{"id":2016,"date":"2010-09-14T17:45:32","date_gmt":"2010-09-14T17:45:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/?p=2016"},"modified":"2018-09-12T16:06:02","modified_gmt":"2018-09-12T19:06:02","slug":"v3n1a05-o-servico-de-atencao-a-saude-menta-aos-trabalhadores-do-sistema-prisional","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/v3n1a05-o-servico-de-atencao-a-saude-menta-aos-trabalhadores-do-sistema-prisional\/","title":{"rendered":"V3N1A05 &#8211; O servi\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental aos trabalhadores do sistema prisional"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Artigos Originais<\/strong><\/p>\n<h3><strong>O servi\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental aos trabalhadores do sistema prisional<\/strong><\/h3>\n<p>The service of mental health care to workers of prisions<\/p>\n<p><strong>Josiane Calixto Souza1; Cassiano Ricardo Rumin<\/strong>2<\/p>\n<p>Faculdades Adamantinenses Integradas<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>RESUMO<\/strong><\/p>\n<p>Este trabalho tem o objetivo de discutir a constitui\u00e7\u00e3o de um modelo de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental para os trabalhadores do sistema prisional. Ainda, prop\u00f5e uma estrat\u00e9gia de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental que se caracteriza pela participa\u00e7\u00e3o de elementos externos \u00e0 institui\u00e7\u00e3o prisional organizando uma pr\u00e1tica psicoter\u00e1pica de orienta\u00e7\u00e3o breve e acolhimento \u00e0 emerg\u00eancias em sa\u00fade mental. Para sua realiza\u00e7\u00e3o, utilizou-se a pesquisa-a\u00e7\u00e3o que possibilitou a caracteriza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es institucionais. Os resultados indicaram o uso preponderante da cis\u00e3o, do recalcamento e da denega\u00e7\u00e3o como mecanismos defensivos preponderantes do coletivo de trabalho. Ainda, destacou-se a viv\u00eancia de sofrimento ps\u00edquico oriundo da impossibilidade de encontrar a resson\u00e2ncia simb\u00f3lica na pr\u00e1tica profissional em raz\u00e3o da desefetiva\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o instituinte. O acolhimento ao sofrimento ps\u00edquico permitiu a discuss\u00e3o dos entraves institucionais e a distin\u00e7\u00e3o entre a singularidade do sofrimento dos trabalhadores e o aparelhamento de defesas na rela\u00e7\u00e3o com o trabalho.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Sa\u00fade do Trabalhador; Sa\u00fade Mental; Penitenci\u00e1rias<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>ABSTRACT<\/strong><\/p>\n<p>This research aims to discuss the establishment of a mental health care model for prison system workers. Furthermore, a mental health care strategy is proposed that is characterized by the participation of elements external to the prison institution, organizing short-orientation psychotherapy and welcoming mental health emergencies. Action-research was used to perform the study, permitting the characterization of institutional relations. The results indicated the use of rupture, repression and denial as the preponderant defensive mechanisms of the work group. Also, the experience of mental suffering was highlighted, deriving from the impossibility of finding symbolic resonance in professional practice due to the elimination of the founding function. Welcoming mental suffering permitted the discussion of institutional deadlocks and the distinction between the singularity of workers&#8217; suffering and the equipping of defenses in the relation with work.<\/p>\n<p><strong>Key-words<\/strong>: Occupational Health; Mental Health; Prisons<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No processo de forma\u00e7\u00e3o profissional em Psicologia, as pr\u00e1ticas e saberes que se produzem nas unidades penitenci\u00e1rias podem efetivar a articula\u00e7\u00e3o das diretrizes curriculares ao desenvolvimento de compet\u00eancias do futuro profissional. Para atingir tal proposi\u00e7\u00e3o, s\u00e3o desenvolvidas nas Faculdades Adamantinenses Integradas (FAI), pr\u00e1ticas de est\u00e1gio profissionalizante em sa\u00fade do trabalhador nas penitenci\u00e1rias do oeste paulista. Al\u00e9m da forma\u00e7\u00e3o profissional, a produ\u00e7\u00e3o de conhecimentos (Rumin, Ferreira, Ferreira, Cardozo &amp; Cavalhero, 2010; Rumin &amp; Santos, 2007; Rumin, 2006) comp\u00f5e as a\u00e7\u00f5es profissionalizantes dirigidas aos discentes que alcan\u00e7am o quarto e o quinto ano da gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia.<\/p>\n<p>Os discentes desenvolvem as interven\u00e7\u00f5es em sa\u00fade do trabalhador, com o objetivo de propiciar o acolhimento ao sofrimento ps\u00edquico oriundo da atividade profissional. Realizada a partir de plant\u00f5es nas unidades prisionais, a interven\u00e7\u00e3o pode evoluir para a pr\u00e1tica psicoter\u00e1pica de orienta\u00e7\u00e3o breve, conforme a necessidade dos trabalhadores acolhidos. O conte\u00fado discursivo, oriundo do acolhimento e da psicoterapia breve, \u00e9 abordado semanalmente nas supervis\u00f5es de est\u00e1gio e as forma\u00e7\u00f5es interpretativas s\u00e3o organizadas. Al\u00e9m disso, a complementa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 definida a partir das demandas que surgem no contato cotidiano com o campo de est\u00e1gio profissionalizante.<\/p>\n<p>A vincula\u00e7\u00e3o do perfil de forma\u00e7\u00e3o profissional \u00e0s pr\u00e1ticas de est\u00e1gio em unidades prisionais de regime fechado \u00e9 congruente com as caracter\u00edsticas regionais. A partir do final de d\u00e9cada de 1990, inicia-se no oeste paulista a constru\u00e7\u00e3o de um grande n\u00famero de unidades prisionais de regime fechado. G\u00f3es (2004) destaca a alus\u00e3o inicial \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de renda como recurso para mobilizar as popula\u00e7\u00f5es locais a acolher tal projeto pol\u00edtico. Entretanto, ap\u00f3s a diversidade de motins e rebeli\u00f5es que se seguiram (Salla, 2006) o temor da viol\u00eancia e manifesta\u00e7\u00f5es de sofrimento ps\u00edquico se materializou no cotidiano dos trabalhadores do sistema prisional e se estenderam as comunidades locais (Adorno &amp; Salla, 2007).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A constitui\u00e7\u00e3o do sistema prisional e a rela\u00e7\u00e3o dos atores institucionais<\/strong><\/p>\n<p>Ao resgatar o processo hist\u00f3rico que envolveu a constitui\u00e7\u00e3o do Sistema Penitenci\u00e1rio evidencia-se uma legisla\u00e7\u00e3o que transforma a restri\u00e7\u00e3o da liberdade de circula\u00e7\u00e3o no principal meio de punir os homens, segundo Foucault (1987), utilizando:<\/p>\n<p>processos para repartir os indiv\u00edduos, fix\u00e1-los e distribu\u00ed-los espacialmente, classific\u00e1-los, tirar deles o m\u00e1ximo de tempo, e o m\u00e1ximo de for\u00e7as, treinar seus corpos, codificar seu comportamento cont\u00ednuo, mant\u00ea-los numa visibilidade sem lacuna, formar em torno deles um aparelho completo de observa\u00e7\u00e3o, registro e nota\u00e7\u00f5es, constituir sobre eles um saber que se acumula e se centraliza (p. 207).<\/p>\n<p>Com o desaparecimento dos supl\u00edcios que permeavam as a\u00e7\u00f5es punitivas das pris\u00f5es, o dom\u00ednio do corpo passou a ser uma &#8220;economia dos direitos suspensos&#8221;. Esta economia baseada na suspens\u00e3o dos direitos determinou revoltas em pris\u00f5es de todo o mundo. Evidencia-se que as revoltas al\u00e9m de questionar as condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas do aprisionamento dirigia-se ao modelo disciplinar e de priva\u00e7\u00e3o de liberdade e, por fim, atingia os trabalhadores da vigil\u00e2ncia prisional (Focault, 1987).<\/p>\n<p>O livro de Thompson (1993) &#8220;A Quest\u00e3o Penitenci\u00e1ria&#8221; traz uma an\u00e1lise sobre as rela\u00e7\u00f5es decorrentes da inser\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos no sistema prisional bem como sobre os processos que determinam, aos trabalhadores, o adoecimento. O autor destaca que o temor das fugas em massa faz com que se constitua o asseveramento da vigil\u00e2ncia. A manuten\u00e7\u00e3o dessa concep\u00e7\u00e3o institucional se desdobraria, tamb\u00e9m, sobre os trabalhadores. Considerando a hierarquia penitenci\u00e1ria pode-se encontrar a dire\u00e7\u00e3o no cume e os internos no ponto mais baixo da rela\u00e7\u00e3o. Os agentes de seguran\u00e7a penitenci\u00e1ria est\u00e3o posicionados no espa\u00e7o intermedi\u00e1rio entre os interesses destes grupos institucionais. Assim, os agentes de seguran\u00e7a penitenci\u00e1ria, est\u00e3o inseridos em processos muito contradit\u00f3rios, que tornam a natureza da penitenci\u00e1ria duplamente dif\u00edcil devendo, no contato com o sentenciado, conforme explica (Thompson, 1993):<\/p>\n<p>trat\u00e1-lo como um indiv\u00edduo, mas cont\u00e1-lo, como um objeto, no momento dos &#8220;conferes&#8221;; respeit\u00e1-lo, como um ser dotado de prerrogativas inalien\u00e1veis, dentre as quais ressalta o direito \u00e0 intimidade, por\u00e9m revistar-lhe, freq\u00fcentemente, o cub\u00edculo, remexendo-lhe os objetos pessoais, e vistoriar as roupas que est\u00e1 vestindo, inspecionando-o, at\u00e9 mesmo, nas partes \u00edntimas do corpo; captar-lhe a confian\u00e7a e tranc\u00e1-lo a chave numa cela (p. 41).<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o paradoxal que envolve a institui\u00e7\u00e3o prisional prop\u00f5e a constitui\u00e7\u00e3o de modelos normativos que permitem a participa\u00e7\u00e3o de sentenciados e trabalhadores em peculiares liga\u00e7\u00f5es sociais. Estas liga\u00e7\u00f5es s\u00e3o caracterizadas por sua compulsoriedade e pela viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Thompson (1993) afirma que o Agente de Seguran\u00e7a Penitenci\u00e1ria (ASP) n\u00e3o pode deixar de interagir com os sentenciados e os valores morais da pris\u00e3o. Destaca-se a rigidez dos valores morais entre os sentenciados, ao se considerar a viol\u00eancia com que tratam o estupro e os crimes contra a fam\u00edlia. Os r\u00edgidos valores morais da pris\u00e3o tamb\u00e9m atingem os ASP&#8217;s em outra situa\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria destacada por (Thompson, 1993) em que:<\/p>\n<p>se o guarda cumpre as regras severamente, \u00e9 diagnosticado como mau, perseguidor, complexado, pela massa carcer\u00e1ria, que procurar\u00e1 perturbar-lhe ou, pelo menos, n\u00e3o lhe facilitar o desempenho das tarefas; a dire\u00e7\u00e3o consider\u00e1-lo-\u00e1 inadaptado ao seu papel, e classificar\u00e1 seu comportamento de inconveniente. Se afrouxar na exig\u00eancia de estrita obedi\u00eancia ao mult\u00edmodo quadro de normas regulamentares, ser\u00e1 tido como relapso ou como infrator da ordem de que \u00e9 o representante oficial (p.49-50).<\/p>\n<p>Outro aspecto contradit\u00f3rio que atravessa o cotidiano laborativo se refere \u00e0s dificuldades em efetivar a &#8220;fun\u00e7\u00e3o instituinte&#8221; (K\u00e4es, 1991) das unidades prisionais. K\u00e4es (1991) destaca que a perturba\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o instituinte, ou seja, da ilus\u00e3o associada \u00e0 fun\u00e7\u00e3o institucional &#8220;priva os sujeitos de uma satisfa\u00e7\u00e3o importante e debilita o espa\u00e7o ps\u00edquico comum dos investimentos imagin\u00e1rios que v\u00e3o sustentar a realiza\u00e7\u00e3o do projeto da institui\u00e7\u00e3o&#8221; (p. 53).<\/p>\n<p>A ilus\u00e3o, ou melhor dizendo, a proposi\u00e7\u00e3o de ressocializa\u00e7\u00e3o dos sentenciados, contida na Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal, \u00e9 esvaziada na predomin\u00e2ncia disciplinadora da a\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia. Sem a efetiva\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o instituinte o trabalhador n\u00e3o pode perceber o produto de seu trabalho como algo portador de um valor que confira reconhecimento. Manteria os investimentos que impulsionam a a\u00e7\u00e3o profissional num espa\u00e7o de invisibilidade; poderia expor o ASP a viv\u00eancias de impot\u00eancia frente a um objeto despersonalizado \u2013 a viol\u00eancia \u2013 e operaria a ruptura dos v\u00ednculos institucionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O v\u00ednculo institucional e o sofrimento ps\u00edquico<\/strong><\/p>\n<p>K\u00e4es (1991) ao discutir o sofrimento nas institui\u00e7\u00f5es prop\u00f5e conceitos para explicar forma\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas inerentes ao v\u00ednculo institucional. O autor destaca os riscos ps\u00edquicos conseq\u00fcentes da rela\u00e7\u00e3o com a institui\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o da singularidade dos afetos n\u00e3o ser reconhecida pelo grupo. Segundo K\u00e4es (1991), \u00e0 singularidade articulam-se &#8220;os fundamentos narc\u00edsicos e objetais da nossa posi\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos engajados na institui\u00e7\u00e3o&#8221; (p. 19).<\/p>\n<p>Para Ka\u00ebs (1991), o sofrimento, resultante da rela\u00e7\u00e3o com a institui\u00e7\u00e3o &#8220;nos precede, nos determina e nos inscreve nas suas malhas e nos seus discursos&#8221; (p.20). A institui\u00e7\u00e3o constitui um &#8220;sistema de v\u00ednculos do qual o sujeito \u00e9 parte interessada e parte integrante&#8221; (p.21).<\/p>\n<p>Para se entender uma institui\u00e7\u00e3o, K\u00e4es (1991) destaca que uma das suas fun\u00e7\u00f5es capitais \u00e9:<\/p>\n<p>fornecer representa\u00e7\u00f5es comuns e matrizes identificadoras: dar um &#8220;status&#8221; \u00e0s rela\u00e7\u00f5es da parte e do conjunto, unir os estados n\u00e3o integrados, propor objetos de pensamento que tenham um sentido para os indiv\u00edduos aos quais \u00e9 destinada a representa\u00e7\u00e3o e que gerem pensamentos sobre o passado, o presente e o futuro; indicar os limites e as transgress\u00f5es, assegurar a identidade, dramatizar os movimentos pulsionais (p.21).<\/p>\n<p>Muitos ASP&#8217;s, de acordo com Lopes (2002), apresentam com o tempo, altera\u00e7\u00f5es comportamentais que os levam ao uso do \u00e1lcool, psicotr\u00f3picos (antidepressivos e ansiol\u00edticos); outros se tornam delinq\u00fcentes indicando a tenuidade que separa uma conduta criminal da n\u00e3o criminal.<\/p>\n<p>Os trabalhadores, conforme esclarece Rumin (2006), sofrem devido \u00e0s ansiedades produzidas pelo pr\u00f3prio ambiente e forma de trabalho; pelo temor de serem acometidos pela viol\u00eancia; pela impregna\u00e7\u00e3o da identidade por aspectos pejorativos relacionados \u00e0 viol\u00eancia. Ainda destaca-se a ocorr\u00eancia de afec\u00e7\u00f5es psicossom\u00e1ticas e viv\u00eancias paran\u00f3ides decorrentes do temor de serem hostilizados pelos sentenciados.<\/p>\n<p>De acordo com a proposi\u00e7\u00e3o de Lopes (2002) e em virtude do adoecimento dos ASP&#8217;s, Rumin (2006) prop\u00f5e a organiza\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o de sa\u00fade mental dirigido a essa categoria de trabalhadores. O espa\u00e7o proposto pelo autor busca oferecer acolhimento e escuta a quest\u00f5es relacionadas \u00e0s pr\u00e1ticas inerentes a estes profissionais, que geram sofrimentos e ang\u00fastias. Esse modelo consiste em plant\u00f5es di\u00e1rios em Psicologia onde \u00e9 poss\u00edvel problematizar as circunst\u00e2ncias que permeiam o trabalho e expressar os componentes conflituosos gerados no encontro com a institui\u00e7\u00e3o e a comunidade. Na experi\u00eancia elencada Rumin (2006) prop\u00f5e que:<\/p>\n<p>O contato entre os trabalhadores e o servi\u00e7o de Psicologia evoluiu da mobiliza\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados diretamente relacionados \u00e0s pr\u00e1ticas institucionais para as din\u00e2micas de organiza\u00e7\u00e3o afetiva dos sujeitos e de suas fam\u00edlias. Nessa ordena\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de acolhimento ao sofrimento ps\u00edquico, a conflu\u00eancia entre subjetividade, fam\u00edlia e trabalho foi organizada de modo particularizado por cada ASP (p. 580).<\/p>\n<p>A partir destas considera\u00e7\u00f5es, apresenta-se uma experi\u00eancia de implanta\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental numa unidade penitenci\u00e1ria de regime fechado. Essa experi\u00eancia de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental pode contribuir para reflex\u00f5es acerca de um modelo de aten\u00e7\u00e3o dirigido aos trabalhadores da seguran\u00e7a penitenci\u00e1ria.<\/p>\n<p>Tendo em vista a especificidade das quest\u00f5es que envolvem a sa\u00fade mental dos trabalhadores do sistema prisional, destaca-se a pertin\u00eancia da discuss\u00e3o de modelos psicoter\u00e1picos que se destinam a esse coletivo de trabalhadores. As experi\u00eancias dirigidas pela Secretaria de Administra\u00e7\u00e3o Penitenci\u00e1ria envolveriam o atendimento ambulatorial na estrutura do Hospital do Servidor P\u00fablico (HSP), nas Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade (UBS) municipais e o grupo de acolhimento organizado por trabalhadores das unidades prisionais.<\/p>\n<p>No HSP, a aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental ao agente de seguran\u00e7a penitenci\u00e1ria se d\u00e1 por meio de atendimentos individuais. Independentemente de seu modelo de aten\u00e7\u00e3o ao sofrimento ps\u00edquico, a dist\u00e2ncia do HSP em rela\u00e7\u00e3o ao oeste paulista inviabiliza sua utiliza\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 superior a 1.200 quil\u00f4metros (ida e volta).<\/p>\n<p>Nos munic\u00edpios onde as unidades prisionais est\u00e3o sediadas, os servi\u00e7os de Psicologia das UBS&#8217;s poderiam ser oferecido da mesma forma que no HSP. Entretanto, o n\u00famero insuficiente de profissionais em Psicologia nas UBSs, faz com que a demanda das unidades prisionais n\u00e3o seja atendida. Por isso, n\u00e3o h\u00e1 estrutura\u00e7\u00e3o de projetos espec\u00edficos das UBSs orientados para o acolhimento do sofrimento ps\u00edquico dos trabalhadores do sistema prisional.<\/p>\n<p>Nestas duas situa\u00e7\u00f5es o sofrimento ps\u00edquico \u00e9 considerado, por vezes, deslocado da din\u00e2mica institucional. Assim, n\u00e3o h\u00e1 o reconhecimento do nexo causal do agravo \u00e0 sa\u00fade mental com o trabalho. O sofrimento ps\u00edquico \u00e9 tratado como uma ocorr\u00eancia individual onde &#8220;a necessidade de enquadramento da queixa em uma classifica\u00e7\u00e3o psicopatol\u00f3gica constitu\u00edda em termos de sintomas e sinais acaba por encobrir o sujeito e seu sofrimento, alienando-o do seu processo de adoecimento&#8221; (Jacques, 2007 p.117).<\/p>\n<p>J\u00e1 o grupo de acolhimento est\u00e1 articulado ao sofrimento institucional, entretanto, o acolhimento \u00e9 realizado pelos pr\u00f3prios funcion\u00e1rios da unidade prisional. Por isso, se torna fonte de constrangimento em raz\u00e3o de din\u00e2micas anteriores de conflito entre os integrantes institucionais e fomenta persecutoriedade sobre o uso do conte\u00fado discursivo apresentado nas rela\u00e7\u00f5es institucionais. Assim, delineiam-se as dificuldades de concep\u00e7\u00e3o de um modelo de aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental que se adapte \u00e0 demanda dos trabalhadores do sistema prisional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Objetivo<\/strong><\/p>\n<p>Este trabalho tem o objetivo de discutir a constitui\u00e7\u00e3o de um modelo de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental para os trabalhadores do sistema prisional. Ainda, prop\u00f5e uma estrat\u00e9gia de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental que se caracteriza pela participa\u00e7\u00e3o de discentes de Psicologia na organiza\u00e7\u00e3o de uma pr\u00e1tica psicoter\u00e1pica de orienta\u00e7\u00e3o breve e acolhimento a emerg\u00eancias em sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Metodologia<\/strong><\/p>\n<p>Por meio da pesquisa-a\u00e7\u00e3o desenvolveu-se uma an\u00e1lise sobre os limites e as possibilidades de implanta\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o de sa\u00fade mental no sistema prisional. Essa modalidade de pesquisa \u00e9 destacada por Spink (2007) como &#8220;uma forma de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento de dom\u00ednio comum a v\u00e1rias disciplinas&#8221; (p.9). Vale destacar que a demanda pela realiza\u00e7\u00e3o da pesquisa decorreu dos trabalhadores da institui\u00e7\u00e3o prisional que se mostraram alarmados com a percep\u00e7\u00e3o dos agravos \u00e0 sa\u00fade mental relacionados ao trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9 relevante salientar, que desde o ano de 2005 j\u00e1 havia um projeto de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental na unidade prisional abordada na presente an\u00e1lise. Entretanto, a causalidade do sofrimento era representada pelos trabalhadores como uma quest\u00e3o vinculada apenas a singularidade dos afetos individualizados; o sofrimento n\u00e3o era reconhecido como uma produ\u00e7\u00e3o que &#8220;se finca na rede de vincula\u00e7\u00e3o&#8221; (K\u00e4es, 1991 p.50) com a institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo de pesquisa-a\u00e7\u00e3o foi considerado adequado \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o, pois possibilitaria a conjuga\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o aos casos emergenciais de sofrimento ps\u00edquico, ao trabalho de investigar, analisar e mobilizar a institui\u00e7\u00e3o. Spink (2007, p.9) indica que em conjunto com profissionais de Psicologia, um grupamento ou uma comunidade &#8220;assume o controle e as decis\u00f5es acerca de uma situa\u00e7\u00e3o que a afeta&#8221; e por este meio \u00e9 possibilitado o enfrentamento dos entraves institucionais que determinam agravos \u00e0 sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es obtidas pelo m\u00e9todo da pesquisa-a\u00e7\u00e3o foram registradas pelo discente de Psicologia que desenvolvia o acolhimento ao sofrimento ps\u00edquico dos trabalhadores. A coleta de dados estendeu-se de Fevereiro a Setembro de 2009, per\u00edodo em que houve o registro de informa\u00e7\u00f5es num di\u00e1rio de campo, conforme proposi\u00e7\u00e3o de Whitaker (2002).<\/p>\n<p>Por considerar o aspecto decis\u00f3rio dos trabalhadores, a utiliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental atendia diretamente a solicita\u00e7\u00e3o dos mesmos. A solicita\u00e7\u00e3o se dava a partir do contato direto nos corredores da institui\u00e7\u00e3o ou via solicita\u00e7\u00e3o no ramal telef\u00f4nico que existia no espa\u00e7o de acolhimento ao sofrimento ps\u00edquico. Este espa\u00e7o consistia em uma sala no anexo administrativo da unidade prisional. Contava com condi\u00e7\u00f5es que garantiam sigilo em rela\u00e7\u00e3o as forma\u00e7\u00f5es discursivas dos trabalhadores e possibilitava o contato direto de qualquer trabalhador com o discente em Psicologia (at\u00e9 mesmo daqueles alocados nos raios da \u00e1rea de reclus\u00e3o).<\/p>\n<p>Em um primeiro momento houve o insistente posicionamento da hierarquia institucional para que alguns trabalhadores \u2013 os nomeados como &#8220;chapados&#8221; \u2013 fossem encaminhados para a aten\u00e7\u00e3o psicoter\u00e1pica no espa\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental. Entretanto, durante a abordagem dos aspectos afetivo-relacionais que permeavam o hist\u00f3rico de viol\u00eancia na institui\u00e7\u00e3o, fundamentou-se o entendimento de que a obrigatoriedade de participa\u00e7\u00e3o no servi\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental n\u00e3o considerava a autonomia decis\u00f3ria do trabalhador e poderia ser configurada como uma a\u00e7\u00e3o segregadora.<\/p>\n<p>No \u00faltimo caso, deve-se destacar que no cotidiano prisional h\u00e1 a segmenta\u00e7\u00e3o de dois distintos grupos: os que se ajustam ao cotidiano violento das pris\u00f5es e aqueles que sucumbem ao agravo \u00e0 sa\u00fade mental. Nessa proposi\u00e7\u00e3o dicotomizada encontra-se a articula\u00e7\u00e3o dos elementos resist\u00eancia-masculinidade frente \u00e0 conjun\u00e7\u00e3o enlouquecimento-fragilidade. De acordo com Rumin &amp; Santos (2007), para os ASP&#8217;s &#8220;a express\u00e3o ficar chapado \u00e9 uma apresenta\u00e7\u00e3o jocosa do estado de vulnerabilidade da sa\u00fade mental&#8221; (p.57).<\/p>\n<p>As percep\u00e7\u00f5es sobre a institui\u00e7\u00e3o que foram despertadas no pesquisador e produzidas no contato com os trabalhadores serviram para orientar o campo de atua\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o de Psicologia numa unidade prisional. Gula &amp; Pinheiro (2007) destacam que &#8220;a decis\u00e3o de um psic\u00f3logo em trabalhar em uma institui\u00e7\u00e3o implica, antes de mais nada, um levantamento dos objetivos espec\u00edficos da mesma e os meios pelos quais ela busca alcan\u00e7ar tais objetivos&#8221; (p.361). A orienta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica psicanal\u00edtica assentou-se no pressuposto destacado por Guirado (2004) de que &#8220;no plano das an\u00e1lises concretas, o saber psicanal\u00edtico sela o lugar onde se podem mover e operar analiticamente&#8221; (p.52).<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o da psicoterapia breve como t\u00e9cnica de interven\u00e7\u00e3o, seguiu a proposi\u00e7\u00e3o de Braier (2000) de desenvolver a t\u00e9cnica dirigida ao insight. Segundo Braier (2000):<\/p>\n<p>a solu\u00e7\u00e3o dos problemas imediatos e o al\u00edvio sintom\u00e1tico dever\u00e3o, em um sentido psicodin\u00e2mico, corresponder \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de um princ\u00edpio de insight do paciente a respeito dos conflitos subjacentes (o que sup\u00f5e que em certa medida tamb\u00e9m nos propomos a tornar conscientes aspectos inconscientes, ainda que a meta central, em si, n\u00e3o seja a explora\u00e7\u00e3o do inconsciente como ocorre na psican\u00e1lise) (p. 19).<\/p>\n<p>J\u00e1 o acolhimento foi utilizado, conforme \u00e9 destacado por Fran\u00e7a (2005):<\/p>\n<p>como um territ\u00f3rio livre para as manifesta\u00e7\u00f5es do desejo, possibilitando, a partir da reconstitui\u00e7\u00e3o do sujeito, criar um lugar de refer\u00eancia onde a desorganiza\u00e7\u00e3o e a reorganiza\u00e7\u00e3o podem coexistir em sua dial\u00e9tica enquanto possibilidade de reestrutura\u00e7\u00e3o (p.50).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Resultados e Discuss\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O contato regular com a institui\u00e7\u00e3o: o olhar agudo da vigil\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro contato com a institui\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s a regulariza\u00e7\u00e3o formal do est\u00e1gio, diferencia-se de qualquer estada anterior neste lugar em raz\u00e3o da proposi\u00e7\u00e3o da regularidade da apresenta\u00e7\u00e3o do estagi\u00e1rio e de sua tomada como integrante da unidade prisional. Nessa perspectiva, a agudeza do olhar daqueles trabalhadores respons\u00e1veis pela vigil\u00e2ncia dos visitantes se desdobra, pois, a repeti\u00e7\u00e3o da entrada na institui\u00e7\u00e3o poderia permitir o reconhecimento de falhas na vigil\u00e2ncia e, conseq\u00fcentemente, o risco de burlar essa estrutura.<\/p>\n<p>A instru\u00e7\u00e3o de cuidados redobrados com aqueles indiv\u00edduos que regularmente adentram a institui\u00e7\u00e3o \u2013 estagi\u00e1rios, educadores, representantes religiosos e prestadores de servi\u00e7os \u2013 tem sua clareza reconhecida como possibilidade de ruptura dos pressupostos de vigil\u00e2ncia. Entretanto, deve-se destacar que no caso dos sujeitos que promovem a interven\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental, a vigil\u00e2ncia redobrada tem outras peculiaridades. Pode referir-se \u00e0 aferi\u00e7\u00e3o de possibilidades do profissional em sa\u00fade mental estabelecer-se (ou n\u00e3o) como continente dos afetos que permeiam o ambiente das pris\u00f5es. Desse modo, facilitar a revista pessoal e de materiais \u00edntimos, utilizar vestimentas que n\u00e3o proporcionem o acionamento do detector de metais3 e dispor-se a deixar bolsas e pastas em arm\u00e1rios existentes no p\u00e1tio de entrada da unidade prisional \u00e9 um modo de reconhecer as situa\u00e7\u00f5es de trabalho que constrangem e mobilizam a persecutoriedade nos ASP&#8217;s.<\/p>\n<p>A aferi\u00e7\u00e3o se faz num minucioso controle do hor\u00e1rio de entrada e sa\u00edda, de faltas e de reposi\u00e7\u00f5es. Paralelamente a aferi\u00e7\u00e3o disto que ser\u00e1 denominado como regularidade, os ASP&#8217;s organizam fantasias sobre a interrup\u00e7\u00e3o do projeto de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental, a descontinuidade de pol\u00edticas que os beneficiavam e a desarticula\u00e7\u00e3o de compromissos estabelecidos junto \u00e0 hierarquia institucional. Os campos discursivos que se delineiam a partir do bin\u00f4mio interrup\u00e7\u00e3o\/regularidade inibem a percep\u00e7\u00e3o dos trabalhadores sobre pr\u00e1ticas efetivas dirigidas a organiza\u00e7\u00e3o das unidades prisionais.<\/p>\n<p>A inibi\u00e7\u00e3o acima descrita pode ser considerada uma demonstra\u00e7\u00e3o da &#8220;negatividade&#8221; (K\u00e4es, 2005), ou seja, &#8220;uma forma agressiva da transfer\u00eancia e, certas rea\u00e7\u00f5es de rejei\u00e7\u00e3o do processo terap\u00eautico&#8221; (p. 97). A observa\u00e7\u00e3o da negatividade permite que sejam pensadas suas principais conota\u00e7\u00f5es: a aus\u00eancia de representa\u00e7\u00e3o sobre a aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental, o temor sobre o destino do funcionamento institucional &#8220;e, por tr\u00e1s de todas essas conota\u00e7\u00f5es, a experi\u00eancia da perda e da falta&#8221; (K\u00e4es, 2005 p.97).<\/p>\n<p>As conota\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 negatividade apresentavam o anseio de que, ao menos os respons\u00e1veis pela aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental, n\u00e3o desefetivassem a regularidade de seus compromissos estabelecidos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 contin\u00eancia aos afetos dos trabalhadores. A ruptura do compromisso com a contin\u00eancia afetiva, deixariam os trabalhadores desalojados de espa\u00e7os que cumpririam a fun\u00e7\u00e3o institucional de reconhecimento dos esfor\u00e7os empregados no trabalho. Schmidt (2004), ao conceber um modelo de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental de trabalhadores desempregados tamb\u00e9m se depara com as express\u00f5es discursivas de desalojamento e interrup\u00e7\u00e3o. A concep\u00e7\u00e3o de Schmidt (2004) aponta para o sentido do oferecimento da contin\u00eancia:<\/p>\n<p>Talvez a psicoterapia possa ocupar, como uma refer\u00eancia entre outras poss\u00edveis, esse espa\u00e7o de separa\u00e7\u00e3o e recolhimento, esse lugar de repouso e suporte, num momento de perigo e risco para uma clientela que se encontra desalojada (p. 9).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as reflex\u00f5es sobre a revista pessoal na entrada da institui\u00e7\u00e3o prisional, segue-se a apresenta\u00e7\u00e3o com considera\u00e7\u00f5es acerca do espa\u00e7o de sociabilidade estabelecido no p\u00e1tio de acesso \u00e0 \u00e1rea administrativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O acesso \u00e0 \u00e1rea administrativa e os contatos mistos<\/strong><\/p>\n<p>Na arquitetura prisional, o p\u00e1tio de acesso \u00e9 o local onde todos os indiv\u00edduos que necessitam entrar e sair da unidade prisional deve passar para a identifica\u00e7\u00e3o, revista pessoal, e obter autoriza\u00e7\u00e3o para a entrada e a sa\u00edda da institui\u00e7\u00e3o. Assim, nesse espa\u00e7o que se reserva da arquitetura prisional por dois enormes port\u00f5es de a\u00e7o, h\u00e1 o contato com ASP&#8217;s, auxiliares administrativos, estagi\u00e1rios da \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o, sentenciados que prestam servi\u00e7os na unidade, advogados, transportadores de mercadorias e os diretores da unidade prisional.<\/p>\n<p>No contato misto entre os diversos segmentos que comp\u00f5e o corpo relacional da unidade prisional, pode-se facilmente perceber com quem \u00e9 permitido manter um contato mais \u00edntimo e com quem nem mesmo se deve dirigir olhares. A partir dessa percep\u00e7\u00e3o nota-se a situa\u00e7\u00e3o de trocas afetivas que se d\u00e3o frente a todo o grupo, delimitando, de modo pouco preciso, aquilo que pode tornar-se p\u00fablico e o que deve permanecer no espa\u00e7o privativo da singularidade. Assim, constitui-se um espa\u00e7o de trocas onde seus participantes podem apreender o que \u00e9 posicionado como discurso institucional.<\/p>\n<p>Esta concep\u00e7\u00e3o de um lugar, ou melhor, de uma inst\u00e2ncia no ambiente de trabalho onde a circula\u00e7\u00e3o discursiva \u00e9 propiciada e pode figurar como elemento de nivelamento de tens\u00f5es, se aproxima da concep\u00e7\u00e3o de Roussillon (1991), sobre o <em>espa\u00e7o intersticial<\/em> existente nas institui\u00e7\u00f5es. Conforme Roussillon (1991), o interst\u00edcio permite a fantasmatiza\u00e7\u00e3o do conflito no trabalho e:<\/p>\n<p>arranjos da dist\u00e2ncia subjetiva ao outro que tornam poss\u00edvel que se pe\u00e7a a este ou \u00e0quele para &#8216;sondar o terreno&#8217; no que diz respeito a um determinado problema. Assim, ele evita preju\u00edzos narc\u00edsicos, reais ou fantasiados, de uma palavra que correria o risco de se fazer ouvir e sofrer rejei\u00e7\u00e3o e recusa (p.170).<\/p>\n<p>Algumas situa\u00e7\u00f5es consideradas alvo para a interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica em Psicologia come\u00e7avam neste espa\u00e7o de entrada. Por vezes, o pr\u00f3prio trabalhador abordava o discente em Psicologia afirmando sua necessidade de obter a contin\u00eancia deste, ou mesmo alguns trabalhadores relatavam a dificuldade que algum outro vivenciava e solicitavam que o discente procurasse o citado trabalhador. Pode-se considerar que, nesse momento, estabelecia-se a fun\u00e7\u00e3o transicional do espa\u00e7o intersticial.<\/p>\n<p>As abordagens e solicita\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram atendidas da forma como eram posicionadas, entretanto, intensificava-se a circula\u00e7\u00e3o discursiva para melhor entender aquilo que era compreendido como sofrimento. Como elemento transicional, permitia a movimenta\u00e7\u00e3o nos p\u00f3los e pontos de acentua\u00e7\u00e3o do conflito sem que embates inter-individuais fossem despertados e, por isso, manteria-se a rede de identifica\u00e7\u00f5es constitu\u00edda pelos membros da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro fator importante que se dava no espa\u00e7o intersticial referia-se a instrumentaliza\u00e7\u00e3o do grupo de trabalhadores para aproximarem seus colegas de trabalho dos servi\u00e7os em sa\u00fade mental. O n\u00edvel crescente de clareza sobre o que a aten\u00e7\u00e3o em Psicologia poderia contribuir para o cotidiano dos trabalhadores e da institui\u00e7\u00e3o facilitava o acesso \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os. Em conseq\u00fc\u00eancia da circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre a utiliza\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o em Psicologia, seguia em paralelo a distin\u00e7\u00e3o do que seria caracterizado como sofrimento aos ASP&#8217;s: o risco iminente de viol\u00eancia, a percep\u00e7\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e a dificuldade de percep\u00e7\u00e3o de resson\u00e2ncia simb\u00f3lica no trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O surgimento da defesa e a constitui\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo<\/strong><\/p>\n<p>Ao distanciar-se do p\u00e1tio de entrada e aproximar-se das \u00e1reas administrativas da unidade prisional notava-se que o comportamento de partilha de afetos seguia o espa\u00e7o que se percorria. Muitas vezes, a escolta recebida at\u00e9 a entrada da \u00e1rea administrativa funcionava como espa\u00e7o para averigua\u00e7\u00f5es sobre assuntos conflituosos e sobre a disponibilidade de hor\u00e1rios para atendimento. Assim, os momentos de circula\u00e7\u00e3o envolviam a relev\u00e2ncia da discuss\u00e3o sobre o sofrimento ps\u00edquico nos interst\u00edcios da organiza\u00e7\u00e3o de trabalho. Para Roussillon (1991):<\/p>\n<p>o interst\u00edcio se d\u00e1 como um tempo de extra-territorialidade em que todos s\u00e3o tentados a diminuir a vigil\u00e2ncia profissional, a &#8216;diminuir a vigil\u00e2ncia&#8217;: o car\u00e1ter amig\u00e1vel, convivial, das atividades que a\u00ed se desenrolam convidam a isso. A id\u00e9ia de uma pausa, de um relaxamento, aumenta a ilus\u00e3o de poder deixar de lado a personalidade e a dist\u00e2ncia profissional, para se mostrar &#8216;ao natural&#8217; despojado de qualquer status profissional (p.173).<\/p>\n<p>Ao adentrar a \u00e1rea administrativa, essa demanda mudava um pouco sua configura\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o dos trabalhadores poderem contar com suas salas de trabalho como meio de organizar alguma representa\u00e7\u00e3o de seus afetos. Novamente, como na portaria, mesmo que a sala fosse partilhada com outros trabalhadores, a express\u00e3o daquilo que \u00e9 conflituoso flu\u00eda em dire\u00e7\u00e3o ao discente de Psicologia. Assim, notava-se que a relut\u00e2ncia em ocupar o espa\u00e7o delimitado para a aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental envolvia uma manifesta\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia. Em frente ao grupo que partilhava a mesma sala ou, como no caso do p\u00e1tio de entrada da penitenci\u00e1ria, era poss\u00edvel expressar uma parcela superficial dos afetos e bloquear as a\u00e7\u00f5es de interpreta\u00e7\u00e3o do conte\u00fado discursivo.<\/p>\n<p>Ao receber o posicionamento sobre a finalidade e o uso da sala reservada ao servi\u00e7o em Psicologia, os trabalhadores demonstravam certa apreens\u00e3o; representavam em seu discurso a proposi\u00e7\u00e3o do uso da sala destinada ao servi\u00e7o psicol\u00f3gico como indicador do elevado grau de seu sofrimento. A partir da\u00ed foi poss\u00edvel reconhecer as representa\u00e7\u00f5es defensivas que envolviam o contato com o servi\u00e7o de sa\u00fade mental na institui\u00e7\u00e3o. Herrmann (2001), ao comentar o uso das representa\u00e7\u00f5es como mecanismo defensivo destaca:<\/p>\n<p>Como qualquer mecanismo de defesa, mas privilegiad\u00edssimo e ub\u00edquo, a representa\u00e7\u00e3o esconde o que deve esconder. \u00c9 necessariamente parcial; representa desejo e real, aplainados e empobrecidos de sua essencial fun\u00e7\u00e3o geradora, sob uma apar\u00eancia est\u00e1tica; isola as contradi\u00e7\u00f5es e disparidades, despista, tanto quanto poss\u00edvel, os resqu\u00edcios da l\u00f3gica da concep\u00e7\u00e3o, origem processual de sua superf\u00edcie, cuja manifesta\u00e7\u00e3o havia de ser devastadora para a plausibilidade do conjunto (p.191).<\/p>\n<p>Justamente como prote\u00e7\u00e3o contra a manifesta\u00e7\u00e3o devastadora da l\u00f3gica da concep\u00e7\u00e3o, ou melhor, das determina\u00e7\u00f5es inconscientes, \u00e9 que o espa\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental foi estabelecido na institui\u00e7\u00e3o prisional. Esse espa\u00e7o permitia a proje\u00e7\u00e3o de conte\u00fados fragment\u00e1rios da vida institucional; propiciava a express\u00e3o daquilo que \u00e9 singular ou coletivo e que pode estabelecer a\u00e7\u00f5es de acirramento de conflitos; se tornou continente dos res\u00edduos n\u00e3o mentalizados do funcionamento institucional. Assim, se no momento de sua constitui\u00e7\u00e3o o espa\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental foi utilizado como quarto de despejo (Roussillon, 1991), posteriormente, se organizou como instrumento de mobiliza\u00e7\u00e3o subjetiva, pois, a a\u00e7\u00e3o interpretativa possibilitaria tal reconfigura\u00e7\u00e3o. Portanto, a interpreta\u00e7\u00e3o permitia a articula\u00e7\u00e3o dos afetos esquiz\u00f3ides a campos representacionais e situava algumas rela\u00e7\u00f5es de conflito que s\u00e3o formadas por manifesta\u00e7\u00f5es desejantes.<\/p>\n<p>O v\u00ednculo que p\u00f4de ser originado nesse espa\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental empenhava a fala dos trabalhadores na constru\u00e7\u00e3o discursiva da institui\u00e7\u00e3o. O contato com as representa\u00e7\u00f5es que subjetivamente constitu\u00edam a institui\u00e7\u00e3o prisional permitia que fosse criado um espa\u00e7o intersubjetivo, onde os trabalhadores vivenciavam seus temores e expressavam os mecanismos defensivos utilizados no cotidiano de trabalho. Desse modo, o v\u00ednculo originado no espa\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental, ofereceu pistas do funcionamento institucional e dos conseq\u00fcentes agravos \u00e0 sa\u00fade que o modelo de aparelhamento institucional poderia determinar aos trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Aproxima\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o: voc\u00ea suportaria o recalque?<\/strong><\/p>\n<p>As apresenta\u00e7\u00f5es sobre o que era a institui\u00e7\u00e3o prisional seguiam-se, tamb\u00e9m, no refeit\u00f3rio da institui\u00e7\u00e3o e apresentavam intensa ambival\u00eancia. No refeit\u00f3rio era poss\u00edvel visualizar quase a totalidade dos trabalhadores e experimentar olhares curiosos sobre a entrada do discente em Psicologia na unidade prisional. Em virtude de tais condi\u00e7\u00f5es, pode-se caracterizar o refeit\u00f3rio como um local de trocas intensas e onde muitos trabalhadores se aproximavam para conhecer o servi\u00e7o prestado e, algumas vezes, agendar atendimentos.<\/p>\n<p>Um fen\u00f4meno muito peculiar que envolvia o contato com os trabalhadores era o relato de alguns &#8220;fatos hist\u00f3ricos&#8221; que ocorreram na unidade prisional. Nesses fatos, os trabalhadores expressavam suas contribui\u00e7\u00f5es para a manuten\u00e7\u00e3o da ordem institucional, mesmo tendo que ser submetidos ou ter que testemunharem epis\u00f3dios extremos de viol\u00eancia. Surgiam conte\u00fados sobre rebeli\u00f5es, ataques de sentenciados a funcion\u00e1rios e disputas entre os pr\u00f3prios sentenciados. Essas hist\u00f3rias sempre vinham acompanhadas de express\u00f5es como: &#8220;voc\u00ea nunca ver\u00e1 o que realmente acontece aqui&#8221; ou &#8220;se voc\u00ea visse n\u00e3o ag\u00fcentaria&#8221;.<\/p>\n<p>Passou-se a considerar qual a fun\u00e7\u00e3o psicodin\u00e2mica dessas forma\u00e7\u00f5es discursivas para o grupo de trabalhadores, j\u00e1 que assim se apresentavam de modo generalizado. Notou-se a import\u00e2ncia do recalcamento para lidar com a viol\u00eancia na institui\u00e7\u00e3o e, principalmente, o questionamento da capacidade do discente em Psicologia oferecer contin\u00eancia ao conte\u00fado recalcado. Laplanche (1998) define o recalque como &#8220;opera\u00e7\u00e3o pela qual o sujeito procura repelir ou manter, no inconsciente, representa\u00e7\u00f5es (pensamentos, imagens, recorda\u00e7\u00f5es) ligadas a uma puls\u00e3o&#8221; (p. 430). \u00c9 pertinente enfatizar a distin\u00e7\u00e3o que Laplanche (1998) faz entre as no\u00e7\u00f5es de recalcamento e repress\u00e3o e ressaltar a distor\u00e7\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o dos dois conceitos como sin\u00f4nimos onde:<\/p>\n<p>(&#8230;) a repress\u00e3o op\u00f5e-se, sobretudo no ponto de vista t\u00f3pico, ao recalque. Neste, a inst\u00e2ncia recalcante (o ego), a opera\u00e7\u00e3o e o seu resultado s\u00e3o inconscientes. A repress\u00e3o seria, pelo contr\u00e1rio, um mecanismo consciente atuando ao n\u00edvel da `segunda censura\u00b4, que Freud situa entre o consciente e o pr\u00e9-consciente; tratar-se-ia de uma exclus\u00e3o para fora do campo de consci\u00eancia atual e n\u00e3o da passagem de um sistema (pr\u00e9-consciente \u2013 consciente) para outro (inconsciente) (p.458).<\/p>\n<p>Em virtude dessa percep\u00e7\u00e3o notou-se uma caracter\u00edstica importante do modelo psicodin\u00e2mico dos trabalhadores do sistema prisional, do qual se pode realizar discuss\u00f5es sobre o impacto \u00e0 sa\u00fade mental da utiliza\u00e7\u00e3o constante do recalcamento como mecanismo de defesa. Vale lembrar que Fernandes et al. (2002), indicam que 30,7% dos trabalhadores analisados em sua pesquisa apresentam dist\u00farbios ps\u00edquicos menores e a utiliza\u00e7\u00e3o cotidiana do recalcamento pode estar diretamente ligada a essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra situa\u00e7\u00e3o de desgaste a sa\u00fade mental, ligada a utiliza\u00e7\u00e3o predominante do recalcamento, \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de tortura. Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 um risco cotidiano, caso os trabalhadores sejam tomados como ref\u00e9ns, e muitos trabalhadores j\u00e1 vivenciaram esta situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia. Martin (2005), afirma que a tortura ocasiona &#8220;problemas identit\u00e1rios, processos dissociativos graves, comportamentos regressivos&#8221; (p. 437) e contribui de modo inequ\u00edvoco para a repeti\u00e7\u00e3o da viv\u00eancia conflituosa dia ap\u00f3s dia mesmo com a interrup\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. Nesses casos o recalcamento \u00e9 utilizado como forma de distanciar da consci\u00eancia aquilo que \u00e9 doloroso demais para ser elaborado.<\/p>\n<p>Por tais raz\u00f5es, mostrar-se atento ao que era levantado do recalcamento e dirigido ao discente em Psicologia se configurava como modalidade de interven\u00e7\u00e3o, pois, reduziam-se as temerosidades associadas ao que seria feito com o que era comunicado e reafirmava-se a contin\u00eancia do discente para acolher aquilo que foi expressado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O espa\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o em Psicologia: delimita\u00e7\u00f5es e participa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio de 2008, o espa\u00e7o destinado \u00e0 aten\u00e7\u00e3o em Psicologia estava estabelecido: havia a defini\u00e7\u00e3o de uma sala, mobili\u00e1rio, privacidade e livre acesso a todos os trabalhadores. Entretanto, apenas ap\u00f3s alguns meses e todas as aproxima\u00e7\u00f5es expostas acima, ele p\u00f4de ser habilitado a sua fun\u00e7\u00e3o pelos trabalhadores.<\/p>\n<p>O modo como os trabalhadores se aproximavam, envolvia sempre alguma licenciosidade: estariam ali para perguntar algo sobre o comportamento estranho de algum amigo; pra fazer apenas uma pergunta; ou mesmo &#8220;s\u00f3 pra conhecer&#8221;. Esta licenciosidade passou a se diluir a partir da procura pelo servi\u00e7o e da realiza\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es dirigidas a alguns profissionais nomeados pelos companheiros de trabalho pela representa\u00e7\u00e3o de &#8220;chapados&#8221;. A express\u00e3o marcava a precariedade de contato com a realidade e a percep\u00e7\u00e3o de fragmenta\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es eg\u00f3icas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o atendimento de alguns trabalhadores com tais caracter\u00edsticas, notou-se a procura pelo atendimento por diversos trabalhadores do sistema prisional. Esses trabalhadores afirmavam que se o atendimento foi favor\u00e1vel para seus companheiros, tamb\u00e9m poderia ser-lhes ben\u00e9fico. Conforme argumentam Pereira, Caldas &amp; Francisco (2007), &#8220;\u00e9 a partir dessa escuta diferenciada que \u00e9 poss\u00edvel fazer verdadeiramente uma experi\u00eancia com a linguaguem e ser por ela transformada, pois algo passa a criar uma presen\u00e7a e, portanto, uma realidade&#8221; (p.484).<\/p>\n<p>Essa procura acrescida pelo servi\u00e7o em Psicologia aumentou a diversidade de tem\u00e1ticas que envolviam os atendimentos e ressaltava-se a dificuldade de adapta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores a vida social e familiar. Assim, havia um preju\u00edzo ao espa\u00e7o de sociabilidade.<\/p>\n<p>Nesses atendimentos notava-se a utiliza\u00e7\u00e3o de mecanismos de defesa tradicionais de processos paran\u00f3ides, tal como a cis\u00e3o. Este processo defensivo contribu\u00eda para a organiza\u00e7\u00e3o de diversos momentos de conflito, em situa\u00e7\u00f5es como a revista da unidade prisional. A desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a algum trabalhador que viesse a compor a equipe de busca e revista; ou mesmo a percep\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 estariam em seguran\u00e7a para fazer a revista se estivessem acompanhados especificamente de algum colega de trabalho, dificultava e tornava conflituosa a execu\u00e7\u00e3o de atividades cotidianas.<\/p>\n<p>Outras situa\u00e7\u00f5es que envolviam a aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental referiam-se a viv\u00eancias depressivas que atravessam os trabalhadores. Essas viv\u00eancias emergiam a partir de conflitos entre trabalhadores do mesmo turno de trabalho, em situa\u00e7\u00f5es de n\u00e3o atendimento a solicita\u00e7\u00f5es de troca de postos de trabalho ou em raz\u00e3o da aus\u00eancia de sentido na execu\u00e7\u00e3o da atividade produtiva. Nessas situa\u00e7\u00f5es, a aten\u00e7\u00e3o em Psicologia contribu\u00eda para estabelecer<\/p>\n<p>entre as viv\u00eancias depressivas e alguns elementos que as mobilizavam. Ainda, os trabalhadores eram mobilizados a constituir a\u00e7\u00f5es defensivas que propiciassem o enfrentamento dos conflitos estabelecidos no trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/strong><\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es cotidianas no ambiente prisional permitiu reconhecer como se d\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es e as poss\u00edveis articula\u00e7\u00f5es intersubjetivas oriundas das pr\u00e1ticas institucionais.<\/p>\n<p>Essas articula\u00e7\u00f5es podem proporcionar a efetiva\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o social, bem como, \u00e1reas de exclus\u00e3o onde o distanciamento de aparelhos de defesa grupal pode contribuir para agravos a sa\u00fade mental. A oferta de aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental para os trabalhadores do sistema prisional permitiria a elabora\u00e7\u00e3o dos aspectos psicodin\u00e2micos mobilizados pelas exig\u00eancias institucionais.<\/p>\n<p>Em muitas ocasi\u00f5es emergiram conte\u00fados paran\u00f3ides ligados ao temor da morte e viv\u00eancias depressivas oriundas da impossibilidade de encontrar a resson\u00e2ncia simb\u00f3lica na pr\u00e1tica profissional. Surgiram fen\u00f4menos obsessivos derivados do temor de ocorrerem erros no acompanhamento dos processos judiciais dos sentenciados e fen\u00f4menos compulsivos que buscam desestabelecer a percep\u00e7\u00e3o de desprazer no trabalho a partir da vincula\u00e7\u00e3o com algum objeto de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional.<\/p>\n<p>O acolhimento ao sofrimento permitiu a compreens\u00e3o dos sintomas e possibilitou o aparelhamento de defesas mais eficientes para estruturar a rela\u00e7\u00e3o com o trabalho. Pela diversidade de a\u00e7\u00f5es que o servi\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o em Psicologia potencializou, pode-se dizer que atuou na mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores para o enfrentamento do cotidiano institucional, figurou como elemento terap\u00eautico ao acolher viv\u00eancias depressivas e delimitou espa\u00e7os de ancoragem para as manifesta\u00e7\u00f5es paran\u00f3ides.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Adorno, S.; Salla, F. (2007). Criminalidade organizada nas pris\u00f5es e os ataques do PCC. <em>Estudos Avan\u00e7ados<\/em>, v.21, n.61, p.7-29.<\/p>\n<p>Braier, E. A. (2000). <em>Psicoterapia breve de orienta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica<\/em>. S\u00e3o Paulo : Martins Fontes.<\/p>\n<p>Fernandes, R. C. P.; Silvany Neto, A. M.; Sena, G. M.; Leal, A. S.; Carneiro, C. A. P.; Costa, F. P. M. (2002). Trabalho e c\u00e1rcere: um estudo com agentes penitenci\u00e1rios da regi\u00e3o metropolitana de Salvador, Brasil. 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Sofrimento na vigil\u00e2ncia prisional: o trabalho e a aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental&#8221;. <em>Psicologia, Ci\u00eancia e Profiss\u00e3o<\/em>, v. 26, n. 4, 570-581.<\/p>\n<p>Rumin, C. R.; Santos, C. A. (2007). P\u00fablico e privado: as implica\u00e7\u00f5es destas no\u00e7\u00f5es sobre a sa\u00fade mental dos trabalhadores do sistema prisional. <em>Omnia Sa\u00fade<\/em>, v.4, n.2, p.52-63.<\/p>\n<p>Rumin, C. R.; Ferreira, R. A. N.; Ferreira, G. I. F. B.; Cardozo, W. R.; Cavalhero, R. (2010). O servi\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental aos trabalhadores do sistema prisional. Psicologia: <em>Ci\u00eancia &amp; Profiss\u00e3o<\/em>, v.30, n.3, (no prelo).<\/p>\n<p>Salla, F. (2006). As rebeli\u00f5es nas pris\u00f5es: novos significados a partir da experi\u00eancia brasileira. Sociologias, v.8, n.16, 274-307.<\/p>\n<p>Schmidt, M. L. S. (2004). Cl\u00ednica psicol\u00f3gica, trabalho e desemprego: considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas. <em>Caderno de Psicologia Social do Trabalho<\/em>, v.7, p.1-10.<\/p>\n<p>Spink, M. J. P. (2007). Pesquisando no cotidiano: recuperando mem\u00f3rias de pesquisa em Psicologia Social. <em>Psicologia &amp; Sociedade<\/em>, v.19, n.1, 7-14.<\/p>\n<p>Thompson, A. (1993). <em>A quest\u00e3o Penitenci\u00e1ria<\/em>. Rio de Janeiro: Forense.<\/p>\n<p>Vasconcelos, A. S. (2000). <em>A sa\u00fade sob cust\u00f3dia: um estudo sobre agentes de seguran\u00e7a penitenci\u00e1ria no Rio de Janeiro<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado. Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica.<\/p>\n<p>Whitaker, D. C. A. (2002) <em>Sociologia rural: quest\u00f5es metodol\u00f3gicas emergentes<\/em>. Presidente Venceslau: Letras \u00e0 Margem, 2002.<\/p>\n<p>1 Discente em Psicologia \u2013 Faculdades Adamantinenses Integradas (FAI) &#8211; <a href=\"mailto:kalix_psi@yahoo.com.br\">kalix_psi@yahoo.com.br<\/a><\/p>\n<p>2 Docente em Psicologia e orientador de est\u00e1gio profissionalizante em Sa\u00fade do Trabalhador \u2013 Psic\u00f3logo (CRP 06\/63046) \u2013 Especialista em Sa\u00fade P\u00fablica (FCF\/UNESP) \u2013 Mestre em Ci\u00eancias M\u00e9dicas (FMRP\/USP) &#8211; <a href=\"mailto:cassianorumin@fai.com.br\">cassianorumin@fai.com.br<\/a><\/p>\n<p>3 A utiliza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios brincos, piercing, soltiens com metal na sustenta\u00e7\u00e3o do bojo e mesmo enfeites metalizados que adornam pe\u00e7as \u00edntimas femininas disparam o detector de metais e, assim, \u00e9 necess\u00e1rio desfazer-se dessas pe\u00e7as na presen\u00e7a de algum Agente de Seguran\u00e7a Penitenci\u00e1ria para definir que armas e muni\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o sendo levadas ao interior da unidade prisional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigos Originais O servi\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental aos trabalhadores do sistema prisional The service of mental health care to workers of prisions Josiane Calixto Souza1; Cassiano Ricardo Rumin2 Faculdades Adamantinenses Integradas RESUMO Este trabalho tem o objetivo de discutir a constitui\u00e7\u00e3o de um modelo de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental para os trabalhadores do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":31,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[13,279],"tags":[],"class_list":["post-2016","page","type-page","status-publish","hentry","category-publicacoes","category-revista-transformacoes"],"acf":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2016","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2016"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2016\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24582,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2016\/revisions\/24582"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2016"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2016"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}