Projeto analisa os efeitos da migração em crianças e como são tratadas na escola

“Muitas vezes a história das crianças carrega muito mais verdade que a dos adultos”
Por Sofia Mendes
Edição e revisão por Islaine Maciel

 

 psico.usp, n.2/3, 2016

imigrantesO processo de migração para uma família pode causar uma série de traumas, sejam eles advindos das condições que determinaram o exílio do país de origem ou da falta de acolhimento no país de destino. Uma pesquisa de pós-doutorado que está sendo realizada pelo IPUSP em cooperação com o Laboratório de Psicologia Transcultural (Paris 5 – INSERM), busca analisar os efeitos do deslocamento forçado em crianças migrantes. Para entender esse processo a pesquisadora escolheu o ambiente escolar como lugar da pesquisa, uma vez que “a escola é o representante, por excelência, do novo mundo exterior” e é nesse espaço de convivência que as crianças e adolescentes poderão estabelecer definitivamente os laços simbólicos com a nova cultura.
A pesquisa, realizada por Viviani Carmo-Huerta, se propõe a analisar como o processo de imigração influencia a formação do jovem sujeito e como as escolas se colocam diante das diversas consequências da imigração em uma criança. Para isso, foi realizado um trabalho em instituições de ensino que acolhem um grande número de crianças em situação migratória. Esse projeto buscou ouvir e entender o lado dos pequenos, que muitas vezes são diminuídos e negligenciados.
É importante lembrar que, quando se fala da criança que veio de fora, não só o sofrimento deve vir à cabeça, mas também a potencialidade que ela carrega. “Uma criança que é bem instalada em uma dupla cultura possui uma riqueza de vivência maior que aquela que é instalada em apenas uma”, explica Carmo-Huerta.
Além desse potencial, as crianças migrantes encaram um desafio que os nativos desconhecem. São esses futuros adultos que vão apresentar o mundo exterior para seus pais, que serão a ponte entre o núcleo familiar e o novo país. O passo à frente que os filhos são obrigados a dar muitas vezes gera um amadurecimento precoce, e todo o processo pode ser conflitante para eles. Carmo-Huerta explica que se a escola impuser uma limitação à transmissão da cultura familiar “pode criar um conflito na criança, como se avançar nesse novo mundo significasse uma traição à própria cultura”. Tudo isso mostra a importância dos profissionais da educação no âmbito escolar, já que a escola é o primeiro representante do mundo externo – e novo – para os pequenos que vêm de outra cultura.

 

Criando história

Para ouvir a versão dos pequenos, foram realizados os chamados ateliers “criando história”, onde eles puderam criar uma espécie de álbum de família. Nele, as crianças são estimuladas a representar suas famílias em três tempos – passado, presente e futuro – e, assim, reconstruir a história da migração familiar. Tudo isso usando o desenho, que, segundo Viviani, é a palavra das crianças. “Eu acho que é uma forma de a criança se incluir numa história de família. Incluir a própria versão dela como alguém que viveu alguma coisa”, ela afirma sobre o papel dos ateliers.
A história contada pelas crianças muitas vezes não é considerada. Viviani conta que a clínica com a família migrante tem um foco muito maior na versão do adulto, enquanto a criança é deixada em um canto para brincar. “A criança tem uma versão da história e ela tem que ser ouvida, porque muitas vezes ela carrega muito mais verdade do que a história dos adultos”, conclui. A ideia de criar um álbum de história da criança feito por ela mesma busca entender e valorizar esse relato.

O discurso escolar

Com todo esse estudo de campo, foi possível observar como as instituições de ensino lidam com a criança de outra cultura. As escolas, apesar de apresentarem simpatia e boa vontade com a situação, muitas vezes não têm o preparo adequado para lidar com os imigrantes e acabam indo para o caminho da generalização e patologização. Ainda, as dificuldades de aprendizado das crianças são muitas vezes tomadas como um distúrbio que deve ser tratado com medicamentos.
O sistema educacional brasileiro, portanto, não está preparado adequadamente para receber e tratar as potencialidades dos meninos e meninas imigrantes. Por isso o objetivo da pesquisa é propor a mediação cultural nesses ambientes. A exemplo do que foi feito na França pela pesquisadora, a ideia é instalar “módulos de formação” nas escolas, com grupos de mediação transcultural. Toda essa ideia tem como objetivo combater o despreparo da escola no Brasil em relação à criança imigrante que, assim como os demais futuros adultos do país, passa a escrever a história brasileira.