Pesquisadores do IPUSP abordam a questão do tratamento terapêutico de professores que sofrem com as pressões comuns à carreira de docente
 

Os profissionais do impossivel
Por Vitória Batistoti
Edição e revisão por Islaine Maciel

psico.usp, n.2/3, 2016

educa1É no espaço escolar que a relação entre professor e aluno acontece – relação esta que é de extrema importância para a formação dos dois indivíduos em questão. As relações sociais estabelecidas na escola, tanto entre criança e professor quanto entre a criança e seus pares, têm importante impacto para o desenvolvimento futuro da criança, incluindo a formação de sua personalidade e caráter. Para o aluno, o período na escola ocupa maior parte de seu tempo e é ali que ele inicia seu contato com o outro – conhece indivíduos novos, valores diferentes dos seus e experimenta a descoberta de si próprio. Por outro lado, o professor realiza sua carreira profissional no ambiente escolar, aplicando seu conhecimento didático e adentrando espaços onde cada indivíduo possui sua particularidade, singularidade e dificuldade.

Diante dessa complexa situação, o professor pode deparar-se ainda com demandas de pais de alunos, desvalorização da sociedade, precariedade na convivência com a administração e a estrutura escolar, além da pressão para o cumprimento de programas e planos de curso. Neste ponto, surge a angústia de lidar com todas essas variantes, mal-estar por não dar conta de expectativas, sofrimento, adoecimento, um “estado depressivo”.

Tratando desses aspectos que compõem o dia a dia de professores e alunos de diferentes idades e ciclos, os pesquisadores do IPUSP Mariana Maia Munhoz, Marcelo Ricardo Pereira e Luciete Valota Fernandes, em seus trabalhos acadêmicos, trazem à tona abordagens que não só apresentam, mas, também, discutem e apontam caminhos para um ponto em comum: o professor precisa falar e ser escutado em um processo terapêutico. Com essa possibilidade, talvez se possa enfrentar os sintomas e superá-los.

 

CAIR ANTES DA QUEDA
O padecimento dos docentes na contemporaneidade foi tema para o pesquisador e professor Marcelo Ricardo Pereira, que realizou seu estudo de pós-doutorado junto aos Sindicatos de Professores e às Secretarias da Educação e da Saúde do Estado de Minas Gerais e do Município de Belo Horizonte. Sua pesquisa se define como interventiva, pois, além da coleta de dados, houve intervenção clínica, que buscou liberar os sintomas manifestados pelos professores analisados. Durante dois anos de estudo, somando sete colégios analisados e mais de 50 professores envolvidos durante o processo, Marcelo obteve dados que compuseram a amostra de escolas e instituições da cidade a se trabalhar.

professores o stress e o burnout

O mal-estar docente, cujos registros datam desde o século XIX, está acometendo cada vez mais professores, que se dizem desrespeitados e desautorizados. Essa queixa uníssona proferida pelos docentes é a tradução de determinadas conjunturas, tais como o declínio do discurso do mestre e as precárias condições de trabalho, além do crescente fenômeno de esgotamento e hipermedicalização, entre outros motivos.

É no professor que o aluno depositará a posição de autoridade e de possuidor do saber ideal, contudo – ou por isso mesmo –, em sala de aula, o professor será checado, interrogado e desafiado. Por esta razão, “o professor terá de afrontar o outro e não poderá cumprir tal missão sem que seu Eu não seja tão fortemente avaliado pelo Supereu: suas faltas, suas fraquezas, sua personalidade”, como afirma Pereira. Além desse julgamento, o docente raramente conseguirá transmitir o conhecimento da forma como planejara, portanto, essa transmissão será sempre incompleta. 

O professor tende a viver
o fracasso como algo
muito próprio

maca4aNo decorrer dessa relação, o professor se sente paralisado ao ter de lidar com os desvios, as diferentes formas de aprendizagem, a experiência da agressividade e da sexualidade de seus alunos. É como se pensasse: diante disso, me sinto impotente. “Todas as exigências impossíveis, as demandas, os confrontos, os julgamentos, podem levá-lo ao sentimento de fracasso, à culpa, à impotência”.
Essa crença acaba sendo a responsável pela contínua ameaça, por ele sentida, de que a transmissão do saber, com base nos ideais pedagógicos que a formação e a sociedade ocidental lhe imprimem, não será efetivada. “O professor tende a viver o fracasso como algo muito próprio”, explica o pesquisador.

O fracasso no cotidiano do processo educacional tem especial repercussão numa sociedade cada vez mais hedonista, que privilegia o gozo e o sucesso imediato. Professores tendem a sentir-se frustrados quando resultados, tidos como ideais, não são alcançados. No entanto, essa configuração de viés imediatista no contexto escolar não garantiu um mundo de fruição e de bem-estar; “ao contrário, nos levou ao puro estado de desilusão, de vazio, de despossessão de si. A angústia generalizada que se vive hoje surge exatamente em decorrência do prazer não regulado”, relata o pesquisador.

Na pesquisa realizada por Pereira, experiências de 50 professores de adolescentes foram registradas. Esses profissionais denunciaram o abuso de psicofármacos e os males comuns à docência: depressão, ansiedade, estresse, transtorno bipolar, pânico, Transtorno Obsessivo Compulsivo, problemas alimentares e uso de álcool, resultando em afastamentos ou desvios de função. “Vivemos em uma sociedade sobremedicalizada devido ao avanço das pesquisas e da indústria de psicofármacos, à facilidade de acesso a eles, ao imperativo de satisfação de uma sociedade cada vez mais hedonista, imediatista e intolerante à dor”, explica. Com isso, multiplicam-se os medicamentos e multiplicam-se as novas psicopatologias.

Após a realização da pesquisa, Pereira notou que o estado depressivo e outros fenômenos patológicos protagonizam o quadro sintomático de grande parte dos docentes analisados na pesquisa. “Não se pode dizer, porém, que todos os docentes que se disseram depressivos realmente sejam. A força de generalização desse diagnóstico parece imperar entre eles”, explica o pesquisador. Além disso, ele destacou que grande parte dos problemas enfrentados pelos docentes não dizem respeito aos alunos. Estes até podem contribuir para a manifestação de algum padecimento, mas não são os principais responsáveis. Nesse sentido, o que se revelou foi muito mais uma expressão de “covardia moral” e “fuga para a doença”.

Nessa conjuntura, o professor cai antes da queda, ou seja, ele se inibe e se coloca em posição de recuo em relação à sua própria potência de mestre e transformador perante os desafios diários da profissão, como o aparente desinteresse e a afronta dos alunos, e as fragilidades da organização escolar. “Mas por que cedem ou por que fazem recuar sua própria potência e evitam o enfrentamento? Porque sabem de antemão que não a têm. Sabem de antemão, como qualquer mortal, que não são capazes de responder às demandas do outro e preferem se evadir”, comenta o pesquisador. “Como é possível transformar um aluno que o docente já julga não ter nem condição nem ilusão de transformá-lo? O professor que não acredita no aluno não o leva a parte alguma”, diz.

A hipótese levantada para explicar o estado depressivo do professor relaciona-se à necessidade de perfeição das demandas que lhes são feitas em conjunto com uma escolha que ele mesmo fasto porque, ao assumir este estado, ele renuncia a sua própria potência de docente e à capacidade de mudança em seus alunos ao reconhecer que não é capaz de responder às demandas que lhes são destinadas. Essa inibição no espaço de trabalho leva o docente a viver uma diminuição de prazer no ambiente em questão, tornando-se menos capaz de realizá-lo, o que lhe causa esgotamento, estresse e irritabilidade.

O refúgio no mal-estar encontrado pelo docente lhe traz benefícios no que tange à possibilidade de esconder suas próprias limitações e responsabilizar o meio no qual está inserido. “Não é que [o meio] não seja, mas o professor se defende de perceberem que ele também contribui para que o meio em que está não funcione bem”, comenta Pereira. Dessa maneira, o docente assume um caráter duplo de problema e solução: na medida em que fica incapacitado para aproveitar a vida e preso à condição mórbida, ele cria uma identidade de depressivo, beneficiando-se tanto da comiseração dos outros como de ganhos por ser poupado no trabalho, o que pode gerar, inclusive, o afastamento laboral.

Medicam-se, agora, tristezas
e comportamentos, sem dar a
mínima chance ao sujeito de poder
ter o tempo suficiente para 
elaborá-los por meio de seus 
próprios recursos simbólicos, 
e, assim, poder sair
deles mais fortalecido

A medicalização e a busca por psicofármacos são métodos dos quais os docentes se utilizam para refugiar-se deste conflito. Entretanto, tais escolhas podem acentuar a covardia moral, em vez de ajudar o sujeito a enfrentar a dificuldade. “Medicam-se, agora, tristezas e comportamentos, sem dar a mínima chance ao sujeito de poder ter o tempo suficiente para elaborá-los por meio de seus próprios recursos simbólicos e, assim, poder sair deles mais fortalecido”, explica o pesquisador.

Para a solução desse problema, Pereira pensou na criação de “espaços de fala individuais e coletivos”, que seriam possibilidades nas quais docentes tenham a chance de falar acerca do mal-estar que experienciam e, assim, liberar seu sintoma, “desidentificar-se” com ele, ou elaborá-lo. Conforme cita o pesquisador, “dificilmente conseguiremos avançar sem que algo específico da prática do professor seja recolocado no epicentro do debate: repensar suas condições de trabalho, sua remuneração, suas relações com o saber e com a formação”. Para tanto, é preciso “auxiliar o professor a recuperar sua coragem moral para atuar em situações de incerteza e descontinuidades”, afirma. Devemos pensar a salubridade dos docentes como uma das ferramentas necessárias para a frutificação de um ambiente educacional próspero e enriquecedor.

 

PROFESSOR PSICANALITICAMENTE ORIENTADO
sofrimento docenteEnquanto desempenhou a função de estagiária e auxiliar de professores, Mariana Maia Munhoz percebia o ambiente escolar como um espaço diferente, muito estressante. Além das dificuldades dos docentes em sala de aula, a pesquisadora considerou a situação de crianças inseridas em espaços tão exaustivos, algumas originadas de situação familiar difícil, com autoestima baixa, que, ao adentrar o ambiente escolar, enfrentam dificuldades com os colegas de sala, não conseguindo captar a atenção do professor, porque este está muito ocupado com o cumprimento dos conteúdos, o cronograma da alfabetização, incapacitado, portanto, de observar o lado emocional do desenvolvimento do aluno. “Quis estudar essa relação e chamar a atenção para a importância do professor, não só para o desenvolvimento pedagógico da criança, mas para o desenvolvimento social e emocional”, diz a pesquisadora.

Em seu estudo, Munhoz analisou o exercício da função de duas professoras do primeiro ano do Ensino Fundamental da rede pública em sala de aula. A escolha por esse período escolar deu-se por ser um momento de transição, uma nova fase para os alunos, ao passo que, para o professor, é a etapa de assumir uma tarefa pedagógica bem específica: o início da alfabetização. “É o período em que o esquema da escola muda muito para a criança: a grade escolar, as exigências… Pode ser um momento mais ansiógeno para a criança, com maiores desafios, que denota a importância do professor ser acolhedor, suportivo”, explica Munhoz.

A pesquisadora verificou que a instituição escolar e o relacionamento entre professor e aluno fazem emergir atitudes infantis, como foi o caso de uma das professoras, onde “existia uma necessidade grande de ser admirada e amada. Para ela, a indisciplina dos alunos trazia uma sensação de rejeição para com ela. Suas reclamações eram de coisas muito pessoais, e não profissionais. Dessa forma, ela se defendia de forma explosiva, com muita raiva”, relata.

A instituição escolar
e o relacionamento
entre professor e
aluno fazem emergir
atitudes infantis

Untitled 12A outra docente, por sua vez, durante uma das conversas, fez as seguintes observações: “Eu sinto que, assim como a instituição faz e como minha mãe fazia comigo, eu faço com os alunos”. Munhoz explica que esse relato demonstra como a transferência está presente nesse ambiente. “A mãe dela era extremamente rígida, então ela tem memórias de uma mãe pouquíssimo afetuosa, exigente, inclusive com as questões dos estudos”, comenta.

A professora também demonstrou sentir insegurança e vontade de ser espontânea e afetuosa com seus alunos. Segundo a pesquisadora, o descontentamento, a frieza e a rigidez da professora eram fortalecidos pela escola, que, por seu turno, era exigente e, semanalmente, cobrava resultados dos professores. Isso ressaltava ainda mais essas características da docente.

Alguns dos principais impasses que existem na relação professor-aluno são o número de alunos em sala, o excesso de tarefas e exigências dadas pela instituição, e a falta de tempo para seguir o cronograma das aulas. Além disso, as diferenças entre os alunos, principalmente na alfabetização, era uma questão que dificultava o trabalho das professoras. “O que me pareceu mais problemático foi a relação delas com os alunos. Era um relacionamento estressante e infeliz. Essa era uma queixa das duas, e elas estavam muito infelizes em relação a isso, causava uma queixa, um conflito”, comenta a pesquisadora.

O desafio da alfabetização, as demandas institucionais exigidas do professor e a exigência para consigo mesmo são bastante estressantes para os professores do primeiro ano do Ensino Fundamental. As dificuldades enfrentadas nesse ambiente podem desencadear problemas físicos e emocionais, como, por exemplo, um burnout (alto índice de estresse profissional que desgasta emocionalmente e danifica aspectos físicos e emocionais) ou algo próximo a isso.

A pesquisadora afirma que essas dificuldades em sala de aula ocorrem porque o professor é formado para atuar na parte pedagógica, deixando de lado partes da formação e, como a revivência dos aspectos infantis, a questão dos impulsos da criança e o modo como a indisciplina de um aluno afeta a do outro.


Untitled 1Para exercer a função para a qual foi incumbido, o professor teria, então, que dispor de muitas ferramentas, desde a sua formação. A respeito disso, era comum que as professoras analisadas durante a pesquisa dissessem coisas como “eu não fui preparada para essas questões de indisciplina e problemas do aluno, eu fui preparada para alfabetizar!”, conta Munhoz.

Nesse sentido, o docente deve assumir o papel de professor psicanaliticamente orientado, ou seja, estar atento aos múltiplos aspectos do aluno em sala de aula. Muito além da relação pedagógica, o professor psicanaliticamente orientado teria um olhar mais atento para o mundo subjetivo presente no processo educativo, tanto para a sua subjetividade quanto para a de seu aluno, bem como para os aspectos inconscientes presentes e influentes na relação entre ambos. Contudo, não seria o caso do professor fazer análise ou assumir o psicanalista em sala de aula. Munhoz explica que seria “a psicanálise saindo do consultório e amparando os professores, com trabalhos em grupo em que possam compartilhar essas dificuldades, ou algum psicólogo na escola que esteja à disposição do docente”.

 

INSTRUMENTO DE RESISTÊNCIA

MACA2Conhecendo esse panorama de mal-estar docente em perspectivas atuais e contemporâneas, a pesquisadora Luciete Valota Fernandes propôs, em sua tese, a criação de um espaço grupal em que professores pudessem participar. Acreditando que a existência de um espaço de reflexão acerca do trabalho pedagógico exercido pelos professores funcionaria como forma de resistência ao sofrimento e adoecimento do professor e à alienação no exercício da profissão, Fernandes atuou em um grupo para fundamentar sua pesquisa-intervenção.

Com base nisso, foi verificado que o processo grupal é capaz de criar oportunidades para reflexão coletiva sobre os elementos positivos e negativos acerca da profissão e produz avanços nas consciências pedagógicas. “Nós consideramos que esse sofrimento e adoecimento têm relações com as determinações sociais e econômicas mais amplas da sociedade capitalista”, relata.


MACA3Essa vivência foi capaz de gerar uma identidade coesa, entendida como momento importante para o desenvolvimento de uma identidade menos institucionalizada e mais emancipada, além de abrir espaço para a discussão e reflexão dos elementos gerais e singulares da fragmentação e da alienação do trabalho pedagógico.

As discussões grupais que ocorreram durante as reuniões consideraram como objetivações positivas do trabalho as atividades de ensino potencialmente geradoras de sentido pessoal. No que diz respeito aos elementos negativos, encontram-se o poder mediato e imediato da administração escolar, desvalorização financeira e social dos professores, além das políticas educacionais autoritárias. Ou seja, por meio das mediações grupais, os docentes puderam expressar tanto o sofrimento psíquico que carregavam consigo, como discutir a atividade educativa com companheiros de profissão. “O grupo satisfaz necessidades humanas fundamentais para esses professores. Permite a transformação e o aprofundamento dos laços afetivos e sociais, produzindo maior humanização nas relações concretas, o que é um elemento fundamental de resistência ao sofrimento e à alienação”, comenta Fernandes.

MACAEssa reunião e compartilhamento de impressões e significados, muitas vezes, possibilita a descoberta, por parte dos docentes, de algo que parecia ser exclusivo e individual de cada um deles, mas que, em verdade, atinge tantos outros. “Na ausência do grupo, os professores não teriam a oportunidade de contatar e de discutir os aspectos característicos da particularidade social que medeiam suas consciências e atividades vitais, pois não existem outros espaços cotidianos nos quais eles possam repensar autenticamente, de forma democrática, horizontal e coletiva, os seus trabalhos”, relata a pesquisadora.

Fernandes conclui afirmando que o espaço grupal proporcionou ganhos significativos aos professores participantes, mesmo em pouco tempo de trabalho, por propiciar a expressão das necessidades do professor no ambiente escolar.