O pensamento gender-neutral toma força no mundo da moda.

Sem fazer  gênero!

Por Sofia Mendes e Carolina Sasse

Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme

 

genderneutralDesde que Aristófanes nos contou em “O Banquete”, de Platão, a história dos seres completos, autossuficientes, que foram divididos ao meio pelos deuses devido a sua presunção e condenados a passar a existência em busca da sua outra metade, conhecemos o conceito do andrógino. No mito, a humanidade se dividia em três gêneros: o masculino, o feminino e o andrógino, que continha os dois anteriores. Estes seres foram divididos em pares compostos por homem-mulher, mulher-mulher e homem-homem.

O conceito do andrógino, retomado nos dias atuais, relaciona-se com a questão do gênero e tem um papel de questionamento dos limites identitários propostos por nossa cultura ocidental. A moda não se manteve à parte dessa discussão e, como ferramenta de
construção das identidades e recurso expressivo, incorporou a androginia às tendências da passarela.

Há muitos anos existem marcas que encaram o corte e costura como algo sem distinção de gênero, como é o caso das grifes Jonathan Sanders e Marimacho, entre outras. No entando, nas últimas temporadas de moda, essa ideia apareceu também em desfiles de marcas que não tinham essa tradição de androginia. É o que mostra o desfile da grife Gucci, que, na semana de moda masculina do verão 2016, incluiu mulheres na passarela e trouxe os modelos do sexo masculino em trajes considerados femininos. Essa ideia já havia aparecido na temporada inverno 2015 – em que Miuccia Prada, estilista da grife que leva seu sobrenome, declarou em entrevista: “eu penso para as pessoas, não para gêneros”.

09 ned fullO pensamento gender-neutral parece estar tomando força no mundo da moda, mas, definitivamente, não surgiu agora. Desde a década de 20, quando Coco Chanel libertou as mulheres de seus espartilhos e incorporou peças masculinas ao guarda-roupa feminino, passando pela década de 70, em que coleções com silhuetas mais simples, que podem ser usadas por ambos os sexos e com tecidos sem relações históricas com essa classificação, vemos essa tendência de convergência dos elementos da vestimenta. A maior diferença é que as coleções ditas “neutras” de hoje dão um passo além e colocam na passarela modelos que não marcam em sua aparência um sexo definido – sendo eles homens, mulheres ou transexuais.

Na moda mais acessível ao público, o conceito de gênero também mostra sinais de fadiga. Recentemente, a famosa loja de departamentos inglesa Selfridges montou em sua matriz londrina um departamento pop-up (provisório), sem distinção de “masculino” e “feminino”. A seção, batizada Agender (“agênero”), trazia uma seleção de marcas com um estilo mais neutro que, na teoria, contempla todos os gêneros.


O conceito de gênero e sua manutenção e desconstrução está em discussão e ainda encontra muitas contradições. Contudo,
independentemente de continuar existindo a distinção entre “masculino” e “feminino”, e do modo como se dá, uma coisa é certa: a tendência é ter moda para todos.

 

Fotos: Reprodução Gucci