A professora Elizabeth Shephard, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, integra uma equipe internacional liderada por pesquisadores do King’s College London e da King’s Maudsley Partnership for Children & Young People, que recebeu £ 2,2 milhões em financiamento da Wellcome Trust para usar inteligência artificial na previsão de crianças com risco de desenvolver TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo).
Os sintomas obsessivos e compulsivos podem estar presentes em uma em cada cinco crianças. As obsessões podem se apresentar como pensamentos intrusivos e indesejados, enquanto as compulsões podem se apresentar como rituais repetitivos e extensos. Embora a maioria das crianças e jovens supere esses sintomas, uma pequena porcentagem continua a apresentar obsessões e compulsões que podem prejudicar a vida da pessoa, levando a um diagnóstico formal de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Nessa fase, o TOC pode ser mais difícil de tratar, e sintomas mais crônicos estão associados a resultados desfavoráveis.
“Ao conversar com jovens que vivem com TOC e seus pais, fica claro que intervir precocemente, antes que os sintomas saiam do controle, pode evitar muito sofrimento e angústia. Este projeto visa justamente isso para crianças, não apenas no Reino Unido, mas também no Brasil, na Suécia e em outros países.”
– Professor Philip Shaw, Director – King’s Maudsley Partnership for Children & Young People.
O Desafio da Identificação Precoce
Atualmente, é desafiador identificar as crianças com maior risco de desenvolver TOC. Essa incapacidade de prever o início do TOC está dificultando os avanços no tratamento e na compreensão do transtorno. A previsão é um passo vital para ajudar a implementar intervenções precoces e adaptá-las às necessidades de cada jovem. O objetivo deste projeto é desenvolver uma ferramenta para identificar quem apresenta maior probabilidade de desenvolver TOC e quando isso pode ocorrer.
Para isso, informações médicas facilmente obtidas, frequentemente encontradas em prontuários médicos, serão combinadas com informações mais complexas sobre a composição genética e as características cerebrais, a fim de descobrir qual tipo de informação é mais útil para a previsão.
“O TOC é frequentemente considerado uma condição adulta, mas os sintomas costumam surgir na infância, e é justamente aí que reside a maior oportunidade. Este projeto desenvolve uma ferramenta de previsão que combina informações médicas coletadas rotineiramente, como as já presentes em prontuários clínicos, com dados genéticos e de neuroimagem para identificar quais crianças têm maior probabilidade de desenvolver TOC. A IA nos permite integrar esses sinais complexos e multifacetados de uma forma que simplesmente não era viável antes, e fazê-lo em diversas populações no Reino Unido, Brasil e Suécia.”
– Professor Gustavo Sudre, Professor of Genomic Neuroimaging and Artificial Intelligence
Desenvolvimento e Aplicação da Ferramenta
Uma vez desenvolvida essa ferramenta de previsão, a equipe criará uma estrutura que incorpore uma gama diversificada de perspectivas, incluindo as de pessoas com experiência vivida de TOC. A estrutura e o instrumento serão experimentados com pais de crianças vistas como potencialmente vulneráveis ao desenvolvimento de TOC, com o objetivo de criar uma ferramenta escalável de intervenção precoce.
Isso incluirá a adaptação cultural, o aprimoramento e a avaliação de uma intervenção precoce digital, incluindo a realização de ensaios clínicos abertos no Reino Unido e no Brasil para avaliar a eficácia da intervenção com pais de crianças identificadas como estando em risco, por meio da ferramenta de previsão previamente desenvolvida no projeto.
Equipe Internacional
O professor Philip Shaw e o professor Gustavo Sudre liderarão uma equipe que inclui:
- Professora Elizabeth Shephard (Universidade de São Paulo)
- Professora Georgina Krebs (University College London)
- Professor David Mataix-Cols (Karolinska Institutet)
- Dr. Nick Sireau e Dra. Margherita Zenoni (Orchard OCD)
“Famílias afetadas pelo TOC frequentemente perguntam se é possível prevenir a condição na próxima geração”, disse o Professor Mataix-Cols do Instituto Karolinska. “Com o apoio da Wellcome Trust, aprimoraremos e adaptaremos culturalmente nossa intervenção protótipo para crianças com maior risco e a avaliaremos no Reino Unido e no Brasil. Nossa ambição é intervir antes que os sintomas se tornem incapacitantes, fornecendo aos pais ferramentas práticas e baseadas em evidências que possam reduzir o risco.”
Impacto e Prevenção
O Transtorno Obsessivo-Compulsivo muitas vezes surge silenciosamente, com sinais de alerta precoce difíceis de interpretar ou de serem levados em consideração. Ao desenvolver ferramentas que possam identificar quem está mais em risco e quando, este projeto tem o potencial de transformar o TOC de uma condição à qual reagimos para uma que podemos antecipar e prevenir.
Isso representa uma mudança fundamental na forma como abordamos o TOC: caminhando em direção à intervenção precoce, apoio personalizado e, em última análise, melhores resultados para crianças e famílias. Crucialmente, esta pesquisa é baseada na experiência vivida e abrange vários países, garantindo que as soluções desenvolvidas sejam cientificamente robustas e verdadeiramente significativas para os afetados.
Os pesquisadores trabalharam extensivamente com mais de 150 pessoas com experiência vivida nas fases iniciais deste estudo e continuarão colaborando estreitamente com aqueles que têm experiência vivida com TOC ao longo do desenvolvimento da pesquisa.
Atuação no Brasil
No Brasil, a professora Elizabeth Shephard estabeleceu parcerias com organizações locais de apoio a pessoas com TOC e seus familiares por meio de encontros online regulares e psicoeducação. Ela comentou:
“O envolvimento dessas organizações será crucial para o sucesso deste projeto. Elas apoiam pessoas com TOC e pais de crianças com obsessões e compulsões em todas as regiões do Brasil, incluindo famílias que vivem em áreas muito remotas do Norte do país e que, de outra forma, não teriam acesso a esse apoio. O envolvimento dessas pessoas garantirá que a adaptação cultural da ferramenta de predição de risco e da intervenção preemptiva reflita adequadamente a enorme diversidade do Brasil”.
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