{"id":4873,"date":"2014-07-03T19:16:11","date_gmt":"2014-07-03T19:16:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/?p=4873"},"modified":"2018-09-13T14:42:51","modified_gmt":"2018-09-13T17:42:51","slug":"v5n1a3","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/v5n1a3\/","title":{"rendered":"V5N1A3"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong>Do altar ao f\u00f3rum: a vis\u00e3o de mulheres separadas sobre os motivos da separa\u00e7\u00e3o conjugal<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">From altar to the court: divorced women&#8217;s view about the motives of matrimonial separation<\/p>\n<div>\n<div id=\"ftn3\">\n<p><strong>Joyce Cristina de Oliveira Rezende<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Universidade de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jocris@hotmail.com\">jocris@hotmail.com<\/a><\/p>\n<p><strong>Belinda Piltcher Haber Mandelbaum<\/strong><\/p>\n<p>Universidade de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p align=\"left\"><a href=\"mailto:belmande@usp.br\">belmande@usp.br<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"left\"><strong>RESUMO<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">O objetivo da presente pesquisa foi oferecer respostas, sob a \u00f3tica de mulheres divorciadas ou que est\u00e3o em processo de div\u00f3rcio, \u00e0 pergunta: quais motivos levaram \u00e0 separa\u00e7\u00e3o do casal? Para tanto, consideramos necess\u00e1rio saber tamb\u00e9m dos motivos que levaram ao casamento &#8211; em que circunst\u00e2ncias se deu, quais foram seus frutos &#8211; e conhecer aspectos da hist\u00f3ria das entrevistadas. Estes dados foram colhidos por meio de entrevistas semi-estruturadas com quatro mulheres, gravadas com o consentimento das entrevistadas. Partimos da hip\u00f3tese, baseada em literatura sobre o tema no campo da Psican\u00e1lise de Casal e Fam\u00edlia, de que as motiva\u00e7\u00f5es que levam as pessoas a se casarem e se divorciarem s\u00e3o, ao menos em parte, inconscientes. Por isto, \u00e9 dif\u00edcil apontar com clareza as causas de separa\u00e7\u00e3o, mas identificamos, atrav\u00e9s das falas destas mulheres, din\u00e2micas no casal que parecem ter contribu\u00eddo para o insucesso do matrim\u00f4nio. Al\u00e9m das particularidades de cada hist\u00f3ria, todas as mulheres apresentaram-se como \u201cbatalhadoras\u201d, \u201ccomo as que fazem tudo\u201d, enquanto os homens foram criticados por elas como sendo mais preocupados consigo mesmo do que com a fam\u00edlia. Pretendemos continuar a pesquisa entrevistando homens divorciados ou em processo de div\u00f3rcio.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Palavras-Chave:\u00a0<\/strong>separa\u00e7\u00e3o conjugal; mulheres; motivos.<\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"left\"><strong>ABSTRACT<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">The purpose of this research was to offer answers to the question, from the viewpoint of women that are divorced\u00a0 or\u00a0 who are in process of divorce: which motives led to the couple\u00b4s matrimonial separation? For this it was necessary to know the motives for marriage &#8211; in which circumstances it happened, which were its consequences &#8211; and aspects of the divorced women\u00b4s histories. Data were gathered by semi-structured interviews with four women, which were recorded with the subjects\u2019 consent. We started from the hypothesis, based on literature about Couple and Family Psychoanalysis, that motives that lead people to marry and to divorce are at least partly unconscious. Hence we cannot point out clearly the reasons for these women to divorce, but we identify in their speeches of this women, dynamics in the couples that certainly contributed to the matrimony\u2019s failure. Besides the particularities of each history, all women introduced themselves as \u201cfighters\u201d, \u201chard-workers\u201d, while men were presented with much criticism, more concerned about themselves than to the family. We intend to continue the research by interviewing men who are divorced or in process of divorce.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><strong>Key-Words:\u00a0<\/strong><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">divorce; women; motives.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/strong><br \/>\n<em>Eu possa (me) dizer do amor (que tive):<br \/>\nQue n\u00e3o seja imortal, posto que \u00e9 chama<br \/>\nMas que seja infinito enquanto dure.<\/em><br \/>\n(Soneto da fidelidade \u2013 Vin\u00edcius de Moraes)<\/p>\n<p>O n\u00famero de div\u00f3rcios e separa\u00e7\u00f5es judiciais no pa\u00eds vem crescendo nos \u00faltimos anos. As estat\u00edsticas do Registro Civil de 2006 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) apontam o crescimento de 1,4% de separa\u00e7\u00f5es e de 7,7% de div\u00f3rcios em rela\u00e7\u00e3o a 2005<a id=\"_ftnref1\" title=\"title\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"> <\/a><sup>1<\/sup>. No per\u00edodo compreendido entre 1984 e 2007, houve um aumento de 200% na taxa geral de div\u00f3rcios. Nota-se, ent\u00e3o, uma mudan\u00e7a gradual no comportamento da sociedade brasileira, que passou a aceitar o div\u00f3rcio com maior naturalidade e acessar a Justi\u00e7a para formalizar a desuni\u00e3o. Para cada quatro casamentos, h\u00e1 uma dissolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 evidente que o que estamos chamando de \u201cmaior naturalidade\u201d \u00e9 produto de um processo hist\u00f3rico-cultural que resultou em transforma\u00e7\u00f5es sociais profundas ao longo do s\u00e9culo XX. Como parte deste processo, podemos salientar a emancipa\u00e7\u00e3o da mulher em v\u00e1rios campos, sua inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho \u2013 especialmente relevante para as mulheres de classe m\u00e9dia, j\u00e1 que as mulheres pobres sempre trabalharam -, a maior igualdade entre os sexos e a revolu\u00e7\u00e3o sexual \u2013 da qual fez parte uma reconsidera\u00e7\u00e3o, em grande parte da sociedade ocidental, da import\u00e2ncia do casamento e da fam\u00edlia<a id=\"_ftnref2\" title=\"title\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"> <\/a><sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Neri (2005), as mulheres possuem maiores taxas de descasamentos e reconstituem menos outros casamentos. Elas tamb\u00e9m atingem maiores taxas de solid\u00e3o<a id=\"_ftnref3\" title=\"title\" href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"> <\/a><sup>3<\/sup> em idades mais avan\u00e7adas, enquanto os homens s\u00e3o mais sozinhos na juventude, sendo bastante comum a uni\u00e3o de homens mais velhos com mulheres mais novas. Ainda de acordo com este autor, as mulheres com melhor situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, maior n\u00edvel de escolaridade e melhores sal\u00e1rios s\u00e3o mais solit\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carneiro (2003) entrevistou 16 homens e 16 mulheres cariocas, de classe m\u00e9dia, com o intuito de verificar como o processo de separa\u00e7\u00e3o \u00e9 vivenciado. O desejo de separa\u00e7\u00e3o aparece como um anseio predominantemente feminino e, portanto, tamb\u00e9m a decis\u00e3o de dar fim \u00e0 uni\u00e3o conjugal. A mulher v\u00ea o casamento como uma \u201crela\u00e7\u00e3o amorosa\u201d e o homem como \u201cconstitui\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia\u201d. Para a mulher, se a vida conjugal n\u00e3o vai bem, a separa\u00e7\u00e3o parece inevit\u00e1vel. Ainda segundo o autor, o homem separa mais o sexo da afetividade familiar, de modo que consegue permanecer casado mesmo insatisfeito com a rela\u00e7\u00e3o amorosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brentano, em entrevista ao jornal <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>, ao ser perguntada por que as pessoas se divorciam, deu a seguinte resposta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea interpretar os n\u00fameros, um dos principais motivos apontados pelas pessoas que se divorciam \u00e9 a idade com a qual se casaram. Quanto mais novo voc\u00ea se casa, pelo menos nos EUA, mais probabilidade h\u00e1 em terminar divorciado. Creio que \u00e9 porque voc\u00ea sabe menos da vida, menos sobre o que \u00e9 importante para voc\u00ea, quais s\u00e3o seus valores, como voc\u00ea ser\u00e1 em dez anos. As pessoas mudam e, muitas vezes, em dire\u00e7\u00f5es diferentes. Outro motivo \u00e9 a origem. N\u00e3o estou julgando, mas falando aqui de tend\u00eancias de grandes grupos. Quem se casa com pessoas da mesma origem social, religiosa, \u00e9tnica e de educa\u00e7\u00e3o tem \u00edndice maior de sucesso. Geralmente, quanto maiores as diferen\u00e7as, menores as chances de os casamentos durarem. Outro grande fator: valores diferentes. A frase popular de que opostos se atraem pode ser verdade no in\u00edcio, mas as diferen\u00e7as que a princ\u00edpio pareciam interessantes se tornam amea\u00e7adoras quando voc\u00ea tem de viver com elas o tempo todo. Outro ainda \u00e9 econ\u00f4mico. Quanto menos dinheiro tem o casal, maior o \u00edndice de estresse, de brigas, portanto de instabilidade. \u00c9 o fim de outro mito, &#8220;n\u00f3s n\u00e3o precisamos de nada, s\u00f3 de um ao outro&#8221;. Isso \u00e9 apenas um ditado popular. Ser pobre \u00e9 geralmente estressante e n\u00e3o \u00e9 bom para o casamento. Por fim, as escolhas. Muitas pessoas parecem se deixar levar ao casamento sem pensar muito. Pensam mais antes de comprar um carro ou eletrodom\u00e9stico do que antes de casar. Parece que &#8220;escorregam&#8221; para o casamento. Se as pessoas tomassem decis\u00f5es mais conscientes antes de casar, prezariam mais o casamento e encarariam o div\u00f3rcio como a \u00faltima op\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que vi em anos de pesquisa. (edi\u00e7\u00e3o de 24 de julho de 2007, Especial: 30 anos da lei do div\u00f3rcio).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, as causas apontadas n\u00e3o parecem ser muito diferentes. Moraes (1989) fez um estudo com diversos casais, que apontaram as seguintes causas (em ordem de import\u00e2ncia): 1) incompatibilidade de g\u00eanios; 2) dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o; 3) dificuldades de relacionamento sexual; 4) problemas financeiros; 5) interfer\u00eancia familiar; 6) infidelidade; 7) v\u00edcios; 8) desemprego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porreca (2004) estudou casais cat\u00f3licos em segunda uni\u00e3o. Sua pesquisa, diversamente da de Moraes, \u00e9 qualitativa, contudo os mesmos motivos para separa\u00e7\u00e3o foram apontados. Os principais foram o alcoolismo, a infidelidade conjugal e o desgaste da dimens\u00e3o amorosa. No caso dos casais por ele entrevistados, o modelo \u00e9 o da uni\u00e3o eterna, mas estes j\u00e1 n\u00e3o acreditam mais na sua indissolubilidade. Para este autor, as mudan\u00e7as nas concep\u00e7\u00f5es de casamento e fam\u00edlia ocorridas no \u00faltimo s\u00e9culo n\u00e3o acarretaram uma desvaloriza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, mas sim sua ressignifica\u00e7\u00e3o. \u201cA forma da uni\u00e3o muda, mas as pessoas n\u00e3o deixam de viver juntas, o que mostra a import\u00e2ncia da vida a dois e da constitui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia\u201d (Porreca, 2004, p. 25). No mesmo sentido, afirma Carneiro (1998, p. 6): \u201ctodavia, na sociedade contempor\u00e2nea os indiv\u00edduos se divorciam n\u00e3o porque o casamento n\u00e3o \u00e9 importante, mas porque sua import\u00e2ncia \u00e9 t\u00e3o grande que os c\u00f4njuges n\u00e3o aceitam que ele n\u00e3o corresponda \u00e0s suas expectativas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com certeza, \u00e9 dif\u00edcil indicar numa pesquisa as reais causas para uma separa\u00e7\u00e3o, considerando que essas s\u00e3o, muitas vezes, inconscientes, principalmente se tomarmos como teoria de refer\u00eancia para compreender este fen\u00f4meno a Psican\u00e1lise, em especial os trabalhos psicanal\u00edticos desenvolvidos com casais e fam\u00edlias (Puget e Berenstein, 1993; Pincus e Dare, 1981), tal como o s\u00e3o parte dos fatores que levam\u00a0 ao casamento. \u00c9 preciso ainda deixar clara a diferen\u00e7a entre causas e motivos: ao falar de causas, estamos num registro de explica\u00e7\u00f5es que estabelece rela\u00e7\u00f5es deterministas entre fatores causais e seus efeitos. Em nossa pesquisa, buscamos detectar motivos, ou seja, os sentidos que as mulheres entrevistadas atribuem \u00e0 sua separa\u00e7\u00e3o, bem como ao desenrolar dos acontecimentos na rela\u00e7\u00e3o conjugal. Causas s\u00e3o explica\u00e7\u00f5es do fen\u00f4meno, motivos s\u00e3o interpreta\u00e7\u00f5es que os sujeitos fazem sobre ele. S\u00f3 temos acesso a esses motivos atrav\u00e9s do discurso dos entrevistados, tendo sido a nossa inten\u00e7\u00e3o ouvir sobre esses motivos a partir da \u00f3tica das mulheres entrevistadas. Os estudos na \u00e1rea da Psican\u00e1lise do Casal (Puget e Berenstein, 1993) mostram que os motivos para o casamento est\u00e3o essencialmente ligados aos da separa\u00e7\u00e3o, assim como \u00e0s expectativas criadas e frustradas durante o per\u00edodo conjugal. As pessoas costumam casar levando consigo pressupostos sobre o c\u00f4njuge que se baseiam em suas pr\u00f3prias expectativas e necessidades internas e, se h\u00e1 engano, ele \u201cn\u00e3o \u00e9 visto como pr\u00f3prio, mas sim \u00e9 o outro quem engana, n\u00e3o sendo quem se supunha que fosse\u201d (Prado, 1996).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muito na literatura (Bucher, 1996; Carneiro, 2003; Farkas, 2003; Moraes, 1989; Prado, 1996) sobre o que leva ao casamento e \u00e0 separa\u00e7\u00e3o, e como se d\u00e1 todo esse processo. Bucher (1996), por exemplo, nos fala sobre isto:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra quest\u00e3o que nos surge, ent\u00e3o, \u00e9: como ocorre o processo de separa\u00e7\u00e3o conjugal? Inicialmente, podemos afirmar que, com a uni\u00e3o conjugal, inicia-se o ciclo vital do casamento. Muitas s\u00e3o as expectativas dos c\u00f4njuges um em rela\u00e7\u00e3o ao outro, bem como quanto \u00e0 vida a dois. Como nem sempre as expectativas s\u00e3o realistas, crises e conflitos v\u00e3o surgir, decorrentes, muitas das vezes, das frustra\u00e7\u00f5es e insatisfa\u00e7\u00f5es das suas expectativas m\u00fatuas. O v\u00ednculo conjugal fica abalado, ou porque n\u00e3o se tornou suficientemente estruturado, ou porque foi sendo corro\u00eddo ao longo do tempo, no qual os desgastes foram aumentando sem nenhum cuidado ou aten\u00e7\u00e3o para preserv\u00e1-lo. Todavia, n\u00e3o podemos deixar de observar que \u00e9 no interior da uni\u00e3o conjugal que s\u00e3o encontradas as solu\u00e7\u00f5es para os conflitos e problemas que surgem. Por\u00e9m, quando a exacerba\u00e7\u00e3o das frustra\u00e7\u00f5es se torna demasiada, gradativamente poder\u00e1 levar \u00e0 quebra de la\u00e7os emocionais, incidindo claramente nas \u00e1reas da afetividade, da sexualidade e do crescimento interacional, levando \u00e0 ruptura dos v\u00ednculos mais profundos (p. 62).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sentimento de perda, de qualquer forma, parece ser inevit\u00e1vel. O tra\u00e7o comum a todas as separa\u00e7\u00f5es \u00e9 a necessidade de elabora\u00e7\u00e3o do luto (Farkas, 2003).\u00a0\u00a0\u00a0 De acordo com Caruso (1989), a separa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das experi\u00eancias mais dolorosas pelas quais o ser humano pode passar, sendo essa viv\u00eancia singular a cada pessoa. A separa\u00e7\u00e3o amorosa significa a presen\u00e7a da morte em vida: \u201co outro n\u00e3o morre em vida, mas morre dentro de mim&#8230; e eu tamb\u00e9m morro na consci\u00eancia do outro\u201d (p. 20). Trata-se de um processo doloroso, e o seu estudo nos parece relevante para toda a sociedade. Estudos que busquem identificar os fatores que levam \u00e0 separa\u00e7\u00e3o e escutar as pessoas implicadas podem auxiliar o profissional, quer seja o psic\u00f3logo, o advogado, o juiz, entre muitos outros, a ajudar a fam\u00edlia que se desfaz. \u00c9 no campo destes estudos que se pretende inserir nossa pesquisa, atrav\u00e9s da qual buscamos ouvir mulheres residentes na cidade de S\u00e3o Paulo que buscaram aux\u00edlio jur\u00eddico junto ao Departamento Jur\u00eddico do Centro Acad\u00eamico XI de Agosto, sobre os motivos de sua separa\u00e7\u00e3o. Nossa inten\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 trazer para este campo de estudos e pesquisas o registro da voz destas mulheres, e ver de que forma suas falas podem articular-se com o que os autores citados apresentam, seja confirmando os motivos apontados por eles ou trazendo elementos que nos permitiriam novas significa\u00e7\u00f5es em torno dos motivos da separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong style=\"background-color: transparent;\">\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\nObjetivos<\/strong><\/p>\n<p>O que se constitui como um v\u00ednculo interpessoal chega, um dia, ao Judici\u00e1rio. O Departamento Jur\u00eddico XI de Agosto, entidade ligada ao Centro Acad\u00eamico XI de Agosto da Faculdade de Direito da Universidade de S\u00e3o Paulo, presta servi\u00e7os de assist\u00eancia judici\u00e1ria \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de baixa renda desde 1919. Seus estagi\u00e1rios e advogados acompanham cerca de 4.000 processos judiciais por m\u00eas, cuja maioria se concentra na \u00e1rea de Direito de Fam\u00edlia, ou seja, alimentos, guarda de filhos, visitas, separa\u00e7\u00e3o, div\u00f3rcio, entre outros. Em praticamente todas estas a\u00e7\u00f5es, h\u00e1 um casal que se separou.<\/p>\n<p>O que leva pessoas que se amaram, compartilharam parte de suas vidas, seus sonhos, muitas vezes tiveram filhos, a se separarem<a id=\"_ftnref4\" title=\"title\" href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"> <\/a><sup>4<\/sup>, do ponto de vista delas mesmas? No cotidiano forense, n\u00e3o se costuma discutir as causas da separa\u00e7\u00e3o, visto que a maioria \u00e9 consensual; entretanto, o contato com estas pessoas mesmo em processos jur\u00eddicos mostra que, at\u00e9 chegarem ao f\u00f3rum, esse casal brigou, discutiu, lamentou, chorou e tentou se reconciliar por diversas vezes, at\u00e9 decidir encerrar sua vida em comum. Esses aspectos raramente discutidos com o advogado, chamaram a nossa aten\u00e7\u00e3o para as complexas e intensas quest\u00f5es psicol\u00f3gicas envolvidas: Por que n\u00e3o deu certo? Falta de amor? Trai\u00e7\u00e3o? Alcoolismo? \u2013 como sugere a literatura da \u00e1rea \u2013 ou que outros determinantes poder\u00edamos encontrar, ouvindo mulheres separadas ou em processo de separa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Assim se constituiu o objetivo da presente pesquisa &#8211; responder (ou oferecer respostas) \u00e0 pergunta: Quais motivos, do ponto de vista das mulheres separadas ou que est\u00e3o em fase de separa\u00e7\u00e3o, levaram \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o conjugal? Para isso, mostrou-se necess\u00e1rio saber tamb\u00e9m dos motivos que, segundo elas, levaram ao casamento, em que circunst\u00e2ncias este se deu, quais foram seus frutos, bem como conhecer a hist\u00f3ria das entrevistadas. N\u00e3o se pretendeu aqui, como explicitamos acima, apontar as causas que levaram \u00e0 separa\u00e7\u00e3o conjugal, mas, a partir das falas de mulheres separadas ou em processo de separa\u00e7\u00e3o, refletir tanto sobre os seus motivos de separa\u00e7\u00e3o quanto sobre a vincula\u00e7\u00e3o destes motivos \u00e0 hist\u00f3ria de seu casamento, incluindo, como veremos nas entrevistas, as expectativas criadas e frustradas durante o per\u00edodo conjugal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\nM\u00e9todo<\/strong><\/p>\n<p>O m\u00e9todo utilizado em nossa pesquisa foi o de entrevista semi-estruturada (Gonz\u00e1lez Rey, 2011). Segundo este autor:<\/p>\n<p>\u201cNesse contexto de pesquisa, a entrevista n\u00e3o \u00e9 um instrumento mais organizado em forma de perguntas padronizadas, pois o di\u00e1logo permanente que a pesquisa envolve integra os interesses concretos do pesquisador, os quais aparecem como momentos de sentido no curso do di\u00e1logo, e n\u00e3o como um momento frio e parcial, organizado em forma de perguntas a serem respondidas de forma direta pelos sujeitos estudados. Como em todo di\u00e1logo, o di\u00e1logo constitu\u00eddo no cen\u00e1rio da pesquisa cient\u00edfica se expande em seus conte\u00fados de forma espont\u00e2nea, alcan\u00e7ando \u00e1reas de interesse do pesquisador, sobre as quais este n\u00e3o tinha nenhuma ideia no come\u00e7o da pesquisa\u201d (Gonz\u00e1les Rey, 2011, p. 86)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escolhemos este m\u00e9todo porque ele nos permitiria, por um lado, criar um roteiro de perguntas que garantisse o aprofundamento dos temas em foco, abarcando assim, na medida do poss\u00edvel, os diversos aspectos envolvidos. Por outro lado, a entrevista semi-estruturada \u00e9 aberta o suficiente para que pud\u00e9ssemos aprofundar as respostas dadas pelas entrevistadas a partir de uma escuta que as levasse em considera\u00e7\u00e3o para, a partir do que fosse dito, formular as perguntas seguintes. \u00c9 um m\u00e9todo que julgamos contemplar os aspectos que quer\u00edamos pesquisar e, ao mesmo tempo, a especificidade do encontro entre n\u00f3s, pesquisadoras, e as mulheres entrevistadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contamos com a participa\u00e7\u00e3o de quatro mulheres assistidas pelo Departamento Jur\u00eddico XI de Agosto, que receberam nomes fict\u00edcios: Diana, Norma, Joana e Camila. N\u00e3o houve sele\u00e7\u00e3o pr\u00e9via das entrevistadas, uma vez que essa pesquisa pretendeu ser uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o ao tema e um exerc\u00edcio de an\u00e1lise de vis\u00f5es de mulheres em processo de separa\u00e7\u00e3o, independentemente das poss\u00edveis diferen\u00e7as entre os casais (como o tempo de casamento, n\u00famero de filhos etc). Tr\u00eas s\u00e3o mulheres de meia idade, somente Camila est\u00e1 na casa dos 20 anos.<\/p>\n<p><em>Coleta de dados<\/em><br \/>\nAs entrevistas foram gravadas com o consentimento das entrevistadas, \u00e0s quais foi entregue o \u201cTermo de Consentimento Livre e Esclarecido\u201d (ver anexo). Ao mesmo tempo, a entrevistadora fez anota\u00e7\u00f5es pessoais sobre suas impress\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es das entrevistadas, baseada no m\u00e9todo utilizado por Porreca (2004), uma vez que tais aspectos n\u00e3o s\u00e3o captados por um gravador de voz. As grava\u00e7\u00f5es foram transcritas e analisadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um roteiro inicial para a entrevista contemplou as seguintes quest\u00f5es: Quais motivos levaram \u00e0 separa\u00e7\u00e3o do casal? Essa decis\u00e3o foi tomada pelos dois, ou por um s\u00f3? Voc\u00eas tiveram filhos? O que levou voc\u00ea a se casar? Pense na hip\u00f3tese de voltar no tempo, voc\u00ea realizaria alguma modifica\u00e7\u00e3o na vida conjugal? As perguntas foram baseadas na pesquisa de Porreca (2004), e destacamos estas porque s\u00e3o perguntas bastante abrangentes, que julgamos que permitiriam o aprofundamento na hist\u00f3ria dessas mulheres.<\/p>\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o de Diana, todas as mulheres foram entrevistadas no dia em que procuraram a assist\u00eancia jur\u00eddica do Departamento Jur\u00eddico, no pr\u00f3prio local. A entrevista com Diana ocorreu na casa de uma das pesquisadoras, uma vez que elas se conheceram previamente em uma audi\u00eancia, sendo Diana tamb\u00e9m assistida pelo mesmo Departamento.<\/p>\n<p><strong>Resultados: an\u00e1lise das entrevistas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><em>Diana<\/em><br \/>\nDiana chegou ao Departamento Jur\u00eddico em busca de pens\u00e3o aliment\u00edcia para seus filhos. Ela trabalha como recepcionista em uma escola particular, possui ensino m\u00e9dio completo e parece ter um padr\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f4mico de classe m\u00e9dia. Casou-se com Jo\u00e3o em 1993, depois de quatro anos de namoro e noivado, e tiveram dois filhos, hoje adolescentes. Viveram cerca de 13 anos juntos, estando separados h\u00e1 tr\u00eas. Jo\u00e3o vinha de um casamento anterior, j\u00e1 tinha um filho, e como n\u00e3o conseguira o div\u00f3rcio, eles acabaram recebendo somente a b\u00ean\u00e7\u00e3o numa igreja evang\u00e9lica, embora nenhum dos dois seguisse a religi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como Jo\u00e3o era um homem separado, eles sofreram preconceitos por parte da fam\u00edlia de Diana, mas nada que impedisse o conv\u00edvio dele com a fam\u00edlia dela. O que gerou alguns problemas foram os resqu\u00edcios deixados pelo primeiro casamento de Jo\u00e3o. Nas palavras dela:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMas eu vou falar bem popularmente, eu pastei. Porque ele j\u00e1 tinha tido um casamento, tinha o filho, ent\u00e3o tinha que busc\u00e1-lo aos s\u00e1bados, tinha dias que ele ia buscar o filho e ela n\u00e3o deixava ele pegar, ele chamava a pol\u00edcia, eles iam para a delegacia e eu me envolvia muito, sofria junto, o que n\u00e3o deveria acontecer, mas eu me envolvo, eu sofria muito com essa situa\u00e7\u00e3o, pastei muito. E eu tinha at\u00e9 ci\u00fames, n\u00e9?!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante toda a entrevista, Diana se apresentou como uma mulher \u201cpau pra toda obra\u201d, e o apresentou como um homem fraco, que estava por baixo e que a colocava para baixo junto com ele. Para ilustrar o que foi o seu casamento, ela usa a seguinte met\u00e1fora:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cComo eu me sentia no casamento? Dentro de um po\u00e7o, n\u00f3s dois dentro de um po\u00e7o, eu mais na borda, mais perto da sa\u00edda, e ele mais para baixo. Ao inv\u00e9s de ele me empurrar, e eu sair desse po\u00e7o para tir\u00e1-lo, ele me puxava, e eu queria sair, ele me puxava&#8230;e n\u00f3s dois nunca sa\u00edamos desse po\u00e7o, n\u00e3o tinha um progresso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez devamos perguntar-nos por que ela continuava no fundo do po\u00e7o: ser\u00e1 que ela precisava de algu\u00e9m que estivesse mais embaixo para se sentir por cima? Seria a necessidade dela ter um homem assim para se sentir viva? Ela fazia tudo, comprava os presentes para a fam\u00edlia dele, brigava por causa dele. Segundo ela, ele se acomodou, ele s\u00f3 usufru\u00eda e ela entrava com o sacrif\u00edcio. E isso parece fazer com que ela se ache superior a ele e ele sente isso, acusando-a de estar \u201cse achando\u201d. Isso gera um ressentimento m\u00fatuo. Mas ela n\u00e3o assume essa superioridade. Ao inv\u00e9s, ela projeta suas impress\u00f5es nos outros, que dizem que ela deveria ter se casado com \u201cum homem m\u00e9dico, doutor, um homem famoso\u201d, o que ela acha um absurdo. Valemo-nos aqui do conceito de identifica\u00e7\u00e3o projetiva, tal como explicado por Mandelbaum (2008):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao processo pelo qual colocamos no outro os nossos pr\u00f3prios afetos, pensamentos, modos de ser, e o vemos a partir de elementos que nele introduzimos, fundidos em suas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, Melanie Klein chamou de identifica\u00e7\u00e3o projetiva. Projetamos partes nossas no outro, que fica identificado com essas partes (p. 68).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Klein (1946), a proje\u00e7\u00e3o ocorre em todos os tipos de relacionamentos, sendo mais poderosa naqueles que envolvem fortes la\u00e7os emocionais, como o casamento. Diana, a nosso ver, projetava seus aspectos mais fracos no marido e assim n\u00e3o entrava em contato com seus temores, de forma que ele era o fraco da rela\u00e7\u00e3o. Ao colocar para fora esses aspectos menos desej\u00e1veis do seu <em>self<\/em>, ela parecia se sentir maior, poderosa, a \u201csuper mulher\u201d. Essa din\u00e2mica parece ter causado um forte ressentimento em Jo\u00e3o, que devia se sentir diminu\u00eddo ao ver aquela super mulher ao seu lado. Sobre isto, esclarecem Pincus e Dare (1981):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este mecanismo de proje\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do qual sentimentos e ideias internas s\u00e3o atribu\u00eddos a pessoas e objetos externos, \u00e9 tamb\u00e9m parte normal de todo relacionamento. N\u00e3o sabemos como as pessoas conseguem colocar seus sentimentos fora de seu pr\u00f3prio sistema psicol\u00f3gico (os quais podem ser adequados ou inadequados, de acordo com a situa\u00e7\u00e3o em que se encontram), projetando-os numa outra pessoa. Sabemos, contudo, atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o direta, que as pessoas podem proceder assim, e mesmo sem perceber agem desta forma, quando os sentimentos s\u00e3o por demais dolorosos ou com uma carga demasiado elevada para continuarem retidos em suas pr\u00f3prias mentes (p. 36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tipo de configura\u00e7\u00e3o deste casal j\u00e1 parece ser o de uma separa\u00e7\u00e3o (ps\u00edquica), e a separa\u00e7\u00e3o de fato s\u00f3 vem confirmar isso. Ela conta que a rela\u00e7\u00e3o foi permeada por brigas desde o namoro. Durante o casamento, as brigas eram tantas que os pr\u00f3prios filhos falaram para a m\u00e3e se separar, eles n\u00e3o ag\u00fcentavam mais. Numa situa\u00e7\u00e3o como essa, a separa\u00e7\u00e3o parece ser a \u00fanica sa\u00edda saud\u00e1vel:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c(&#8230;) durante o namoro, eu j\u00e1 poderia ter acabado, por causa das brigas que n\u00f3s tivemos, e eu tentei mesmo&#8230; Mas n\u00e3o sei porque, a gente brigava, brigava feio e eu dizia \u201cgra\u00e7as a Deus, acabou\u201d, da\u00ed no dia seguinte ele ligava, com aquela voz brava, e eu gostava de ele estar me ligando e a\u00ed eu me abria toda, e voltava tudo de novo&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto que nos chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a no\u00e7\u00e3o que ela tem de casamento, idealizada e quase fusional. Como se o casal nem precisasse de palavras para se comunicar, como se os dois formassem um s\u00f3. Ela usa termos como \u201ccara metade\u201d, \u201ctampa da panela\u201d, t\u00e3o comuns no imagin\u00e1rio popular. Diana, apesar de parecer pensar bastante de forma abstrata e de se expressar muito bem, tem algumas ideias preconcebidas e fica ref\u00e9m delas. Como a quest\u00e3o da felicidade. Ela acredita que as pessoas devem ser felizes com o que t\u00eam, ent\u00e3o ela devia se sentir feliz com o seu casamento, mesmo que dentro de um po\u00e7o. Ela s\u00f3 percebeu que n\u00e3o era feliz quando conheceu outro homem, o \u201chomem ideal\u201d:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMas da\u00ed eu conheci uma pessoa mais velha, um homem que, como eu posso dizer&#8230; n\u00e3o se aproveitou da situa\u00e7\u00e3o, n\u00f3s nos conhecemos, nos tornamos amigos e, por ele ser mais velho, aquele jeitinho, ele sempre me ouvia, aquilo que eu precisava do meu marido, ele me ouvia, estava sempre l\u00e1 pronto para me ajudar, para o que desse e viesse, e ent\u00e3o eu fui vendo o quanto o meu marido n\u00e3o prestava para mim, o quanto eu era infeliz\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela afirma n\u00e3o ter tido nenhum tipo de relacionamento f\u00edsico com esse homem. Ele tamb\u00e9m era casado, tinha filhos. Depois da separa\u00e7\u00e3o, ela conheceu outros homens, \u201ctrocou uns beijos\u201d, at\u00e9 que encontrou o homem da vida dela, a \u201ctampa da panela\u201d, \u201ca cara metade\u201d, seu atual namorado.<\/p>\n<p><em>Norma<\/em><br \/>\nNorma apareceu no Departamento Jur\u00eddico para resolver problemas com um banco, estava procurando um advogado para defend\u00ea-la. Ela j\u00e1 havia conversado com a assistente social e esta, sabendo do nosso interesse em fazer entrevistas com mulheres separadas, apresentou-nos. Norma aceitou participar da entrevista, at\u00e9 o momento em que fosse chamada para conversar com um estagi\u00e1rio sobre o problema que a levou ao Departamento Jur\u00eddico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela \u00e9 uma mulher de meia idade e boa apar\u00eancia, que diz possuir uma enorme vontade de melhorar e progredir na vida. \u00c9 vendedora, segunda ela, por falta de op\u00e7\u00e3o. Conseguiu, ao custo de muito trabalho, comprar uma casa e abrigar nela toda a sua fam\u00edlia e a do marido. Marido de quem ela n\u00e3o citou o nome. Casou com uma pessoa, segundo ela mesma, totalmente o oposto dela, tanto geograficamente, \u201cela \u00e9 do sul e ele do norte\u201d, quanto culturalmente. Esse fato pesou muito na conviv\u00eancia do casal:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAli\u00e1s, ele tem uma cultura completamente diferente&#8230;eu sou do sul, nasci no Rio Grande do Sul, ele \u00e9 de Natal, no Rio Grande do Norte, ent\u00e3o muitas coisas que para mim s\u00e3o vistas como inaceit\u00e1veis, para eles \u00e9 dito como normal, coisas que eu morro de vergonha, n\u00e3o aceito&#8230;o pessoal do sul \u00e9 mais severo, voc\u00ea n\u00e3o pode dever para ningu\u00e9m&#8230;a pessoa tem a vida dif\u00edcil, trabalha, quer conquistar os seus objetivos, sabe que a vida \u00e9 dura, que voc\u00ea n\u00e3o vai conseguir nada sem trabalhar, voc\u00ea quer ter a sua casa..tudo o que voc\u00ea vai fazer, voc\u00ea se prop\u00f5e a fazer da melhor forma poss\u00edvel, voc\u00ea n\u00e3o aceita de qualquer jeito&#8230;da\u00ed em me deparei com uma pessoa totalmente o oposto de mim\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela se apresenta como uma mulher muito trabalhadora. \u00c9 vendedora e costumava trabalhar o dia inteiro e mais um pouco, chegava a casa as tr\u00eas da manh\u00e3 e as oito j\u00e1 estava saindo para outro dia de trabalho. Ele, pelo contr\u00e1rio, de acordo com ela, trabalhava as horas exigidas e ia para o bar beber.<br \/>\nA bebida denota mais ainda os aspectos dependentes do marido de Norma. Acerca do assunto, Mandelbaum (2008) diz o seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder\u00edamos compreender como uma dimens\u00e3o m\u00edtica da din\u00e2mica familiar o que frequentemente observamos em fam\u00edlias nas quais o pai \u00e9 alcoolista. Este fato coloca-o, no mais das vezes, como forte candidato a ser o deposit\u00e1rio das mazelas familiares e como algu\u00e9m continuamente necessitado do cuidado dos outros familiares. Identificado como b\u00eabado, ele permite, no entanto, que os demais se vejam como s\u00e3os. Como fraco, permite ao grupo ver-se como forte, ainda que tendo que lidar com a ang\u00fastia e os transtornos advindos dessa situa\u00e7\u00e3o. Os ambulat\u00f3rios de psiquiatria recebem com freq\u00fc\u00eancia casais nos quais, a um marido alcoolista, fraco e inadequado, corresponde uma mulher forte, batalhadora, que toma para si todos os cuidados da casa. \u00c0 primeira vista podemos nos perguntar sobre o que faz uma mulher t\u00e3o capaz e independente com um homem t\u00e3o fraco e dependente dela. Mas um exame mais detido permite ver que essa din\u00e2mica atende necessidades ps\u00edquicas de ambos, sendo um dos dois, o marido, objeto da toler\u00e2ncia e do cuidado e o outro, a esposa, fortalecida narcisicamente em seu lugar de tolerante e cuidadora. Esse \u00e9 um elemento importante de liga\u00e7\u00e3o do casal, mantenedor de certo equil\u00edbrio ps\u00edquico que se d\u00e1 apesar do sofrimento implicado (p. 43-44).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Norma trabalhava o dia inteiro, buscava seus sonhos, enquanto seu marido s\u00f3 queria saber do bar, de acordo com as suas palavras. Mas apesar de mulher forte e batalhadora, n\u00e3o tomava para si todos os cuidados da casa. Esse papel cabia \u00e0 sua sogra. Enquanto Norma trabalhava, a sogra criou seu filho, cuidou da casa e dominou o ambiente dom\u00e9stico. Seu marido, pelo que ela apresenta, sequer conseguiu separar-se da m\u00e3e. Na vis\u00e3o de Norma, os sonhos eram s\u00f3 dela, eles sempre estiveram t\u00e3o separados que sequer compartilhavam os sonhos. Ela queria uma bela casa, conseguiu. Ela se esfor\u00e7ou sozinha, e ele no bar:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c(&#8230;) at\u00e9 2002 posso dizer que n\u00f3s est\u00e1vamos juntos, mas eu tive um relacionamento com outra pessoa<a id=\"_ftnref5\" title=\"title\" href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"> <\/a><sup>5<\/sup> e tive outro filho&#8230; ent\u00e3o, eu n\u00e3o queria ter mais filhos com ele, a gente vai criando uma repulsa, voc\u00ea n\u00e3o quer mais a pessoa, voc\u00ea vai fugindo da pessoa&#8230; voc\u00ea se mergulha de trabalho, a outra pessoa, sem sensibilidade nenhuma, ningu\u00e9m sabe o que se passa na mente humana&#8230; voc\u00ea ta mostrando para a pessoa&#8230; em vez da pessoa tomar aquilo e fazer alguma coisa para mudar, voc\u00ea come\u00e7a a perceber que a pessoa est\u00e1 acomodada com a situa\u00e7\u00e3o, a pessoa s\u00f3 pensa que tem uma casa bonita, uma esposa bonita para mostrar para os outros&#8230; as pessoas olhavam \u201cnossa, voc\u00ea \u00e9 a esposa dele?\u201d, porque ele \u00e9 mais velho do que eu&#8230; sabe aquela pessoa que come demais, bebe demais&#8230;a pessoa totalmente inerte&#8230; eu tenho meus objetivos, sou agitada, tenho sensibilidade, acho que o que move um relacionamento&#8230; se voc\u00ea olhar para ele, ele \u00e9 uma pessoa muito gorda, com cabelo branco, j\u00e1 acha que ta velho, tem 50, n\u00e3o tem vontade de fazer nada, quando era novo tamb\u00e9m n\u00e3o fez&#8230; eu n\u00e3o sou assim, eu n\u00e3o acho que to velha, tenho 44&#8230; ele j\u00e1 se contentou no emprego dele, ele \u00e9 gar\u00e7om&#8230; eu n\u00e3o, to a\u00ed, n\u00e3o to trabalhando agora mas daqui a alguns dias j\u00e1 vou estar&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais uma vez aparece a \u201csuper mulher\u201d ao lado de um homem \u201cfraco\u201d. E todo mundo se pergunta: o que ela est\u00e1 fazendo com ele? Ser\u00e1 que a \u201csuper mulher\u201d tem necessidade do \u201csub homem\u201d para se sentir super, ent\u00e3o acaba procurando um homem muito aqu\u00e9m dela?\u00a0\u00a0\u00a0 Tal como no caso de Diana, aqui tamb\u00e9m aparece um terceiro, o terceiro idealizado. Norma conheceu esse outro homem, seis anos mais novo, apaixonou-se e teve um filho com ele. Na vis\u00e3o dela, n\u00e3o houve trai\u00e7\u00e3o, como ela disse para o ex-marido:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu tenho outra pessoa, eu n\u00e3o tra\u00ed voc\u00ea, s\u00f3 voc\u00ea que n\u00e3o percebeu que h\u00e1 mais de cinco anos que ningu\u00e9m ta casado, que a gente ta brincando de casado, s\u00f3 voc\u00ea que n\u00e3o se assume para nada na vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nova rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m terminou em separa\u00e7\u00e3o. De qualquer forma, ela queria ter mais um filho e conseguiu. Filho que n\u00e3o desejava ter com o ex-marido. Hoje, ela mora com os dois filhos. O mais velho, segundo ela, n\u00e3o lhe d\u00e1 valor, \u201cporque eu n\u00e3o fumo&#8230; ent\u00e3o pra ele eu sou chata, sou careta\u201d. Apesar de morar com ela, ele ap\u00f3ia o pai, pois enquanto Norma trabalhava, ele recebeu mais aten\u00e7\u00e3o do pai e da fam\u00edlia dele. Do mais novo, ela quase n\u00e3o fala.<\/p>\n<p><em>Joana<\/em><br \/>\nJoana procurou a ajuda do Departamento Jur\u00eddico porque havia acabado de ser citada para contestar a a\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o litigiosa proposta por seu ex-marido, Oswaldo. Ela estava muito abalada com a cita\u00e7\u00e3o, nervosa, e disse que seria bom conversar. Diversas vezes ela chorou durante a entrevista, um choro do\u00eddo, sentido, carregado de sofrimento. \u00c9 uma mulher muito religiosa, evang\u00e9lica, confiante em Deus. E com isso parece ser, de certo modo, um pouco conformada. H\u00e1 sofrimento, mas n\u00e3o revolta em sua voz.<\/p>\n<p>Ficou casada com Oswaldo durante nove anos e n\u00e3o tiveram filhos. Ela j\u00e1 tinha dois filhos de uma uni\u00e3o anterior e ele quatro filhos, dos quais encontraram muita oposi\u00e7\u00e3o. Quando Joana conheceu Oswaldo, ele estava vi\u00favo h\u00e1 um ano. A sua esposa faleceu de repente, e essa morte nunca foi aceita por toda a fam\u00edlia, pai e filhos. Os filhos eram pequenos, \u201cainda precisavam muito de uma m\u00e3e\u201d, de modo que Joana passou a ser uma substituta da m\u00e3e morta, o que \u00e9 confirmado pelo o que Oswaldo dizia a ela: \u201cpara mim casar com voc\u00ea foi conveniente, foi bom, voc\u00ea cuidou dos meus filhos e apesar de todas as confus\u00f5es, eu podia trabalhar sossegado\u201d. S\u00f3 que a substituta nunca esteve \u00e0 altura da substitu\u00edda, e nunca estaria. Joana sempre foi uma substituta degradada. Era preciso que ela fosse denegrida para manter a defunta idealizada.<\/p>\n<p>No entanto, Joana entregou-se totalmente a esse casamento, e como o marido n\u00e3o queria que ela trabalhasse, ela parou. Ela tinha vontade de estudar, ele n\u00e3o deixou. Joana submeteu-se a todas as exig\u00eancias dele. O discurso dela parece sugerir que ele queria uma empregada e conseguiu. Ele conseguiu uma pessoa para acabar de criar os filhos dele e, quando eles j\u00e1 estavam crescidos, ela diz que ele a expulsou de casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00f3s casamos, tivemos v\u00e1rios problemas com os nossos filhos, porque nem os meus filhos aceitavam a situa\u00e7\u00e3o que ele tratava a gente e nem eu&#8230; e outra coisa, as filhas dele tamb\u00e9m n\u00e3o me aceitavam, e isso come\u00e7ou a gerar brigas&#8230; ele nunca me defendia, n\u00e3o me deixava trabalhar fora, ele n\u00e3o deixava eu estudar&#8230; h\u00e1 dois anos atr\u00e1s eu prestei vestibular, passei pra fazer faculdade, ele tendo condi\u00e7\u00f5es, ele n\u00e3o quis deixar eu fazer a faculdade, eu to fazendo faculdade agora porque to h\u00e1 um ano e meio separada, ent\u00e3o eu meti as caras, fui, prestei vestibular, passei&#8230; mas enquanto eu tava com ele, n\u00e3o adiantava, eu n\u00e3o podia, ele n\u00e3o deixava eu fazer a faculdade&#8230;a\u00ed eu n\u00e3o pude trabalhar, n\u00e3o pude fazer faculdade e fui ficando muito bitolada, s\u00f3 servi\u00e7o de casa e pegar os filhos dele e levar para cabeleireiro, pra comprar uma roupa, fazer unha, shopping, curso de ingl\u00eas, dentista&#8230;a minha vida era em fun\u00e7\u00e3o da vida dele e dos filhos dele, s\u00f3 que ele nunca me retornou isso, nunca agradeceu&#8230;\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela se sujeita a tudo, \u00e9 submissa, parece sentir prazer na dor, no sofrimento. Tanto que ela mesma nos fala o quanto sente falta de fazer as coisas para aquelas pessoas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c(&#8230;) chega assim, seis horas da tarde, eu corro para a minha igreja, porque eu come\u00e7o a chorar, chorar, chorar&#8230;era a hora que eu fazia a janta fresquinha para eles, eu fazia almo\u00e7o&#8230;eu nunca mais fiz almo\u00e7o..tem um ano e meio que eu n\u00e3o sei mais o que \u00e9 almo\u00e7ar&#8230;s\u00f3 quando eu chego na casa de algu\u00e9m e l\u00e1 tem almo\u00e7o pronto&#8230;nunca mais fiz almo\u00e7o na minha casa, nunca mais, n\u00e3o consigo&#8230;janta, nunca mais fiz&#8230;eu emagreci 10 quilos depois que sa\u00ed de l\u00e1, porque eu fa\u00e7o uma sopa e tomo sopa \u00e0 noite&#8230;eu n\u00e3o consigo fazer janta, n\u00e3o consigo fazer uma sobremesa, tudo lembra ele, tudo o que eles gostavam de comer, nunca mais comprei, eu n\u00e3o consigo comer mais as coisas que a gente comia l\u00e1 na casa&#8230;\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud, em seu texto \u201cO problema econ\u00f4mico do masoquismo\u201d (1924), diz que, aparentemente, o masoquismo \u00e9 incompreens\u00edvel, pois somos governados pelo princ\u00edpio do prazer. Todavia, o masoquista, a todo momento, sente necessidade de ser punido. Nele, o superego \u00e9 terrivelmente severo, duro e cruel. Joana parece ter transferido toda a orienta\u00e7\u00e3o do mundo para Deus &#8211; quando o marido a expulsou de casa, ela foi \u00e0 igreja conversar com Deus para saber se podia ir embora. Oswaldo \u00e9 bem mais velho que ela, puniu-a durante toda a vida conjugal e ainda a pune. Ele ainda a ajuda financeiramente \u201ccom o que ele quer, quanto ele quer e com agress\u00f5es\u201d. Ele chegou a agredi-la fisicamente por quatro vezes, mas ela nunca fez queixa na pol\u00edcia. E ela ainda ama esse homem, mas Deus est\u00e1 o \u201climpando\u201d-o do seu cora\u00e7\u00e3o. Se ele quisesse, ela voltaria correndo.<\/p>\n<p>Outro fator que pode ter contribu\u00eddo para a sua submiss\u00e3o \u00e9 a sua forte religiosidade. Joana \u00e9 fiel de uma igreja evang\u00e9lica, e costuma seguir rigorosamente o que \u00e9 ditado pela sua igreja e religi\u00e3o. De acordo com o livro do <em>G\u00eanesis<\/em>, Deus disse que n\u00e3o era bom para o homem ficar sozinho, que lhe faria uma ajuda adequada, criou os outros seres vivos e da costela de Ad\u00e3o criou a mulher, Eva. Ou seja, de acordo com essa vis\u00e3o, a mulher foi criada para auxiliar o homem. Apesar de toda a revolu\u00e7\u00e3o feminista ocorrida a partir de meados do s\u00e9culo XX, esta vis\u00e3o ainda predomina entre os crentes. Joana tamb\u00e9m parou de trabalhar quando se casou pela primeira vez, mas como esta uni\u00e3o durou pouco, conseguiu se recolocar no mercado de trabalho. Sobre a mulher protestante brasileira, Magalh\u00e3es Filho (s. d.) nos diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta pr\u00e1tica religiosa, se constr\u00f3i o modelo de mulher protestante brasileira. M\u00e3e, dom\u00e9stica, submissa e educadora religiosa. \u00c9 um modelo muito comum numa igreja protestante de classe m\u00e9dia. Que com o crescimento e estabelecimento de uma cultura dita evang\u00e9lica, as comunidades que se estabeleceram na periferia das grandes cidades e no interior do Brasil, mantiveram este modelo, mesmo sendo a mulher, obrigada por circunst\u00e2ncias econ\u00f4mico-sociais a romper com ele. Hoje em algumas comunidades encontram-se mulheres l\u00edderes de igrejas, associadas a sindicatos, associa\u00e7\u00f5es de bairro etc. Mas no imagin\u00e1rio protestante brasileiro, o ideal de mulher crente ainda \u00e9 o de m\u00e3e e esposa submissa (p 4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Joana nos lembra outra mulher do imagin\u00e1rio popular brasileiro, que virou letra de samba, na composi\u00e7\u00e3o de Ataulpho Alves e M\u00e1rio Lago: \u201cAm\u00e9lia n\u00e3o tinha a menor vaidade, Am\u00e9lia \u00e9 que era mulher de verdade\u201d.<\/p>\n<p><em>Camila<\/em><br \/>\nCamila compareceu ao Departamento Jur\u00eddico porque seu ex-companheiro, Eduardo, havia entrado com um pedido de regulamenta\u00e7\u00e3o de visitas para poder ver suas duas filhas, ainda que Camila afirme que jamais o tenha impedido de v\u00ea-las. Contudo, ele deseja que elas possam dormir em sua casa, onde mora com sua nova companheira, Carolina.<\/p>\n<p>Camila e Eduardo n\u00e3o chegaram a casar-se oficialmente, mas viveram juntos cerca de tr\u00eas anos. Da uni\u00e3o nasceram duas meninas, ainda muito pequenas, e da\u00ed a oposi\u00e7\u00e3o da m\u00e3e a que elas pernoitem na casa do pai. Camila \u00e9 uma mulher bonita, embora esteja um pouco mal cuidada. \u00c9 jovem, tem cerca de 25 anos de idade.<\/p>\n<p>Ela saiu de casa aos 18 anos, porque teve \u201caquela loucura de querer viver a liberdade\u201d e foi morar na casa da fam\u00edlia de Eduardo, j\u00e1 que era amiga da irm\u00e3 dele. Conheceu-o, come\u00e7aram a relacionar-se, e ela ficou gr\u00e1vida da primeira filha. Quando esta tinha um ano de idade, engravidou da segunda. Passou a dedicar-se integralmente \u00e0s filhas e a casa, perdeu toda a sua vaidade. Como ela mesma nos conta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA gente n\u00e3o tava t\u00e3o bem, a culpa era minha, depois que eu casei eu relaxei muito, virei aquelas donas de casa, n\u00e3o queria mais sair, do jeito que eu acordava eu ficava o dia inteiro, eu era muito m\u00e3e&#8230; eu era muito relaxada&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ela, a chegada das filhas interferiu na rela\u00e7\u00e3o do casal, ela deixou de ser mulher, e ele n\u00e3o soube suportar isso, n\u00e3o aguentou dividi-la com as crian\u00e7as. Eduardo n\u00e3o conseguiu entender a situa\u00e7\u00e3o dela como m\u00e3e, com duas filhas pequenas que exigiam muita aten\u00e7\u00e3o. Quando a segunda filha estava com seis meses de idade, ele abandonou a fam\u00edlia e foi viver com outra mulher. Ele nem se despediu, ela havia sa\u00eddo para uma entrevista de emprego e quando voltou ele n\u00e3o estava mais l\u00e1. Sobre a quest\u00e3o da chegada de filhos na fam\u00edlia, Waddel (1994) afirma o seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA mudan\u00e7a de casal para fam\u00edlia tem probabilidades de trazer para o jogo aspectos do relacionamento entre os pais que eles n\u00e3o tinham experimentado um com o outro da mesma forma antes. O nascimento do beb\u00ea deles pode despertar em cada um n\u00e3o s\u00f3 sentimentos protetores, afetuosos, profundamente amorosos, mas tamb\u00e9m sentimentos bastante infantis e dependentes, de modo que a assimetria aparente entre o adulto fisicamente forte e o beb\u00ea fraco e desamparado n\u00e3o ser\u00e1 a \u00fanica, ou mesmo a mais importante das diferen\u00e7as formativas\u201d (p. 29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais adiante, a autora sustenta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sentimentos do beb\u00ea podem fazer a m\u00e3e se sentir competitiva. Ou o pai pode estar passando por suas pr\u00f3prias lutas e mudan\u00e7as bastante espec\u00edficas: ansiedades primitivas, por exemplo, com freq\u00fc\u00eancia s\u00e3o re-evocadas pela exclus\u00e3o, sentida ou verdadeira, do que se tornou o casal principal, m\u00e3e e beb\u00ea. (A alta incid\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es extraconjugais nessa fase pode n\u00e3o ser simplesmente uma fun\u00e7\u00e3o da n\u00e3o-disponibilidade sexual) (p. 30).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Camila nos diz que Eduardo \u00e9 um homem com quase 30 anos de idade que ainda joga v\u00eddeo game. Acreditamos que ele n\u00e3o conseguiu entender a situa\u00e7\u00e3o de uma mulher muito jovem e com duas filhas pequenas que demandam muita aten\u00e7\u00e3o. Mas ela ainda o ama, e ele diz que ainda a ama, mesmo vivendo com outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela fala que ainda gosta um pouquinho dele, e n\u00e3o consegue enxergar a parcela de culpa dele, \u201ca culpa era minha\u201d. Berenstein e Puget (1993) falam sobre o mal-entendido no casal e suas diversas modalidades de explica\u00e7\u00e3o. Para Camila tudo tem uma causa, e a causa sempre est\u00e1 nela:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos relatos dos pacientes a respeito dos conflitos matrimoniais ou familiares, \u00e9 freq\u00fcente atribuir a si mesmo o conhecimento das causas do mal-estar ou da conduta do outro. Costumam se situar no epicentro onde reina a onipot\u00eancia do desejo. Nesses casos, podemos v\u00ea-los, alternativamente, no lugar de assistente e no de desamparado. Dessa maneira, assentam as bases de um mal-entendido, ao n\u00e3o reconhecerem no outro uma causalidade diferente e n\u00e3o seguirem os passos da explica\u00e7\u00e3o causal dedutiva (p. 77).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois que ele saiu de casa, j\u00e1 voltou quatro vezes. Qualquer briga, ele vai embora de novo. Fica nesse eterno vai e volta, e ele quer voltar de novo. Se ele a \u201ccoloca na Justi\u00e7a\u201d, segundo Camila, a culpa \u00e9 de Carolina. Ela sente que ele n\u00e3o quer fazer isso, e a responsabilidade n\u00e3o \u00e9 dele. \u00c9 da outra. Ela, talvez por am\u00e1-lo, defende-o de tudo e de todos, justifica todas as suas atitudes. Ela diz que ele \u00e9 meio perturbado, mas que gosta desse jeito \u201cperturbadinho\u201d dele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Conclus\u00f5es<\/p>\n<p><em>Mirem-se no exemplo<br \/>\nDaquelas mulheres de Atenas<br \/>\nVivem pros seus maridos<br \/>\nOrgulho e ra\u00e7a de Atenas<\/em><\/p>\n<p align=\"right\">(Mulheres de Atenas \u2013 Chico Buarque e Augusto Boal)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a an\u00e1lise destas quatro entrevistas, cabe-nos agora recolher os aspectos levantados no sentido de nos aproximarmos dos sentidos que estas mulheres d\u00e3o para sua separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar de todas as conquistas do movimento feminista a partir de meados do s\u00e9culo passado, muitas mulheres ainda hoje d\u00e3o evid\u00eancias de submeter-se a uma organiza\u00e7\u00e3o patriarcal da fam\u00edlia. Dentre as nossas entrevistadas, o exemplo t\u00edpico est\u00e1 na hist\u00f3ria de Joana, que abandonou o trabalho e sufocou sua vontade de estudar para agradar ao marido e cuidar da casa. E todas as mulheres ouvidas possuem caracter\u00edsticas daquelas <em>Mulheres de Atenas<\/em>. Elas se mostraram \u201cbatalhadoras\u201d, \u201cguerreiras\u201d, \u201cfaziam tudo pela fam\u00edlia\u201d. Contudo, seus maridos n\u00e3o s\u00e3o motivo de orgulho para elas, que articulam cr\u00edticas sistem\u00e1ticas em rela\u00e7\u00e3o a eles. No discurso delas, todos foram apresentados como homens voltados para si, mais preocupados com o seu conforto do que com a fam\u00edlia. Isto \u00e9 visto por elas como uma fraqueza deles: elas, as fortes, eles, os fracos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desta constata\u00e7\u00e3o, presente nas quatro entrevistas, constru\u00edmos a hip\u00f3tese de que essas mulheres fazem uso do mecanismo ps\u00edquico de identifica\u00e7\u00e3o projetiva, tal como descrito por Melanie Klein (1946), atrav\u00e9s do qual projetam no companheiro seus aspectos mais fracos e dependentes, cultuando de si a imagem de fortes. Se for assim, essas mulheres talvez tenham precisado, do ponto de vista ps\u00edquico, desses homens. Mas se ficaram casadas a partir dessa necessidade, o que levou \u00e0 separa\u00e7\u00e3o? Ao que tudo indica, a situa\u00e7\u00e3o, ao longo dos anos, foi se tornando insustent\u00e1vel para elas. O ressentimento m\u00fatuo provoca brigas que se tornam cada vez mais frequentes, o casal j\u00e1 n\u00e3o se reconhece mais e a mulher toma a iniciativa de se separar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Pincus e Dare (1981), nos relacionamentos duradouros h\u00e1 geralmente uma complementariedade de necessidades, anseios e medos. Em nossos casos, a mulher forte parece precisar do homem fraco. Nos termos destes autores, h\u00e1 um \u201ccontrato secreto do casamento\u201d. Esse contrato n\u00e3o \u00e9 verbalizado e \u00e9, em grande parte, inconsciente. Tal como as raz\u00f5es que levam algu\u00e9m a se apaixonar por outra pessoa, bem como os motivos para se separar. Com isso, n\u00e3o podemos apontar, a partir das entrevistas realizadas, as causas da separa\u00e7\u00e3o dessas mulheres. Podemos apenas dar-lhes voz, e ouvir o que t\u00eam a dizer sobre isto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para todas, o processo de separa\u00e7\u00e3o parece ter sido muito doloroso. Uma em especial, Norma, demonstrou muita raiva do ex-marido, raiva que se transformou em rancor. O sentimento de raiva est\u00e1 muito ligado \u00e0 tristeza, \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o, e esta parece ter sido a forma que ela encontrou de exteriorizar a sua dor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro fator que, segundo as entrevistadas, influenciou nos destinos da vida do casal, foi a chegada dos filhos. Estes passaram a ser prioridade na vida destas mulheres, que muitas vezes acabaram, segundo elas mesmas, \u201cesquecendo\u201d-se do marido. O beb\u00ea exige muita aten\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, e \u00e9 comum que ela inclusive pare de trabalhar para cuidar do seu filho. \u00c9 claro que a lei assegura a licen\u00e7a maternidade, podendo esta chegar a at\u00e9 seis meses. Mas, ser\u00e1 que seis meses s\u00e3o suficientes? Por anos a crian\u00e7a precisar\u00e1 de um adulto, ou de um irm\u00e3o mais velho, para tomar conta dela. Muitas mulheres, quando poss\u00edvel, optam por abandonar a vida profissional para criar os filhos. E, como vimos em alguns dos relatos, muitas vezes elas tamb\u00e9m abandonam a vida de casal. Perdem a vaidade e passam a precisar muito mais de um companheiro que as apoie e entenda do que de um homem que elas sentem que compete com os filhos.<\/p>\n<p>Algumas das nossas entrevistadas tamb\u00e9m encontraram dificuldades devido a um relacionamento anterior do marido. Deparamo-nos com um caso, o de Joana, em que as filhas do primeiro casamento dele, segundo ela, fizeram de tudo para atrapalhar o relacionamento do pai. Esse relacionamento parece s\u00f3 ter durado algum tempo &#8211; nove anos \u2013 pela atitude submissa de Joana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas, pelo menos essas mulheres, ainda se casam para sempre. E essa ideia faz com que muita coisa seja suport\u00e1vel. Brigas, desrespeito, trai\u00e7\u00e3o. As mulheres, segundo elas mesmas, parecem se esfor\u00e7ar mais para que o casamento d\u00ea certo, cuidam dos filhos, filhos que \u00e0s vezes nem s\u00e3o seus, trabalham dentro e fora de casa; em resumo, elas parecem sacrificar-se mais.<\/p>\n<p>De acordo com Freud (1924), uma das formas de apresenta\u00e7\u00e3o do masoquismo est\u00e1 na pr\u00f3pria natureza feminina. O masoquismo feminino baseia-se inteiramente no masoquismo prim\u00e1rio, er\u00f3geno, do prazer no sofrimento. Da\u00ed uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o para a disposi\u00e7\u00e3o das mulheres em se sacrificarem mais. Assim elas tamb\u00e9m podem ser vistas como hero\u00ednas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, embora elas se mostrem como hero\u00ednas, elas tamb\u00e9m necessitam de prote\u00e7\u00e3o. Essa foi uma queixa comum, elas queriam que seu homem as protegesse. Mas ao se mostrarem como \u201cpau pra toda obra\u201d, elas parecem passar a mensagem de n\u00e3o precisarem de prote\u00e7\u00e3o. Elas se mostram fortes, e uma pessoa forte serve para proteger, n\u00e3o para ser protegida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra queixa comum foi a da desvaloriza\u00e7\u00e3o. Segundo elas, elas continuariam fazendo todo o sacrif\u00edcio se o companheiro as valorizasse, se eles reconhecessem tudo o que elas faziam. De acordo com elas, eles estavam muito preocupados consigo mesmos para enxergarem a \u201csuper mulher\u201d que estava ao seu lado. Enquanto elas faziam tudo, eles estavam confort\u00e1veis, ent\u00e3o estava tudo bem.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que estava tudo bem mesmo? Para responder essa e outras perguntas, pretendemos continuar com essa pesquisa, agora entrevistando homens. Como ser\u00e1 que eles vivenciam a separa\u00e7\u00e3o? Al\u00e9m de saber o outro lado da hist\u00f3ria, pretendemos fazer uma compara\u00e7\u00e3o dos discursos tomando como refer\u00eancia quest\u00f5es de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fen\u00f4meno estudado em nossa pesquisa \u2013 a separa\u00e7\u00e3o de casais \u2013 requer uma vis\u00e3o interdisciplinar que, com certeza, n\u00e3o se limita \u00e0 Psicologia ou ao Direito, devendo tamb\u00e9m dialogar com outras \u00e1reas das Ci\u00eancias Humanas. Neste trabalho, procuramos trazer algumas contribui\u00e7\u00f5es que os estudos de Psican\u00e1lise de Casal permitem fazer, ao adentrar aspectos da din\u00e2mica interps\u00edquica do casal que podem levar ao seu rompimento. Consideramos que estes aspectos devem dialogar com os achados de outros autores, quando levantam aspectos sociais, culturais e econ\u00f4micos que podem levar \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o do casamento. A separa\u00e7\u00e3o \u00e9, neste sentido, um fen\u00f4meno multifatorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro aspecto importante \u00e9 que, por se tratar a separa\u00e7\u00e3o do casal de uma quest\u00e3o que gera sofrimento a todos os envolvidos, o seu estudo durante a forma\u00e7\u00e3o em Psicologia tamb\u00e9m \u00e9 de suma import\u00e2ncia para auxiliar o futuro profissional, quando se depara com pessoas nessa situa\u00e7\u00e3o. A oportunidade de contato do estudante de Psicologia com a \u00e1rea jur\u00eddica (bem como com outras \u00e1reas do conhecimento) e com um servi\u00e7o de utilidade p\u00fablica, como o prestado pelo Departamento Jur\u00eddico XI de Agosto, \u00e9 fundamental para o seu crescimento pessoal e profissional.<\/p>\n<div>\n<div id=\"ftn4\"><\/div>\n<div id=\"ftn8\"><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div id=\"ftn2\">\n<p><strong><br \/>\nRefer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A B\u00edblia \u2013 Tradu\u00e7\u00e3o ecum\u00eanica (1995). S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola e Paulinas.<\/p>\n<p>Bucher, J. S. N. F. (1996, setembro). V\u00ednculo conjugal: da uni\u00e3o \u00e0 separa\u00e7\u00e3o e o controle m\u00fatuo do destino. In T. F. CARNEIRO, Rela\u00e7\u00e3o amorosa, casamento, separa\u00e7\u00e3o e terapia de casal. <em>Colet\u00e2neas da ANPEPP (Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Pesquisa e P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia), 1, 1<\/em>, 59-70.<\/p>\n<p>Carneiro, T. F. (1998) Casamento contempor\u00e2neo: o dif\u00edcil conv\u00edvio da individualidade com a conjugalidade. <em>Psicologia Reflex\u00e3o e Cr\u00edtica, 11, 2.<\/em><\/p>\n<p>Carneiro, T. F. (2003) Separa\u00e7\u00e3o: o doloroso processo de dissolu\u00e7\u00e3o da conjugalidade. <em>Estudos de Psicologia, 8, 3, <\/em>pp. 367-374.<\/p>\n<p>Caruso, I. (1989)<em> A separa\u00e7\u00e3o dos amantes. <\/em>S\u00e3o Paulo: Diadorim Cortez.<\/p>\n<p>Farkas, M. (2003) O luto de uma separa\u00e7\u00e3o. In G. C. GROENINGA e R. C.\u00a0 PEREIRA (coord.) <em>Direito de fam\u00edlia e psican\u00e1lise \u2013 rumo a uma nova epistemologia<\/em> (pp. 365-370).\u00a0 Rio de Janeiro: Imago.<\/p>\n<p>Folha de S\u00e3o Paulo. Caderno Especial: 30 anos da Lei do Div\u00f3rcio. Edi\u00e7\u00e3o de 24 de julho de 2007.<br \/>\nFreud, S. (1924). <em>O problema econ\u00f4mico do masoquismo.<\/em><\/p>\n<p>IBGE (2006). <em>Anu\u00e1rio Estat\u00edstico Brasileiro.<\/em><\/p>\n<p>IBGE (2007). <em>Anu\u00e1rio Estat\u00edstico Brasileiro.<\/em><\/p>\n<p>Magalh\u00e3es Filho, J. R. Mulher protestante: mulher, m\u00e3e e trabalhadora. Recuperado em 08 de agosto de 2009: <span style=\"text-decoration: underline;\">http:\/\/www.jrmf.pro.br\/mulher_protestante.pdf.<\/span><\/p>\n<p>Mandelbaum, B. (2008). <em>Psican\u00e1lise da fam\u00edlia.<\/em> S\u00e3o Paulo: Casa do Psic\u00f3logo.<\/p>\n<p>Moraes, C. G. A. (1989) Separa\u00e7\u00e3o conjugal: um estudo das poss\u00edveis causas e alguns efeitos sobre um grupo de casais e filhos. Tese de doutorado, Instituto de Psicologia da USP, 236p.<\/p>\n<p>M\u00fcller, A. W. Aspectos sist\u00eamicos da separa\u00e7\u00e3o. Florian\u00f3polis. Recuperado em 05 fevereiro 2008: <a href=\"http:\/\/www.awmueller.com\/terapiafamiliarcasal\/monog.htm\">http:\/\/www.awmueller.com\/terapiafamiliarcasal\/monog.htm<\/a>.<\/p>\n<p>Pincus, L. e Dare, C. (1981). O contrato secreto do casamento. In L. PINCUS e C. DARE, <em>Psicodin\u00e2mica da fam\u00edlia <\/em>(pp. 34-48). Porto Alegre: Artes M\u00e9dicas.<\/p>\n<p>Pinto, E. B. (2004). A pesquisa qualitativa em psicologia cl\u00ednica.<em> Psicologia USP, 15(1\/2), 71-80.<\/em><\/p>\n<p>Porreca, W. (2004). Fam\u00edlias recompostas: casais cat\u00f3licos em segunda uni\u00e3o. Tese de mestrado, Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras de Ribeir\u00e3o Preto da USP, 135p.<\/p>\n<p>Prado, M. C. C. A. (1996, setembro). Uma introdu\u00e7\u00e3o aos q\u00fciproqu\u00f3s conjugais. In T. F. CARNEIRO, Rela\u00e7\u00e3o amorosa, casamento, separa\u00e7\u00e3o e terapia de casal. <em>Colet\u00e2neas da ANPEPP (Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Pesquisa e P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia), 1, 1,<\/em> 17-24.<\/p>\n<p>Puget, J. e Berenstein, I. (1993). <em>Psican\u00e1lise do casal.<\/em> Porto Alegre: Artes M\u00e9dicas.<\/p>\n<p>Waddel, M. (1994). A fam\u00edlia e sua din\u00e2mica. In S. BOX et al. (org). <em>Psicoterapia com fam\u00edlias: uma abordagem Psicanal\u00edtica. <\/em>S\u00e3o Paulo: Casa do Psic\u00f3logo.<\/p>\n<div><\/div>\n<div id=\"ftn5\"><a id=\"_ftn1\" title=\"title\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"> <\/a><sup>1<\/sup> H\u00e1 pouco tempo, a separa\u00e7\u00e3o judicial no Brasil podia ser requerida logo ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o de fato, e n\u00e3o dissolvia o v\u00ednculo conjugal. Ou seja, as partes estavam separadas, mas ainda n\u00e3o podiam se casar novamente. Essa possibilidade adv\u00e9m com o div\u00f3rcio, que podia ser requerido dois anos ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o de fato ou um ano ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o judicial (Artigo 1580 e par\u00e1grafos do C\u00f3digo Civil e artigo 226 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal). Em 2010, foi aprovada Emenda Constitucional com o fim de instituir o div\u00f3rcio direto no Brasil, abolindo o instituto da separa\u00e7\u00e3o. Apesar desta ter sido a inten\u00e7\u00e3o do legislador, esse assunto ainda est\u00e1 sendo bastante discutido no meio jur\u00eddico.<\/div>\n<div id=\"ftn6\">\n<p><a id=\"_ftn2\" title=\"title\" href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"> <\/a><sup>2<\/sup> Para uma discuss\u00e3o mais profunda sobre as transforma\u00e7\u00f5es do casamento e da fam\u00edlia na sociedade ocidental ao longo do s\u00e9c. XX, ver E. Roudinesco, <em>A fam\u00edlia em desordem. <\/em>RJ: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn7\">\n<p><a id=\"_ftn3\" title=\"title\" href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"> <\/a><sup>3<\/sup> De acordo com o autor, a solid\u00e3o feminina inclui as solteiras, as descasadas e as vi\u00favas (2005, p. 68).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn9\">\n<p><a id=\"_ftn4\" title=\"title\" href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"> <\/a><sup>4<\/sup> Usaremos o termo \u201csepara\u00e7\u00e3o\u201d em seu sentido lato, ou seja, desconsiderando as diferen\u00e7as que existem no meio jur\u00eddico entre separa\u00e7\u00e3o e div\u00f3rcio.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn10\">\n<p><a id=\"_ftn5\" title=\"title\" href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"> <\/a><sup>5<\/sup> Neste caso, foi muito dif\u00edcil precisar as datas, se ela come\u00e7ou o outro relacionamento antes ou depois de 2002. Ela diz que eles ficaram juntos at\u00e9 2002, tendo a separa\u00e7\u00e3o judicial ocorrido em 2003. No entanto, um pouco mais adiante, ela conta que disse para o ex-marido que \u201ch\u00e1 mais de cinco anos que ningu\u00e9m ta casado\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote1\"><\/div>\n<div id=\"sdfootnote4\"><\/div>\n<div id=\"sdfootnote10\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do altar ao f\u00f3rum: a vis\u00e3o de mulheres separadas sobre os motivos da separa\u00e7\u00e3o conjugal From altar to the court: divorced women&#8217;s view about the motives of matrimonial separation Joyce Cristina de Oliveira Rezende Universidade de S\u00e3o Paulo jocris@hotmail.com Belinda Piltcher Haber Mandelbaum Universidade de S\u00e3o Paulo belmande@usp.br RESUMO O objetivo da presente pesquisa foi [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":11,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[13,279],"tags":[],"class_list":["post-4873","page","type-page","status-publish","hentry","category-publicacoes","category-revista-transformacoes"],"acf":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4873","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4873"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4873\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24660,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4873\/revisions\/24660"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4873"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4873"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4873"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}