Quando o estudante faz parte de uma minoria social, como é o caso dos LGBTs, não são poucas as vezes em que ele se sente desamparado e/ou oprimido com o posicionamento político tomado pela instituição de ensino na qual ingressou.

 

Como o IP lida com gênero

Por Anátale Garcia e Aryanna Oliveira
Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme

 

psico.usp, n.2/3, 2016

A explosão de emoções que um calouro sente ao entrar na universidade nem sempre se resume à empolgação e alegria. Quando o estudante faz parte de uma minoria social, como é o caso dos LGBTs, não são poucas as vezes em que ele se sente desamparado e/ou oprimido com o posicionamento político tomado pela instituição de ensino na qual ingressou. Com vistas a melhorar a recepção e a permanência de exemplos como esses, o IPUSP vêm desenvolvendo medidas reparativas que respeitem a diversidade sexual e a identidade de gênero, tentando amenizar injustiças historicamente impostas a essa comunidade.

semanaAntes da implementação dessas ações, no entanto, foi preciso a luta e o empenho dos próprios alunos, como no evento conhecido como “ato: os banheiros da universidade são para todxs”. A partir, então, da visibilização da condição de resistência e desamparo enfrentada por eles, o IP e os coletivos sociais da unidade deram início a uma tentativa de solução de conflitos. 

Captura de Tela 2016 07 03 às 00.22.11Logo na semana de recepção de calouros, algumas atividades foram feitas nesse sentido. Como as ocorridas agora em 2016, em que o Coletivo LGBT da Psico propôs uma reflexão coletiva sobre a experiência social dos LGBTs, incluindo-se aí a problematização da LGBTfobia sofrida por eles; e o Coletivo Feminista da Psico realizou um convite à reflexão sobre a questão da mulher na sociedade atual, dando enfoque ao acolhimento das calouras e à discussão sobre a violência de gênero.


Além da iniciativa estudantil, o IPUSP tem se esforçado para garantir, nos meios legais, os direitos sensatamente exigidos pela comunidade
LGBT. A exemplo disso, foi solicitada a aprovação para fazer valer no Instituto a minuta de uma portaria interna, criada em 13 de janeiro de 2016, que “dispõe sobre o reconhecimento institucional da identidade de gênero e sua operacionalização no âmbito do Instituto de Psicologia”. O objetivo dessa portaria é a regulamentação da identificação dos banheiros de acordo com a identidade de gênero.

Captura de Tela 2016 07 03 às 00.22.44Esse item é especialmente importante, pois envolve uma complicada situação
vivida no IP. Não fosse esse episódio de discriminação experienciado por uma aluna trans do Instituto, que foi impedida por funcionários de usar o banheiro feminino, possivelmente não haveria a evidenciação da fragilidade do tratamento reservado aos LGBTs, principalmente às pessoas trans, mesmo dentro de uma universidade – espaço que se propõe a discutir paradigmas e romper dogmas em prol de uma revolução científica. O evento motivou a recomendação de que fosse fornecida instrução e formação adequadas aos funcionários. 

A ideia da proposta, que foi elaborada pela própria vítima do episódio, em conjunto com o Coletivo LGBT da Psico, é, a partir de uma espécie de comissão, organizar grupos de conversa que promovam discussões e dinâmicas, de maneira respeitosa e consciente, para oferecer aos funcionários (in)formação. Este projeto já passou pela diretoria do IP e chegou às mãos da procuradoria geral da Universidade de São Paulo, onde, agora, aguarda validação.

Desde 2015, muitos eventos relacionados a gênero e sexualidade também foram promovidos pelo IPUSP. O debate continua aberto, objetivando um constante aprimoramento das relações no Instituto, especialmente no que concerne às questões de gênero e sexualidade. 

Obviamente, ainda há muito por se realizar. A igualdade de direitos, mesmo
dentro do IP, até hoje não foi plenamente alcançada. Mas esses já são os primeiros passos para elucidar as críticas de que o ensino e apoio acadêmico permanecem carecendo de responsabilidade na formação adequada dos alunos que, quando já formados, se depararão com pacientes da comunidade LGBT.