Visão das serpentes diz muito sobre seu modo de vida

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Por Sofia Mendes

 

Estudos com o sistema visual de serpentes podem elucidar seus hábitos e o ambiente em que elas vivem. Essas conclusões fazem parte dos trabalhos de Einat Hauzman, pesquisadora do Laboratório de Psicofisiologia Sensorial do IPUSP. Por meio da comparação da visão de serpentes diurnas e noturnas, a pesquisadora notou uma série de diferenças que favoreciam a sobrevivência de cada espécie.


O interesse por estudar serpentes surgiu bem antes de Hauzman ser aluna do Instituto de Psicologia. Bióloga, ela chegou a trabalhar com os répteis na área de epidemiologia e educação ambiental. Mas, foi só a partir de estudos comportamentais com duas espécies, uma terrestre e outra arborícola, que surgiu a curiosidade sobre os mecanismos da visão. “Em um estudo sobre o comportamento alimentar de duas espécies de serpentes, oferecíamos diferentes tipos de presa para elas nos terrários e vimos que o tempo de percepção da presa era diferente entre as duas espécies”, relata a pesquisadora. Isso foi suficiente para querer entrar na área de neurociências.olho serpente


Os objetos de estudo de Hauzman são a organização celular na retina e o estudo dos genes responsáveis pela visão de cores dos animais, ou seja, como a organização celular e a expressão de determinados genes se refletem no comportamento do animal. Segundo a pesquisadora, “as retinas têm mapas topográficos variados, com regiões específicas de densidade muito alta de células, que são áreas importantes para o campo visual dos animais, e variam de uma espécie para outra”. Os humanos, outros primatas e aves, por exemplo, possuem uma fóvea, com maior concentração de células em um ponto central da retina, o que indica uma maior acuidade visual em um ponto à frente. Outros animais, como muitos herbívoros de savana, por exemplo, costumam exibir uma faixa visual que se estende ao longo do eixo meridional da retina, o que lhes permitem uma visão panorâmica do horizonte e a melhor percepção dos predadores.


O período em que as serpentes se encontram mais ativas se mostra determinante para a configuração da retina. As serpentes com maior atividade durante o dia e as mais ativas durante a noite têm tipos de fotorreceptores diferentes. Enquanto as noturnas possuem dois tipos de cones (responsáveis pela visão de cores) e um bastonete (relacionado à visão em períodos de baixa luminosidade), as espécies diurnas apresentam três tipos de cones e ausência de bastonetes. Além disso, a densidade de fotorreceptores é muito maior nas serpentes da noite. As serpentes diurnas, por outro lado, têm uma maior acuidade visual.


Como em outros animais, a organização topográfica das retinas de serpentes também está relacionada ao ambiente que cada espécie ocupa. Em estudo de uma espécie de serpente de hábitos fossoriais (que vive na maior parte do tempo abaixo do solo), por exemplo, notou-se uma maior concentração de células na região dorsal da retina, o que indicava uma melhor acuidade visual do campo de visão inferior. Segundo Hauzman, “isso deve ajudá-la no comportamento de cavar e procurar presas embaixo da terra, comportamento típico desta espécie”.


A responsabilidade dos nossos sentidos é captar informações do ambiente à nossa volta e traduzi-los em sinais que são decodificados pelo sistema nervoso. “O sistema visual recebe as informações luminosas do meio externo e com isso podemos perceber os formatos, movimentos e cores dos objetos. As pessoas têm percepções diferentes e os animais também, e essas diferenças refletem características ecológicas e adaptações dos animais ao seu ambiente”, explica a pesquisadora. Entender o sistema visual, portanto, vai muito além do que se percebe à primeira vista.

 

Philodryas olfersii
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Philodryas patagoniensis

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Imagens das serpentes Philodryas olfersii (boiubu) e Philodryas patagoniensis (parelheira), à esquerda, e de seus respectivos mapas topográficos da distribuição de fotorreceptores nas retinas de cada espécie, à direita. Acima, a serpente arborícola, P. olfersii, com distribuição do tipo faixa horizontal. Abaixo, a serpente terrestre, P. patagoniensis, e sua distribuição do tipo area centralis, na região ventral da retina. O gradiente de densidade em células/mm2 está representado em tons de cinza. O ponto branco nas retinas representa a saída do nervo óptico. D, dorsal; T, temporal. Barra de escala, 2 mm. Imagens das serpentes: Otavio Augusto Vuolo Marques. Imagens das retinas: Einat Hauzman.