Projeto Infante a relação das crianças com os animais na terapia assistida

 

Pós-doutorado do IPUSP verifica benefícios da TAA no tratamento de crianças com autismo e necessidade dese considerar 
também o bem-estar dos cães participantes

 

Por Ariane Alves 
Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme

 

CAO MARIE2Afagos, brincadeiras, “conversas” ou a simples companhia. O vínculo emocional criado no relacionamento afetivo entre seres humanos e animais traz, na maioria das vezes, efeitos muito positivos quanto ao comportamento e às sensações provocadas pela interação. Ao longo do tempo, observou-se que essa dinâmica poderia ser usada para auxiliar em novos métodos terapêuticos, amenizando os quase sempre dolorosos e perturbadores procedimentos médicos. Cães, cavalos, peixes, pássaros e golfinhos são, dessa forma, utilizados como coterapeutas e auxiliam em tratamentos de transtornos psicológicos e de várias enfermidades, como Alzheimer, depressão, câncer e alergias.

A prática, que possui bons resultados, comprovados por pesquisas de observação comportamental e de dosagem hormonal, é exercida há séculos e recebe o nome de Terapia Assistida com Animais (TAA). Nela, o animal é visto como parte do tratamento e sua participação tem objetivos claros e dirigidos.

Não existe um número grande de pesquisas sobre a TAA no Brasil. Muitos aspectos carecem de mais estudos, com uma fundamentação científica rigorosa a respeito. Em consonância com esta necessidade, a médica veterinária Marie Odile Monier Chelini, doutora pelo Programa de Psicologia Experimental do IPUSP, tem estudado em seu pós-doutorado os efeitos da terapia assistida com cães em crianças que apresentam autismo. As mestrandas que compõem a equipe do projeto analisam, para suas dissertações, diferentes aspectos da terapia, que envolvem o comportamento dos cães, das crianças e dos terapeutas que as auxiliam.

Com o nome de Projeto Infante, o estudo procura confirmar, por meio de análises comportamentais e fisiológicas (concentrações, em amostras de saliva,  de cortisol — um dos hormônios indicadores de estresse), as hipóteses de que a presença do cão na terapia aumenta a motivação da criança em atividades, diminui a aversão ao contato visual (característica marcante no autismo), reduz as estereotipias (movimentos repetitivos e sem finalidade) e torna a sessão terapêutica menos estressante para todos os envolvidos — criança, terapeuta e cão.

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Os resultados mostram avanços em relação às crianças: para 11 dos 20 participantes, houve uma melhora na interação e uma redução das estereotipias apresentadas inicialmente. Entretanto, para os cães, a experiência não tem efeitos tão positivos. A dosagem de cortisol feita quando eles se encontravam em situações de relaxamento — como em casa, com seus tutores — mostrava uma concentração mais baixa que a feita no momento da terapia, revelando assim um estresse maior do cão quando em contato com as crianças.

Marie Odile considera os resultados obtidos no projeto importantes para pesquisas da área. “Segundo a literatura, os resultados da TAA são modestos, mas reais. É exatamente a impressão que a gente tem. A nossa impressão é que mais ou menos 50% das crianças realmente se interessam pelo cão e aparentemente têm uma melhora de comportamento, de comunicação, a sessão flui de maneira mais gostosa quando o cão está presente”, afirma.

Sobre a preocupação com o estresse dos coterapeutas, a pesquisadora propõe que se tenha cuidado redobrado. “Parar de usar cães para terapia? Não. Mas pensar bem. Tem gente levando o cão quatro vezes por semana a instituições diversas. È demais. Tenho certeza que isso acaba prejudicando esses animais.”

Como a TAA demanda um custo alto com a contratação do condutor e com os cuidados constantes do cão, Marie Odile vê na comprovação científica feita por sua pesquisa uma forma de contribuir para aumentar a aceitação do método e atrair investimentos.

Pesquisa de Marie Odile – clique aqui.