Projeto de psicologia cultural busca promover diálogos entre universidade e comunidade indígena para preservar a história de suas lideranças femininas

A rede da  resistência

Por Carolina Sasse
Colaboração de Aryanna Oliveira
Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme

psico.usp, n.2/3, 2016

Procurando dar atenção às vulnerabilidades psicossociais enfrentadas pelos povos indígenas, o Instituto de Psicologia vem desenvolvendo um trabalho com o povo Guarani desde o início de 2012. Uma das comunidades atendidas pelo projeto é a Tekoa Pyau, cujas terras se situam no bairro do Jaraguá – entre a rodovia dos Bandeirantes e a rodovia Anhanguera – e cuja obtenção de reconhecimento pelo Governo Federal foi recente. 

Trata-se do projeto da Rede de Atenção à Pessoa Indígena (Rede Indígena), uma atividade de extensão do IPUSP que, apoiando-se nas reflexões da psicologia cultural, busca o diálogo interétnico e a promoção de benefícios e aprendizado, tanto para a comunidade indígena quanto para os estudantes universitários.

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Bárbara Borba, participante do projeto supervisionado pelo Prof. Dr. Danilo Guimarães, relatou à revista
psico.usp a experiência que teve na comunidade do Jaraguá. Ela conta que a Rede chegou à aldeia com a proposta de trabalhar “em conjunto e em paralelo”. A aplicação desse conceito, confirmada pela liderança Guarani da Baixada Santista, Mariano Fernando, prevê uma parceria com a comunidade num diálogo que contemple as diferenças culturais. Na prática, coube aos alunos do projeto organizarem rodas de conversas com jovens e mulheres da comunidade para ouvir as demandas dos Guarani e construir com eles, em coautoria, os caminhos que a universidade poderia viabilizar para resgatar a história das lideranças Guarani, a fim de inspirar e, principalmente, incentivar os mais jovens.

Nos encontros com as mulheres, as alunas fizeram uma abordagem especial. Elas trouxeram como primeiro objeto de interlocução um material baseado no livro do Conselho de Mulheres Indígenas (CONAMI), intitulado “Natiseño – A trajetória, Luta e Conquistas das Mulheres Indígenas”. Os Guarani têm uma presença marcante de lideranças femininas; a própria aldeia do Jaraguá tem como exemplo a Cacique Jandira Augusta Venício (Keretchu), falecida em 2012. 

Nesta primeira roda de conversa, os estudantes observaram que muitas das mulheres, desde anciãs até muito jovens, já conheciam as lideranças citadas no livro; muitas eram familiares dessas lideranças e grande parte das mulheres tinha papéis de liderança na sua comunidade. Já na segunda reunião, foi proposta a exposição da história da lei Maria da Penha, o que abriu a possibilidade de debate sobre algumas questões indígenas.

Bárbara percebeu em sua experiência que a violência contra a mulher é presente como um problema que afeta a sociedade brasileira no geral e que também pode afetar os povos indígenas – embora essa não seja uma prática comum nas comunidades, pois não há estímulo à violência contra as mulheres na aldeia. As mulheres são alvo do machismo proveniente da sociedade historicamente patriarcal que aportou no Brasil com a chegada dos portugueses. Contudo, o contexto interétnico, mais acentuadamente quando a comunidade se localiza num espaço urbano, oferece dificuldades específicas a esta população, por serem mulheres e indígenas. Se o gênero feminino, no geral, possui questões que lhes são próprias, às mulheres indígenas acrescenta-se a carga de séculos de história nos quais profundos estereótipos e preconceitos aliam-se à condição de vulnerabilidade social que o estado brasileiro e setores da população legam aos povos originários.

As mulheres Guarani da Terra Indígena Jaraguá transitam dentro e fora da Tekoa (habitação Guarani) e enfrentam problemas sobretudo no exterior de suas comunidades. Por motivos como esse se faz relevante a aplicação de dispositivos como a lei Maria da Penha também para as mulheres indígenas. No entanto, é muito importante ressaltar que as mulheres Guarani recebem uma formação no interior da cultura, transmitida de geração em geração para o desenvolvimento de suas estratégias de autodefesa. Bárbara observou que as Guarani têm, assim como a Lei Maria da Penha na sociedade não indígena, dispositivos para lidar com conflitos que podem acontecer dentro do seu próprio universo cultural

 
Para Pedro Luís Macena, educador Guarani, há a coexistência de valores tradicionais, relacionados à estrutura familiar e à divisão do trabalho entre os gêneros, aliado a um entendimento de que as mulheres têm um forte protagonismo na comunidade. Ele sublinha que é um valor da cultura Guarani o respeito à mulher e que, até mesmo por uma perspectiva ligada à espiritualidade, são importantes. Segundo ele, as mulheres “têm mais força espiritual que os homens”, são a base de sustentação da cultura Guarani e, portanto, seriam merecedoras de grande respeito, sendo em primeira e última instância, consideradas sagradas em sua cosmovisão.