A problemárica da solidão no filme Her, de Spike Jonze, é analisada em pesquisa do IPUSP

Hoje eu quero ficar sozinho
Texto: por Aryanna Oliveira
Edição: por Islaine Maciel
Revisão: por Maria Isabel da Silva Leme

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Cena comum no cotidiano das grandes metrópoles do século XXI: um grupo de amigos se reúne para um “happy hour”, mas todos perdem grande parte da conversa postando fotos ou “conversando” pelo celular. Ou ainda, sábado à noite e o sujeito em casa, atualizando seu “status” pelo computador em uma rede social na qual tem quase mil amigos, mas nenhum para dividir o final de semana, nenhum ao seu lado – realmente – para compartilhar as novidades dos últimos dias. 

Captura de Tela 2016 07 03 às 01.12.44As relações sociais seguem na contramão da tecnologia: enquanto a mídia é cada vez mais avançada e fervilha novidades em segundos, o contato humano é escasso e se dá – muitas vezes – apenas na esfera virtual, onde muitos sabem onde você está, o que comeu, ao que assistiu ou qual o último aparato tecnológico que adquiriu, sem nem mesmo conhecê-lo. O “compartilhar” é agora mera gíria da rede, se restringe ao não palpável dos smartphones, tablets e computadores.


Essa é a ideia de Her, longa-metragem lançado em 2013, em que o diretor Spike Jonze traz para as telas a retórica dos sentimentos vazios da contemporaneidade, travestida de história de amor. 

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Porém, o casal que protagoniza o envolvimento amoroso é atípico: um homem, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), e um sistema operacional de nome Samantha (voz de Scarlett Johansson). Para enfatizar a solidão dos indivíduos na pós-modernidade, as imagens futurísticas ganham destaque. Inspirada nelas, Anna Paula Zanoni, pesquisadora do IPUSP, desenvolveu "Imagens da solidão na contemporaneidade: a contribuição do filme Her em umas perspectiva Junguiana", sua dissertação de mestrado para o IP.

 

A pesquisa aborda a solidão dos indivíduos na pós-modernidade por meio do ponto de vista de Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica. A plasticidade do filme serviu como objeto de análise feita por meio do conceito de imagem junguiano. Segundo a conceituação do teórico, os fenômenos da psique são vistos como plurais e relacionados a aspectos individuais e coletivos dos sujeitos. Com origem nos processos psíquicos (e na fantasia), as imagens aparecem como elementos básicos, criadores de toda realidade, seja ela simbólica ou metafórica. De acordo com a psicóloga, elas, as imagens, “são perspectivas psicológicas repletas de uma múltipla relação de significados, disposições históricas e possibilidades capazes de produzir reflexão, sentido, aproximações com a morte, e segundo Hillman] de ‘transformar aconte cimentos em experiências’”.

Her prima por explorar as imagens, tanto artísticas como psicológicas, notabilizando a solidão de Theodore. O futurismo – para além do clichê de carros voadores – amplifica e complexifica o cenário da contemporaneidade e faz com que, se em um primeiro momento a narrativa pareça absurda – com posições de câmera e escolhas de perspectivas que causam estranhamento –, em outro, pareça crível e, até mesmo, uma inevitável consequência do que é esse apartamento do personagem do mundo, da sua relação com outras pessoas. Créditos para Austin Gorg, diretor de arte do filme, e para Hoyte van Hoytema, diretor de fotografia, que, com a escolha de cenários e de imagens de baixo contraste, permitiram a fluidez do clima, do movimento, representando um sentimento com os quais todos se identificam: a solidão que, de proveitosa, pode tornar-se a pior das companhias, porta de entrada para muitas enfermidades do homem moderno.

Um homem sozinho no meio da multidão

Desde a Revolução Industrial, nos séculos XVIII e XIX, o homem pode perceber a influência das máquinas na vida da sociedade. Se à época a tecnologia substituiu o trabalho artesanal como consequência do progresso científico e da busca por mais lucros em menor tempo, hoje ela subtrai o tempo dos indivíduos, ao mesmo tempo em que promete facilidades para a vida moderna. Há uma dicotomia em que, de um lado, se diminui as jornadas de trabalho, o que garantiria mais momentos de sociabilidade, e, de outro, se compromete a liberdade com dispositivos que prendem a atenção e segregam o indivíduo no mundo.

Já em 1930, Sigmund Freud, quando da publicação de Mal-Estar na Civilização, discorria sobre como a tecnologia não é certificadora de felicidade. As técnicas científicas que modernizaram as etapas do trabalho não conseguem, com o toque do controle remoto, tornar o homem feliz. “A felicidade humana, por conseguinte, parece não ser a finalidade do universo, e as possibilidades de infelicidade realizam-se mais prontamente. Essas possibilidades estão centralizadas em três fontes: o sofrimento físico, corporal; perigos advindos talvez a fonte mais penosa de todas”, escreveu o psicanalista.

E assim, cercado de gente – e de máquinas – o homem se vê cada vez mais desamparado em uma solidão, não só temporal, mas também atemporal, como enfatiza Zanoni em seu trabalho. Em entrevista à psico.usp. a pesquisadora explicou a escolha por essa temática, hoje já tão presente em discussões e opiniões na mídia, assim como em conversas de pessoas comuns e especialistas que preveem as consequências de um infrene contato com a conectividade. Ela elucida que “o tema da solidão é universal, está presente nas inquietações pessoais, nas falas dentro do consultório, nas artes e em infindáveis reflexões sobre o humano”. E foi esse cenário que Jonze captou por meio das lentes da câmera, o indivíduo consigo mesmo, que “pensa com seus botões”. Assim é Theodore Twombly, um homem despovoado da metrópole que trabalha em uma agência escrevendo cartas que se notabilizam pelo teor sentimental. Ou seja, ele é pago para emocionar um destinatário substituindo um remetente inábil na descrição dos próprios sentimentos, em uma produção em larga escala dos sentimentos alheios. No entanto, há aqui um paradoxo: Theodore está longe de dominar as emoções como o ofício pressupõe, é nítida sua inabilidade de trato pessoal. Vive à sombra de dramas do passado e sua vida parece não fluir. Porém, o diretor não apresenta a imagem arquetípica de um perdedor amargurado, mas sim um sujeito comum, em busca de sua identidade e, no mesmo caminho, de alguma felicidade. “Uma imagem muito comum da solidão na pós-modernidade é a do indivíduo que se sente solitário em meio à multidão ou conectado às redes sociais. Theodore pode ser representado de ambas as formas. Oportunidades e riscos também fazem parte de sua condição, o que poderia situá-lo na pós-modernidade”, verificou Zanoni.

Nesse entremeio surge Samantha, que literalmente surge quando se dá um comando. Theodore, então, se apaixona por um “SO”, o primeiro “Sistema Operacional com Inteligência Artificial” no mercado, que se adapta às características do usuário. Dessa forma, ao configurar e nomear seu sistema, Samantha “ganha vida” e Theodore uma namorada. Em determinado momento da narrativa, ele vislumbra a possibilidade de um relacionamento real, mas diante do caótico do outro, se refugia novamente no virtual, como se a bagunça pessoal que antevê o repelisse.

Zanoni nos fala dessa insegurança tão comum em uma pós-modernidade conflituosa.

Segundo ela, esse medo do desconhecido, e do estranhamento que isso causa, é uma reação humana comum. Entretanto, a rapidez da mudança na pós-modernidade provoca uma falta de aprofundamento das experiências humanas. E esse processo “pode gerar indivíduos inseguros, com dificuldade de lidar com frustrações e de estabelecer relações mais íntimas, pois a intimidade requer que sejam percorridos os caminhos mais sombrios da alma humana”, expõe a pesquisadora, para a qual o personagem não “opta” pelo virtual, em detrimento do real, mas se sente confortável com aquilo que pode prever, do qual conhece o funcionamento.

 

Todavia, em uma relação amorosa que inclui sexo, o corpo começa a fazer falta. A voz não basta quando os carinhos faltam, e Theodore começa a se afastar de Samantha. Esse processo não se dá por acaso, e esse aspecto foi analisado por Zanoni, que vê no protagonista de Her um contínuo processo de reconhecimento e transformação. Com o desencadear da trama, ele consegue elaborar seu luto, ganhando consciência de si mesmo e do mundo, tornando-se mais capaz e preparado para amar. E isso se dá pela relação com o “SO” já que essa interação possibilita que ele entre em contato com elementos psicológicos essenciais a ele.

Imagens da solidão

Captura de Tela 2016 07 03 às 01.14.03E por que analisar a solidão por meio das imagens de um filme? Muitos estudiosos do cinema já relacionaram as imagens da psique e dos sonhos com as imagens fílmicas. Em ambas, há possibilidades de significados complexos e independentes. Por meio das imagens, toda a experiência se torna possível. São perspectivas psicológicas sobre percepções das coisas do mundo.

A pesquisadora Anna Paula Zanoni observou que a fotografia do filme é um aspecto marcante na análise das imagens da solidão. Ainda que a produção utilize cores neutras nos cenários, há sempre algum objeto marcadamente destacado em vermelho, laranja, azul e amarelo. Segundo ela, as cores e o olhar cinematográfico sugerem um “termômetro emocional”. Além disso, enfatiza a simbologia da solidão no filme, por meio de um cenário intimista com enquadramento no personagem, seja em sua casa ou no meio da multidão.

Essas imagens colaboraram para a idealização de um Theodore que elabora seu luto de uma separação conjugal. Ele tem experiências e comportamentos descritos na literatura acadêmica e identificados em indivíduos que se sentem solitários, tais como: maior movimento de interiorização, personificação de objetos e coisas, sentimento de inadequação e tristeza, esquiva de contatos sociais etc.

Outros personagens da história também podem ser pensados em suas solidões particulares por meio das imagens. Nesse sentido, o filme é um amontoado de emoções brandas, neutras, como as nulidades das relações rápidas da contemporaneidade. São poucos – e raros – os momentos de explosão, talvez o maior deles venha do próprio sistema operacional. Ao sentir-se em segundo plano na vida do protagonista, Samantha sente ciúmes e, até mesmo, se desespera.

 

 Das muitas formas de estar sozinho

 

Viver momentos de solidão pode ser benéfico para o ser humano, especialmente em tempos de automatização de funções – e sentimentos. Ter tempo para o autoconhecimento e estudo de suas emoções se faz urgente e imprescindível em uma época em que “parar” é palavra proibida. Mas perceber a linha tênue que separa a solidão que favorece da que degrada pode não ser um processo muito claro.

6 ACEm sua pesquisa, Zanoni identificou uma solidão benéfica e prazerosa, chamada solitude, sensação de que em “uma pitada de solidão contém algo de liberdade”. A solitude é um processo árduo de transformação em que se consegue atingir as camadas mais essenciais do indivíduo. E tomar conhecimento do que se tem de mais intrínseco, sem se deixar perder e mantendo a consciência dessa interação, é um mergulho profundo no autoconhecimento.

A ideia de solitude, segundo a pesquisadora, “está relacionada a um estado de plenitude, consciência, alteridade e espiritualidade. É um tipo de solidão conquistada por meio de um grande desenvolvimento pessoal em que há um sentimento profundo de conexão consigo mesmo e com os outros”. Esse momento de conhecimento interiorizado não caracteriza uma patologia, não exige preocupação ou tratamento, pois é um momento de plenitude em um contato consigo mesmo.

A solidão potencialmente criativa permite que o indivíduo pare, altere seu ritmo, percebendo suas necessidades primeiras e urgentes. A psicóloga elucida que, “a solidão é um elemento precioso na transformação alquímica da alma humana, mas precisa da troca com outros elementos, como o amor, a morte, a dor e o mistério, e de cuidados, como um recipiente adequado, para não se volatilizar e se tornar um isolamento empobrecido”, o que o distanciaria de sua capacidade reflexiva.

Theodore é apresentado inicialmente como um solitário que vivencia momentos alternados de dor, tristeza, luto por uma separação conjugal e de vazio existencial. Está preso ao passado e se isola das possibilidades de relacionamentos. Dentro de seu luto, parece estar fechado para outras experiências e trocas que possam envolver intimidade. Com o desenrolar da trama, ele começa a se permitir se envolver novamente, a elaborar sua separação, e a reconhecer e assumir as suas escolhas e desejos. A maneira como Theodore vivenciou os novos relacionamentos, a partir daí, contribuiu para a saída de um estado de isolamento para a de uma interiorização criativa e conectada à intimidade.

A pesquisadora afirma que, diferentemente da ideia de solitude, a solidão é geralmente reconhecida como Robert Hobson a definiu: “uma dor provinda do sentimento de inabilidade para satisfazer a necessidade urgente de relação com outras pessoas”. Nas situações mais graves, ela pode levar a um estado de estagnação psíquica, em que se tolhem as possibilidades de uma ligação mínima necessária com os outros. O isolamento crônico que limita precisa ser cuidado quando percebido, pois pode subtrair do indivíduo suas necessidades psíquicas mais essenciais.

Todavia, quando questionada sobre uma relação entre a depressão e a solidão desenfreada, Zanoni afirmou que não vê uma ligação necessariamente direta entre ambas. “Não acredito que seja possível pensar na solidão como um último estágio da depressão ou como uma depressão desenfreada. A depressão é um fenômeno complexo e possui manifestações diversas. Os principais pontos de associação entre a solidão e a depressão são a dor que o indivíduo sente quando passa por qualquer um desses estados da alma e o grande movimento de interiorização que acontece nessas situações”.

Em seu trabalho, a pesquisadora identificou em Robert Weiss – autor, educador e especialista em sexualidade – uma diferenciação para esses dois estágios da alma. De acordo com Zanoni, Weiss afirma que na solidão existe uma tentativa de superação da angústia gerada por um impulso de se integrar a um novo relacionamento ou de resgatar um outro relacionamento acabado. Por esta razão, “os solitários querem encontrar outros e, se encontram os ‘outros certos’, mudam e deixam de se sentir solitários”, argumenta a psicóloga. Por outro lado, esse impulso não costuma ocorrer com aqueles que vivenciam a depressão, que, normalmente, relutam em compartilhar sua infelicidade, “pois entendem que seus sentimentos não podem ser alcançados através dos relacionamentos, sejam eles novos ou antigos”, completa.

A ideia de solitude está relacionada a um estado
de plenitude, consciência, alteridade e espiritualidade.
É um tipo de solidão conquistada por meio de um
grande desenvolvimento pessoal em que há um
sentimento profundo de conexão consigo
mesmo e com os outros

A maneira de compreender essas ideias é amparada pela teoria de Jung, uma das principais influências no trabalho da psicóloga. Segundo ela, o fundador da psicologia analítica tem a preocupação de não limitar as psicopatologias a perspectivas reducionistas. Em sua perspectiva, procura-se entendê-las como movimentos da psique que precisam ser analisados simbólica e culturalmente. Dessa forma, Zanoni justifica que em cada enfermidade psicológica é levado em consideração “o que há de potencialidade e de risco. Na solidão, por exemplo, pode haver tanto um movimento de maior interiorização e espiritualidade quanto um risco de isolamento e estagnação psíquica. Se não aprendemos a lidar com a nossa solidão, dissolvemo-nos na inconsciência da coletividade”.

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