ele afetivo ou sexual. A chamada orientação sexual não implica numa escolha, já que a constituição de nossa psique é extremamente complexa ao mesmo passo que estável. Assim, a orientação sexual vale para todas as sexualidades humanas, desde lésbicas, gays, bissexuais, assexuados, pansexuais, até os heterossexuais. Em virtude disso, o determinismo biológico e o termo “escolha” não atendem adequadamente à verdadeira complexidade do assunto.

Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, Freud explica que a bissexualidade psíquica é uma “condição originária que justificaria a orientação sexual homossexual”. Por esta razão, o ser humano comporta um amplo espectro de possibilidades sexuais e é expressamente refletido na comunidade LGBT.

Porém, para Cossi, ainda que se compreenda a análise freudiana, é necessário evidenciar, no que se refere à transexualidade, que diferentemente de um psicótico – que, numa convicção delirante, encarna A mulher ou O homem –, o sujeito transexual “assume verdadeiramente uma identidade, mas não necessariamente por acreditar que ela exista substancialmente, pois ele tende a reconhecer o caráter ilusório duma suposta identidade sexual totalizada e definitiva”.

A transexualidade, segundo o pesquisador, é tomada como um fenômeno estritamente moderno. Sua entrada no campo da medicina se dá em 1953, pelo viés da patologia – logo, ela é primeiramente denominada como transexualismo, com o famigerado sufixo de doença. Aliás, no que concerne aos LGBTs, a insistência na utilização dessa terminação acaba se transformando em um posicionamento político que desrespeita essa comunidade.


Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente

Nas concepções de Jo Camilo, mestranda do IPUSP, todo o universo transgênero era muito aversivo, porque ela carregava consigo muitas das ideias sociais que são atribuídas a essa identidade de gênero. Para a aluna, que nunca se identificou como homem gay e teve relações quase que exclusivamente com mulheres, sua compreensão da transgeneridade, ou transexualidade, mudou quando teve acesso a informações através de vídeos produzidos e divulgados pelas próprias pessoas trans. “Cada vez menos me sentia como homem nessas relações. Sentia-me como uma mulher ficando com outras mulheres”, nos relatou Jo, em depoimento à psico.usp.

Além disso, a estudante encontrou entre as pessoas trans o apoio e discernimento que precisava para compreender sua identidade. “Ter contato com esse material desconstruiu quase que instantaneamente diversos conceitos muito problemáticos que eu tinha e, em questão de menos de um dia, me vi completamente imersa em buscas sobre como poderia me apropriar dessa identidade que já estava sendo construída em mim”, explica.

Não que tudo tenha sido fácil após o aprimoramento da compreensão de si mesma, afinal, segundo Jo, o período em que passou a se mostrar publicamente como pessoa trans foi marcado por muito medo, um medo não só da violência física ou psicológica nas ruas, mas um medo das mudanças que a acompanhariam dali, inclusive nas relações sociais.

Assim, quando não são socialmente pressionadas por uma falta de humanização, essas pessoas são expostas a uma padronização exacerbada. Nem todos os transgêneros recorrem a métodos cirúrgicas, como a redesignação sexual, por exemplo. Mas a ausência de intervenções hormonocirúrgicas não significa que essas pessoas deixam de ser trans. De maneira semelhante, os intersexuais, que são uma categoria ampla que inclui diversos tipos de pessoas, nem sempre precisam de tratamento médico, e o desejo de realizá-lo ou não deveria depender primordialmente da vontade da pessoa que passará pelos procedimentos, e não do desejo incessante por categorização binária que a sociedade impõe.

Sobre essas transformações vividas pelos indivíduos, Jo Camilo reitera que “é errada a ideia de que as pessoas trans se caracterizam pelas mudanças corporais”. Na realidade, essas pessoas não necessariamente tomam hormônios ou fazem intervenções médico-cirúrgicas para afirmarem socialmente sua identidade.

Os conceitos de distúrbios permanecem erroneamente distinguindo pessoas que querem receber determinados tratamentos médicos. Esse é o caso tanto dos sujeitos trans quanto dos sujeitos intersexuais. De acordo com Cossi, no caso das pessoas transexuais, ainda que não exista uma dita “identidade transexual verdadeira”, é importante que se realize um longo e rigoroso percurso terapêutico, para que nenhuma dúvida reste antes de se realizar a redesignação genital, até porque, como se trata de um procedimento irreversível, o arrependimento nesses casos pode gerar atentados contra a própria vida.

Já a necessidade estabelecida no caso dos intersexuais que optarem por realizar os tratamentos é que se saiba antes qual o sexo desta pessoa e com que gênero ela se identifica. Entretanto, a intersexualidade não deve de jeito nenhum ser considerada um distúrbio, porque, em verdade, ela é apenas uma variação biológica.

Portanto, se faz importante problematizar o ponto de vista de quem considera que existem tipos “normais” de corpos, porque essa visão imputa uma desordem a todos que não pertencem à categoria binária. Por outro lado, existem os movimentos sociais, que costumam propagar, em geral, a aceitação e o respeito às sexualidades e identidades. A exemplo disso, no âmbito lexical, o movimento intersexo considerara que o termo “hermafrodita” é ofensivo, porque é um termo antiquado e estereotipado. As pessoas transgêneras também requerem, dentre outras coisas, que a concordância gramatical com a identidade de gênero da pessoa seja respeitada. Isso demonstra que o posicionamento de movimentos políticos e a maneira como eles escolhem ser chamados deve ser levado em consideração.


Oferecer direitos como a opção de um “terceiro sexo” em documentos oficiais deveria estar disponível, para que ninguém tenha que se “forçar” a ser homem ou mulher. A educação sexual desde a infância também é importante. A escola deveria exercer essa função, considerando sempre, obviamente, os níveis de maturidade apropriados às faixas etárias.


No entanto, o ensino básico e mesmo o ensino superior ainda não conseguem cumprir com essa responsabilidade. Vera Paiva, profa. dra. do IPUSP, em artigo publicado em 2008, diz que “raramente […] formamos psicólogos para lidar com a vida sexual em contextos que não sejam clínicos”. A professora afirma que reduzir as coisas a textos e discursos seria um erro, visto que a vida social consiste em atuações e interações. “Do sexo biológico (XY ou XX) não se deriva a essência natural do feminino, do masculino ou a hetero-normatividade”, explica Paiva.

Tenho quase certeza que eu não sou daqui
allanPara a também estudante de psicologia do IPUSP, Allan Marcolino, que se identifica enquanto pessoa trans não-binária, feminina e mulher, não é simples se “rotular” como transexual. “Eu transito entre essas categorias, mas se tenho que trazer algo no discurso eu sempre trago a questão queer, que eu tenho muito forte, porque não acredito mais que sou um uma mulher que nasceu no corpo errado”, nos explica a futura psicóloga.

Por razões como essa, e com a finalidade de evidenciar que são dos constructos sociais que as concepções de identidade de gênero e de orientação sexual derivam, ganha evidência a teoria queer, que tem como uma de suas principais teóricas Judith Butler. Segundo a filósofa, o termo “queer” afirma a diferença que não pode ser reduzida a uma identidade unificada, fazendo ainda uma conexão erótica e política. Se amparando na psicanálise, na sociologia, na filosofia e na antropologia, a tentativa de Butler é romper as normas que constrangem o ser humano em categoria binárias, sexo e gênero, homem e mulher.

Segundo o psicólogo e pesquisador do IPUSP Lucas Bulamah, em entrevista à psico.usp, o queer passou a ressignificar um termo pejorativo para empoderar um conjunto de pessoas, antes referenciados como “bixa”, “viado” etc. Hoje, a palavra é utilizada para designar aqueles que não seguem o binarismo de gênero, ou seja, refere-se às muitas identidades que fogem à cisnormatividade.

Queers são indivíduos que podem se ver e se identificar de várias formas, podendo assumir, por exemplo, a identidade de gênero masculina e feminina ao mesmo tempo. A colocação de Bulamah é consonante ao pensamento de Judith Butler, para quem o gênero é, antes de tudo, um ato performativo que não corresponde a modelos universais. Esse ato é mutável e existente apenas mediante a atuação performativa dos indivíduos. Para a autora, a questão de gênero diz respeito a uma categoria política, e não a determinações naturais; a identificação de gênero está diretamente ligada ao contexto histórico e às estruturas de poder, não existindo, portanto, uma identidade de gênero pré-estabelecida.

Neste panorama, temos algo que é essencialmente dado por elementos culturais – como a suposta coerência entre sexo, gênero, desejos e práticas sexuais –, sendo considerado como característica inata dos indivíduos. Por imposição social e cultural, criou-se um ambiente propício para que comportamentos fora da cis-heteronormatividade fossem colocados no campo da patologia. Tal problema é designado por Judith Butler como “gênero ininteligível”, aquele que está fora da cis-heterossexualidade compulsória e que socialmente acaba por ser invisível ou classificado como patológico. As proposições dos estudos de gênero de Butler pretendem problematizar essa racionalidade que costuma expulsar da ordem da inteligibilidade as experiências que não se enquadram nas matrizes da heterossexualidade e cisnormatividade compulsórias vigentes.
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Em certo momento, a patologização dos comportamentos exteriores à cis-heteronormatividade esteve presente também na psicanálise, dado que a oposição binária dos gêneros serviu para estabelecer o que seria normal e o que seria patológico. Exatamente por isso, uma das críticas levantadas pela teoria queer atinge a psicanálise. Para Judith Butler, essa teoria reproduziria a organização social vigente em seu extenso uso da lógica binária de corpos e gêneros na explicação dos processos internos dos indivíduos. Para a autora, a psicanálise, sobretudo quando privilegia o campo simbólico, apropria-se do pensamento binário. Contudo, quando ela dá relevância ao real (de cada indivíduo), com suas possibilidades ilimitadas e imprevisíveis, contempla mais fielmente as possibilidades da sexualidade.

Além da psicanálise, quando nos preocupamos com gênero, áreas como a psicologia social oferecem contribuições relevantes para a questão. Linhas de estudos como o Construcionismo – que considera que todo conhecimento é construído a partir das relações sociais e que se preocupa preferencialmente com as inter-relações para além das individualidades – contribuem para o entendimento de que as identidades de gênero são o resultado de uma série de contextos em que os indivíduos estão inseridos, como o espaço, o tempo, a sociedade, a história etc. Se, para o entendimento construcionista, não há uma descrição neutra do mundo, não há também uma definição objetiva, inata, natural, despida de contexto, para as identidades de gênero individuais.

 

construcionismo

Arte: Dinho Martins | Conteúdo: Sofia Mendes


De acordo com a professora do IPUSP Belinda Mandelbaum, o diálogo da psicanálise com a teoria de gênero acontece com mais dificuldade devido à maneira como foi estruturado o conhecimento psicanalítico. Conforme conta, a psicanálise “tende a fazer afirmações pretendidas como universais sobre a vida psíquica, que valeriam para todas as mulheres e homens, independentemente do contexto social, de raça ou de cor. Nesse sentido, a psicanálise tendeu a compactuar com visões muitas vezes estanques de homens, mulheres e famílias, sem fazer a crítica de que essas visões eram datadas”. Consequentemente, as leituras dos indivíduos promovidas pela psicanálise frequentemente tiveram suas estruturas pensadas dentro de lógicas de oposição e complementaridade. Mas, mesmo dentro dessa estrutura psicanalítica de pensamento, encontram-se também formas de entendimento para a diversidade de gênero. 

Dessa maneira, Pedro Ambra, pesquisador do IPUSP, desenvolveu um trabalho que corrobora a percepção de que o gênero não é algo pré-estabelecido e estável, mas, sim, uma espécie de ato performativo, como descrito por Butler. A pesquisa, intitulada “A noção de homem em Lacan: uma leitura das fórmulas da sexuação a partir da história da masculinidade no Ocidente”, ao contrário de um considerável número de estudos em psicanálise a respeito da questão de gênero, tem o objetivo de entender o que é a masculinidade. O masculino, como categoria dominante do ponto de vista social, tem seu estudo muitas vezes encoberto pela compreensível necessidade política e afirmativa dos estudos da feminilidade. Entretanto, a masculinidade, como mostrada no desenvolvimento da pesquisa, remete a um quadro esclarecedor das contingências a que está submetido o entendimento de gênero, nas culturas e ao longo da história.

Tomando como referência a noção de homem de Lacan, o pesquisador estabelece a evolução do entendimento de conceitos sobre o masculino e sobre o que seria um homem ao longo do tempo. Nesse quadro, o argumento corrente da dita “crise da masculinidade” – segundo a qual estaríamos atravessando um momento em que os homens estão perdendo o senso de como ser verdadeiramente homens – não se sustenta, pois nunca teríamos tido, de fato, um modelo de masculinidade plenamente constituído e consolidado. A trajetória argumentativa do trabalho, também publicado em livro homônimo, desconstrói o “mito viril”.

A escolha da história como instrumento de desconstrução dos conceitos comumente atribuídos à masculinidade vem da capacidade que esta ciência tem de confrontar as tendências de universalização presentes em outras ciências próximas, como a antropologia e, também, em muitos sentidos, a psicanálise. Assim, o machismo poderia ser entendido como fruto da busca do homem por sua força, já que “essa busca por uma virilidade perdida sublinha o fato dessa virilidade nunca ter existido. Ainda assim, não deixam de existir efeitos: a violência, o machismo etc. persistem. Só que eles devem ser lidos à luz dessa busca ou dessa fantasia, já que não são violências arbitrárias”, explica o pesquisador.

Semelhante a Ambra, Cossi, em sua pesquisa, também destaca a psicanálise de Lacan. Para ele, a teoria do psicanalista francês é um importante contributo para o desenvolvimento da teoria queer, do mesmo modo que esta é fundamental para a compreensão da concepção psicanalítica de sexualidade – sobretudo do conceito de gozo. Para o pesquisador, seria preciso distinguir a sexualidade, a nível discursivo, do âmbito de suas práticas de gozo e do plano das fantasias que organizam nossos desejos. Desse modo, fica evidente que o binarismo de gênero não incide de maneira igualitária no significante, no gozo e no desejo, dado que a relação entre estes três níveis – chamada por Lacan de sexuação – torna-se contingente e não necessária. Todo esse processo ocorre porque uma das razões mais fortes para manter e propagar o binarismo, inclusive em sua dimensão ideológica e de poder, é a concepção de que existe uma relação de unificação, hierarquia e proporcionalidade entre seus pares ou categorias. Assim, torna-se compreensível que não há a ideia de homem ou de mulher por excelência, com a constituição de sua essência dada pela natureza, mas que, em verdade, há entre os gêneros disparidade e não identidade, porque ambos não são proporcionais. A partir desse raciocínio é possível encontrar uma curiosa afinidade entre Butler e a psicanálise.

De todo modo, pensando na pesquisa de Ambra, percebemos que, ao longo da história, as ideias a respeito da masculinidade mudaram substancialmente. Um bom exemplo do trajeto histórico percorrido pela concepção de homem nos mostra que foi só na modernidade que as ideias de virilidade e civilização deixaram de caminhar juntas. Ser viril não significa mais saber viver em sociedade com base numa maestria de si; pelo contrário, a civilização passa a ser considerada um perigo de enfraquecimento dos corpos e das maneiras. Há, assim, uma inversão do entendimento. Esse tipo de abordagem dá elementos que ajudam a construir a legitimidade do entendimento do gênero como algo múltiplo e mutável, além de propor concepções dotadas de uma maior liberdade, como as veiculadas pela teoria queer e pelo movimento LGBT. Em suma, a partir da compreensão da dissociação entre o orgão genital, a orientação sexual e a identidade de gênero podemos entender melhor o que são as construções sociais.

Analisando por essa perspectiva, não haveria nenhuma espécie de amarra, de maneira que alguns autores inclusive sugerem que se alguém, hoje, se vê como uma mulher que tem desejo por homens, nada a impediria de que, amanhã, num outro momento, ela se visse de outra forma. A compreensão do gênero e da sexualidade como produtos do social permitiriam um trânsito livre. Na visão de Ambra, “as pessoas imaginam que gostam do próprio gênero, mas isso seria um imperativo”. Para ele, o Estado e a sociedade precisam rever suas relações com o gênero a fim de limitar uma eterna categorização identitária da sociedade. “Para que servem as categorias afinal? A pergunta esbarra em uma questão foucaultiana clássica, uma crítica à psicanálise, que enxergaria no sexo a verdade última de tudo, como se fosse algo muito mais importante do que o resto. Assim, a questão do gênero causa reações extremadas, pois se parte de uma ideia de que – diferentemente de uma plástica, por exemplo – uma cirurgia de trangenitalização tocaria em algo muito radical do ser humano e deveria, portanto, ser proibida, porque o sexo teria um estatuto diferente”, explica Ambra.

Essas ponderações não querem dizer que o homem, como fruto da linguagem, do constructo, vai mudar aleatoriamente e o tempo todo. Segundo Ambra, em razão justamente de uma interpretação equivocada das ideias de Butler, a socióloga tem sofrido críticas por correntes da biologia, por teorias e movimentos sociais essencialistas e até mesmo por áreas da psicanálise. “Então você está dizendo que o gênero é um ato de escolha, você escolhe como vai performar? Não é bem assim. Temos que considerar o inconsciente envolvido, por um lado, e os exercícios de poder das normas sociais, por outro. Butler vai dizer que todo esse efeito de sujeito, efeito de gênero que é criado a posteriori, não necessariamente é controlado pela pessoa, é muito mais um resultado dessas imbricações de fala, imbricações de atos performativos, imbricações que tomam um peso, produzem um concreto, mas sempre permeados por discursos normalizadores”, finaliza o pesquisador.

Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Quando tinha dez anos, Emerson da Cruz Inácio sonhava em ser bailarino, mas, já naquela idade, percebeu que o ser humano é convidado a seguir determinados padrões. Em uma época que ele chama de “geração dos grandes traumas”, seu desejo teve como resposta que o balé não era coisa de rapazes. “E então eu questionava, ‘mas por que ele dança na televisão?’, ao que ouvia ‘ah, ele pode, ele é artista’”.

Hoje, aos 43 anos, o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP percebe que o traumático descobrimento da sexualidade que tivera não é o mesmo vivido por muitos jovens nos tempos de hoje. É claro que ainda existem padrões e regras insistentemente impostos, mas existe também uma maior naturalidade no tratamento da sexualidade e das identidades de gênero, além de que hoje é possível conceber que homens sejam bailarinos e mulheres sejam jogadoras de futebol. No entanto, em um passado não muito distante, as coisas eram bem diferentes. “Eu fui criado dentro de todos os estereótipos de ‘homem’. Era um menino católico e ‘bonzinho’, que tinha que ter uma namorada”, diz Emerson, que passou a viver furtivamente suas experiências homossexuais, levando os namorados para casa como “amigos”.

Para a geração dos “grandes traumas”, a sexualidade raramente era revelada, ela se impunha em doses homeopáticas, como fazia o professor, ou, ainda, nunca se desvelava, numa supressão da própria identidade. “De fato, eu nunca ‘saí do armário’, porque eu tinha muita dificuldade em verbalizar ‘mamãe, eu sou gay’. Então, o que comecei a fazer? Levava os meus namorados para casa. Tudo foi se desenrolando bem, não gerou nenhum choque, porque no segundo ou terceiro namorado as pessoas já presumiam”, declara o professor.

A década de 90 foi emblemática nos estudos sobre a homossexualidade. Com a morte pela AIDS/HIV de celebridades assumidamente gays, como Cazuza e Freddie Mercury, começou-se a questionar como uma “opção sexual” poderia ser sinônimo de mortalidade. Os homossexuais, então, passaram a ser diretamente relacionados à doença, inclusive na medicina. Foi nesse período que se iniciaram os estudos realizados pela psicóloga e professora do IPUSP Vera Paiva, que desde 1991 tem se dedicado à pesquisa psicossocial das sexualidades, dos gêneros e da desigualdade, assim como tem proposto práticas inovadoras na prevenção e no cuidado da saúde.
Testemunha de muitas histórias de portadores do vírus – homossexuais ou não –, Paiva relata em seu artigo que costumavam associar a epidemia de HIV aos chamados “promíscuos”, que eram os “homossexuais, usuários de drogas, trabalhadores do sexo, africanos e haitianos – com a contribuição direta de profissionais e pesquisadores que usavam sua autoridade tecno-científica para construir esse sentido da AIDS, inclusive na mídia”, explica a professora.

Com um evidente preconceito arraigado à sociedade, Paiva notou que era prioritário confrontar o estigma e a discriminação, já que a doença não fazia distinção de orientação sexual e se disseminava em momentos de informação limitada e cuidados insuficientes. “Quando pegamos Aids não estamos pegando Aids, estamos fazendo outra coisa…”, disse um dos entrevistados por Paiva. Estudar a sexualidade, portanto, foi um passo decisivo para uma conscientização mais ampla sobre as questões de gênero, desde sempre cingidas com preconceito, intolerância e ignorância.

Para Emerson, esse preconceito pode e deve ser rebatido diariamente, seja pela divulgação de novos trabalhos e por projetos como os de Vera Paiva, seja dando aulas na universidade. “Depois de adulto, a minha ideia sempre foi de trocar as placas, ou melhor, tirar as placas”, diz ele. Dessa maneira, para o professor, independente do modo como a pessoa se apresenta para o mundo – “vestido de rapaz” ou “vestida de moça”, no espaço da sala de aula esse alguém opta por ser quem quiser, porque isso não liquefaz sua capacidade acadêmica. “A roupa não faz ninguém, então me dispo dos padrões e faço questão de ‘dar pinta’, até porque no espaço da sala de aula essa atitude é um ato político”, finaliza o professor.

E eu gosto de meninos e meninas

Para Jorge Fofano Júnior, graduando do Instituto de Química da USP, os primeiros “sinais” de sua identidade bissexual foram percebidos na infância. “Lembro-me de ter a primeira experiência de atração por meninos aos 8 anos de idade, por um dos amigos de infância, mas sempre me senti atraído por meninas também”, contou em entrevista à revista psico.usp. Entretanto, esse ponto de “descoberta” não foi o bastante para que ele prontamente aceitasse sua sexualidade sem relutância. “Ao crescer, fui percebendo mais sinais, mas sempre os reprimia. Nunca cogitei sequer pensar como seria contar sobre minha orientação sexual para meus os pais, para a minha família e até para os meus amigos”, completa. Contudo, ao ingressar na universidade, Jorge percebeu que era possível “se abrir” para as pessoas mais próximas e se permitir uma efetiva experiência – embora, segundo conta, essa decisão tenha resultado na desilusão amorosa mais intensa que ele vivenciou. Ainda assim, Jorge assevera: “sinto-me muito mais ‘encontrado’ desde então e não mais reluto em me entender como bi”.

A dificuldade no aceitar-se bissexual começa na própria compreensão do que é a bissexualidade. O “B” dos LGBTs talvez seja a orientação sexual menos problematizada e a que mais sofre invisibilização e preconceito, mesmo dentro da própria comunidade em que está inserida. Essa falta de discussão dá a entender que a comunidade bissexual é fraca ou desorganizada, quando, na verdade, ela resiste a uma tentativa de apagamento social, que, muitas vezes, atinge inclusive a percepção da sexualidade do próprio indivíduo. Segundo o Instituto Bisexual Resource Center – grupo de pesquisas norte-americano, formado em 1985 –, alguns fatores ampliam o cerceamento da bissexualidade como orientação, como, por exemplo, rotular pessoas bis como gays ou lésbicas, porque estão em um relacionamento com homens ou mulheres, respectivamente; chamar a união de um bi de “casamento gay” ou de “união gay/lésbica”; e ser chamado de “aliados” por aqueles que estão inseridos no LGBT.

Desde os anos 2000, o movimento bissexual vem lutando por maior representatividade, através de estudos científicos e movimentos sociais, como o Coletivo Brasileiro de Bissexuais (CBB) ou o ActiBistas, um coletivo pela visibilidade bissexual. Esses passos, embora importantes, são tardios se comparados à representatividade de outros movimentos. Homossexuais, a exemplo, firmaram-se como movimento desde a década de 70; desde meados de 90, transgêneros conseguiram dar início a um movimento mais orgânico. Isso nos mostra que “falta discussão dentro e fora da comunidade e falta ainda descontruir este binarismo do hetero e do homo, que tanto nos prejudica e dá margem para essa argumentação de que estamos ‘passando por uma fase’”, afirma Jorge.

O senso comum aponta os bissexuais como indivíduos que estão passando por “uma fase”; como curiosos, indecisos, que ainda não decidiram sua orientação sexual; ou como sujeitos muito mais propensos à promiscuidade, dado que “gostam de todo mundo”. Jorge vê como lamentável esses apontamentos, especialmente em relação à libertinagem atrelada a eles. “Ser promíscuo, seja lá o que isso for de fato (o que é ser promíscuo, na realidade?), é uma característica individual, de caráter, nada vinculada com sua orientação ou identidade de gênero”. Para ele, há ainda um julgamento de que se o indivíduo bissexual assumir uma “preferência”, seria correto identificá-lo como gay ou lésbica. “A sexualidade é um assunto muito complicado e acho impossível que um dia cheguemos a algum consenso sobre ser certo ou não ter uma predileção. Eu, por exemplo, não tenho, mas tenho amigos bis que dizem preferir um gênero a outro, e eu não vejo nada de errado nisso, continuam sendo bis do mesmo jeito”.

No já citado discurso freudiano, todos seríamos naturalmente bissexuais e a heterossexualidade entraria em cena com um caráter culturalmente compulsório, a partir de uma série de resoluções sociais. Psicanaliticamente, a bissexualidade seria inata a todos os indivíduos e, somente após a passagem pelo Édipo, com a constituição das consequentes fantasias inconscientes, poderia ser feita uma “escolha” ou “eleição” (inconsciente) do objeto de desejo. As cenas edípicas seriam, portanto, definidoras da homossexualidade ou da heterossexualidade.

A partir da análise de estudos de Freud, surgiram defensores de terapias reparatórias da orientação sexual. Segundo eles, através de análise, seria possível reconstruir essas cenas inconscientes em um jogo transferencial, apontando o desejo para outra direção.

Para o graduando do IQ-USP, essas visões de uma heterossexualidade compulsória como forma de desvalidar a orientação bissexual são motivadoras da crescente bifobia nos dias de hoje, além de responsáveis pela estagnação da visibilidade do grupo. “A desinformação é bem ampla, no geral, mas isso tem também a ver com o fato de muitos bissexuais não se assumirem por sofrerem repressão. Então, há uma lógica viciosa na bifobia, cuja superação só se fará a partir da árdua e contínua luta dos bissexuais para mostrar que nós existimos e temos identidade. Acho que esse é o caminho para frear os estereótipos e a desinformação que é propagada dentro ou fora da comunidade LGBT”, finaliza Jorge.

 

Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
 
Apesar do movimento político dos LGBTs ter ganhado espaço nos últimos tempos, ainda existe uma espécie de segregação entre alguns grupos, o que não se restringe aos bissexuais – embora sejam, muitas vezes, vistos como um apêndice da comunidade. Segundo a aluna Allan Marcolino, “tem havido uma rixa entre o movimento trans mulheres e o feminismo radical. Essas são questões que me atravessam muito, me preocupam e me enchem de culpa”. Essa preocupação não é desmotivada e se dá em virtude de uma suposta estereotipização feminina. A aluna conta que, ao debater com uma feminista radical, se culpabiliza por conta de vestir roupas femininas, se arrumar passando maquiagem, pintando as unhas, se depilando, e, com essas práticas, exigir reconhecimento como mulher. “Eu acho cruel culpabilizar a pessoa trans, porque os signos que temos para elaborarmos os dados da cultura são binários: a mulher e o homem. Não é possível fugir disso”, afirma a estudante.
 
A orientação sexual e a identidade de gênero são particularidades de cada sujeito. Ser homem e gostar de mulher e ser mulher e gostar de homem não é (ou ao menos não deveria ser) uma obrigação. Não são todos que se identificam com a hetero-normatividade, a cisnormatividade e o binarismo de gênero. O respeito àqueles que não seguem os padrões impostos é o mínimo esperado de uma sociedade dita civilizada. Contudo, não são raras as vezes em que o senso comum classifica os homossexuais, por exemplo, como doentes ou pervertidos sexuais. Velada ou explicitamente, essa discriminação contra LGBTs é comum, mas a dor experimentada por quem é julgado não deixa de ser amarga. Constrangimento, humilhação, depressão e, em último caso, suicídio são sofrimentos cotidianamente vividos pela população LGBT. E este panorama parece estar longe de ser alterado.
Não é possível fazer os gêneros desaparecerem, fingir que eles não existem ou ignorar as individualidades humanas. Mesmo assim, são várias as tentativas de se criar um território do não-dito em torno dessas questões, que são tidas como tabu. Nesse ímpeto, surgem, inclusive na educação pública, iniciativas contra o chamado “ensino de ‘ideologia de gênero’ nas escolas”, ou mesmo o Projeto de Lei aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas, que institui no sistema estadual de ensino o “Programa Escola Livre”, uma tentativa de proibir o que é chamado de “doutrinação política e ideológica em sala de aula”. No âmbito social, o conservadorismo também trava um embate contra os avanços. Para ilustrar a questão, há, por exemplo, o esforço para reanalisar a Resolução CFP 01/99, que orienta os psicólogos a não exercerem qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas. O fato de pessoas LGBTs não irem ao psicólogo para “tratar” a sua orientação sexual ou a sua identidade de gênero, como se isso fosse um problema a ser resolvido, parece ser um incômodo para alguns.
 
A citada perspectiva lançada sobre a sexualidade e gênero alheios traduz o desconforto de certos setores da sociedade, o que acaba por implicar diretamente na vida dos LGBTs. Por isso eles sentem que as chances de discriminação e agressão aumentam conforme a exposição da sua orientação sexual e identidade de gênero torna-se mais clara. Essas violências em relação à população LGBT assumem caráter físico, moral ou psicológico, e são contínuas em toda a sua trajetória de vida.
A intolerância e o preconceito aos quais os LGBTs estão expostos abre precedentes para depoimentos como as postagens do político Marco Feliciano em sua conta no Twitter, em março de 2011. Para ele, “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam ao ódio, ao crime e à rejeição”. Essa imputação de culpa sobre as vítimas representa nada menos que a difícil realidade diariamente enfrentada por essas pessoas.
 
Em 2013, por exemplo, Vitor Pereira, à época ingressante no curso de Têxtil e Moda da EACH-USP, sofreu uma série de ofensas em sua página pessoal no Facebook. O episódio foi motivado pelo traje que o estudante usou na faculdade: uma saia. Um dos agressores ironizava, grosseiramente, o fato de o aluno ter um pênis e usar saia, como se a vestimenta só pudesse ser usada por pessoas com a genitália feminina. 
 
Em entrevista à psico.usp, Vitor conta que a escolha da saia foi natural, porém não aleatória. Ele relembra que estava em um brechó procurando roupas para a festa dos calouros do cursoque aconteceria na faculdade, quando viu a saia e achou que poderia usá-la. “Esse pensamento de usar uma roupa feminina sempre me acompanhou, desde pequeno, porque eu visto o que considero bonito e vejo muita beleza na roupa tida como feminina”, contou o aluno, que optou por “estrear” a saia em um dia que teria aula de “Arte e Cultura Contemporânea”, uma disciplina que o fazia sentir-se confortável. 
 
Porém, para a surpresa do estudante, quando ele respondeu ao “ataque virtual” notou que recebeu muito mais apoio do que poderia imaginar. “Eu li comentários como ‘que bobagem, saia não tem gênero, roupa não tem gênero...’, eram muitas pessoas me apoiando”, relata. O episódio culminou no evento “USP de Saia”, que aconteceu dias depois e foi criado pelos alunos do campus Butantã, espalhando-se pelos outros campi. 
 
O evento convidava todos os alunos da universidade a usarem suas roupas como uma forma de linguagem, como liberdade de expressão. Já na chamada se via: “esse evento é uma forma de demonstrar apoio a qualquer forma de transgressão aos padrões que a sociedade nos impõe”. Durante um dia inteiro, os estudantes da USP foram convidados a repensar o preconceito e a intolerância que os LGBTs sofrem todos os dias, especialmente no tocante às imposições diárias da sociedade, muitas delas veladas. “Eu via tudo aquilo e pensava ‘que bobagem fazer tudo isso pra mim, eu não fiz nada demais, eu não lutei por nenhuma causa, só tive 
coragem de sair de casa como eu sou’”. Mas hoje, o aluno de têxtil e moda reflete melhor sobre o que aconteceu.  “Ações pequenas são importantes porque a atitude simples de um pode mudar o outro. Eu sempre lutei por mim, desde pequeno, sempre soube o que queria, e percebi que ali as pessoas não lutavam por mim, elas estavam lutando por elas mesmas”.
 
A repercussão de todo o episódio envolvendo Vitor foi muito grande. De um dia para o outro o aluno foi convidado a dar entrevistas para grandes jornais e programas de televisão. “O apoio foi muito grande, precisei selecionar onde iria para não desvirtuar minha ação. O objetivo não era aparecer na televisão, mas foi muito bacana ter sido citado por pessoas como o Pascoale e ver o que aconteceu comigo virar charge da Laerte”, relembra. 
 
Como uma pessoa que estuda moda e acredita no poder que ela tem, Vitor criou a página “Homens de saia”, logo após o episódio, com o intuito de 
compartilhar fotos e histórias de celebridades que usam ou já usaram saias. Hoje, a página é acompanhada por homens e mulheres. “Meu objetivo com esse projeto sempre foi receber e apoiar esses homens que querem usar saias, porque, afinal, roupa não tem gênero”, explica.
 
Vitor não foi o primeiro aluno a usar no campus. Augusto Paz, que na época também era aluno da EACH e viu de perto as agressões e a repercussão do caso, usou a peça do vestuário pela primeira vez em 2011, como parte de uma atividade 
proposta pela professora de sociologia. “Deveríamos usar uma peça de roupa que nos causasse desconforto. E a saia me trazia desconforto psicológico. A partir de então, peguei gosto e hoje uso com frequência”, conta Augusto. A atitude gerou reações diversas, de curiosidade a abuso. “Desde gente me parando para elogiar, até uns caras que tentaram tirar uma foto por debaixo da minha saia”, completa.
O ex-aluno acredita que o incidente foi importante não só pessoalmente como também socialmente, porque “trouxe a pauta do gênero à tona e inevitavelmente gerou discussões”. Hoje, mais do que nunca, ele se sente “empoderado o bastante para zombar desses padrões que a gente aceita sem nem saber o porquê”.
 
Vitor também se vê mais engajado após o ocorrido, “mas no limite”. Ele acredita ser necessário educar as pessoas sobre gênero, ainda que seja difícil em um país como o Brasil, por conta de sua multicultura e extensão territorial. “Talvez a melhor forma de coibir o preconceito seja reforçar o objeto dele. Ah, não gosta de quem usa saia? Então use saia! As pessoas se acostumam com o que veem sempre e esse hábito de tudo virar moda – que muitas vezes é bem ruim, aliás – pode ser bom se gerar essa aceitação”, reflete o estudante. Para ele, o maior lucro do episódio foi o fato de ter evoluído como pessoa e poder mostrar-se ao mundo e ser apoiado por isso.
 
Me deixa ver como viver é bom 
Uma violência como a que é praticada contra mulheres e LGBTs não é banida por leis. É preciso uma mobilização jurídica e extrajurídica maior. Segundo a socióloga Judith Butler, em depoimento dado no I Seminário Queer – realizado pelo SESC SP e mediado por Vladimir Safatle, Prof. Dr. da FFLCH-USP –, “deve haver uma crítica institucional sobre esse tipo de problema”, visto que “a vulnerabilidade tem uma dimensão que nós buscamos valorizar e preservar, e que é importante para nós, como criaturas sexuadas. Nós podemos ser explorados com base em nossa vulnerabilidade. Somos criaturas que precisam de abrigo e relações sociais. Não podemos ser entendidos como autossuficientes”.
Mas essa múltipla discussão que vem sendo feita sobre o gênero, especialmente nos espaços universitários, deixa pessoas como o professor universitário Emerson Inácio otimistas. Para ele, ainda que esse amontoado de “caixas” e “rótulos” – que são utilizados para “definir” pessoas – possa causar muita confusão e possa coibir a compreensão, os rótulos devem ser vistos como um passo para a aceitação e uma consequente naturalização das identidades e sexualidades, de modo que, muito em breve os trans, pansexuais, bissexuais, gays ou lésbicas serão vistos como devem ser: como pessoas. “Não deve demorar para acontecer que as meninas que sofreram discriminação nos banheiros do IP se tornem invisíveis; não pejorativamente, mas no sentido de que haverá uma naturalização, elas serão só mais uma pessoa, simplesmente, e não mais a pessoa trans, na caixa. Ou seja, é uma invisibilidade produtiva”, explica.
O futuro promissor continua num horizonte longínquo. Para alcançá-lo, é necessária a elaboração de políticas públicas e ações sociais e educativas que desconstruam as noções de que a não-heterossexualidade ou a não-cisgeneridade é uma doença, um desvio de caráter ou, ainda, um pecado. E é para esse objetivo que caminha a luta dos LGBTs, visto que “as pessoas não querem ser identificadas porque são gays, lésbicas, trans, abóboras ou jatobás. No final das contas, elas querem apenas ser pessoas”, finaliza o professor.
 
 

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