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Professora do IPUSP ministra palestra “Experimentação em animais” na Semana de Psicologia da USP

Professora do Instituto de Psicologia da USP, Miriam Mijares, ministra palestra “Experimentação em animais” na Semana de Psicologia da USP

Por Mariana Navarro

No dia 10/5/2017, a professora do IPUSP Mirian Mijares ministrou uma palestra sobre experimentação animal que fez parte do ciclo de palestras da Semana de Psicologia da USP 2017.

Por se tratar de um tema delicado a professora buscou tratar de todas as visões a cerca do assunto gerando a fim de gerar discussão durante a palestra. De início a docente afirmou não ter opinião formada sobre o tema, e que apesar de utilizar ratos de laboratório em suas pesquisas, divide-se entre as correntes a favor e contra, por se discordar de alguns argumentos de ambos os lados. Por isso, a ideia principal foi de compartilhar e debater em conjunto as reflexões levantadas.

Antes de abrir a discussão para a platéia, a ministrante apresentou um quadro geral sobre experimentação animal no Brasil e no mundo. Foi dada a posição da APA (Associação de Psicologia Americana) acerca da experimentação na psicologia e os conceitos sobre o que é a ética e como ela se aplica na ciência.

De uma forma geral, fica claro de que a postura da comunidade científica é a de utilizar os animais para pesquisas por considerarem os resultados úteis e significativos, mas as medidas possíveis para minimizar a quantidade de pesquisas com animais ou diminuir o sofrimento deles são sempre priorizadas.”O que nos tem mostrado a história é que a norma é para esse contexto [científico], mas não é a solução. A norma não resolve o problema ético de uso de animais. Ela é simplesmente redução de danos.” disse a professora.

Também foi levantado os principais argumentos de quem é a favor e contra a experimentação animal, buscando ver em que situações eles são normalmente questionados. Quem é favorável à utilização defende principalmente de que os animais são necessários para o avanço científico por não existirem outras maneiras viáveis atualmente, e de que essas pesquisam buscam melhorar a saúde e o bem-estar dos humanos e dos próprios animais.

Quem se demonstra desfavorável alega que muitos dos conhecimentos produzidos por meio dos testes em animais não são úteis, pois é necessário extrapolar os resultados obtidos para adaptá-los à fisiologia humana. Também é afirmado que esses procedimentos não são “corretos” por que além de causar sofrimento aos animais, não se tem certeza de que os resultados serão úteis de alguma forma, provocando um dano certo em animais por um um benefício incerto aos humanos.

Esses foram apenas alguns dos argumentos adotados durante essa discussão, e a maioria foi de alguma forma refutado pela própria Profa. Miriam e os participantes da palestra. Um ponto levantado por uma pessoa da plateia é de que no momento, com os meios disponíveis, ainda não é possível abandonar o uso de experimentação animais, então é necessário estabelecer um critério aceitável para a utilização deles, e o que foi sugerido é a capacidade de um animal ser senciente

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Segundo o dicionário online Priberam, um ser senciente é “ 1. Que sente. = SENSÍVEL / 2. Que tem sensações ou impressões (ex.: um animal é um ser senciente).

Ou seja, animais que são capazes de sentir e ter percepção de si próprio não poderão ser utilizados em pesquisas. Porém isso levanta outras questões como, uma pesquisa feita com um animal não senciente é útil? Ainda mais na Psicologia? Como definir de uma forma exata os  seres vivos que são sencientes ou não? Muitos dos animais, como as lagostas, não eram considerados sencientes e hoje são devido à diversas pesquisas.

Porém, se a experimentação animal for proibida, como proceder com os teste? Ainda não fomos capazes de reproduzir todos os aspectos fisiológicos e comportamentais do humano de uma forma artificial. Como evoluir com os conhecimentos da humanidade dessa forma?

O debate se estendeu durante o final da palestra e muitas outras questões foram levantadas pela plateia e pela professora. Contudo para finalizar a professora afirma “Eu não acho que a gente vai ter solução para isso. Eu não acho que a pesquisa em animais não vai acabar até a gente desenvolver modelos computacionais eficientes que de fato consigam simular um ser vivo em todos os seus aspectos. Porque na psicologia eu não tenho como estudar comportamento com um computador.”

Interação com seres humanos pode ser benéfica para cães e lobos

Uma pesquisa de pós-doutorado do IPUSP buscou avaliar os efeitos do contato social regular de cães, lobos e lobos-guará com seres humanos e estabelecer um modelo de manejo social que seja benéfico para os níveis de bem-estar desses animais. 

INTERAÇÃO COM SERES HUMANOS PODE SER BENÉFICA PARA CÃES E LOBOS

Por Fernando Magarian
Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme

lobo guaraUma pesquisa de pós-doutorado do IPUSP buscou avaliar os efeitos do contato social regular de cães, lobos e lobos-guará com seres humanos e estabelecer um modelo de manejo social que seja benéfico para os níveis de bem-estar desses animais. A autora, Angélica da Silva Vasconcellos, registrou as reações comportamentais e fisiológicas ‒ dosagem do cortisol salivar ‒ dos canídeos durante sessões de afagos e de comandos com os treinadores, e ainda caminhadas com desconhecidos.

 

O cortisol é um hormônio liberado em resposta a uma situação estressante, tendo a função de preparar o animal para uma situação de emergência (luta ou fuga). No entanto, em animais cronicamente estressados (por serem mantidos em cativeiro, sob condições inadequadas, por exemplo), a cascata de hormônios liberados, incluindo o cortisol, passa a ser danosa, podendo levar à queda do sistema imune, da reprodução, do crescimento, etc.

Os resultados sugerem efeitos de intensidades diferentes da interação de cães e lobos com humanos, mas as respostas de ambas as espécies indicam a mesma direção: maior interesse nas sessões de treino do que nas de afagos, redução das concentrações de cortisol durante as sessões de treino e aumento destas concentrações na presença de desconhecidos. “Assim”, conclui ela, “nossos estudos contribuíram para a discussão atual do processo que levou ao surgimento de habilidades de interação social de cães com animais de outras espécies, como a humana”. 

Pesquisa de Angélica Vasconcellos – clique aqui.

 

 

 

A influência das tradições de uso de ferramentas em populações de macacos-prego na resolução de novos problemas

Pesquisa investiga comportamento de macacos-prego selvagens na busca por alimentos utilizando sondas


A INFLUÊNCIA DAS TRADIÇÕES DE USO DE FERRAMENTAS EM POPULAÇÕES DE MACACOS-PREGO NA RESOLUÇÃO DE NOVOS PROBLEMAS
Por Fernando Magarian
Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme


Macaco pregoEm seu doutorado no IPUSP, 
Raphael M. Cardoso investigou as diferenças comportamentais de duas populações de macacos-prego selvagens na utilização de sondas para se buscar alimento. Os dois grupos, ambos do Piauí, foram expostos a uma caixa-problema de onde deveriam obter melaço, por meio do uso de gravetos, inserindo-os num buraco estreito na caixa. Os macacos do grupo Chicão são conhecidos pelo uso de pedras para abrir cocos e frutos secos. Já os do grupo Pedra Furada utilizam uma variedade maior de ferramentas, inclusive sondas.

O grupo Pedra Furada, como havia previsto o pesquisador, resolveu o problema no primeiro dia. Já o grupo Chicão não utilizou qualquer ferramenta e interagiu pouco com o problema. Estes resultados estão em consonância com um experimento semelhante já realizado com chimpanzés.

Raphael acredita que esta diferença entre os comportamentos das duas populações esteja relacionada ao gradiente de generalização no uso de ferramentas por uma determinada população. Se o instrumento é associado apenas a uma atividade específica, como quebrar a casca de determinados frutos, ou a atividades diversas, como quebrar qualquer coisa, inclusive uma caixa. Deve-se considerar também a disponibilidade no ambiente de materiais que possam ser usados como ferramenta.

A pesquisa adentra o campo da aprendizagem em populações animais e da controversa questão da existência (e desenvolvimento) de cultura em não humanos. Raphael ressalta que são desejáveis pesquisas futuras que investiguem a habilidade de macacos de resolver problemas em função de suas tradições no uso de ferramentas.

 

Pesquisa de Raphael Cardoso – clique aqui.

 

 

 

 

 

 

 

Projeto Infante a relação das crianças com os animais na terapia assistida

 

Pós-doutorado do IPUSP verifica benefícios da TAA no tratamento de crianças com autismo e necessidade dese considerar 
também o bem-estar dos cães participantes

 

Por Ariane Alves 
Edição e revisão por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme

 

CAO MARIE2Afagos, brincadeiras, “conversas” ou a simples companhia. O vínculo emocional criado no relacionamento afetivo entre seres humanos e animais traz, na maioria das vezes, efeitos muito positivos quanto ao comportamento e às sensações provocadas pela interação. Ao longo do tempo, observou-se que essa dinâmica poderia ser usada para auxiliar em novos métodos terapêuticos, amenizando os quase sempre dolorosos e perturbadores procedimentos médicos. Cães, cavalos, peixes, pássaros e golfinhos são, dessa forma, utilizados como coterapeutas e auxiliam em tratamentos de transtornos psicológicos e de várias enfermidades, como Alzheimer, depressão, câncer e alergias.

A prática, que possui bons resultados, comprovados por pesquisas de observação comportamental e de dosagem hormonal, é exercida há séculos e recebe o nome de Terapia Assistida com Animais (TAA). Nela, o animal é visto como parte do tratamento e sua participação tem objetivos claros e dirigidos.

Não existe um número grande de pesquisas sobre a TAA no Brasil. Muitos aspectos carecem de mais estudos, com uma fundamentação científica rigorosa a respeito. Em consonância com esta necessidade, a médica veterinária Marie Odile Monier Chelini, doutora pelo Programa de Psicologia Experimental do IPUSP, tem estudado em seu pós-doutorado os efeitos da terapia assistida com cães em crianças que apresentam autismo. As mestrandas que compõem a equipe do projeto analisam, para suas dissertações, diferentes aspectos da terapia, que envolvem o comportamento dos cães, das crianças e dos terapeutas que as auxiliam.

Com o nome de Projeto Infante, o estudo procura confirmar, por meio de análises comportamentais e fisiológicas (concentrações, em amostras de saliva,  de cortisol — um dos hormônios indicadores de estresse), as hipóteses de que a presença do cão na terapia aumenta a motivação da criança em atividades, diminui a aversão ao contato visual (característica marcante no autismo), reduz as estereotipias (movimentos repetitivos e sem finalidade) e torna a sessão terapêutica menos estressante para todos os envolvidos — criança, terapeuta e cão.

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Os resultados mostram avanços em relação às crianças: para 11 dos 20 participantes, houve uma melhora na interação e uma redução das estereotipias apresentadas inicialmente. Entretanto, para os cães, a experiência não tem efeitos tão positivos. A dosagem de cortisol feita quando eles se encontravam em situações de relaxamento — como em casa, com seus tutores — mostrava uma concentração mais baixa que a feita no momento da terapia, revelando assim um estresse maior do cão quando em contato com as crianças.

Marie Odile considera os resultados obtidos no projeto importantes para pesquisas da área. “Segundo a literatura, os resultados da TAA são modestos, mas reais. É exatamente a impressão que a gente tem. A nossa impressão é que mais ou menos 50% das crianças realmente se interessam pelo cão e aparentemente têm uma melhora de comportamento, de comunicação, a sessão flui de maneira mais gostosa quando o cão está presente”, afirma.

Sobre a preocupação com o estresse dos coterapeutas, a pesquisadora propõe que se tenha cuidado redobrado. “Parar de usar cães para terapia? Não. Mas pensar bem. Tem gente levando o cão quatro vezes por semana a instituições diversas. È demais. Tenho certeza que isso acaba prejudicando esses animais.”

Como a TAA demanda um custo alto com a contratação do condutor e com os cuidados constantes do cão, Marie Odile vê na comprovação científica feita por sua pesquisa uma forma de contribuir para aumentar a aceitação do método e atrair investimentos.

Pesquisa de Marie Odile – clique aqui.