Pesquisador do IPUSP estuda as intersecções e correspondências que nascem do encontro entre literatura e cinema

Entrevista com Renato Tardivo: Quando duas artes se encontram

Por Aryanna Oliveira
 
Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme

 

Foi em uma mesa de bar que nasceu o projeto de estudo de Renato Cury Tardivo, doutor pelo IPUSP, terapeuta e professor universitário. Em um dos muitos encontros com os colegas, durante a graduação em psicologia, o então aluno falava sobre seus planos de uma iniciação científica quando ouviu a providencial pergunta de José Gomide Mochel, conhecido por “Maranhão”: “Cara, você já viu Lavoura arcaica?”. Tardivo não havia visto. “Ainda”, brinca ele.  

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Da leitura de Freud e seu duplo: investigações entre a psicanálise e a arte, de Noemi M. Kon, a “sugestão” de Maranhão se estruturou. No livro, a psicanálise é explorada em uma relação com a estética das artes, em especial com as veredas literárias, o que inspirou Tardivo a estudar a correspondência entre Lavoura arcaica (1975), de Raduan Nassar, e a obra cinematográfica homônima, de Luiz Fernando Carvalho (2001), em busca do substrato desse encontro: uma nova arte, um novo olhar. 11 ACO pesquisador intentou elencar as possibilidades de sentidos que despontam do encontro entre a literatura e o cinema – ou, antes, entre o livro, com suas palavras e sentidos velados, e o filme, cuja câmera é “o olho que narra”. Os estudos de Tardivo resultaram em sua dissertação de mestrado, que mais tarde seria publicada em livro.

Como consequência natural de um bem-aventurado projeto, seguiu-se sua tese de doutorado, que trabalha, além de Lavoura arcaica, a correspondência entre outras obras, como Abril despedaçado e Budapeste. Tardivo deu continuidade ao seu projeto, explorando agora, além da conformidade, os conflitos que surgem do embate entre duas artes, da leitura “poética-crítica” – assim chamada por ele – que se faz delas. 
Em entrevista à psico.usp, Tardivo conta um pouco mais sobre seus trabalhos e o modo como o olhar de duas artes cria um novo olhar, uma nova linguagem

 

15 ACpsico.uspPor que analisar cinema e literatura pela ótica da psicologia? Como se dá essa aproximação com as artes? E como surgiu a ideia de tratar essa temática, com Lavoura arcaica, em seu mestrado?

Renato Tardivo: Quando comecei a faculdade de psicologia, no IPUSP, já me interessava por psicanálise e literatura. Logo percebi que gostaria de pesquisar essa relação. Durante a graduação, tomei contato com o trabalho do prof. João A. Frayze-Pereira e com o Laboratório de Estudos em Psicologia da Arte, o LAPA, que ele coordenava na época. Então, realizei uma iniciação científica trabalhando com o romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar. Nessa época, passei a me aproximar da linguagem do cinema e, assim, o projeto de mestrado, que trataria da correspondência entre o Lavoura arcaica (livro) e o filme homônimo, dirigido por Luiz Fernando Carvalho, foi tomando corpo no meu último ano de graduação. 

Quanto à aproximação entre a psicologia e as artes, o campo da Psicologia da Arte delineado pelo prof. Frayze é eminentemente interdisciplinar. Nesse sentido, não se trata propriamente de analisar obras de arte pela ótica da psicologia de modo a reduzi-las a teorias ou conceitos psicológicos. De outro modo, a proposta encampada pelo prof. Frayze implica que o pesquisador empreenda um mergulho na obra, respeitando-a em sua singularidade e considerando-a em sua legalidade interna. Para isso, precisamos estudar história da arte, estética, crítica de arte, filosofia... Nesse campo tão amplo, movido por afinidades pessoais e estéticas, tenho trabalhado com as linguagens da literatura e do cinema.

Em seus trabalhos você apresenta Merleau-Ponty como uma de suas orientações teóricas e metodológicas. De que forma os estudos desse filósofo aparecem aplicados ao seu projeto? 

Maurice Merleau-Ponty foi um filósofo francês, discípulo de Husserl, responsável por importantes contribuições à Fenomenologia. Difícil falar de sua obra, que é tão complexa, em poucas palavras. Mas o aspecto que pode valer a pena ressaltar é a perspectiva relacional apresentada por ele. Merleau-Ponty critica a postura assumida pelas vertentes do subjetivismo filosófico, segundo o qual a consciência cria mundo (distanciada dele), bem como critica o objetivismo científico. A propósito, “A ciência manipula as coisas e renuncia habitá-las”, ele afirma ao abrir o ensaio “O olho e o espírito”. Assim, Merleau-Ponty propõe que o conhecimento retorne ao seu ponto de partida, que é o mergulho no sensível. A consciência, para ele, se conjuga com um corpo sensível. Nessa medida, o filósofo busca ultrapassar a dicotomia dentro/fora, sujeito/objeto, e a chave para encaminhar a discussão é a forma com a qual ele compreende o corpo: zona de fronteira entre mundo interno e mundo externo, pois está dentro e fora, é sujeito e objeto – se vê, vendo; se toca, tocando etc. Merleau-Ponty faz, ainda, inúmeras referências à arte, pois toma o trabalho do artista e a relação da obra com o espectador como emblemas da construção do conhecimento. Trata-se de uma de minhas principais referências, pois é o que buscamos ao aproximar psicologia e estética: ultrapassar a redução de uma à outra e tomá-las em sua comunicação recíproca. 

Além da fenomenologia de Merleau-Ponty, você diz em seu trabalho que suas orientações teóricas e metodológicas se desenvolveram, também, em cima do conceito de “leitura implicada” de seu orientador, João Frayze-Pereira. O que significa o conceito e de que forma ele se relaciona aos sentidos que uma obra acrescenta à outra? 

Em inúmeros artigos e no livro Arte, dor – inquietudes entre estética e psicanálise, João A. Frayze-Pereira vem utilizando e desenvolvendo a expressão psicanálise implicada. Em linhas gerais, a psicanálise implicada é aquela imbricada, engastada àquilo de que pretende falar (seja uma pessoa, uma obra de arte, um fenômeno da cultura). Contrapõe-se, assim, à psicanálise aplicada (expressão cunhada pelo próprio Freud) porque não visa à aplicação de conceitos previamente construídos. Esse uso, o da aplicação, é extremamente perigoso porque pode ter por resultado a mera reprodução daquilo que já se sabe. Por exemplo, se um analista winnicottiano aplica apressadamente noções dessa psicanálise em um primeiro contato com o seu cliente, são altas as chances de se distanciar desse outro (se é que chegou a se abrir) e utilizá-las como receptáculo para as noções da psicanálise em que ele acredita. Trata-se de um uso tautológico, ideológico, portanto. Em direção oposta, fundamentada por uma série de autores – Merleau-Ponty entre eles –, a noção de psicanálise implicada difundida pelo prof. Frayze assume a perspectiva relacional que se constrói no encontro do pesquisador (terapeuta) com a obra (cliente). A leitura que decorre do encontro com uma singularidade é também ela singular e solicita os conceitos que sirvam àquela obra (cliente) porque ela assim se fez comunicar.       
 

Dessa comunicação recíproca entre duas linguagens, dois tipos de narrativas, nasce a terceira a que você se
refere em sua dissertação? Como se dá o processo para se chegar à essa
terceira narrativa e como ela se apresenta? Essa narrativa como resultado do embate de duas outras estaria relacionada à sua fala ao dizer que “Há sempre um olhar direcionado àquilo que está ocorrendo; olhar que, ao fundar perspectiva, renova as demais
leituras – um ‘codevaneio’”? 

Se, como falamos anteriormente, a leitura decorrente do encontro com um outro – ou no caso da minha pesquisa, com outra(s) obra(s) – é singular, a terceira narrativa a que me refiro é emblema dessa singularidade. Como eu trabalhei com duas obras (o romance e o filme) e com a correspondência entre elas, foi-se me delineado, à medida que redigia a dissertação, que toda narrativa é marcada pela construção de um olhar. E, mesmo que se tratasse de um trabalho acadêmico (e, aqui, o fato de eu também escrever ficção certamente me ajudou), o texto que escrevi – publicado em seguida no livro Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica – não tinha a pretensão de, por meio de academicismos, chegar à verdade absoluta das obras, mas era, também ele, marcado por ambiguidades e metáforas sensíveis. Em suma, toda resposta a uma narrativa é uma interpretação e, se sintonizada à legalidade das obras, uma interpretação que as continua, ou, como diz o italiano Luigi Pareyson, devolve-lhes a vida de que são feitas. Algo que se vive junto, um sonho que se sonha junto. Daí minha menção à expressão “codevaneio”, do filósofo francês Mikel Dufrenne.  

Quando se adapta a literatura para o cinema, algumas mudanças, normalmente, se fazem necessárias. Há alguma falta significativa do livro na obra cinematográfica?

Como digo no trabalho, as diferentes linguagens, ainda que se correspondam, se abrem para especificidades. Logo, como apontado em sua pergunta, há “adaptações que precisam ser feitas”, escolhas a ser tomadas: por mais que o filme parta do livro, é uma obra nova que nasce. Conquanto meus objetivos não fossem analisar a fidelidade do filme em relação ao livro, eu não falaria em “falta significativa”. Creio que há escolhas no filme marcadas pela preocupação em ser fiel ao livro, nas minhas palavras, “instância superegoica” para o cineasta Luiz Fernando Carvalho e sua equipe. Como a obra Lavoura arcaica aborda as possibilidades e impossibilidades de diálogo entre pai e filho, velho e novo, parto daí para fazer uma analogia entre o diálogo do filme (novo) com o livro (velho). Do meu ponto de vista, esta é uma das
principais diferenças entre as duas obras: no romance, o retorno ao pai jamais se consuma; já no filme, ele se consuma no desfecho. Isso faz com que a temporalidade do romance seja espiralada e a do filme, circular. 


EXPLORANDO OS SENTIDOS EM  Lavoura arcaica
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Embrenhando-se já no universo de Lavoura arcaica, como pode ser visto psicanaliticamente o que você se refere como “evento mais significativo para a trama”, um incesto que se estabelece entre os irmãos André e Ana? E já aproveitando o gancho das relações familiares do protagonista, o que se pode ressaltar do vínculo dele com a mãe?

André era sufocado pelo excesso de afeto da mãe e pela rigidez da lei do pai. E ele explode no incesto com Ana, a irmã. É um dos eventos mais significativos porque marca a fuga de André da casa e é determinante para o desfecho trágico da trama. Em vez de considerar o incesto como uma questão apenas edípica, qual seja, o modo de André consumar, por meio do corpo da irmã, a relação sexual com a mãe, busco problematizar a questão. E proponho que o incesto marca tanto a contestação de André – porque se trata de um ato proibido – como a conservação – porque é uma forma de retorno radical à estrutura familiar, e este retorno está contido no discurso endogâmico do pai. O incesto, ainda, nos oferece elementos interessantes para pensar  a questão da ressignificação das origens, questão cara a André em sua relação com a família e questão cara, também, à correspondência entre o romance e o filme. Por exemplo, quando Luiz Fernando Carvalho afirma que não há nada em seu filme que não esteja no livro, eu digo que esse discurso se reveste de tonalidades incestuosas. Por outro lado, é justamente ao realizar uma obra que se corresponde com a obra de
origem e não a repete – como vimos há diferenças significativas entre elas – que o filme se liberta das amarras do incesto.


A sua tese de doutorado parece ser um fruto natural do sucesso do seu mestrado, que inclusive foi publicado em livro. Mas como surgiu esse “aprofundamento” para um novo trabalho? O que vem além do “Porvir que vem antes de tudo”?

Fazendo uma brincadeira com os títulos dos trabalhos, diria que depois do Porvir que vem antes de tudo vieram as Cenas em jogo (título do doutorado). E talvez seja isso mesmo. Além ou aquém do “porvir que vem antes de tudo”, resta a vida. No mestrado eu descobri uma forma de ler/analisar obras, mas, por mais que tenha explicitado essa descoberta, não me debrucei propriamente sobre isso: meu interesse era a correspondência do livro com o filme. Então, no doutorado, a proposta foi, a partir do meu encontro com outras obras, outras cenas (optamos por incluir a correspondência em Lavoura arcaica como primeiro capítulo, justamente pelo caráter de continuidade da pesquisa), poder pensar e fundamentar essa forma de leitura – que eu denominei “poética-crítica”. Das leituras das obras (livros e filmes), emergiram os seguintes temas: liberdade e opressão; ressignificação da lei e perversão; realidade e ficção; reflexão sobre os mecanismos de construção da verdade. Essa resposta (poética) às obras que as continua, que se vale de ambiguidades etc. é também uma forma de crítica porque se movimenta a partir de conflitos, embates, traz o novo, ultrapassa o instituído.   


14 ACEm seu último projeto, você diz trabalhar certos “mecanismos de construção da verdade”. Qual a relação desses mecanismos com seu processo metodológico? 

Eduardo Coutinho, um dos mais inventivos documentaristas brasileiros, dirigiu uma das obras que analisei no doutorado: Jogo de cena. Considero o capítulo dedicado a esse filme a espinha dorsal da pesquisa, justamente pela questão dos “mecanismos de construção da verdade”. Coutinho subverteu a linguagem documental ao evidenciar o quanto há de ficção nela, e vice-versa. Uma das marcas de seu cinema documental – que talvez tenha atingido o ponto máximo em Jogo de cena – não é filmar a verdade, como apressadamente pensamos sobre documentários, mas filmar os mecanismos de construção da verdade. Isso faz toda a diferença, porque não considera que exista uma (única) realidade a ser filmada e, mais ainda, evidencia-se que as personagens (reais) se constroem na relação com o documentarista e o aparato. Mantém-se a ambiguidade. Isso vale também para o meu percurso metodológico: refletir no capítulo final os mecanismos de construção das leituras é explicitar os mecanismos de construção da verdade da própria tese. Como escrevo no fim do trabalho: “A ambiguidade, vivenciada dessa perspectiva, tende à multiplicidade, isto é, em vez de falsamente se resolver, ela se potencializa. Ora, se toda forma de apreensão e registro da realidade se dá pela via da ficção, toda ficção assenta-se à realidade. De resto, qualquer tentativa de apreensão definitiva da realidade fracassa. A própria fotografia não foi capaz de fazê-lo: para a foto existir, é necessário um quantum de luz em um período de tempo. Apreensão infinita: instantes que, de tão reais, dão a volta toda. Viram ficção”.


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Grupo de dança abarca interessados em produzir arte e protestar contra as durezas da cidade de São Paulo

Estética de Inclusão


Por Sofia Mendes
Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme

 

 A arte da dança permite a movimentação dos corpos, o trabalho dos músculos e a liberação de hormônios do prazer. A Oficina de Dança e Expressão Corporal, projeto de criação de arte por meio dos movimentos corporais, faz tudo isso, mas com um diferencial: nessa dança todos podem chegar, participar da dança e se encantar com o projeto.

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Uma proposta tão aberta e inovadora pode levantar questionamentos sobre suas práticas e desdobramentos. Dessa forma, a pesquisadora do IPUSP Tatiana Bichara se propôs a estudar o grupo e entender o que ele produz para os participantes e para a cidade, baseando seu doutorado nesses questionamentos. Tatiana, como pesquisadora e também coordenadora e dançarina do projeto, se viu enfrentando os vários desafios da Oficina de Dança.

Criada em 2001, a Oficina surgiu como desdobramento das atividades artístico-políticas do Coral Cênico Cidadãos Cantantes, grupo aberto, heterogêneo, existente desde 1992. O Coral é voltado para a produção artística no espaço público de cultura e vinculado ao Movimento de Luta Antimanicomial. A Oficina de Dança nasceu desse movimento e ocorria, primeiramente, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), com o objetivo de possibilitar a convivência com a diferença entre todos os sujeitos na cidade. Em 2009, o grupo se mudou do CCSP para a Galeria Olido, centro de cultura da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura Municipal de São Paulo, localizada no centro da cidade. Tomou, assim, novas dimensões políticas, artísticas e estéticas. Atualmente, a Oficina abarca um público heterogêneo. Entre os participantes há advogados, donas de casa, pessoas em situação de rua, pessoas com deficiências, artistas, estudantes, pessoas com sofrimento mental, profissionais da saúde, entre outros.

Tatiana deixa claro que a Oficina não tem proposta terapêutica, mas de criação artística. O grupo, ao expressar seus sentimentos e emoções nos ensaios e no palco, promove arte de qualidade, mas não seguindo a lógica de estética limpa ou suja, e sim uma estética de inclusão, de produção de uma dança para todos.


A
arte inclusiva que é produzida na Oficina começa nos ensaios: eles são abertos para todos e totalmente gratuitos. Nesses encontros são produzidas peças de dança sem coreografia, mas seguindo o direcionamento de um tema proposto coletivamente pelo grupo. Além disso, as apresentações são feitas de forma livre, onde todos os participantes podem dançar da forma que quiserem, com as roupas que preferirem, se entendendo e criando em conjunto.

10 ACA ideia que surgiu da pesquisa foi a de “lugar-ponte”. Nele, segundo Tatiana, é possível transitar pelos polos eu-outro, público-privado, dentro-fora, sem fixar-se em um ponto só. Na hora da dança, os participantes, ao mesmo tempo que lidam com si mesmos, têm de pensar no outro. O grupo produz internamente para apresentar nas ruas, no lado de fora. É nesse sentido que eles transitam, vão do interno ao externo, ao mesmo tempo em que produzem e resistem às mazelas da cidade grande, ao ocupar o espaço público que lhes é de direito.

É com esse pensamento que os dançarinos produzem apresentações nas ruas, praças e metrôs, por exemplo. Nessas intervenções são questionados muitos problemas da cidade como a pressa cotidiana. O andar lento em uma avenida movimentada, a dança em uma estação de metrô em horário de pico, o convite para os transeuntes se juntarem ao grupo, tudo isso faz parte de uma arte política. E assim se faz dança, inclusiva e de qualidade nas ruas frias e cinzentas da cidade de São Paulo.

 

 

 

 

 

 

A problemárica da solidão no filme Her, de Spike Jonze, é analisada em pesquisa do IPUSP

Hoje eu quero ficar sozinho
Texto: por Aryanna Oliveira
Edição: por Islaine Maciel
Revisão: por Maria Isabel da Silva Leme

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Cena comum no cotidiano das grandes metrópoles do século XXI: um grupo de amigos se reúne para um “happy hour”, mas todos perdem grande parte da conversa postando fotos ou “conversando” pelo celular. Ou ainda, sábado à noite e o sujeito em casa, atualizando seu “status” pelo computador em uma rede social na qual tem quase mil amigos, mas nenhum para dividir o final de semana, nenhum ao seu lado – realmente – para compartilhar as novidades dos últimos dias. 

Captura de Tela 2016 07 03 às 01.12.44As relações sociais seguem na contramão da tecnologia: enquanto a mídia é cada vez mais avançada e fervilha novidades em segundos, o contato humano é escasso e se dá – muitas vezes – apenas na esfera virtual, onde muitos sabem onde você está, o que comeu, ao que assistiu ou qual o último aparato tecnológico que adquiriu, sem nem mesmo conhecê-lo. O “compartilhar” é agora mera gíria da rede, se restringe ao não palpável dos smartphones, tablets e computadores.


Essa é a ideia de Her, longa-metragem lançado em 2013, em que o diretor Spike Jonze traz para as telas a retórica dos sentimentos vazios da contemporaneidade, travestida de história de amor. 

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Porém, o casal que protagoniza o envolvimento amoroso é atípico: um homem, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), e um sistema operacional de nome Samantha (voz de Scarlett Johansson). Para enfatizar a solidão dos indivíduos na pós-modernidade, as imagens futurísticas ganham destaque. Inspirada nelas, Anna Paula Zanoni, pesquisadora do IPUSP, desenvolveu "Imagens da solidão na contemporaneidade: a contribuição do filme Her em umas perspectiva Junguiana", sua dissertação de mestrado para o IP.

 

A pesquisa aborda a solidão dos indivíduos na pós-modernidade por meio do ponto de vista de Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica. A plasticidade do filme serviu como objeto de análise feita por meio do conceito de imagem junguiano. Segundo a conceituação do teórico, os fenômenos da psique são vistos como plurais e relacionados a aspectos individuais e coletivos dos sujeitos. Com origem nos processos psíquicos (e na fantasia), as imagens aparecem como elementos básicos, criadores de toda realidade, seja ela simbólica ou metafórica. De acordo com a psicóloga, elas, as imagens, “são perspectivas psicológicas repletas de uma múltipla relação de significados, disposições históricas e possibilidades capazes de produzir reflexão, sentido, aproximações com a morte, e segundo Hillman] de ‘transformar aconte cimentos em experiências’”.

Her prima por explorar as imagens, tanto artísticas como psicológicas, notabilizando a solidão de Theodore. O futurismo – para além do clichê de carros voadores – amplifica e complexifica o cenário da contemporaneidade e faz com que, se em um primeiro momento a narrativa pareça absurda – com posições de câmera e escolhas de perspectivas que causam estranhamento –, em outro, pareça crível e, até mesmo, uma inevitável consequência do que é esse apartamento do personagem do mundo, da sua relação com outras pessoas. Créditos para Austin Gorg, diretor de arte do filme, e para Hoyte van Hoytema, diretor de fotografia, que, com a escolha de cenários e de imagens de baixo contraste, permitiram a fluidez do clima, do movimento, representando um sentimento com os quais todos se identificam: a solidão que, de proveitosa, pode tornar-se a pior das companhias, porta de entrada para muitas enfermidades do homem moderno.

Um homem sozinho no meio da multidão

Desde a Revolução Industrial, nos séculos XVIII e XIX, o homem pode perceber a influência das máquinas na vida da sociedade. Se à época a tecnologia substituiu o trabalho artesanal como consequência do progresso científico e da busca por mais lucros em menor tempo, hoje ela subtrai o tempo dos indivíduos, ao mesmo tempo em que promete facilidades para a vida moderna. Há uma dicotomia em que, de um lado, se diminui as jornadas de trabalho, o que garantiria mais momentos de sociabilidade, e, de outro, se compromete a liberdade com dispositivos que prendem a atenção e segregam o indivíduo no mundo.

Já em 1930, Sigmund Freud, quando da publicação de Mal-Estar na Civilização, discorria sobre como a tecnologia não é certificadora de felicidade. As técnicas científicas que modernizaram as etapas do trabalho não conseguem, com o toque do controle remoto, tornar o homem feliz. “A felicidade humana, por conseguinte, parece não ser a finalidade do universo, e as possibilidades de infelicidade realizam-se mais prontamente. Essas possibilidades estão centralizadas em três fontes: o sofrimento físico, corporal; perigos advindos talvez a fonte mais penosa de todas”, escreveu o psicanalista.

E assim, cercado de gente – e de máquinas – o homem se vê cada vez mais desamparado em uma solidão, não só temporal, mas também atemporal, como enfatiza Zanoni em seu trabalho. Em entrevista à psico.usp. a pesquisadora explicou a escolha por essa temática, hoje já tão presente em discussões e opiniões na mídia, assim como em conversas de pessoas comuns e especialistas que preveem as consequências de um infrene contato com a conectividade. Ela elucida que “o tema da solidão é universal, está presente nas inquietações pessoais, nas falas dentro do consultório, nas artes e em infindáveis reflexões sobre o humano”. E foi esse cenário que Jonze captou por meio das lentes da câmera, o indivíduo consigo mesmo, que “pensa com seus botões”. Assim é Theodore Twombly, um homem despovoado da metrópole que trabalha em uma agência escrevendo cartas que se notabilizam pelo teor sentimental. Ou seja, ele é pago para emocionar um destinatário substituindo um remetente inábil na descrição dos próprios sentimentos, em uma produção em larga escala dos sentimentos alheios. No entanto, há aqui um paradoxo: Theodore está longe de dominar as emoções como o ofício pressupõe, é nítida sua inabilidade de trato pessoal. Vive à sombra de dramas do passado e sua vida parece não fluir. Porém, o diretor não apresenta a imagem arquetípica de um perdedor amargurado, mas sim um sujeito comum, em busca de sua identidade e, no mesmo caminho, de alguma felicidade. “Uma imagem muito comum da solidão na pós-modernidade é a do indivíduo que se sente solitário em meio à multidão ou conectado às redes sociais. Theodore pode ser representado de ambas as formas. Oportunidades e riscos também fazem parte de sua condição, o que poderia situá-lo na pós-modernidade”, verificou Zanoni.

Nesse entremeio surge Samantha, que literalmente surge quando se dá um comando. Theodore, então, se apaixona por um “SO”, o primeiro “Sistema Operacional com Inteligência Artificial” no mercado, que se adapta às características do usuário. Dessa forma, ao configurar e nomear seu sistema, Samantha “ganha vida” e Theodore uma namorada. Em determinado momento da narrativa, ele vislumbra a possibilidade de um relacionamento real, mas diante do caótico do outro, se refugia novamente no virtual, como se a bagunça pessoal que antevê o repelisse.

Zanoni nos fala dessa insegurança tão comum em uma pós-modernidade conflituosa.

Segundo ela, esse medo do desconhecido, e do estranhamento que isso causa, é uma reação humana comum. Entretanto, a rapidez da mudança na pós-modernidade provoca uma falta de aprofundamento das experiências humanas. E esse processo “pode gerar indivíduos inseguros, com dificuldade de lidar com frustrações e de estabelecer relações mais íntimas, pois a intimidade requer que sejam percorridos os caminhos mais sombrios da alma humana”, expõe a pesquisadora, para a qual o personagem não “opta” pelo virtual, em detrimento do real, mas se sente confortável com aquilo que pode prever, do qual conhece o funcionamento.

 

Todavia, em uma relação amorosa que inclui sexo, o corpo começa a fazer falta. A voz não basta quando os carinhos faltam, e Theodore começa a se afastar de Samantha. Esse processo não se dá por acaso, e esse aspecto foi analisado por Zanoni, que vê no protagonista de Her um contínuo processo de reconhecimento e transformação. Com o desencadear da trama, ele consegue elaborar seu luto, ganhando consciência de si mesmo e do mundo, tornando-se mais capaz e preparado para amar. E isso se dá pela relação com o “SO” já que essa interação possibilita que ele entre em contato com elementos psicológicos essenciais a ele.

Imagens da solidão

Captura de Tela 2016 07 03 às 01.14.03E por que analisar a solidão por meio das imagens de um filme? Muitos estudiosos do cinema já relacionaram as imagens da psique e dos sonhos com as imagens fílmicas. Em ambas, há possibilidades de significados complexos e independentes. Por meio das imagens, toda a experiência se torna possível. São perspectivas psicológicas sobre percepções das coisas do mundo.

A pesquisadora Anna Paula Zanoni observou que a fotografia do filme é um aspecto marcante na análise das imagens da solidão. Ainda que a produção utilize cores neutras nos cenários, há sempre algum objeto marcadamente destacado em vermelho, laranja, azul e amarelo. Segundo ela, as cores e o olhar cinematográfico sugerem um “termômetro emocional”. Além disso, enfatiza a simbologia da solidão no filme, por meio de um cenário intimista com enquadramento no personagem, seja em sua casa ou no meio da multidão.

Essas imagens colaboraram para a idealização de um Theodore que elabora seu luto de uma separação conjugal. Ele tem experiências e comportamentos descritos na literatura acadêmica e identificados em indivíduos que se sentem solitários, tais como: maior movimento de interiorização, personificação de objetos e coisas, sentimento de inadequação e tristeza, esquiva de contatos sociais etc.

Outros personagens da história também podem ser pensados em suas solidões particulares por meio das imagens. Nesse sentido, o filme é um amontoado de emoções brandas, neutras, como as nulidades das relações rápidas da contemporaneidade. São poucos – e raros – os momentos de explosão, talvez o maior deles venha do próprio sistema operacional. Ao sentir-se em segundo plano na vida do protagonista, Samantha sente ciúmes e, até mesmo, se desespera.

 

 Das muitas formas de estar sozinho

 

Viver momentos de solidão pode ser benéfico para o ser humano, especialmente em tempos de automatização de funções – e sentimentos. Ter tempo para o autoconhecimento e estudo de suas emoções se faz urgente e imprescindível em uma época em que “parar” é palavra proibida. Mas perceber a linha tênue que separa a solidão que favorece da que degrada pode não ser um processo muito claro.

6 ACEm sua pesquisa, Zanoni identificou uma solidão benéfica e prazerosa, chamada solitude, sensação de que em “uma pitada de solidão contém algo de liberdade”. A solitude é um processo árduo de transformação em que se consegue atingir as camadas mais essenciais do indivíduo. E tomar conhecimento do que se tem de mais intrínseco, sem se deixar perder e mantendo a consciência dessa interação, é um mergulho profundo no autoconhecimento.

A ideia de solitude, segundo a pesquisadora, “está relacionada a um estado de plenitude, consciência, alteridade e espiritualidade. É um tipo de solidão conquistada por meio de um grande desenvolvimento pessoal em que há um sentimento profundo de conexão consigo mesmo e com os outros”. Esse momento de conhecimento interiorizado não caracteriza uma patologia, não exige preocupação ou tratamento, pois é um momento de plenitude em um contato consigo mesmo.

A solidão potencialmente criativa permite que o indivíduo pare, altere seu ritmo, percebendo suas necessidades primeiras e urgentes. A psicóloga elucida que, “a solidão é um elemento precioso na transformação alquímica da alma humana, mas precisa da troca com outros elementos, como o amor, a morte, a dor e o mistério, e de cuidados, como um recipiente adequado, para não se volatilizar e se tornar um isolamento empobrecido”, o que o distanciaria de sua capacidade reflexiva.

Theodore é apresentado inicialmente como um solitário que vivencia momentos alternados de dor, tristeza, luto por uma separação conjugal e de vazio existencial. Está preso ao passado e se isola das possibilidades de relacionamentos. Dentro de seu luto, parece estar fechado para outras experiências e trocas que possam envolver intimidade. Com o desenrolar da trama, ele começa a se permitir se envolver novamente, a elaborar sua separação, e a reconhecer e assumir as suas escolhas e desejos. A maneira como Theodore vivenciou os novos relacionamentos, a partir daí, contribuiu para a saída de um estado de isolamento para a de uma interiorização criativa e conectada à intimidade.

A pesquisadora afirma que, diferentemente da ideia de solitude, a solidão é geralmente reconhecida como Robert Hobson a definiu: “uma dor provinda do sentimento de inabilidade para satisfazer a necessidade urgente de relação com outras pessoas”. Nas situações mais graves, ela pode levar a um estado de estagnação psíquica, em que se tolhem as possibilidades de uma ligação mínima necessária com os outros. O isolamento crônico que limita precisa ser cuidado quando percebido, pois pode subtrair do indivíduo suas necessidades psíquicas mais essenciais.

Todavia, quando questionada sobre uma relação entre a depressão e a solidão desenfreada, Zanoni afirmou que não vê uma ligação necessariamente direta entre ambas. “Não acredito que seja possível pensar na solidão como um último estágio da depressão ou como uma depressão desenfreada. A depressão é um fenômeno complexo e possui manifestações diversas. Os principais pontos de associação entre a solidão e a depressão são a dor que o indivíduo sente quando passa por qualquer um desses estados da alma e o grande movimento de interiorização que acontece nessas situações”.

Em seu trabalho, a pesquisadora identificou em Robert Weiss – autor, educador e especialista em sexualidade – uma diferenciação para esses dois estágios da alma. De acordo com Zanoni, Weiss afirma que na solidão existe uma tentativa de superação da angústia gerada por um impulso de se integrar a um novo relacionamento ou de resgatar um outro relacionamento acabado. Por esta razão, “os solitários querem encontrar outros e, se encontram os ‘outros certos’, mudam e deixam de se sentir solitários”, argumenta a psicóloga. Por outro lado, esse impulso não costuma ocorrer com aqueles que vivenciam a depressão, que, normalmente, relutam em compartilhar sua infelicidade, “pois entendem que seus sentimentos não podem ser alcançados através dos relacionamentos, sejam eles novos ou antigos”, completa.

A ideia de solitude está relacionada a um estado
de plenitude, consciência, alteridade e espiritualidade.
É um tipo de solidão conquistada por meio de um
grande desenvolvimento pessoal em que há um
sentimento profundo de conexão consigo
mesmo e com os outros

A maneira de compreender essas ideias é amparada pela teoria de Jung, uma das principais influências no trabalho da psicóloga. Segundo ela, o fundador da psicologia analítica tem a preocupação de não limitar as psicopatologias a perspectivas reducionistas. Em sua perspectiva, procura-se entendê-las como movimentos da psique que precisam ser analisados simbólica e culturalmente. Dessa forma, Zanoni justifica que em cada enfermidade psicológica é levado em consideração “o que há de potencialidade e de risco. Na solidão, por exemplo, pode haver tanto um movimento de maior interiorização e espiritualidade quanto um risco de isolamento e estagnação psíquica. Se não aprendemos a lidar com a nossa solidão, dissolvemo-nos na inconsciência da coletividade”.

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