{"id":3008,"date":"2011-05-14T12:17:57","date_gmt":"2011-05-14T12:17:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/?p=3008"},"modified":"2018-09-13T11:06:27","modified_gmt":"2018-09-13T14:06:27","slug":"v3n2a03","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/v3n2a03\/","title":{"rendered":"V3N2A03 &#8211; Abordagens em Psicologia Social e seu ensino"},"content":{"rendered":"<h3 align=\"JUSTIFY\"><strong><b>Abordagens em Psicologia Social e seu ensino<\/b><\/strong><\/h3>\n<p align=\"LEFT\"><strong><b><br \/>\nMarcelo Gustavo Aguilar Calegare<a name=\"n1\"><\/a><\/b><\/strong><sup><a href=\"https:\/\/www.ip.usp.br\/portal\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=2953%3Av3n2a03&amp;catid=340%3Arevista-transformacoes&amp;Itemid=91&amp;lang=pt#ft\">1<\/a><\/sup><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"LEFT\"><strong><br \/>\nRESUMO<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O objetivo deste artigo \u00e9 dar subs\u00eddios aos estudantes de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o a respeito das distintas abordagens em Psicologia Social e apontar algumas cr\u00edticas ao seu ensino. Para tanto, localizaremos a disciplina dentro do contexto do destacamento das ci\u00eancias sociais das naturais no fim do s\u00e9culo XIX. Em seguida, faremos uma did\u00e1tica apresenta\u00e7\u00e3o das abordagens mais salientes na disciplina, mostrando quando surgiram e pa\u00eds de origem, a \u201ccrise\u201d na Psicologia Social nos anos 1960, para ent\u00e3o dissertar a respeito das linhas mais contempor\u00e2neas, incluindo aquelas utilizadas na Am\u00e9rica Latina e Brasil. Por fim, conclu\u00edmos apontando alguns questionamentos do ensino da disciplina dentro dos cursos de Psicologia no Brasil.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><b><br \/>\nPalavras-Chave: <\/b>Psicologia Social, Ensino, Gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"LEFT\"><strong><br \/>\nABSTRACT<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"en-US\"><br \/>\nThe aim of this paper is to provide basis to undergraduate and postgraduate students about the different approaches in Social Psychology and point out some criticism of its teaching. To reach this goal, we locate the discipline within the context of the detachment of social from natural science in the end of XIX century. After that, we make a didactic presentation of the most prominent approaches in the discipline, showing when they emerged and their origins, the \u201ccrisis\u201d of Social Psychology in the 1960s and discuss about the more contemporary approaches, including those used in Latin America and Brazil. Finally, we conclude pointing out some questions of its teaching within the Brazilian Psychologies&#8217; courses.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"en-US\"><b><br \/>\nKey-Words: <\/b><\/span><span lang=\"en-US\">Social Psychology, Teaching, under graduation.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"JUSTIFY\">O ensino de Psicologia Social, nos cursos de gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia de todo pa\u00eds, nem sempre segue uma mesma diretriz. Ao compartilharmos opini\u00f5es com estudantes de diferentes universidades, seja em eventos cient\u00edficos ou de cunho pol\u00edtico, deparamo-nos com um mosaico de teorias e de pr\u00e1ticas inspiradas na Psicologia Social. Muitas vezes, encontrar pontos em comum entre as distintas abordagens torna-se um trabalho intelectual \u00e1rduo, digno de fervorosas horas de discuss\u00f5es pol\u00edtico-acad\u00eamicas \u2013 regado pelo mais alto grau de comprometimento afetivo com a transforma\u00e7\u00e3o social em nossa p\u00e1tria.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u00c1vidos por transformar a realidade, muitos estudantes esperam de seus mestres uma atitude cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade. Querem mud\u00e1-la para melhor, trazendo o bem-estar, igualdade e justi\u00e7a social em diferentes n\u00edveis: individual, familiar, grupal, comunit\u00e1rio, institucional e at\u00e9 mesmo nacional ou internacional.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O aspecto comum a essas calorosas discuss\u00f5es estudantis parece ser o cunho prioritariamente social da futura pr\u00e1tica profissional, mais do que um ponto de vista te\u00f3rico espec\u00edfico. Em outras palavras, o desejo de atua\u00e7\u00e3o com compromisso social leva \u00e0 busca de teorias e m\u00e9todos de interven\u00e7\u00e3o social, muitas vezes esperados no ensino de disciplinas de Psicologia Social. Destrinchando essa inquieta\u00e7\u00e3o dos estudantes, percebemos que o \u201csocial\u201d da Psicologia \u00e9 o que parece definir a Psicologia Social, e n\u00e3o o status como disciplina cient\u00edfica e como campo profissional desta \u00faltima.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Diante desse panorama, encontramos um lapso na forma\u00e7\u00e3o em Psicologia Social dentro dos cursos de gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia no Brasil. Como argumenta Stralen (2005), a maioria dos cursos de Psicologia est\u00e1 marcada por uma estrutura curricular tradicional, em que a \u201cPsicologia Social aparece apenas como uma disciplina b\u00e1sica que permite compreender os aspectos sociais do comportamento psicol\u00f3gico\u201d (p. 94). Isso significa que o lapso contido na forma\u00e7\u00e3o \u00e9 o de que se ensina Psicologia Social como uma abordagem em Psicologia, ao inv\u00e9s de consider\u00e1-las como disciplinas que possuem interfaces entre si.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Como explicam \u00c1varo e Garrido (2006, p. 06), tende-se a confundir abordagens sociais em Psicologia com a disciplina cient\u00edfica Psicologia Social pela sua pr\u00f3pria rotula\u00e7\u00e3o. Stralen (2005, p. 94) complementa que, no Brasil, tal confus\u00e3o ocorre tamb\u00e9m: a) pela forma\u00e7\u00e3o de psic\u00f3logos sociais dar-se em cursos de gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia; b) pela diminui\u00e7\u00e3o cada vez maior do n\u00famero de disciplinas de Psicologia Social em cursos de ci\u00eancias humanas e ci\u00eancias sociais aplicadas; c) pela a\u00e7\u00e3o do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que regulamenta supervis\u00e3o de est\u00e1gio supervisionada por psic\u00f3logos inscritos nos Conselhos de Psicologia, o que dificulta a contrata\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria de psic\u00f3logos sociais n\u00e3o graduados como psic\u00f3logos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Segundo defendemos neste artigo, compartilhamos com as posturas te\u00f3ricas de \u00c1varo e Garrido (2006), Corga (1998), Farr (1998), Mailhiot (1976) e Stralen (2005) de que a Psicologia Social \u00e9 uma disciplina diferente da Psicologia, apesar das estreitas liga\u00e7\u00f5es que resguarda com esta, como veremos mais adiante. Ao longo do texto traremos argumentos que refor\u00e7am este nosso ponto de vista, parcial e refut\u00e1vel como qualquer outro vi\u00e9s cient\u00edfico.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Nos EUA, \u00e9 poss\u00edvel graduar-se em Sociologia com \u00eanfase em Psicologia Social, ou graduar-se em Psicologia com \u00eanfase em Psicologia Social, dependendo da universidade cursada. Na Argentina, existem cursos superiores espec\u00edficos de Psicologia Social. Tamb\u00e9m h\u00e1 casos de gradua\u00e7\u00e3o espec\u00edfica em Psicologia Social em pa\u00edses europeus. Por que, ent\u00e3o, no Brasil ensina-se Psicologia Social como uma das vertentes em Psicologia? Essa \u00e9 uma pergunta que remete \u00e0 cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Psicologia no Brasil e \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o de psic\u00f3logo, como lembra Kr\u00fcger (1986), mas que ainda merece maior aprofundamento por parte dos pesquisadores. Por outro lado, remete-nos tamb\u00e9m a outro debate de cunho te\u00f3rico: examinarmos quais foram as distintas influ\u00eancias das diferentes abordagens da Psicologia, ainda em emerg\u00eancia, decisivas na constitui\u00e7\u00e3o dos tamb\u00e9m distintos vieses te\u00f3ricos da Psicologia Social, com lembra Rey (2004).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Segundo escrevem Stralen (2005, p. 93) e \u00c1lvaro e Garrido (2006), a Psicologia Social \u00e9 uma disciplina que se constitui no espa\u00e7o de interse\u00e7\u00e3o entre a Psicologia e Sociologia. Rose (2008) e Mailhiot (1976) entendem que a Psicologia Social pode ser considerada uma disciplina de ci\u00eancias sociais. Por outro lado, Kr\u00fcger (1986, p. 08) argumenta que situ\u00e1-la entre as ci\u00eancias humanas e sociais esbarra na dificuldade de estabelecerem-se limites rigorosos entre tais ci\u00eancias. Nessa linha, Rodrigues (1978) exp\u00f5e aspectos comuns entre a Psicologia Social e a Sociologia, Antropologia Cultural, Filosofia Social e outros setores da Psicologia, descrevendo que cada disciplina possui objeto formal distinto de estudo, que delimita o campo de cada uma delas, mas que por se tratar de \u00e1reas afins, possuem interse\u00e7\u00e3o bastante n\u00edtida em seu objeto material. Um exemplo dado por Rodrigues \u00e9 o da <i>delinqu\u00eancia juvenil<\/i>: este objeto material pode ser estudado segundo distintas abordagens disciplinares, variando a \u00eanfase, a unidade de an\u00e1lise e os m\u00e9todos empregados, mas \u201ca diferen\u00e7a \u00e9, para todos os efeitos pr\u00e1ticos, inexistente\u201d (Rodrigues, 1978, p. 09-10).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Essa dificuldade de inscri\u00e7\u00e3o da Psicologia Social dentro das ci\u00eancias humanas e\/ou sociais se d\u00e1, em grande parte, por conta do momento em que surgiram n\u00e3o apenas ela, mas tamb\u00e9m a Psicologia, Sociologia e Antropologia. Trata-se do contexto do destacamento das ci\u00eancias sociais das ci\u00eancias naturais no final do s\u00e9culo XIX, em que antigos temas de especula\u00e7\u00e3o passaram a ser estudados segundo o paradigma cient\u00edfico moderno: teoria, levantamento de hip\u00f3teses, teste emp\u00edrico das hip\u00f3teses levantadas, an\u00e1lise dos dados colhidos, confirma\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o das hip\u00f3teses, generaliza\u00e7\u00e3o. Por outro lado, nos prim\u00f3rdios da Psicologia Social moderna, nos Estados Unidos do final do s\u00e9culo XIX e come\u00e7o do s\u00e9culo XX, os primeiros pesquisadores dessa \u00e1rea encontraram respaldo em centros tanto de Psicologia quanto de Sociologia (Farr, 1998). Isso resultou em origens plurais da disciplina, em disputas pelo seu status como ci\u00eancia social ou ci\u00eancia humana e at\u00e9 mesmo em sua nega\u00e7\u00e3o como \u00e1rea de investiga\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Diante de tais quest\u00f5es, este artigo visa localizar a emerg\u00eancia da Psicologia Social em suas diferentes abordagens, contextualizando-a dentro dos paradigmas das ci\u00eancias sociais e sua posterior evolu\u00e7\u00e3o, com o objetivo de dar subs\u00eddios aos estudantes de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o a respeito das distintas vertentes que a disciplina oferece atualmente. Para tanto, faremos uma breve recapitula\u00e7\u00e3o do destacamento das ci\u00eancias sociais das naturais no final do s\u00e9culo XIX, localizando a Psicologia Social dentro desse cen\u00e1rio. Em seguida, faremos uma did\u00e1tica apresenta\u00e7\u00e3o das vertentes mais proeminentes na disciplina, mostrando per\u00edodo e pa\u00eds de origem, e abordaremos a \u201ccrise\u201d na Psicologia Social nos anos 1960. Ent\u00e3o dissertaremos a respeito das linhas contempor\u00e2neas \u2013 incluindo aquelas utilizadas na Am\u00e9rica Latina e Brasil, dando maior destaque \u00e0 Psicologia Social comunit\u00e1ria. Por fim, conclu\u00edmos apontando alguns questionamentos do ensino da disciplina dentro dos cursos de Psicologia.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><b>2. Ci\u00eancias naturais, ci\u00eancias sociais e a Psicologia Social<br \/>\n<\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A ci\u00eancia moderna surge a partir do s\u00e9culo XVII, embora seu embri\u00e3o encontre-se no s\u00e9culo precedente (Ludwing, 2009). De modo geral, o pensamento moderno plasmou-se como consequ\u00eancia do decl\u00ednio da cultura medieval e consolidou-se pela necessidade de separa\u00e7\u00e3o entre teologia, filosofia e as nascentes \u00e1reas da ci\u00eancia. Refor\u00e7ado pelo Iluminismo e pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, um de seus aspectos centrais era o destaque concedido \u00e0 raz\u00e3o como instrumento de obten\u00e7\u00e3o do saber e, para tal, se aceitava \u201csomente as verdades resultantes da investiga\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o atrav\u00e9s de procedimentos demonstrativos\u201d (Ludwing, 2009, p.14). Nesse ponto \u00e9 que o m\u00e9todo cient\u00edfico ganha centralidade na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento. Sua constru\u00e7\u00e3o ocorreu, primeiramente, na \u00e1rea das ci\u00eancias da natureza e teve em Galileu Galilei (1564-1642) e Francis Bacon (1561-1626) os fundadores do m\u00e9todo experimental: observa\u00e7\u00e3o de fatos, proposi\u00e7\u00e3o de hip\u00f3tese e verifica\u00e7\u00e3o por meio de experi\u00eancias controladas. O refor\u00e7o desse tipo de m\u00e9todo veio no s\u00e9culo XIX, com a emerg\u00eancia do Positivismo, com seu rigor e acento na universalidade e objetividade cient\u00edfica.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Gra\u00e7as ao m\u00e9todo experimental, as ci\u00eancias naturais puderam evoluir de maneira consistente, consolidando disciplinas como a Qu\u00edmica, F\u00edsica e Biologia. Vale lembrar: como campo de estudos e especula\u00e7\u00e3o, os temas envolvendo essas disciplinas modernas s\u00e3o antigos, mas a maneira como se constitu\u00edram nesse novo contexto est\u00e1 marcada pelos modelos da ci\u00eancia moderna. As ci\u00eancias sociais passaram a se desenvolver gra\u00e7as a m\u00e9todos pr\u00f3prios, a partir do final do s\u00e9c. XIX, apesar de haverem iniciado usando os m\u00e9todos das ci\u00eancias naturais. Dentre os novos m\u00e9todos, Ludwing (2009, p.17-20) enuncia: dial\u00e9tico, fenomenol\u00f3gico, estrutural e funcionalista. Lembramos que, para o autor, as ci\u00eancias sociais e humanas s\u00e3o colocadas juntas na diferencia\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias naturais.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u00c1lvaro e Garrido (2006) localizam a Psicologia Social nesse contexto mais amplo da diferencia\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias sociais. E relembram dois aspectos importantes, que destacamos no trecho abaixo:<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Desde seu surgimento, no pensamento social europeu do s\u00e9culo XIX, a Psicologia Social se definia como uma disciplina plural. A pluralidade, tanto de enfoques te\u00f3ricos como de objetos de estudo, continuou caracterizando a Psicologia Social \u00e0 medida que ocorria sua diferencia\u00e7\u00e3o e sua consolida\u00e7\u00e3o definitiva como disciplina cient\u00edfica independente, o que aconteceu simultaneamente na Psicologia e na Sociologia (\u00c1lvaro &amp; Garrido, 2006, p. 40).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O primeiro destaque refere-se ao fato de que a diversidade nas formas de entender os fen\u00f4menos psicossociais foi fundante de cada uma dessas tr\u00eas disciplinas, marcando campos de estudo, m\u00e9todos, profiss\u00e3o e nicho de atua\u00e7\u00e3o. Portanto, a delimita\u00e7\u00e3o disciplinar ocorreu tanto como tentativa de demarca\u00e7\u00e3o dos dom\u00ednios para cada tipo de cientista, quanto pela necess\u00e1ria fragmenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 mentalidade da \u00e9poca, para desenvolvimento de campos do saber. Em nosso ponto de vista, o que marcou as distin\u00e7\u00f5es disciplinares estava mais ligado aos cientistas do que \u00e0 ci\u00eancia em si, pois as barreiras entre Psicologia, Sociologia e Psicologia Social eram t\u00eanues e havia muitas intersec\u00e7\u00f5es entre elas.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O segundo destaque \u00e9 o da pluralidade na constitui\u00e7\u00e3o da Psicologia Social, o que significa origens m\u00faltiplas, e n\u00e3o apenas pela obra de um ou outro autor. Para Rodrigues (1978, p. 39), os manuais de Psicologia Social diferem consideravelmente a respeito das origens modernas dessa disciplina. Segundo Kr\u00fcger (1986, p. 10), \u201co in\u00edcio das especula\u00e7\u00f5es, interpreta\u00e7\u00f5es e doutrinas a respeito do Homem e do seu comportamento social remonte a fil\u00f3sofos das civiliza\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas, hel\u00eanicas e romana, que alimentam as ra\u00edzes da cultura ocidental at\u00e9 hoje\u201d. Nesse sentido, o autor menciona que se encontra j\u00e1 em Plat\u00e3o (428-347 a. C.) e Arist\u00f3teles (384-322 a. C.) as bases filos\u00f3ficas que constituem a pr\u00e9-hist\u00f3ria da Psicologia Social. Para Mailhiot (1976, p. 17-18), encontramos os prim\u00f3rdios da Psicologia Social nas obras de Auguste Comte (1793-1857).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">No entanto, se levarmos em considera\u00e7\u00e3o a Psicologia Social do ponto de vista da implementa\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos, t\u00e9cnicas de pesquisa e constru\u00e7\u00e3o conceitual (Kr\u00fcger, 1986, p. 11), remontaremos \u00e0s obras publicadas por Small e Vincent em 1894 (num manual de sociologia), Gustave Le Bon em 1895, Gabriel Trade em 1898, o in\u00edcio do curso de Psicologia Social ministrado por George H. Mead em 1900, a obra de Charles Ellwood em 1901 e, por fim, Felix Le Dantec em 1911. No entanto, como lembram \u00c1lvaro e Garrido (2006, p. 40), credita-se o in\u00edcio da Psicologia Social como ci\u00eancia independente com as obras de William McDougall e de Edward A. Ross, ambas em 1908 e contendo no t\u00edtulo \u201cPsicologia Social\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Para Farr (1998), as ra\u00edzes da Psicologia Social moderna s\u00e3o encontradas nas obras desses e outros autores, na interface com a Psicologia e a Sociologia \u2013 o que resultou em enfoques de Psicologia Social psicol\u00f3gica e de Psicologia Social sociol\u00f3gica. Colocado por outro \u00e2ngulo, a pluralidade da Psicologia Social esteve estreitamente ligada \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos de investiga\u00e7\u00e3o. Do lado da Psicologia Social psicol\u00f3gica, predominou a experimenta\u00e7\u00e3o em laborat\u00f3rio e a compreens\u00e3o de ci\u00eancia segundo objetivismo e universalidade, inerentes \u00e0 vis\u00e3o positivista. Do lado da Psicologia Social sociol\u00f3gica, a busca por novas metodologias resultou no desenvolvimento de pesquisas aplicadas e m\u00e9todos qualitativos, n\u00e3o obstante estes tenham coexistido com estudos de car\u00e1ter quantitativo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Isso significa que o desenvolvimento das vertentes em Psicologia Social tamb\u00e9m ocorreu sob o crivo das discuss\u00f5es a respeito da objetividade\/subjetividade, pesquisa quantitativa\/qualitativa, experimentalismo\/pesquisa aplicada, inerentes aos debates que permeavam o destacamento das ci\u00eancias sociais das naturais. As respostas a essas quest\u00f5es vieram marcar as diferen\u00e7as nos fundamentos epistemol\u00f3gicos e estatuto ontol\u00f3gico de cada uma das linhas te\u00f3ricas da disciplina \u2013 e ainda causa inquieta\u00e7\u00e3o e dissenso entre profissionais, docentes e estudantes nos trabalhos de investiga\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Para Corga (1998), a Psicologia Social \u00e9 uma disciplina que tenta entender o Homem em seu contexto social, mas entre suas diferentes abordagens parece ter em acordo apenas o nome. Sua pluralidade (que gera tens\u00f5es e divis\u00f5es) deve ser observada segundo dois tipos de diversidade:<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">1) Diversidade Gest\u00e1ltica. A diversidade vista a partir da totalidade da Psicologia Social enquanto disciplina, cujas tens\u00f5es de divis\u00e3o aparecem: pelos estudos centrados nas inter-rela\u00e7\u00f5es sociais a partir do ponto de vista do indiv\u00edduo; e por aqueles centrados nos aspectos sociol\u00f3gicos das rela\u00e7\u00f5es sociais entre indiv\u00edduos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">2) Diversidade Anal\u00edtica. Fruto desta primeira, a diversidade tratada analiticamente, em seus fundamentos cient\u00edficos, com delimita\u00e7\u00f5es de: objeto de estudo, m\u00e9todo, conceitos, teorias, etc.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Em suma, podemos perceber que a pluralidade na Psicologia Social deve-se tanto \u00e0 \u00eanfase em pontos de vista focados seja nos indiv\u00edduos ou nos aspectos mais sociol\u00f3gicos das rela\u00e7\u00f5es, quanto nos fundamentos cient\u00edficos que configuraram cada abordagem. Quais as linhas te\u00f3ricas decorrentes desses momentos iniciais e os seguintes desdobramentos, especialmente na Am\u00e9rica Latina, isso \u00e9 o que veremos a seguir.<\/p>\n<p><strong>3. As principais \u201ctradi\u00e7\u00f5es\u201d da Psicologia Social<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A partir dessa diversidade na disciplina, Corga (1998) circunscreve agrupamentos segundo quatro principais &#8220;tradi\u00e7\u00f5es&#8221; da Psicologia Social, que a autora compreende<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">como um conjunto dos fundamentos, convic\u00e7\u00f5es e express\u00f5es que comp\u00f5e e dinamiza uma cultura. Esse conjunto \u00e9 reconhecido por uma comunidade, tal qual suas marcas, como as caracter\u00edsticas pertencentes a este grupo, e que, portanto, o diferencia dos demais (Corga, 1998, p. 70).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A autora complementa que \u00e9 por meio de congressos, sociedades cient\u00edficas, revistas, centros de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e <i>handbooks <\/i>que tais tradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o cultivadas. Em outras palavras, pela maneira como os paradigmas cient\u00edficos s\u00e3o compartilhados, que Kuhn (2006) entende como \u201co conjunto de regras, padr\u00f5es, modelos e valores compartilhados por um determinado grupo de praticantes da ci\u00eancia que legitimam um campo de pesquisa\u201d (p. 30). Como j\u00e1 afirmamos anteriormente, \u00e9 pelo trabalho dos cientistas que os paradigmas cient\u00edficos s\u00e3o validados \u2013 e n\u00e3o pela ci\u00eancia em si, como algo independente das pessoas que a praticam.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Para Corga (1998, p.75-183), existem quatro principais \u201ctradi\u00e7\u00f5es\u201d em Psicologia Social, que se sobressa\u00edram n\u00e3o apenas nas origens da disciplina, mas que at\u00e9 hoje t\u00eam fortes influ\u00eancias tanto no ensino quanto nas pesquisas. S\u00e3o elas:<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A) a tradi\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica americana do interacionismo simb\u00f3lico, iniciada por George Herbert Mead (1934\/1962) nos EUA, entre 1900 e 1931, e desenvolvido por seus disc\u00edpulos, entre eles, Blumer (1969), que alcunha o termo \u201cinteracionismo simb\u00f3lico\u201d. Posteriormente, dentro desta tradi\u00e7\u00e3o, Sarbin (1968) desenvolve a teoria do papel e Stryker a teoria da identidade (Styker &amp; Burke, 2000). As teoriza\u00e7\u00f5es de Mead continuam influenciando te\u00f3ricos contempor\u00e2neos, como por exemplo Habermas (1990), que afirma que \u201ca \u00fanica tentativa promissora de apreender conceitualmente o conte\u00fado pleno do significado da individualiza\u00e7\u00e3o social encontra-se na Psicologia Social de G. H. Mead\u201d (p. 185).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">B) a tradi\u00e7\u00e3o do experimentalismo psicol\u00f3gico (Psicologia Social experimental), ocorrida nos EUA tamb\u00e9m no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, com seu desenvolvimento e transforma\u00e7\u00f5es por meio das influ\u00eancias do Behaviorismo (Allport, 1924), Neobehaviorismo (Hull, 1952; Skinner, 1938), Gestalt (Lewin, 1951, 1970<a name=\"n2\"><\/a><sup><a href=\"https:\/\/www.ip.usp.br\/portal\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=2953%3Av3n2a03&amp;catid=340%3Arevista-transformacoes&amp;Itemid=91&amp;lang=pt#ft\">2<\/a><\/sup>; Asch, 1952\/1977), e Psicologia Cognitiva. A Psicologia Social ganhou visibilidade principalmente pelos autores provenientes desta tradi\u00e7\u00e3o. Farr (1998) aponta Asch como um dos precursores da Psicologia Social cognitiva, nos EUA. No entanto, por ter boa parte de suas id\u00e9ias inspiradas na Gestalt, Corga (1998) o localiza ainda sob as influ\u00eancias desta \u00faltima, e n\u00e3o da Psicologia Cognitiva.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">C) a tradi\u00e7\u00e3o dos \u201cestudos de grupos sociais\u201d. Corga localiza v\u00e1rios autores que contribuem para a edifica\u00e7\u00e3o desta tradi\u00e7\u00e3o, nos primeiros anos de produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica norte-americana: 1) os estudos de Mayo (1933\/1945), com pequenos grupos de trabalhadores da <i>Western Electric Company<\/i> em Hawthorne, Chicago, entre 1924 e 1932; 2) os estudos sociol\u00f3gicos da Escola de Sociologia de Chicago, nos anos 1930, em ambientes naturais; 3) alguns trabalhos de F. H. Allport, sobre \u201cfacilita\u00e7\u00e3o social\u201d e \u201cconformismo\u201d; 4) as inova\u00e7\u00f5es de J. L. Moreno no trabalho de psicoterapia de grupo; 5) as contribui\u00e7\u00f5es de Sherif (1948, 1962), que em 1936 publica \u201cA psicologia das normas sociais\u201d, na qual aponta como os sujeitos se aproximam no grupo para criar normas para situa\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o estruturadas. Posteriormente, na d\u00e9cada de 1960, com o prosseguimento das pesquisas, elabora um modelo explicativo das rela\u00e7\u00f5es intergrupais para a quest\u00e3o do conflito e coopera\u00e7\u00e3o intergrupo. 6) as contribui\u00e7\u00f5es de Lewin, que mesmo considerado como consolidador da Psicologia Social experimental, tem em sua obra importante marco para as pesquisas nesta \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d. Al\u00e9m do Centro de Pesquisas em Din\u00e2mica de Grupo, Lewin tamb\u00e9m funda um outro centro, nomeado \u201ccomiss\u00e3o para inter-rela\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias\u201d, no qual guiou estudos sobre as ra\u00edzes do anti-semitismo, pr\u00e1ticas de socializa\u00e7\u00e3o para a conscientiza\u00e7\u00e3o coletiva da discrimina\u00e7\u00e3o social e sobre o preconceito de forma global. 7) os trabalhos de Festinger (1957\/1975, 1974; Festinger et al., 1950\/1963), com sua teoria de \u201ccompara\u00e7\u00e3o social\u201d e \u201cdisson\u00e2ncia cognitiva\u201d; a \u201cteoria do interc\u00e2mbio social\u201d, de Thibaut e Kelley (1959\/1967); as pesquisas sobre a \u201cPersonalidade Autorit\u00e1ria\u201d, de Adorno et al. (1950\/1965); os trabalhos do soci\u00f3logo Homans (1951), com a teoria do interc\u00e2mbio e a proposta de uma an\u00e1lise sociol\u00f3gica alternativa ao funcionalismo; e as contribui\u00e7\u00f5es de Asch nas investiga\u00e7\u00f5es sobre as minorias.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Os estudos a respeito de grupos sociais diminu\u00edram consideravelmente nos anos 1960, nos EUA, devido aos contextos s\u00f3cio-pol\u00edtico-econ\u00f4micos. Entretanto, o interesse dos psic\u00f3logos sociais a respeito de processos grupais e intergrupais \u00e9 retomado no final dos anos 1970 (Corga, 1998). Desta vez, com for\u00e7a na Europa, perdurando e tendo produ\u00e7\u00e3o expressiva at\u00e9 hoje. Algumas escolas (grupos universit\u00e1rios) representam tal \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d, como a Escola de Bristol, com estudos da compreens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es intergrupais, seus conflitos e discrimina\u00e7\u00f5es, por meio de conceitos como identidade social, categoriza\u00e7\u00e3o social e compara\u00e7\u00e3o social. As figuras proeminentes s\u00e3o seu precursor Tajfel (1972, 1978, 1981) e seu disc\u00edpulo Turner (1987), este \u00faltimo com a teoria da auto-categoriza\u00e7\u00e3o, entre outros autores. Al\u00e9m da Escola de Bristol, existe tamb\u00e9m a Escola de Genebra e outros grupos de pesquisadores ingleses, americanos, canadenses e alem\u00e3es, todos dedicando-se ao estudos de grupos sociais.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">D) a tradi\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica europ\u00e9ia das representa\u00e7\u00f5es sociais, iniciada por Serge Moscovici (1978), a partir dos anos 1960 na Fran\u00e7a, com a publica\u00e7\u00e3o do livro \u201cA representa\u00e7\u00e3o social da psican\u00e1lise\u201d. Moscovici se inspira na obra de \u00c9mile Durkheim (com seus conceitos de representa\u00e7\u00e3o individual e coletiva), que critica duramente a Psicologia, mas que acrescenta:<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">n\u00e3o temos nenhuma obje\u00e7\u00e3o a que se caracterize a Sociologia como um tipo de Psicologia, desde que tenhamos o cuidado de acrescentar que a Psicologia Social tem suas pr\u00f3prias leis, que n\u00e3o s\u00e3o as mesmas da Psicologia individual (Durkheim, 1898 citado por Farr, 1998, p. 152-3).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Nessa esteira \u00e9 que Moscovici vai constituindo sua obra, diferenciando-se de Durkheim, na qual pretende analisar os processos atrav\u00e9s dos quais os indiv\u00edduos e os grupos em intera\u00e7\u00e3o constroem uma \u201cteoria\u201d sobre um objeto social, a qual nortear\u00e1 e orientar\u00e1 seus comportamentos, tomando como ponto de partida as representa\u00e7\u00f5es sociais da Psican\u00e1lise na Fran\u00e7a (Corga, 1998, p. 95). \u00c1lvaro e Garrido (2006) localizam as contribui\u00e7\u00f5es de Moscovici dentro do contexto da Psicologia, por se tratar de um psic\u00f3logo, n\u00e3o obstante tenha se inspirado em id\u00e9ias de Durkheim. As teoriza\u00e7\u00f5es de Moscovici possuem discord\u00e2ncias da Psicologia Social cognitiva tradicional, com o enfoque individualista para leituras dos processos cognitivos e, por isso, Corga (1998) o insere dentro da tradi\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica de Psicologia Social.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Como se nota, h\u00e1 \u201ctradi\u00e7\u00f5es\u201d em Psicologia Social no contexto da Sociologia e aquelas no contexto da Psicologia, como preferem descrever \u00c1lvaro &amp; Garrido (2006), com te\u00f3ricos que se influenciam mutuamente e que s\u00e3o, prioritariamente, de origens europ\u00e9ia e norte-americana. As \u201ctradi\u00e7\u00f5es\u201d no contexto da Sociologia seguiram mais inova\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas das abordagens qualitativas, enquanto aquelas no contexto da Psicologia desenvolveram-se mais segundo metodologias quantitativas.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A import\u00e2ncia dos norte-americanos para a Psicologia Social vai al\u00e9m do desenvolvimento te\u00f3rico-metodol\u00f3gico de teorias que tentassem explicar os fen\u00f4menos psicossociais (com as ressalvas das diferen\u00e7as j\u00e1 explicitadas). Para Farr (1998, p. 28-31), ap\u00f3s a Segunda Guerra, muitos psic\u00f3logos sociais norte-americanos, entre eles Cartwright e Festinger (disc\u00edpulos de Lewin), ajudaram os europeus com suas pesquisas at\u00e9 ent\u00e3o isoladas, no apoio log\u00edstico necess\u00e1rio para a constitui\u00e7\u00e3o de sociedades cient\u00edficas. Entre elas, a Associa\u00e7\u00e3o Europ\u00e9ia de Psic\u00f3logos Sociais Experimentais, que fora liderada por personalidades proeminentes como Tajfel e Moscovici. Segundo Farr (1998), Cartwright chega a influenciar at\u00e9 mesmo no apoio ao estabelecimento da Psicologia Social no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Por outro lado, Lane (1981, p. 76-7) descreve que a produ\u00e7\u00e3o da Psicologia Social (prioritariamente experimental, norte-americana e de vi\u00e9s pragm\u00e1tico), desde seu florescimento at\u00e9 os anos 1960, tinha seu foco de pesquisas centrado nos estudos dos fen\u00f4menos de lideran\u00e7a, opini\u00e3o p\u00fablica, propaganda, preconceito, mudan\u00e7as de atitudes, comunica\u00e7\u00e3o, rela\u00e7\u00f5es raciais, conflitos de valores, rela\u00e7\u00f5es grupais, etc. Em suma, todos estudos e experimentos que procuravam procedimentos e t\u00e9cnicas de interven\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es sociais, que se traduziam em f\u00f3rmulas de ajustamento e adequa\u00e7\u00e3o de comportamentos individuais ao contexto social. A cr\u00edtica a esse tipo de produ\u00e7\u00e3o foi um dos motivos da chamada \u201ccrise\u201d da Psicologia Social, que teve repercuss\u00e3o direta nas produ\u00e7\u00f5es latino-americanas, como veremos a seguir.<\/p>\n<p><strong>4. A \u201ccrise\u201d da Psicologia Social: abordagens latino-americanas<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">No final da d\u00e9cada de 1960, cr\u00edticas vindas principalmente da Europa come\u00e7am a colocar a Psicologia Social tal como praticada em solo norte-americano em xeque. No mesmo per\u00edodo, um movimento de autocr\u00edtica tamb\u00e9m chega aos psic\u00f3logos sociais norte-americanos e aos seguidores latino-americanos, que se inspiravam nessas teoriza\u00e7\u00f5es. Este momento foi denominado de \u201ccrise da Psicologia Social\u201d. Os questionamentos vieram de v\u00e1rios lados e os artigos e livros produzidos nessa linha<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">refletiam criticamente a Psicologia Social, como os de Bruno, Poitou, P\u00eacheux e outros publicados na <i>Nouvelle Critique<\/i> sob o t\u00edtulo \u201cPsicologia Social: uma utopia em crise\u201d, assim como o pref\u00e1cio de Moscovici numa obra organizada por ele com o t\u00edtulo <i>Introduction de la psychologie sociale.<\/i> Por outro lado, Merani na Venezuela, S\u00e8ve na Fran\u00e7a, Israel e Tajfel na Inglaterra contribu\u00edram para uma reflex\u00e3o mais profunda, assim como a releitura de Politzer, George Mead e Vigotski trouxeram novas perspectivas de estudo (Lane, 2006, p. 68-9).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Corga (1998, p. 152-154) aponta que tais cr\u00edticas tinham como foco principal o questionamento do laborat\u00f3rio como ambiente de produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, complementando que passou-se a problematizar os avan\u00e7os dos experimentos em laborat\u00f3rio em detrimento da relev\u00e2ncia do que se estava produzindo para o enfrentamento de problemas sociais. Lane (1981, p. 78-80; 2006, p.67-8) descreve que as cr\u00edticas dirigiam-se principalmente ao car\u00e1ter ideol\u00f3gico e mantenedor das rela\u00e7\u00f5es sociais das teorias e t\u00e9cnicas que vinham sendo produzidas e que, na Am\u00e9rica Latina, mais um fator veio contribuir para refor\u00e7ar os questionamentos sobre teorias e metodologias: o car\u00e1ter pol\u00edtico da Psicologia Social e da atua\u00e7\u00e3o dos psic\u00f3logos diante das ditaduras militares.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Esse movimento de cr\u00edtica atinge diretamente a (re)produ\u00e7\u00e3o latino-americana. Em 1973, no XIV Congresso da Sociedade Interamericana de Psicologia (SIP), realizado em S\u00e3o Paulo, questionou-se a produ\u00e7\u00e3o da Psicologia (como ci\u00eancia) ter leis universais para o comportamento humano, uma vez que este muda em fun\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as hist\u00f3ricas, culturais e sociais de cada momento (Maluf, 2004). No congresso de 1976 (Miami, EUA), foram explicitadas as cr\u00edticas aos modelos te\u00f3rico-metodol\u00f3gicos, mas sem propostas de supera\u00e7\u00e3o. No congresso seguinte, em 1979 (Lima, Peru), psic\u00f3logos dos diferentes pa\u00edses latino-americanos passam a reconhecer que suas produ\u00e7\u00f5es deveriam estar voltadas para as condi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de cada um de seus pa\u00edses. O encontro de brasileiros nesse congresso gerou a for\u00e7a necess\u00e1ria \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), segundo Lane (1981). O impulso definitivo da cria\u00e7\u00e3o da ABRAPSO veio em Novembro de 1979, por meio do I Encontro de Psicologia Social, sediado em S\u00e3o Paulo, com o tema \u201cPsicologia Social e Problemas Urbanos\u201d, e sua funda\u00e7\u00e3o oficial veio em Julho de 1980, no Rio de Janeiro, durante a 32\u00aa Reuni\u00e3o Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC) (Abrapso, 2009).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Nesse contexto de questionamento te\u00f3rico, metodol\u00f3gico e pol\u00edtico, nasce a Psicologia Social comunit\u00e1ria, ou simplesmente Psicologia Comunit\u00e1ria. Segundo Andery (1984, p. 204), o termo aparece primeiro na Inglaterra e depois nos EUA, enquanto Psicologia \u201cna\u201d comunidade. Entretanto, Montero (2004a) precisa que a origem dessa vertente pr\u00e1tico-te\u00f3rica ocorreu tanto na Am\u00e9rica Latina quanto nos EUA, como tentativas de re-direcionamentos da Psicologia Social para o enfrentamento de sua \u201ccrise\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Aprofundando-nos neste ponto, Montero (2004a) argumenta que entre os anos 1960 e 1970, a emerg\u00eancia da Psicologia Social comunit\u00e1ria ocorreu: a) a partir das discord\u00e2ncias da Psicologia Social psicol\u00f3gica norte-americana e o car\u00e1ter estritamente subjetivista e experimental com que vinha sendo produzida at\u00e9 ent\u00e3o. b) Pelo impulso de outras disciplinas das ci\u00eancias sociais que tinham leituras macro-sociais voltadas \u00e0 comunidade.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Fato importante a ser mencionado, tal vertente da Psicologia Social surge, na Am\u00e9rica Latina, em um contexto em que as desigualdades sociais e o momento pol\u00edtico explicitavam uma urg\u00eancia de trabalhos cr\u00edticos voltados para a realidade de seus povos. Segundo Montero (2004b, p. 42-49), a Psicologia Social comunit\u00e1ria nasce de uma pr\u00e1tica emergente e transformadora de psic\u00f3logos sociais colocados diante de situa\u00e7\u00f5es concretas, apelando para uma pluralidade de fontes te\u00f3ricas e revis\u00f5es cr\u00edticas das mesmas, que os conduziram \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de um modelo te\u00f3rico pr\u00f3prio \u00e0s realidades latino-americanas. A autora exp\u00f5e que o desenvolvimento dessa vertente na Am\u00e9rica Latina ocorreu por meio de primeiras influ\u00eancias, influ\u00eancias mais centrais e por rela\u00e7\u00f5es interinfluentes, entre tr\u00eas correntes: a Psicologia Social comunit\u00e1ria, ela mesma; a Psicologia da Liberta\u00e7\u00e3o (Mart\u00edn-Bar\u00f3, 1998); e a Psicologia Social cr\u00edtica (Lima, 2010).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Diante desse campo emergente, Freitas (1999, p. 50) agrega que o tipo de <i>pr\u00e1xis<\/i> da Psicologia Social comunit\u00e1ria vem se desenvolvendo por duas preocupa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas: a) a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento, que configura esse campo. b) Aquela comprometida explicitamente com a transforma\u00e7\u00e3o da realidade. Nessa linha, Montero (2004a, p. 53) argumenta que os modelos constru\u00eddos dentro dessa abordagem s\u00e3o tratados em seis frentes: pr\u00e1tico-te\u00f3rico, ontol\u00f3gico, epistemol\u00f3gico, metodol\u00f3gico, \u00e9tico e pol\u00edtico.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Em linhas gerais, pode-se afirmar que a Psicologia Social comunit\u00e1ria \u00e9 um ramo da Psicologia Social que aborda as comunidades e que \u00e9 realizada com as mesmas. Ou, nas palavras de Montero (2004a),<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">o ramo da psicologia [social] cujo objeto \u00e9 o estudo dos fatores psicossociais que permitem desenvolver, fomentar e manter o controle e poder que os indiv\u00edduos podem exercer sobre seu ambiente individual e social para solucionar problemas que os afetam e lograr mudan\u00e7as nesses ambientes e na estrutura social (p. 70, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Segundo Sawaia (1997, p. 86), pode-se dizer que o objetivo dessa <i>pr\u00e1xis<\/i> psicossocial \u00e9 de atuar pela legitima\u00e7\u00e3o social dos envolvidos, que pressup\u00f5e a legitimidade individual na vida p\u00fablica e na privada, no sentido de buscar firmar o exerc\u00edcio da autonomia e da cria\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o coletivo. Ou seja, atua-se pela potencializa\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es individuais e coletivas em prol do bem comum e da felicidade particular.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Um dos impulsionadores das vertentes cr\u00edticas aos modelos vigentes em Psicologia Social foi Mart\u00edn-Bar\u00f3 (1998; 1999; 2001), com suas contundentes coloca\u00e7\u00f5es a respeito da disciplina e do car\u00e1ter hist\u00f3rico das teorias, do car\u00e1ter ideol\u00f3gico das pr\u00e1ticas dos psic\u00f3logos e do \u00e9tico-pol\u00edtico a ser adotado na atua\u00e7\u00e3o transformadora. Como exposto por Blanco (1998), Mart\u00edn-Bar\u00f3 prop\u00f5e a atua\u00e7\u00e3o do psic\u00f3logo por meio do compromisso pela emancipa\u00e7\u00e3o, desideologiza\u00e7\u00e3o e bem-estar, o que configuram a pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o. Adotando a id\u00e9ia de conscientiza\u00e7\u00e3o de Paulo Freire, Mart\u00edn-Bar\u00f3 (2001, p.169-172) afirma ser este o horizonte primordial do fazer dos psic\u00f3logos, trabalhando-se pela desaliena\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia social. Ao falar sobre a consci\u00eancia, o autor a descreve da seguinte maneira:<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 simplesmente o \u00e2mbito privado do saber e sentir subjetivo dos indiv\u00edduos, mas sobretudo aquele \u00e2mbito onde cada pessoa encontra o impacto reflexo de seu ser e de seu fazer em sociedade, onde assume e elabora um saber sobre si mesmo e sobre a realidade que lhe permite ser algu\u00e9m, ter uma identidade pessoal e social. A consci\u00eancia \u00e9 o saber e o n\u00e3o-saber sobre si mesmo, sobre o pr\u00f3prio mundo e sobre os demais, um saber pr\u00e1xico antes que mental, j\u00e1 que se inscreve na adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s realidades objetivas de todo comportamento (Mart\u00edn-Bar\u00f3, 2001, p.167-8, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Sendo a consci\u00eancia um objeto de estudos privilegiado pela Psicologia (e Psicologia Social), como colocado por Mart\u00edn-Bar\u00f3, \u00e9 importante que a consideremos como uma realidade psicossocial, ou seja, um saber dial\u00e9tico das pessoas sobre si mesmas e sobre a coletividade. Nesse sentido, o trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o visa:<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">a) romper com a aliena\u00e7\u00e3o, constitu\u00edda em esquemas fatalistas sustentados ideologicamente, que consideram a maioria popular como indolente, pregui\u00e7osa e incapaz de transformar sua realidade;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">b) sair da reprodu\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o domina\u00e7\u00e3o\/submiss\u00e3o;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">c) recupera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria hist\u00f3rica, para assumir a liga\u00e7\u00e3o do passado e presente numa perspectiva de futuro que integrem o pertencimento e as lutas pol\u00edticas no \u00e2mbito pessoal e social.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Dentro dessa perspectiva de atua\u00e7\u00e3o comprometida com a realidade, Montero &amp; Mart\u00edn-Bar\u00f3 (1987) entendem que este campo te\u00f3rico e metodol\u00f3gico, de processos pol\u00edticos e de formas de interven\u00e7\u00e3o psicopol\u00edtica s\u00e3o, eminentemente, marcantes da Psicologia Pol\u00edtica \u2013 uma outra vertente da Psicologia Social. A Psicologia Social comunit\u00e1ria latino-americana (ou Psicologia Comunit\u00e1ria, como preferem denominar alguns grupos brasileiros) desenvolveu-se em algumas dire\u00e7\u00f5es, enquanto a Psicologia Pol\u00edtica veio se desenvolvendo por outros caminhos, apesar de haver intersec\u00e7\u00f5es dentro das perspectivas atuais em ambas, como lembra Freitas (2001).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Do ponto de vista metodol\u00f3gico, a abordagem da Psicologia Social comunit\u00e1ria n\u00e3o poderia deixar de ser de cunho participativo, uma vez que suas posturas rompem com a neutralidade do pesquisador em rela\u00e7\u00e3o aos \u201cobjetos\u201d de estudo (as pessoas), o que implica a considera\u00e7\u00e3o de uma postura \u00e9tica e pol\u00edtica diferenciada do pesquisador. Al\u00e9m do rompimento da neutralidade, h\u00e1 tamb\u00e9m a inten\u00e7\u00e3o de emancipa\u00e7\u00e3o nas a\u00e7\u00f5es que configuram o grau de participa\u00e7\u00e3o da pesquisa, delineadas em fun\u00e7\u00e3o de acordos firmados junto aos envolvidos na co-constru\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Como vimos at\u00e9 este momento, ap\u00f3s a \u201ccrise\u201d da Psicologia Social, muitos psic\u00f3logos passaram a atuar com base em teorias mais condizentes com a realidade latino-americana. N\u00e3o obstante j\u00e1 exista produ\u00e7\u00e3o pr\u00e1tico-te\u00f3rica relevante na \u00e1rea, para Corga (1998) essa vertente n\u00e3o \u00e9 tratada como \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d por ainda n\u00e3o possuir sedimenta\u00e7\u00e3o paradigm\u00e1tica suficiente, tal qual aquelas citadas anteriormente. Em suma, temos mais estas duas correntes compondo a gama de op\u00e7\u00f5es pr\u00e1tico-te\u00f3ricas da Psicologia Social:<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">E) a Psicologia Social comunit\u00e1ria (ou Psicologia Comunit\u00e1ria), que na Am\u00e9rica Latina j\u00e1 apresenta produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica relevante e expressiva.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">F) e a Psicologia Pol\u00edtica, que tamb\u00e9m vem ganhando for\u00e7a no cen\u00e1rio europeu, norte-americano e latino-americano.<\/p>\n<p><strong>5. Outras abordagens em Psicologia Social no Brasil<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Apesar da \u201ccrise\u201d na Psicologia Social ter conduzido in\u00fameros psic\u00f3logos a explorar novas possibilidades t\u00e9cnico-te\u00f3ricas, em muitos centros de pesquisa se realizam trabalhos em todas as vertentes citadas acima. Encontramos nos diferentes centros de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia Social no Brasil investiga\u00e7\u00f5es dentro das linhas citadas at\u00e9 ent\u00e3o. Al\u00e9m delas, \u00e9 importante mencionar tamb\u00e9m outras vertentes, estudadas pelos pesquisadores da Psicologia Social no Brasil:<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">G) a Psicologia Social fundada pelo argentino Enrique Pichon-Rivi\u00e8re (2002, 2003) e seus disc\u00edpulos, cujos trabalhos s\u00e3o mais conhecidos pela contribui\u00e7\u00e3o dos grupos operativos, mas cuja produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-metodol\u00f3gica est\u00e1 de longe restrita a estes.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">H) as interfaces entre a Psicologia Social e as leituras da Psican\u00e1lise dos fen\u00f4menos sociais e aquelas provenientes da Psican\u00e1lise de abordagem grupal e institucional, com autores advindos da escola argentina, inglesa e francesa de psican\u00e1lise (Castanho, 2005).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">I) a Psicologia Social em sua interface com a Psicossociologia, pelas contribui\u00e7\u00f5es do movimento institucionalista (sociopsican\u00e1lise, psicoterapia institucional, socioan\u00e1lise e esquizoan\u00e1lise) (Machado &amp; Roedel, 2001), tamb\u00e9m com autores argentinos e franceses, e da qual emerge recentemente a Psicologia Social cl\u00ednica proposta por Barus-Michel (2004).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">J) a corrente nomeada como Psicologia Social cr\u00edtica (ou Psicologia Cr\u00edtica), que adota discuss\u00f5es de autores marxistas, neomarxistas e da Escola de Frankfurt (Lane, 1981, 2006; Lima, 2010; Monteiro, 2006).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">K) as contribui\u00e7\u00f5es dos russos A. N. Leontiev, L. S. Vygotsky e A. R. Luria, que d\u00e3o base \u00e0s teoriza\u00e7\u00f5es da Psicologia S\u00f3cio-Hist\u00f3rica (Bock, Gon\u00e7alves &amp; Furtado, 2004), com contribui\u00e7\u00f5es pertinentes \u00e0s discuss\u00f5es da Psicologia Social, em especial pelo estudo a respeito: da constitui\u00e7\u00e3o social da subjetividade; da historicidade como no\u00e7\u00e3o b\u00e1sica nos processos de forma\u00e7\u00e3o do sujeito; da consci\u00eancia e atividade como categorias centrais para compreender o indiv\u00edduo\/sociedade; da aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem, aprendizagem e socializa\u00e7\u00e3o como fen\u00f4menos do \u00e2mbito individual\/social.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">L) O construcionismo social inaugurado por K. J. Gergen (1973; 2008), afim \u00e0s teoriza\u00e7\u00f5es do interacionismo simb\u00f3lico e teoria psicossocial de G. H. Mead, \u00e0 fenomenologia social de Alfred Sch\u00fctz (que combina a fenomenologia de Husserl e a sociologia de Weber) e aos desdobramentos dados por Berger e Luckmann (2008), no difundido \u201cA constru\u00e7\u00e3o social da realidade\u201d. Atualmente, o construcionismo social ganha for\u00e7a, como indicam Iba\u00f1ez Gracia (2004), I\u00f1iguez (2004), Mol (2008), Spink e Menegon (2004).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Al\u00e9m, \u00e9 claro, de muitas outras leituras em Psicologia Social realizadas dentro do contexto da Psicologia e Sociologia contempor\u00e2neas, n\u00e3o referidas acima e que recebem o devido valor em seus respectivos centros de estudos, manuais e livros da \u00e1rea. Todas as tradi\u00e7\u00f5es e correntes teriam, paradoxalmente, um mesmo ponto em comum e de lit\u00edgio: a rela\u00e7\u00e3o indiv\u00edduo-sociedade. Segundo Corga (1998, p. 240), todas essas abordagens s\u00e3o consideradas como pertencentes \u00e0 grande disciplina Psicologia Social por tentar estudar o indiv\u00edduo psicol\u00f3gico e a sociedade num \u00fanico objeto, deixando de lado tanto a supremacia do psicologismo quanto do sociologismo, por meio de metodologias quantitativas e qualitativas.<\/p>\n<p><strong>6. Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Com esta breve exposi\u00e7\u00e3o e localiza\u00e7\u00e3o da Psicologia Social, vimos que sua crise movimentou a produ\u00e7\u00e3o de novas abordagens te\u00f3ricas, metodol\u00f3gicas e pol\u00edticas. Isso teve repercuss\u00e3o direta sobre a maneira como os psic\u00f3logos lidaram com sua forma\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e interven\u00e7\u00e3o na realidade. Neste caminho, passou-se a privilegiar m\u00e9todos qualitativos em detrimentos dos quantitativos, cujas bases se encontravam sedimentadas na Psicologia Social criticada. Esse mesmo movimento de contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia realizada por m\u00e9todos quantitativos tamb\u00e9m teve sua repercuss\u00e3o, a partir dos anos 1960, em outras ci\u00eancias humanas e sociais, como descrito por Minayo (2000), num momento em que passam a ganhar credibilidade as pesquisas qualitativas, como formas leg\u00edtimas de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Atualmente, continuam as discuss\u00f5es a respeito da supera\u00e7\u00e3o da dicotomia qualitativo\/quantitativo dentro das ci\u00eancias humanas e sociais. Dentro desse movimento, j\u00e1 se fala em triangula\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos, como elaborado por Minayo, Assis e Souza (2006), em que se cruzam t\u00e9cnicas vindas de ambas as perspectivas para poder estudar um objeto de v\u00e1rios \u00e2ngulos e, assim, ter uma vis\u00e3o mais diversificada e completa a respeito de um determinado fen\u00f4meno. Do mesmo modo, \u00c1lvaro &amp; Garrido (2006) apontam que um dos desafios da Psicologia Social contempor\u00e2nea \u00e9 superar tais barreiras e desenvolver pesquisas e interven\u00e7\u00f5es que se utilizem dessa combina\u00e7\u00e3o, pois a adequa\u00e7\u00e3o de cada uma das t\u00e9cnicas de pesquisa empregadas depende da forma com que elas s\u00e3o ajustadas \u00e0 natureza do objeto de estudo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Por sua vez, no Brasil, assim como em outros pa\u00edses latino-americanos, a Psicologia Social foi abra\u00e7ada pelos psic\u00f3logos por uma s\u00e9rie de fatores. Os motivos n\u00e3o foram ainda devidamente pesquisados e publicados. Podemos dizer que, por quest\u00f5es que transcendem o \u00e2mbito meramente te\u00f3rico, a Psicologia Social no Brasil foi estabelecida dentro dos centros, faculdades, departamentos e institutos de Psicologia. Dito de outro modo, existem fatores n\u00e3o devidamente esclarecidos que contribu\u00edram fortemente para que a Psicologia Social fosse firmada junto \u00e0 Psicologia. Esse \u00e9 um interessante tema a ser investigado e que, certamente, receber\u00e1 o devido m\u00e9rito na academia por quem o empreender.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Em decorr\u00eancia dessa hist\u00f3ria ainda n\u00e3o-contada da introdu\u00e7\u00e3o das distintas abordagens em Psicologia Social no Brasil em seus respectivos centros, atualmente os cursos de gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia possuem cadeiras de Psicologia Social, sendo considerada por muitos como um ramo da Psicologia. Segundo nosso ponto de vista, tal considera\u00e7\u00e3o acontece por: desconhecimento e por motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Espera-se que, com este artigo, tenhamos deixado claro nosso posicionamento de que se trata de duas disciplinas distintas, tal como descrevem tamb\u00e9m \u00c1varo e Garrido (2006), Corga (1998), Farr (1998), Kr\u00fcger (1986), Mailhiot (1976) e Stralen (2005), apesar de possu\u00edrem nomes semelhantes, muitos pontos de intersec\u00e7\u00e3o e serem ministradas dentro dos mesmos centros. Tratamos, t\u00e3o somente, de fazer uma esquem\u00e1tica apresenta\u00e7\u00e3o das principais abordagens em Psicologia Social, sendo necess\u00e1rio aprofundamento em cada uma delas para desvendar os campos e objetos de estudo, m\u00e9todos, teorias, conceitos, pressupostos epistemol\u00f3gicos e ontol\u00f3gicos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Defendemos que as cadeiras de Psicologia Social deveriam ser ministradas de maneira a esclarecer os alunos a respeito de sua m\u00faltipla origem no contexto da diferencia\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias sociais das naturais. Clarear, tamb\u00e9m, as influ\u00eancias recebidas no contexto da Psicologia e da Sociologia, o que gerou uma pluralidade de abordagens te\u00f3ricas e metodol\u00f3gicas (\u00c1lvaro &amp; Garrido, 2006). Localizar o avan\u00e7o cient\u00edfico de metodologias quantitativas e qualitativas, acompanhado tamb\u00e9m pela evolu\u00e7\u00e3o das abordagens na disciplina. Isso viria a facilitar a compreens\u00e3o dos desafios atuais em Psicologia Social, tanto no que se refere \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o te\u00f3rica decorrente de seu desenvolvimento acad\u00eamico, quanto de um campo de atua\u00e7\u00e3o profissional que exige psic\u00f3logos capazes de perceber e transformar, para melhor, a realidade social brasileira.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Como cada cadeira depende do grupo de professores que a ministra, o que muitas vezes implica privilegiar apenas um ponto de vista te\u00f3rico, \u00e9 importante mostrar quais as ra\u00edzes epistemol\u00f3gicas da abordagem ensinada e as poss\u00edveis interfaces intra e inter-disciplinares. Igualmente, as pesquisas norteadas por abordagens da Psicologia Social deveriam ser guiadas de modo a esclarecer aos estudantes como elas podem contribuir para futuras pr\u00e1ticas profissionais. Conectar ensino, pesquisa e extens\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o que engloba a Psicologia Social \u00e9 fundamental para a absor\u00e7\u00e3o dos ricos conte\u00fados oferecidos por essa disciplina.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Por fim, resta o questionamento do fazer do psic\u00f3logo em sua forma\u00e7\u00e3o: quais as limita\u00e7\u00f5es que os ramos da Psicologia possuem ao lidar com o \u00e2mbito social, que merecem reconsidera\u00e7\u00f5es segundo as contribui\u00e7\u00f5es da Psicologia Social? Por acaso seria melhor uma gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia Social, como ocorre em outros pa\u00edses?<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Na esfera das sociedades cient\u00edficas e institui\u00e7\u00f5es representativas da categoria de psic\u00f3logos no Brasil, h\u00e1 grupos que v\u00eam questionando a forma\u00e7\u00e3o de psic\u00f3logos sociais por meio de cursos de Psicologia, por entender que deve haver a devida separa\u00e7\u00e3o entre ambas, no que se refere a: campos de estudo, m\u00e9todos, conceitos, forma\u00e7\u00e3o e nichos de atua\u00e7\u00e3o. Obviamente, essas disputas ocorrem mais no \u00e2mbito pol\u00edtico do que acad\u00eamico, o que gera intrigas e disc\u00f3rdias entre grupos dominantes e emergentes no cen\u00e1rio nacional das pol\u00edticas da Psicologia. Segundo exp\u00f5e Stralen (2005), a Psicologia Social se constitui como disciplina cient\u00edfica e como campo profissional, apesar de n\u00e3o haver regulamenta\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do psic\u00f3logo social, restando-lhe \u201cse manter inclu\u00eddo na categoria profissional relativamente mais forte: a psicologia\u201d (p. 95). A nosso entender, esse debate deveria ocorrer inicialmente no \u00e2mbito acad\u00eamico, ao inv\u00e9s de se restringir ao jogo de for\u00e7as entre grupos pol\u00edticos, representados por sociedades cient\u00edficas e pelos Conselhos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong><br \/>\nO ponto central dessas discuss\u00f5es, segundo nosso ponto de vista, n\u00e3o \u00e9 lutar por mais uma especificidade profissional, mas ampliar a visibilidade das produ\u00e7\u00f5es em Psicologia Social, tanto no \u00e2mbito acad\u00eamico quanto das pr\u00e1ticas profissionais. Acreditamos que a forma\u00e7\u00e3o s\u00f3lida em Psicologia Social, dentro ou fora das gradua\u00e7\u00f5es e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es em Psicologia, podem acrescentar sust\u00e2ncia ao fazer de psic\u00f3logos (sociais) comprometidos com a transforma\u00e7\u00e3o social. Esse \u00e9 o norte a que devemos chegar: uma boa forma\u00e7\u00e3o, que compreenda o m\u00e1ximo de possibilidades dentro dos dom\u00ednios da Psicologia Social. Uma vez que se ganhe tal visibilidade, ent\u00e3o ser\u00e1 o caso de se ponderar uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica a partir dessa disciplina no Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Adorno, T. W. et al. <span lang=\"es-ES\">(1950\/1965). <\/span><span lang=\"es-ES\"><i>La personalidad autoritaria<\/i><\/span><span lang=\"es-ES\">. Buenos Aires: Editorial Proyecci\u00f3n.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"en-US\"><br \/>\nAllport, F. H. 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San Salvador: UCA Editores.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"es-AR\"><br \/>\n______ (2001). <\/span><span lang=\"es-AR\"><i>Acci\u00f3n e ideolog\u00eda: psicolog\u00eda social desde centroam\u00e9rica.<\/i><\/span> <span lang=\"en-US\">San Salvador: UCA Editores.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"en-US\"><br \/>\nMayo, E. (1933\/1945). <\/span><span lang=\"en-US\"><i>The social problems of an industrial civilization.<\/i><\/span> <span lang=\"en-US\">Boston: Division of Research, Graduate School of Business Administration, Harvard University.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"en-US\"><br \/>\nMead, G. H. (1934\/1962). <\/span><span lang=\"en-US\"><i>Mind, Self and Society: from the standpoint of a social behaviorist<\/i><\/span><span lang=\"en-US\">. Edited by Charles W. Moris. Chicago: The University of Chicago Press.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Minayo, M. C. S. 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Lewin \u00e9 o autor que alcunha os termos \u201cdin\u00e2mica de grupo\u201d e \u201caction research\u201d (pesquisa-a\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abordagens em Psicologia Social e seu ensino Marcelo Gustavo Aguilar Calegare1 &nbsp; RESUMO O objetivo deste artigo \u00e9 dar subs\u00eddios aos estudantes de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o a respeito das distintas abordagens em Psicologia Social e apontar algumas cr\u00edticas ao seu ensino. 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