Pequenas doses contra a compulsão alimentar

 

Novas formas de prevenção e tratamento para o grave distúrbio são pesquisadas no IPUSP

 

Por Aryanna Oliveira

 

compulsa o alimentar 1Em maio de 2013 foi publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) a 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais. Nesse manual, chamado de DSM-5, a compulsão alimentar – ou transtorno da compulsão alimentar (TCA), do inglês binge eating disorder – aparece categorizado ao lado de transtornos como a bulimia e a anorexia nervosa. A divulgação da APA e os alarmantes percentuais mundiais de vítimas com o TCA suscitaram diversas pesquisas no campo científico.


Entre essas pesquisas se encontra o projeto de pós-doutorado de Liane Dahás, em desenvolvimento no Departamento de Psicologia Experimental (PSE) do IPUSP, supervisionado pela Profa. Dra. Miriam Garcia-Mijares e realizado em parceria com Felipe Tartaglia Dias, bolsista de Iniciação Científica e orientando de Dahás. Os pesquisadores trabalham com a instalação de comportamento alimentar compulsivo em ratos da linhagem Rattus norvegicus a partir do modelo de Acesso Intermitente, que prevê intervalos entre os dias de exposição. “Nesse modelo não há um acesso regular aos alimentos. Trabalhamos com dois grupos que comem um alimento enriquecido com muito açúcar e gordura (alimento altamente palatável – AAP). A alimentação de um grupo se dá às segundas, quartas e sextas-feiras, enquanto a do outro, com esse mesmo alimento, todos os dias”, explica Dias.


O modelo postula que o grupo que tem essa exposição intermitente ao AAP, isto é, que come em dias alternados, desenvolve compulsão. “O grupo come muito mais nos dias de apresentação do que o grupo que tem o acesso diário, mesmo não havendo privação do alimento enriquecido, sendo a ração livre. Só por essa diferença de exposição, o animal come de forma compulsiva”, completa Dahás.

A restrição pode levar à perda de controle,
o que caracteriza
a compulsão


A pesquisa já provou que sujeitos individualizados comem mais e apresentam sinais de estresse (um dado que ainda não pôde ser medido), enquanto os animais que são alojados em grupo comem menos. Isso sugere a importância da sociabilidade. Diante do fator de isolamento social, os ratos apresentam mais compulsão, porque são gregários como os seres humanos.


Outro dado interessante já levantado pelos pesquisadores é que o animal não engorda, ele mantém o peso independente do grupo em que está. Esse dado é importante porque permite que os pesquisadores analisem apenas questões de compulsão sem precisar avaliar o problema da obesidade, que não necessariamente está associado à compulsão e que envolveria variáveis neurológicas.
Dahás acredita, porém, que a pesquisa possa vir a ser aliada importante da perda de peso, em contrapartida às dietas radicais a que muitos pacientes se submetem. “O modelo intermitente nos diz que, ao invés de tomarmos um pote de sorvete de uma única vez após um longo período de restrição, na hora de pensar em perder peso é melhor comer um chocolate pequeno todos os dias, pois a restrição pode levar à perda de controle, o que caracteriza a compulsão”. Baseando-se, então, em hábitos alimentares mais equilibrados e sem recorrer à eliminação ou restrição radical do consumo de determinados alimentos, os dados da pesquisa indicam uma forma eficiente de prevenção e mesmo de tratamento da compulsão. “Após o episódio de compulsão, você trataria o paciente com pequenos pedaços daquele alimento que originou o episódio. Essa é uma opção real que inclusive queremos investigar como tratamento, porque só temos dados como prevenção”, explica a pós-doutoranda do PSE.

 


Para ela, a dificuldade em se lidar com a compulsão alimentar está no fato de não ser possível tratar o paciente como se trata, por exemplo, o alcoolista ou o tabagista: ensinando-se a não consumir mais o que lhe causa o vício. Com a comida, especialmente com o açúcar – responsável pela maioria dos casos de TCA –, não há eliminação do agente, uma vez que se tem que comer todos os dias. “Por isso a prevenção é tão importante quanto o tratamento, já que estabelecer algumas posturas comportamentais é o que previne, de fato, o transtorno, e não as dietas radicais que contribuem para o contrário. Um segundo passo seria ir a escolas ensinar que essas dietas restritivas estão erradas, que se deve comer conhecendo os alimentos e estar em paz com todos eles”, relata a pesquisadora.


Sendo assim, a pesquisa demonstra que a alimentação consciente e regular, ainda que inclua doses diárias do alimento problemático para a vítima do TCA, é o que funciona como prevenção à compulsão. Além disso, a investigação propiciada pelo modelo intermitente revela que esse comportamento regular pode representar um tratamento eficaz contra a doença, bem como auxiliar nas dietas de perda de peso.