Estudo faz uso das teorias psicanalítica, social e literária para compreender o lugar da homossexualidade feminina na sociedade

 

Homossexualidade  feminina e a visibilidade

Por Carolina Sasse
Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme

Ao falarmos de lesbianismo, falamos de algo que se diferencia de uma definição mais ampla de homossexualidade. Trata-se de um universo peculiar em que relacionamentos compostos por duas mulheres desafiam a compreensão geral, sobretudo devido à limitação existente em nosso instrumental simbólico. Safo, a poetisa grega que viveu na ilha de Lesbos entre os séculos V e IV a.C e que liricamente cantou sentimentos de amor entre mulheres, foi o modelo que primeiro ensejou as delicadas particularidades desse tipo de relacionamento humano. Ela deu origem ao nome lésbica, que, fazendo referência a uma apropriação geográfica, é dado às mulheres que se relacionam amorosamente entre si. 
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Contudo, esse modelo com origens na antiguidade clássica não dá conta das formas que o lesbianismo tomou no desenrolar do século XX. Contemporaneamente, o lesbianismo surge como um tipo de subjetividade social, que busca, onscientemente, afirmar uma “identidade lésbica” e estabelecer modelos sociais positivos. É nesse contexto que nos deparamos com uma questão difícil:a busca de espaço e aceitação exige que esse grupo seja visto e, por extensão, compreendido. Essa visibilidade social, ainda hoje, é muitas vezes negada às mulheres que se relacionam com mulheres.
Os movimentos Gays, Lésbicas, Transexuais e Transgêneros (GLTT) vêm conseguindo avanços no que diz respeito a seus direitos e sua aceitação junto à sociedade, muito embora dentro dessa comunidade alguns subgrupos tenham conquistado mais espaço do que outros. Os homossexuais masculinos são o subgrupo que obteve mais sucesso nesse processo; travestis, transexuais e transgêneros ainda ocupam um lugar marginal; enquanto as lésbicas acabam por ocupar um lugar de invisibilidade. 
As atividades desses movimentos sociais e a evolução do pensamento social geraram um ambiente de consenso a respeito do caráter “politicamente incorreto” do preconceito, o que, por certo, é um avanço. No entanto, este avanço, que se dá no nível coletivo das comunidades, gera o risco de que a problemática da homossexualidade - e do lesbianismo, mais especificamente - seja banalizada, de que a sociedade pense que a questão já está completamente resolvida, exatamente no momento em que estamos convivendo com o surgimento de novas categorias sociais e conceitos científicos que compreendem mais aprofundadamente o desejo que se dá pelo semelhante, e não pela complementaridade homem-mulher. 

Com intenção de compreender essa complicada dinâmica, o artigo “Lesbianismo e Visibilidade”, do Prof. Dr. Christian Ingo Lenz Dunker e da Profa. Dra. Graciela Haydée Barbero, procura entender a invisibilidade social do lesbianismo - apontada como um recorrente problema político pelos movimentos organizados que representam a comunidade lésbica -, assim como compreender os elementos mais íntimos dessa condição feminina. É feita uma leitura a partir dos elementos dados pela teoria psicanalítica, pela psicanálise em convergência com a teoria social, e pela análise literária de viés psicológico. Os autores procuram, no instrumental teórico disponível, recursos que melhor auxiliem a compreensão dos processos íntimos do lesbianismo, uma vez que a invisibilidade social desse grupo feminino seria, em boa medida, proveniente da dificuldade de compreensão da natureza destes relacionamentos, dificuldade encontrada até mesmo dentro da própria teoria psicanalítica.

A invisibilidade social das lésbicas é coerente com o momento de tensão atual, em que a visibilidade das formas de vida não heterossexuais, e o estabelecimento das respectivas identidades sexuais, ameaçam uma ordem simbólica ancestralmente estabelecida. Observa-se que o que é exterior à tríade heterossexualidade/ casamento/ filiação sofre resistência, e essa força de manutenção poderia ser considerada uma forma de ideologia social. Do ponto de vista prático, os discursos de tolerância e não discriminação, muitas vezes, não se estendem à esfera individual. Eles não eliminaram os episódios de violência, as situações de perseguição e incompreensão. Essa realidade faz com que muitos ainda sintam que sua condição só possa ser vivida no espaço da privacidade e da intimidade, ou como diz a expressão corrente: “no armário”.

lesbianismo1Na intenção de contemplar as tensões sociais descritas anteriormente, e a perspectiva ideológica da invisibilidade lésbica, os autores citam a obra do pensador, teórico da psicanálise e da filosofia política, Slavoj Zizek. Em Um mapa da ideologia, por meio de conceitos marxistas ampliados, ele estabelece uma analogia à clássica “luta de classes”, propondo o conceito de antagonismo social. Tecnicamente, Zizek faz uma afirmação coerente com a perspectiva lacaniana, sugerindo que a realidade não é a “própria coisa”, mas, sim, uma construção simbólica que não dá conta integralmente do real, há uma parte não simbolizada, segundo ele, “foracluída”. Ou seja, a realidade dita e compreendida é apenas uma parte do que existe, a realidade que entendemos não passa da realidade que somos capazes de descrever, nunca o real de fato. Viria daí o conflito, o antagonismo social, entre o que é representável – e por sua vez compreensível e preponderante – e o real irrepresentável, a “própria coisa”, o que não faz parte do discurso. Fatos sociais inúmeros fazem parte desse “foracluído”, o lesbianismo é um deles; trata-se de algo que compõe o universo do real, mas que não está devidamente representado no discurso social.As analogias feitas por Zizek às estruturas de pensamento marxistas, e por sua vez, hegelianas, passam pelo processo dialético (processo de confrontação de ideias que leva a uma nova conclusão, síntese), e pela importância da ideologia social. Por meio dessas analogias fica elucidado que a prevalência da dualidade homem-mulher, que exclui outras formas de sexualidade, em especial o lesbianismo, é também uma ideologia, não apenas uma questão de caráter biológico e psicológico. Ainda dentro da lógica marxista ampliada, observa-se que uma mudança na ideologia dominante não se dá sem que existam tensões, sem que atuem forças de resistência que promovam, por exemplo, invisibilidade de grupos como as lésbicas; nas palavras dos autores, “em síntese, a invisibilidade das lésbicas é, desde esse ponto de vista, uma questão ideológica, necessária para 

sustentar a realidade social na qual vivemos e, fundamentalmente, o ponto no qual a reversibilidade entre ‘homem’ e ‘mulher’, em sua suposta complementariedade, se veria questionada”.

A representação do relacionamento entre mulheres é complexa até mesmo dentro das fronteiras da teoria psicanalítica estrita. Para a psicanálise, o lesbianismo é “uma das formas de organização do erotismo e da sexualidade: um tipo de escolha de objeto, de identificação e de economia de gozo”. A sexualidade feminina seria, então, o resultado de uma determinada posição na estrutura desejante, organizada em torno do significante que diferencia - o falo.

O falo parece estar sempre presente nas explicações teóricas que pretendem entender a sexualidade humana. Assim, relacionamentos que prescindem desse elemento - material e simbólico - em sua constituição exigem leituras mais complexas das teorias psicanalíticas. A questão em aberto, segundo os autores, seria entender uma sexualidade parcialmente independente do falo, conceito chave em Lacan e sua teoria da sexualidade feminina.

Para Lacan, a escolha do objeto amoroso-sexual se baseia na dialética do ser e do ter, onde ser o falo é uma posição feminina e ter o falo, uma posição masculina. Nesse contexto, acaba por não existir uma categoria que contemple a totalidade das mulheres. Trata-se de uma análise feita sempre em relação ao significante fálico, da diferença entre os sexos, entre as posições do masculino e do feminino, em que o falo seria o índice que dá proporção a essas diferenças. Segundo os autores, mesmo quando Lacan, na década de 1970, retoma a questão freudiana da bissexualidade, que contraria em parte sua teoria da unicidade fálica, já que propõe a teoria do Gozo Fálico e do Outro Gozo, nada disso parece dar conta de uma categoria que explique a totalidade das possibilidades da sexualidade feminina. 


Essa predominância do referencial fálico faz com que, algumas vezes, os relacionamentos entre mulheres lésbicas sejam analisados como se elas
ocupassem lugares tradicionais no esquema das fórmulas de sexuação. Como se uma das parceiras ocupasse no relacionamento a posição do masculino (assumindo uma “impostura” fálica) e a outra a posição do feminino, recriando, assim, a lógica da complementaridade. Mas o que fazer quando essa lógica recriada não pode ser vista no relacionamento entre mulheres? Esta seria a questão, segundo o artigo. “O próprio Lacan reconhece que as mulheres não são totalmente explicadas pela sua posição em relação ao significante fálico”, sendo elas descritas como “não-todas fálicas”. Entre estes não-todos, não há a relação de complementaridade. Portanto, Lacan propõe que “não há relação sexual, a mulher não existe, a mulher é não-toda”.

A partir dessa estrutura de pensamento, cuja lógica nega a motivação sexual dos relacionamentos lésbicos, entende-se a existência de uma terceira forma de reconhecimento aplicável às relações entre mulheres, uma forma baseada nos registros sociais e no discurso. Para os autores, “se duas
mulheres mantêm uma vida comum, erótica e social, há entre elas um discurso”. É essa característica dos relacionamentos lésbicos, relacionamentos em que o significante fálico parte da ideologia social dominante, mas, em verdade, não ocupa o lugar principal; relações cuja lógica se dá por meio do discurso, da escolha, o que torna o gozo das lésbicas ameaçante, diferente, difícil de compreender e, portanto, passível de invisibilidade.

Os autores encontram uma saída interpretativa interessante no trabalho da crítica literária, simpatizante da teoria queer, Elisabeth Ladenson, que vê a questão da sexualidade por meio da obra de Marcel Proust. O trabalho de Ladenson diverge da interpretação literária tradicional da obra proustiana Em busca do tempo perdido, em que a protagonista, Albertine, e suas amigas são vistas como a representação da homossexualidade do próprio autor, que não ousou tratá-la diretamente. Enquanto pensava-se nas mulheres de Proust apenas como meios para uma representação pessoal do autor, Ladenson observa que as mulheres da obra seriam algo além, seriam parte de uma proposição teórica postulada por Proust acerca de um novo tipo de encontro amoroso, diferente do heterossexual e do homossexual masculino.

Em síntese, neste hipotético modelo de Proust, o homossexual masculino, o invertido, “não deseja seu semelhante, porque sendo ele secretamente feminino, desejaria seu outro” - e, assim, existiria a complementaridade. As lésbicas, pelo contrário, não seriam consideradas “invertidas”, porque não se definiriam pela gramática da inversão, falo/não-falo.

lesbinaismo2Proust, portanto, descreve mulheres que desejam outras mulheres, independentemente da simbologia usual da complementaridade. Assim, de acordo com Ladenson, o lesbianismo hiperboliza “o enigma que representa para um homem o desejo de uma mulher, a palpitação do prazer feminino”. As lésbicas são o mistério, “a única versão da sexualidade capaz de guardar (proteger) o controle da sua própria representação”. Relacionamentos lésbicos seriam, assim, dotados de uma lógica própria, independente das formas de compreensão tradicionalmente aplicadas à sexualidade, independentes do dual primário entre o falo/não-falo e, por consequência, desafiadoras para a compreensão. Elas são, pela inadequação aos modelos e ao entendimento geral, fortes candidatas à invisibilidade.

Esse viés interpretativo da construção literária de Proust, de um modelo de desejo recíproco não-fálico, coloca a questão do lesbianismo numa forma que ainda não havia sido posta pela psicanálise. Segundo Dunker e Barbero, “Proust vê as mulheres como dotadas de uma plenitude utossuficiente, não como resultado de uma falta, como pensa a psicanálise freudiana”. A obra proustiana, então, postularia a existência de uma economia sexual não fálica, o que, politicamente, concordaria com teorias de gênero desenvolvidas por grupos militantes de feministas lésbicas, que questionam a lógica psicanalítica.

A leitura de Proust traz frescor à forma de ver o lesbianismo, ajuda a compreender particularidades, e Ladenson é eficiente em explicar a novidade do “modelo” proustiano. Contudo, junto com Dunker e Barbero, chegamos à conclusão de que, embora seja importante a inovação sugerida pela sensibilidade artística de Proust, não é possível abandonar o modelo da teoria psicanalítica. Mesmo que este não dê conta por completo da questão, a psicanálise ainda é a forma pela qual são compreendidas as linhas gerais da sexualidade humana.