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A menina dos olhos

 

Por Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme

 

psico.usp, n.2/3, 2016

As contribuições de Dora Ventura para o IPUSP são inúmeras: foi Vice-Diretora do Instituto e Chefe do Departamento de Psicologia Experimental por duas vezes, formou mais de 40 mestres e 28 doutores. Os trabalhos de seu grupo receberam 17 prêmios em congressos nacionais e internacionais nos últimos cinco anos (2010-2015). Fundou o Laboratório de Psicofisiologia Sensorial, e o Laboratório da Visão que é dedicado à pesquisa aplicada em Psicofísica e Eletrofisiologia Visual Clínica; esses espaços de pesquisa alocam cerca de 40 pesquisadores, desde graduandos até pós-doutores. 

A pesquisadora também construiu um caminho de grande relevância para a sociedade científica nacional e internacional: foi Vice-Presidente da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (2013-2015), Vice Presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia (2013-2015), Vice Presidente da SBPC (2003-2007; 2011-2013), Presidente da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (1996-2001), da Brazilian Research Association in Vision and Ophthalmology (2010-2012) e da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (1991-1994).  É Grã Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, membro titular da Academy of Sciences for the Developing World (TWAS), da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (ACIESP), recebeu a Medalha CAPES 50 anos e a Medalha Neurociências Brasil.

A mente das pessoas e o que as move a realizar suas ações sempre foram questões inquietantes para Dora Selma Fix Ventura. Docente aposentada do IPUSP, ela conta com uma extensa trajetória acadêmica e administrativa, e como pesquisadora ajudou a elucidar os instigantes processos mentais dos seres humanos. 

Há 47 anos ela coordena o Laboratório de Psicofisiologia Sensorial, que estuda a visão de animais e, mais recentemente, realiza pesquisas e exames clínicos em seres humanos. Para isso, o laboratório dispõe de uma série de aparelhos especializados e de uma equipe com conhecimentos da psicofísica, que ajudam a desvendar aspectos da visão muitas vezes não elucidados pelos médicos da área de oftalmologia.

A relevância do recorte temático, e a importância dos resultados alcançados com as pesquisas de Dora Ventura se comprovam pela extensão de sua presença nas organizações científicas nacionais e estrangeiras. Mas nem sempre o caminho trilhado pela cientista reconhecida foi tão claro, uma trajetória sofisticada levou a pesquisadora até seu destino final, os estudos da psicofísica da visão. No começo da carreira, antes de ingressar na faculdade, a dúvida sobre a escolha de um curso superior afligiu a então adolescente. As carreiras tradicionais como arquitetura ou medicina lhe pareciam interessantes, mas insuficientes para suprir o desejo de compreender as pessoas. Voltando-se para o campo das ciências humanas, Dora escolheu o - à época recente - curso de Psicologia da USP, ingressando na Universidade em 1958.

Contudo, as teorias da psicologia não pareceram suficientes para responder os questionamentos da pesquisadora. Foi o contato com professor americano, Fred Keller, pioneiro da área de Psicologia
Experimental, e introdutor no Brasil da prática da Análise do Comportamento, em sua estada na Universidade de São Paulo, que abriu novas perspectivas científicas a Dora. “Ele foi responsável pela minha virada para a área de ciência porque mostrou para nós, alunos, que era possível fazer uma experimentação e ter dados controlados em psicologia”, conta. 

A partir desse contato com Keller, ela realizou sua pós-graduação na Columbia University, em Nova Iorque, onde permaneceu de 1962 a 1968. Lá, mais uma
virada se seguiu: deixou os estudos na área do professor que a inspirou e
partiu para a psicofísica da visão. “Eu queria entrar dentro da caixa preta, que é o cérebro. Então eu escolhi o sistema visual para trabalhar”,explica. Para ela, esse sistema apresenta vantagens pois os
estímulos visuais são medidos com facilidade devido à sua anatomia, e às técnicas de pesquisa já estabelecidas.

De volta ao Brasil, no final da década de 1960, instalou seu primeiro laboratório no IPUSP, o Laboratório de Psicofisiologia Sensorial, cujos estudos são destinados a avaliar o desempenho humano, seus limites e mecanismos, diante da estimulação sensorial. Já no Laboratório da Visão, os conhecimentos adquiridos da fisiologia e da psicofísica visual em animais são usados na elucidação dos mecanismos que causam perdas visuais decorrentes de doenças em humanos.

Mesmo depois da aposentadoria, Dora segue sua trajetória na ciência e na psicologia. Pró-ativa, ela continua como professora sênior da USP e leciona em disciplinas da pós-graduação. Além disso, continua supervisionando as pesquisas do laboratório que fundou, atenta ao que pode surgir de novidade.