{"id":4874,"date":"2014-07-03T19:19:01","date_gmt":"2014-07-03T19:19:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/?p=4874"},"modified":"2018-09-13T14:43:45","modified_gmt":"2018-09-13T17:43:45","slug":"v5n1a4","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/v5n1a4\/","title":{"rendered":"V5N1A4"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong>Para uma genealogia do superego: contribui\u00e7\u00f5es da reflex\u00e3o freudiana da cultura<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><em>For a genealogy of the superego: contribuitions of the freudian reflection of culture<\/em><\/p>\n<div>\n<div id=\"ftn3\">\n<p><strong><br \/>\nMaria Vilela Pinto Nakasu<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"mailto:marianakasu@hotmail.com\">marianakasu@hotmail.com<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Universidade de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"left\"><strong><br \/>\nRESUMO<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">O objetivo da presente pesquisa foi oferecer respostas, sob a \u00f3tica de mulheres divorciadas ou que est\u00e3o em processo de div\u00f3rcio, \u00e0 pergunta: quais motivos levaram \u00e0 separa\u00e7\u00e3o do casal? Para tanto, consideramos necess\u00e1rio saber tamb\u00e9m dos motivos que levaram ao casamento &#8211; em que circunst\u00e2ncias se deu, quais foram seus frutos &#8211; e conhecer aspectos da hist\u00f3ria das entrevistadas. Estes dados foram colhidos por meio de entrevistas semi-estruturadas com quatro mulheres, gravadas com o consentimento das entrevistadas. Partimos da hip\u00f3tese, baseada em literatura sobre o tema no campo da Psican\u00e1lise de Casal e Fam\u00edlia, de que as motiva\u00e7\u00f5es que levam as pessoas a se casarem e se divorciarem s\u00e3o, ao menos em parte, inconscientes. Por isto, \u00e9 dif\u00edcil apontar com clareza as causas de separa\u00e7\u00e3o, mas identificamos, atrav\u00e9s das falas destas mulheres, din\u00e2micas no casal que parecem ter contribu\u00eddo para o insucesso do matrim\u00f4nio. Al\u00e9m das particularidades de cada hist\u00f3ria, todas as mulheres apresentaram-se como \u201cbatalhadoras\u201d, \u201ccomo as que fazem tudo\u201d, enquanto os homens foram criticados por elas como sendo mais preocupados consigo mesmo do que com a fam\u00edlia. Pretendemos continuar a pesquisa entrevistando homens divorciados ou em processo de div\u00f3rcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\"><strong>Palavras-Chave:\u00a0<\/strong>psican\u00e1lise; superego; culpa; cultura; metapsicologia.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"left\"><strong><br \/>\nABSTRACT<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">In <em>The<\/em><em> Ego and the Id<\/em> (Freud, 1923\/1989) the superego is considered heir to the Oedipus complex and to the id. The analysis of culture holds that Freud seems to significantly expand this definition. The operations of personification of the superego in culture, exemplifying the critical instance in mythical figures, as merited by the new cultural phenomena to the concept of superego seem to result in expansion of its meaning. The cultural sphere is within the scope of this work, considered capital in the drafting of the Freudian superego. This ball and anticipates its major outlines mechanisms and serves as a magnifier of some invisible psychic operations from the perspective of individual psychological factors.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\"><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><strong>Key-Words:\u00a0<\/strong><\/span><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\">psychoanalysis; superego; guilt; culture; metapsychology.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"ftn4\">\n<p style=\"text-align: right;\"><em><br \/>\nSomos \u201cvividos\u201d por poderes ignotos {unbekannt}, ingovern\u00e1veis <\/em>(Groddeck, 1969).<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de superego adquire com <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (Freud, 1930\/2010) novos contornos. Da reflex\u00e3o freudiana sobre o desenvolvimento da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica como formas de controlar a natureza resulta a opini\u00e3o acerca do descontentamento do homem com o estado de cultura e do desenvolvimento cultural como um importante ingrediente na limita\u00e7\u00e3o da liberdade humana. Ap\u00f3s assumir que a ren\u00fancia pulsional exigida pela cultura torna o homem infeliz, Freud (1930\/2010) conclui ser a puls\u00e3o de morte o maior obst\u00e1culo enfrentado pela civiliza\u00e7\u00e3o. O superego \u00e9, com efeito, situado como o principal parceiro da civiliza\u00e7\u00e3o na luta contra a puls\u00e3o de morte e, nesse momento, tem-se a impress\u00e3o de que Freud \u201caplica\u201d o conceito metapsicol\u00f3gico de superego ao dom\u00ednio da cultura. No entanto, a reflex\u00e3o cultural apresentada em <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (Freud, 1930\/2010) parece contribuir com a reflex\u00e3o metapsicol\u00f3gica, e a concep\u00e7\u00e3o de superego, com efeito, parece se alongar com as contribui\u00e7\u00f5es deste trabalho.<\/p>\n<p>O conceito de superego \u00e9 introduzido em \u00a0<em>El yo y el ello<\/em> (Freud, 1923\/1989) e situado, ao lado do id e do ego, como a inst\u00e2ncia moral da personalidade, herdeiro do complexo de \u00c9dipo e representante das leis e dos ideais do sujeito. Na verdade, o superego, em sua face ideal, imp\u00f5e ao eu modelos de conduta e, em sua face legisladora, obriga o eu a segui-los, podendo retali\u00e1-lo mediante severas puni\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m de se originar da identifica\u00e7\u00e3o com a inst\u00e2ncia parental e representar esta inst\u00e2ncia frente ao ego, o superego est\u00e1 em contato direto com as puls\u00f5es de morte, descende das primitivas identifica\u00e7\u00f5es do id. O que confere ao superego seu car\u00e1ter r\u00edgido e severo \u00e9 justamente sua g\u00eanese, baseada nas identifica\u00e7\u00f5es que, por implicarem a desfus\u00e3o pulsional, liberam puls\u00f5es de morte sobre o superego. Al\u00e9m disso, para operar, o psiquismo precisa sujeitar as puls\u00f5es de morte e o saldo mort\u00edfero desta sujei\u00e7\u00e3o resulta no incremento da agressividade supereg\u00f3ica.<\/p>\n<p><em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (Freud, 1930\/2010) confere ao superego um alcance muito maior do que aquele conferido pelos textos anteriores. Freud reconhece que a cultura exige que a agress\u00e3o seja introjetada e interiorizada, agress\u00e3o que, por sua vez, \u00e9 enviada ao superego, produzindo o sentimento de culpa. O sentimento de culpa, considerado respons\u00e1vel pelo controle que a cultura exerce sobre o indiv\u00edduo, une a discuss\u00e3o cultural \u00e0 discuss\u00e3o metapsicol\u00f3gica. A passagem de uma discuss\u00e3o \u00e0 outra se d\u00e1, mais precisamente, no momento em que Freud se interroga sobre a g\u00eanese desse sentimento. Da\u00ed em diante, o autor empreende uma longa discuss\u00e3o que atravessa de ponta a ponta a teoria do \u00c9dipo e a teoria das puls\u00f5es e na qual dois tempos s\u00e3o pensados: antes e depois do complexo edipiano, antes e depois da edifica\u00e7\u00e3o do superego ( Freud, 1930\/2010).<\/p>\n<p>No texto sobre o mal-estar do homem moderno Freud introduz uma nova explica\u00e7\u00e3o para a g\u00eanese do superego baseando-se na rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia da crian\u00e7a com os pais, rela\u00e7\u00e3o que seria, ap\u00f3s o decl\u00ednio do \u00c9dipo, transposta para a rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia do ego junto ao superego<a id=\"_ftnref1\" title=\"title\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"> <\/a>1. Em seguida, Freud diferencia consci\u00eancia moral, de sentimento de culpa, de necessidade de castigo e de arrependimento de maneira sucinta. Ele atribui \u00e0 consci\u00eancia moral a face agressiva e rude do superego. Sentimento de culpa \u00e9 a tens\u00e3o vivida pelo ego diante das exig\u00eancias supereg\u00f3icas e necessidade de castigo \u00e9 a forma pela qual o sentimento de culpa \u00e9 exteriorizado ( Freud, 1930\/2010).Esse momento do texto marca, por assim dizer, o ponto alto da discuss\u00e3o metapsicol\u00f3gica em torno da no\u00e7\u00e3o de superego. A discuss\u00e3o \u00e9 francamente te\u00f3rica em um texto que parte, inicialmente, de teses a respeito da sustentabilidade da cultura diante das amea\u00e7as das puls\u00f5es de morte. O movimento ao qual chamamos aten\u00e7\u00e3o \u00e9, precisamente, este: da teoria da cultura para a metapsicologia.<\/p>\n<p>Tal movimento, da an\u00e1lise da cultura para a elabora\u00e7\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o metapsicol\u00f3gica de superego, aqui identificado em <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (Freud, 1930\/2010), n\u00e3o revela somente um aspecto ret\u00f3rico ou estil\u00edstico da obra de Freud, mas aponta para uma quest\u00e3o de ordem epistemol\u00f3gica extremamente relevante, que diz respeito \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es da reflex\u00e3o cultural para a elabora\u00e7\u00e3o das concep\u00e7\u00f5es metapsic\u00f3gicas. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que a cl\u00ednica \u00e9 o terreno privilegiado para o desenvolvimento da metapsicologia, no entanto, ela n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico campo indutor e produtor de conceitos. As reflex\u00f5es metapsicol\u00f3gica e cultural parecem caminhar juntas e se influenciar mutuamente. A discuss\u00e3o aqui realizada a respeito da concep\u00e7\u00e3o de superego se prop\u00f5e a valorizar a concep\u00e7\u00e3o freudiana de cultura e retir\u00e1-la do lugar de mera aplica\u00e7\u00e3o das teses metapsicol\u00f3gicas ou da \u201cpsican\u00e1lise aplicada\u201d. As formula\u00e7\u00f5es sobre a cultura parecem portar a mesma legitimidade das constru\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas como fornecedoras de material concreto ao empenho de Freud em tornar veross\u00edmeis suas constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas. Por isso, parecem participar significativamente do processo de elabora\u00e7\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o de superego.<\/p>\n<p>Isto dito, este trabalho se prop\u00f5e a sustentar a ideia segundo a qual a no\u00e7\u00e3o metapsicol\u00f3gica de superego \u00e9 tribut\u00e1ria da reflex\u00e3o freudiana sobre a cultura. Tr\u00eas textos ser\u00e3o trabalhados \u00a0<em>T\u00f3tem y tab\u00fa<\/em>. \u00a0(Freud, 1913\/1989), \u00a0<em>El humor<\/em> (Freud, 1927\/1989) e <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (Freud, 1930\/2010). No primeiro texto ser\u00e3o apontados os germes do conceito de superego por meio da an\u00e1lise do tabu. Na discuss\u00e3o de \u00a0<em>El humor<\/em> (Freud, 19271989) ser\u00e3o examinadas as teses que evidenciam um lado am\u00e1vel do superego junto ao ego e, finalmente, em <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (Freud, 1930\/2010) ser\u00e3o apontados os acr\u00e9scimos que tornam o conceito de superego mais amplo e rico. Ao fim e ao cabo, acredita-se ter elementos para sustentar que, em se tratando da concep\u00e7\u00e3o de superego, a reflex\u00e3o freudiana da cultura parece agregar sentidos.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nAn\u00e1lise do tabu: germes do superego<\/strong><\/p>\n<p>Uma vis\u00e3o panor\u00e2mica da hist\u00f3ria do superego mostra que, aos poucos, o conceito metapsicol\u00f3gico sai do campo dos efeitos patol\u00f3gicos que a esfera cl\u00ednica p\u00f5e em evid\u00eancia para entrar, com <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (Freud, 1930\/2010), definitivamente no campo da cultura; definitivamente, pois parte do esfor\u00e7o de \u00a0<em>Psicolog\u00eda de las massas y an\u00e1lisis del yo<\/em> (Freud, 1921\/1989) consiste justamente em esclarecer de que forma o ideal de ego pode ser pensado no estabelecimento do la\u00e7o social. Ora, com <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (Freud, 1930\/ 2010) o superego deixa de ser apenas uma forma\u00e7\u00e3o herdeira do complexo de \u00c9dipo e respons\u00e1vel pela ren\u00fancia que o ego deve fazer das puls\u00f5es, ele se torna um dos principais agentes respons\u00e1veis pelo equil\u00edbrio energ\u00e9tico\/pulsional do homem em estado de civiliza\u00e7\u00e3o. Mais precisamente, a inst\u00e2ncia cr\u00edtica torna-se a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade para que o \u201ccaos\u201d n\u00e3o se instale na sociedade, para que a puls\u00e3o de morte n\u00e3o seja exteriorizada de forma irrestrita, colocando em risco as institui\u00e7\u00f5es e os v\u00ednculos rec\u00edprocos entre os homens. Entre a publica\u00e7\u00e3o de \u00a0<em>El yo y el ello <\/em>(Freud, 1923\/1989), <em>\u00a0El problema econ\u00f3mico del masoquismo <\/em>(Freud, 1924\/1989) e <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>(Freud, 1930\/2010) parece haver um certo deslocamento do conceito, antes restrito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre aparelho ps\u00edquico e produ\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica, para a rela\u00e7\u00e3o entre aparelhos ps\u00edquicos e equil\u00edbrio pulsional da cultura. O superego desloca-se para um plano macro no qual \u00e9 pensado como um dispositivo regulador da destrutividade humana.<\/p>\n<p>Uma obje\u00e7\u00e3o poderia ser feita nesse sentido: \u00a0<em>T\u00f3tem y tab\u00fa<\/em>.(Freud, 1913\/1989)n\u00e3o anuncia justamente isso? Que a consci\u00eancia moral imp\u00f5e as restri\u00e7\u00f5es ao sujeito e o obriga a seguir as normas? Que dela depende a ordem? Que ela institui a lei? De certo modo sim. <em>\u00a0T\u00f3tem y tab\u00fa<\/em>.inaugura um movimento no processo de teoriza\u00e7\u00e3o do superego no qual o nascimento da moral est\u00e1 vinculado a um acontecimento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Em \u00a0<em>T\u00f3tem y tab\u00fa<\/em>.(Freud, 1913\/1989), a inst\u00e2ncia interna ao sujeito deve ser respons\u00e1vel pela ren\u00fancia que este deve fazer de sua agressividade. Os alicerces da no\u00e7\u00e3o de superego encontram-se no texto antropol\u00f3gico na medida em que lan\u00e7ar luz sobre o tabu resulta no esclarecimento da consci\u00eancia moral. A afirma\u00e7\u00e3o de Freud (1913\/1989) que a an\u00e1lise do tabu pode esclarecer o \u201cimperativo categ\u00f3rico\u201d, isto \u00e9, a consci\u00eancia moral, aponta justamente para um tra\u00e7o da investiga\u00e7\u00e3o freudiana que insistimos em sublinhar, a saber, a utiliza\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise de fatos da cultura como mat\u00e9ria-prima na elabora\u00e7\u00e3o e fundamenta\u00e7\u00e3o de alguns conceitos metapsicol\u00f3gicos. Aqui, um conceito extra\u00eddo da esfera cultural &#8211; o tabu \u2013 \u00e9 pensado como meio para a elucida\u00e7\u00e3o de um fen\u00f4meno ps\u00edquico. \u00c9 nesse sentido que compreendemos a afirma\u00e7\u00e3o de Mezan (1997, p. 546): \u201cComparar a Psicologia dos Povos, segundo a antropologia social, com a psicologia dos neur\u00f3ticos, revelada pela psican\u00e1lise para lan\u00e7ar luz em pontos obscuros das duas ci\u00eancias; esta \u00e9 a meta de <em>\u00a0T\u00f3tem y tab\u00fa<\/em>.(1913)\u201d.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao \u201cimperativo categ\u00f3rico\u201d, termo utilizado por Freud para designar a consci\u00eancia moral, parece estar impl\u00edcita a ideia de um dever que vale para todas as a\u00e7\u00f5es morais, que \u00e9 imperativo e, portanto, n\u00e3o admite d\u00favidas. O \u201cimperativo categ\u00f3rico\u201d kantiano designa uma lei moral interiorizada que se submete \u00e0s m\u00e1ximas morais<a id=\"_ftnref2\" title=\"title\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"> <\/a>2. N\u00e3o se trata, aqui, de aprofundar a discuss\u00e3o a respeito das m\u00e1ximas morais, mas apenas sublinhar que o que \u00e9 interiorizado \u00e9 um dever em que toda a\u00e7\u00e3o deve estar em conformidade com fins morais. Poder\u00edamos supor que, da mesma forma que o tabu se baseia em leis internas e utiliza meios internos de puni\u00e7\u00e3o, o \u201cimperativo categ\u00f3rico\u201d, no sentido anunciado por Freud, existiria fundamentalmente no registro interno como dever imperativo, como dever diante de certas leis internas que, uma vez violadas, resultam em uma puni\u00e7\u00e3o, mais uma vez no registro interno<a id=\"_ftnref3\" title=\"title\" href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"> <\/a> 3. Nas palavras de Freud, existiria \u201calgo interno assegurador\u201d que faria o homem prescindir da amea\u00e7a externa de castigo. Ele diz: \u201cN\u00e3o h\u00e1 amea\u00e7a externa de castigo porque existe algo interno assegurador &#8211; uma consci\u00eancia moral; \u00e9 que a viola\u00e7\u00e3o levaria a uma desgra\u00e7a insuport\u00e1vel\u201d (Freud, 1913, p. 37). Entre os obsessivos, estaria presente uma certeza interna de que a viola\u00e7\u00e3o de uma ordem emitida pela consci\u00eancia levaria a uma desgra\u00e7a insuport\u00e1vel. Tanto no caso do tabu como no caso da neurose obsessiva, violar seria equivalente a realizar impulsos tidos como proibidos.<\/p>\n<p>De que impulsos se trata? Sobretudo dos impulsos marcados pelo signo da destrutividade. Como sugere Gabbi Jr. (1991), Freud situa o desejo de morte no cerne da produ\u00e7\u00e3o do sentimento de culpa.<\/p>\n<p style=\"margin-left: 120px;\">A realiza\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o de desejo \u00e9 acompanhada de um sentimento de culpa como se, em algum sentido, f\u00f4ssemos sempre respons\u00e1veis pela sua realiza\u00e7\u00e3o. O que tamb\u00e9m testemunharia a favor da presen\u00e7a da ambival\u00eancia emocional, ou seja, haveria um desejo consciente que se op\u00f5e a outro, inconsciente. &#8230; \u00a0Ora, que desejo \u00e9 esse? O texto mais uma vez insinuou que ele \u00e9 da ordem de um desejo de morte contra aquele que se relaciona de alguma maneira com o pai da vida infantil (Gabbi, Jr , 1991, p. 146).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a inibi\u00e7\u00e3o da agressividade em \u00a0<em>T\u00f3tem y tab\u00fa<\/em>. (Freud, 1913\/1989)\u00e9 consequ\u00eancia direta do parric\u00eddio, do \u201cato inaugural\u201d da sociedade, e limita-se \u00e0 agressividade que foi atuada. Em <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (Freud, 1930\/2010), diferentemente, o superego inibe a puls\u00e3o de morte n\u00e3o por um fato hist\u00f3rico anterior \u2013 o parric\u00eddio -, mas devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es intr\u00ednsecas ao pr\u00f3prio funcionamento do psiquismo, isto \u00e9, ao fato de o aparelho ser obrigado a metabolizar uma energia inata e inerente ao ser humano, e pelo fato de o superego colocar-se a servi\u00e7o das exig\u00eancias culturais e da sobreviv\u00eancia da cultura. Em 1913, Freud n\u00e3o havia formulado o conceito de superego, nem tampouco a ideia de que o aparelho ps\u00edquico \u00e9 confrontado com a tarefa de escoar parte da puls\u00e3o mort\u00edfera para fora e destinar a parcela que sobrou para uma inst\u00e2ncia ps\u00edquica encarregada de representar as leis e os ideais. Neste momento da produ\u00e7\u00e3o freudiana temos apenas a elabora\u00e7\u00e3o de uma hip\u00f3tese que coloca o \u00f3dio parricida em evid\u00eancia.<\/p>\n<p>No entanto, sabe-se \u00a0que, em \u00a0<em>T\u00f3tem y tab\u00fa<\/em>. (Freud, 1913\/1989), a consci\u00eancia moral entra na mesma categoria das \u201cforma\u00e7\u00f5es reativas\u201d e o tabu \u00e9 considerado uma forma\u00e7\u00e3o desta ordem, destinado a impedir a realiza\u00e7\u00e3o de atos intensamente e inconscientemente desejados<a id=\"_ftnref4\" title=\"title\" href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"> <\/a>4. A ideia de que a consci\u00eancia moral emite ordens ao sujeito nos remete a uma rela\u00e7\u00e3o de exterioridade em rela\u00e7\u00e3o ao ego, o que antecipa a tese t\u00f3pica que separa ego de superego. Ao afirmar que a consci\u00eancia moral \u201cest\u00e1 certa de si mesma\u201d (p.33). Freud d\u00e1 ind\u00edcios de sua independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a outras forma\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas &#8211; a consci\u00eancia moral n\u00e3o precisa de nenhuma autoriza\u00e7\u00e3o para agir, o que nos remete diretamente \u00e0 tir\u00e2nica rela\u00e7\u00e3o que o superego estabelecer\u00e1 junto ao ego. Al\u00e9m disso, pensar que a consci\u00eancia moral \u201cest\u00e1 certa de si mesma\u201d nos reporta \u00e0 contund\u00eancia das ordens e reprova\u00e7\u00f5es emitidas pelo superego, no sentido de que a certeza sobre a qual ele se apoia-se n\u00e3o precisa estar vinculada a nada, como se ela se bastasse por si mesma. Nota-se, deste modo, a partir do exame de um fen\u00f4meno cultural, o tabu, a elabora\u00e7\u00e3o de teses cruciais que, em 1923, ir\u00e3o embasar a teoria do superego e os aspectos de sua rela\u00e7\u00e3o com o ego.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nA face am\u00e1vel do superego no humor<\/strong><\/p>\n<p>O humor j\u00e1 havia sido alvo da aten\u00e7\u00e3o freudiana em \u00a0<em>El chiste y su relaci\u00f3n con lo inconciente <\/em>(Freud, 1905\/1989) integrando, ao lado do c\u00f4mico e do chiste, formas de produ\u00e7\u00e3o de prazer derivadas de uma economia na despesa ps\u00edquica. \u00a0<em>El chiste y su relaci\u00f3n con lo inconciente <\/em>(Freud, 1905\/1989) opera a passagem da an\u00e1lise do indiv\u00edduo para a an\u00e1lise da cultura, do registro individual para o registro coletivo, e generaliza o m\u00e9todo da interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos para a an\u00e1lise dos chistes. Por que os chistes e o humor s\u00e3o fen\u00f4menos culturais, segundo Freud? Porque se destinam a ser comunicados. Retomando as premissas de<em> El chiste y su relaci\u00f3n con lo inconciente<\/em> (Freud, 1905\/1989) da \u00f3tica do novo quadro estrutural da psique, Freud, em \u00a0<em>El humor<\/em> (Freud, 1927\/1989) apresenta um tipo de rela\u00e7\u00e3o do superego com o ego am\u00e1vel e carinhosa. Inaugura, mediante a an\u00e1lise do humor, uma face do superego at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dita e, assim, inverte um movimento no processo de teoriza\u00e7\u00e3o do conceito centrado no seu car\u00e1ter severo e punitivo. O trabalho sobre o masoquismo mostra que a elabora\u00e7\u00e3o do superego n\u00e3o se esgota no ano de sua introdu\u00e7\u00e3o, em 1923. Em \u00a0<em>El humor<\/em> (Freud, 1927\/1989) essa ideia \u00e9 explicitada: \u201cSe \u00e9 de fato ao superego que o humor fala de maneira carinhosa e consoladora ao ego amedrontado, isso nos adverte para o fato de que temos, todavia, que aprender muito da ess\u00eancia do superego\u201d (Freud, \u00a01927, p. 162). O que o texto nos ensina sobre a ess\u00eancia desta inst\u00e2ncia cr\u00edtica \u00e9 seu poder de imobilizar as rea\u00e7\u00f5es do ego para recha\u00e7ar a realidade e servir a uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Na atitude humor\u00edstica estariam presentes grandes deslocamentos de investimento do ego para o superego. A pessoa do humorista retiraria o acento ps\u00edquico de seu ego e o transferiria sobre seu superego que, crescido, passaria a olhar os interesses do ego como pequenos e insignificantes<a id=\"_ftnref5\" title=\"title\" href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"> <\/a>5. Assim como o adulto ri da pequenez dos interesses e sofrimentos que parecem grandes a uma crian\u00e7a, o humorista se comportaria frente a ele pr\u00f3prio rindo de suas mazelas<a id=\"_ftnref6\" title=\"title\" href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"> <\/a>6. Sua atitude diante da realidade \u00e9 de superioridade, pois reconhece a pr\u00f3pria pequenez frente \u00e0 grandeza dos interesses do universo e ri dela. A superioridade em quest\u00e3o seria obtida pelo gesto do superego em imobilizar as rea\u00e7\u00f5es eg\u00f3icas, obrigando o ego a recusar o contato com o mundo exterior. A um s\u00f3 tempo o superego consola o ego e o salva do sofrimento; evita a libera\u00e7\u00e3o de afetos penosos e favorece o \u201ctriunfo do narcisismo\u201d. Intocado, o ego obt\u00e9m uma pequena dose de prazer oriunda da evita\u00e7\u00e3o do aparelho frente aos afetos desprazerosos e da libera\u00e7\u00e3o desses afetos pela via da descarga motora<a id=\"_ftnref7\" title=\"title\" href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"> <\/a>7. \u00c9 nesse contexto que compreendemos a formula\u00e7\u00e3o segundo a qual o humor n\u00e3o \u00e9 resignado, mas rebelde, \u201cn\u00e3o s\u00f3 significa o triunfo do ego, mas tamb\u00e9m o do princ\u00edpio de prazer, capaz de afirmar-se apesar do desfavor\u00e1vel das circunst\u00e2ncias reais\u201d (Freud, 1927, p. 159).<\/p>\n<p>Freud prop\u00f5e que, ao assumir o papel do adulto reduzindo o seu p\u00fablico ao estatuto infantil, o humorista dever\u00e1 \u201cidentificar-se at\u00e9 certo ponto com o pai\u201d (Freud, 1927, p. 160). Concordando com Kupermann (2003), o complexo paterno, central na problem\u00e1tica do superego, \u00e9 igualmente central na problem\u00e1tica do humor. Diante das duas faces do superego &#8211; interditora e ideal &#8211; \u00e9 para a segunda que devemos olhar agora. No fen\u00f4meno do humor, o pai em quest\u00e3o parece ser menos o pai severo e punitivo espelhado no chefe da horda, e mais o pai-inst\u00e2ncia-ideal que possibilita ao ego desfrutar de uma dose de prazer pela desconsidera\u00e7\u00e3o dos afetos desprazerosos e pela retirada de investimento dele para o ideal de ego. Ao identificar-se \u201cat\u00e9 certo ponto com o pai, o sujeito poder\u00e1 uma vez mais brincar \u2018de adulto\u2019, isto \u00e9, recriar e investir permanentemente seu pr\u00f3prio ideal do ego, sem confundir o seu eu do presente com a totalidade das potencialidades de sua exist\u00eancia\u201d (Kupermann, 2003, p. 121). Investir o ideal de ego \u00e9 diferente de promover a identifica\u00e7\u00e3o narc\u00edsica do ego portadora da ilus\u00e3o de completude pela nega\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>A tens\u00e3o entre o ego e o superego que aparece como sentimento de culpa \u00e9, desde \u201cPsicologia das massas e an\u00e1lise do ego\u201d (Freud, 1921\/1989), fruto do descompasso entre o ego real e o ideal de ego. Se no humor o ideal de ego \u00e9 superinvestido e a realidade, recha\u00e7ada, compreendemos porque o superego mostra-se am\u00e1vel com o ego: ele n\u00e3o o compara a nenhuma inst\u00e2ncia real, inexiste descompasso entre o que o ego \u00e9 e aquilo que ele almeja ser. O humor seria, ent\u00e3o, o avesso do sentimento de culpa? Talvez. Al\u00e9m de resultar de uma rela\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel entre as duas inst\u00e2ncias e, portanto, isenta de tens\u00e3o, ele deriva de uma opera\u00e7\u00e3o ps\u00edquica na qual o ego est\u00e1 protegido do contato com o sofrimento que a realidade aporta. Entretanto, cabe observar que no humor a realidade \u00e9 recha\u00e7ada, mas n\u00e3o negada. O humor n\u00e3o \u00e9 alheio \u00e0 realidade, n\u00e3o cria um mundo pr\u00f3prio, mas, estando em \u00edntima conex\u00e3o com a realidade, reajusta os elementos do mundo de um modo prazeroso<a id=\"_ftnref8\" title=\"title\" href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"> <\/a> 8. Aos olhos de Freud, o humorista \u00e9 uma figura invej\u00e1vel dada sua capacidade de reconhecer e rir de sua pequenez frente \u00e0 grandeza dos interesses do universo.<\/p>\n<p>A que ilus\u00e3o o superego serve na atitude humor\u00edstica? Se a ilus\u00e3o \u00e9 a cren\u00e7a motivada pela realiza\u00e7\u00e3o de um desejo, como lemos em <em>O futuro de uma ilus\u00e3o <\/em>(Freud, 1927\/2010), ao recha\u00e7ar a realidade o superego estaria servindo \u00e0 qual ilus\u00e3o? Enriquez (1996) sugere que toda ilus\u00e3o origina-se do amor pelo onipotente, pelo pai, de quem cada indiv\u00edduo sente nostalgia. \u00c9 tribut\u00e1ria do amor por um ideal por meio do qual o indiv\u00edduo negaria sua pr\u00f3pria impot\u00eancia<a id=\"_ftnref9\" title=\"title\" href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"> <\/a> 9. A ilus\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o reside na satisfa\u00e7\u00e3o de um desejo. Seu prop\u00f3sito \u00e9 obter de seus objetos os mesmos est\u00edmulos gerados se os objetos estivessem presentes, mas enquanto objeto de desejo. Ao servir a uma ilus\u00e3o, o superego parece realizar o desejo de prote\u00e7\u00e3o e amparo que ela \u00e9 capaz de aportar ao sujeito sem permitir, contudo, a identifica\u00e7\u00e3o narc\u00edsica do ego com o pai onipotente que ilusoriamente garantiria a imortalidade para o ego amea\u00e7ado.<\/p>\n<p>A atitude humor\u00edstica de reconhecer e rir de sua pr\u00f3pria pequenez \u00e9 contradit\u00f3ria com um superego que se apoiaria em uma ilus\u00e3o? Afinal, o humorista leva ou n\u00e3o leva a s\u00e9rio a realidade? Loureiro (2002) sustenta que o sujeito \u00e9 indiferente \u00e0 realidade na ilus\u00e3o: o desejo inerente \u00e0 ilus\u00e3o n\u00e3o se desconecta da realidade nem a reconstr\u00f3i pela onipot\u00eancia do pensamento, como faz o del\u00edrio<a id=\"_ftnref10\" title=\"title\" href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"> <\/a> 10. O humorista tem consci\u00eancia das mazelas e do desamparo sentidos pelo seu ego mas age com indiferen\u00e7a. Ao inv\u00e9s de se queixar, como, segundo Freud, faria o melanc\u00f3lico, ele brinca com a situa\u00e7\u00e3o impedindo o contato do ego com a dureza da vida. \u00c9 como se o superego, a um s\u00f3 tempo, desconsiderasse as queixas feitas pelo ego diante da dureza que a realidade aporta e propiciasse, como na economia do gracejo, a libera\u00e7\u00e3o de prazer pela suspens\u00e3o do contato com um afeto desprazeroso. Isso parece explicar em que sentido o superego serve a uma ilus\u00e3o; sem ela, o riso n\u00e3o poderia advir, apenas um choro resignado em que o sujeito mostraria em forma de lamento sua insignific\u00e2ncia diante da imensid\u00e3o do universo.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nSuperego aliado da cultura<\/strong><\/p>\n<p>Tr\u00eas anos ap\u00f3s examinar o humor, Freud redige <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (1930\/2010), que retoma as teses de \u00a0<em>El yo y el ello<\/em> (Freud, 1923\/1989). Neste texto, Freud introduz a segunda t\u00f3pica e tece rela\u00e7\u00f5es entre as inst\u00e2ncias id, ego e superego e as duas classes de puls\u00f5es: puls\u00f5es de vida e puls\u00f5es de morte. Um ano depois, em \u00a0<em>El problema econ\u00f3mico del masoquismo<\/em> (1924\/1989), Freud d\u00e1 mais um passo na teoriza\u00e7\u00e3o do superego, assume o incremento da severidade do superego como algo inevit\u00e1vel, posto que um dos meios de que o aparelho ps\u00edquico disp\u00f5e para metabolizar a puls\u00e3o de morte \u00e9 sua revers\u00e3o para a pr\u00f3pria pessoa. A discuss\u00e3o se d\u00e1 no n\u00edvel individual e se restringe \u00e0s opera\u00e7\u00f5es internas ao psiquismo respons\u00e1veis por seu equil\u00edbrio energ\u00e9tico. <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (Freud, 1930\/2010), no entanto, transp\u00f5e essa equa\u00e7\u00e3o para outro \u00e2mbito e favorece uma esp\u00e9cie de deslocamento: do sujeito \u00e0s voltas com as opera\u00e7\u00f5es de seu psiquismo para o sujeito em sua rela\u00e7\u00e3o com as exig\u00eancias culturais.<\/p>\n<p>N\u00e3o se fala mais em sobreviv\u00eancia do aparelho ps\u00edquico, em suas formas de regula\u00e7\u00e3o, mas em sobreviv\u00eancia da cultura. Num caso, o aparelho evita a \u201cpane\u201d metabolizando a puls\u00e3o de morte pelo aumento da severidade da consci\u00eancia moral; o superego assimila a destrutividade que colocara em risco o psiquismo. No outro caso, a puls\u00e3o de morte \u00e9 submetida ao regime de civiliza\u00e7\u00e3o: a cultura garante sua sobreviv\u00eancia reintrojetando a principal fra\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte e enviando-a ao superego, favorecendo, assim, o aumento da agressividade que ele exercer\u00e1 contra o ego e a produ\u00e7\u00e3o do sentimento de culpa<a id=\"_ftnref11\" title=\"title\" href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"> <\/a> 11. Em uma frase que se tornou c\u00e9lebre essa equa\u00e7\u00e3o \u00e9 anunciada em uma linguagem militar: \u201cA cultura extingue o perigoso prazer agressivo do indiv\u00edduo debilitando-o, desarmando-o e vigiando-o mediante uma inst\u00e2ncia situada em seu interior, como se fosse uma guarni\u00e7\u00e3o militar em uma cidade conquistada\u201d (Freud, 1930\/2010, p. 119). O superego assume a agressividade em nome da manuten\u00e7\u00e3o da cultura. Por isso ele \u00e9 considerado uma forma\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o de Eros<a id=\"_ftnref12\" title=\"title\" href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"> <\/a>12.<\/p>\n<p>Marcuse (1972) assinala, a esse respeito, que o superego pode se colocar igualmente a servi\u00e7o das puls\u00f5es de morte:<\/p>\n<p style=\"margin-left: 120px;\">Para consolidar e proteger a unidade do ego o superego o dirige contra seu id, desviando parte dos instintos de destrui\u00e7\u00e3o contra uma parte da personalidade \u2013 destruindo, \u2018fragmentando\u2019 a unidade da personalidade como um todo; assim, atua a servi\u00e7o do antagonista do instinto de vida (Marcuse, 1972, p. 64).<\/p>\n<p>Ao que parece, a destrui\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o da personalidade \u00e0 qual se refere Marcuse \u00e9 menos a dissolu\u00e7\u00e3o ou morte do ego e mais a crueldade com que a inst\u00e2ncia cr\u00edtica trata o ego, bem como a ang\u00fastia sentida por ele e vivida pelo sujeito como necessidade de puni\u00e7\u00e3o. Sobre as rela\u00e7\u00f5es entre o superego e as puls\u00f5es de morte, Freud observa na 32a das <em>\u00a0Nuevas Confer\u00eancias de introducci\u00f3n al psicoan\u00e1lisis<\/em>. \u00a0(Freud, 1933\/1989)que talvez n\u00e3o seja toda agressividade que retornou do mundo externo que \u00e9 ligada pelo superego e, por conseguinte, voltada contra o ego. Ele sup\u00f5e que uma parte sua exerce sua atividade muda e sinistra, sob a forma de instinto destrutivo livre, no ego e no id<a id=\"_ftnref13\" title=\"title\" href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"> <\/a>13.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nParadoxos do superego cultural <\/strong><\/p>\n<p>Um aspecto da contribui\u00e7\u00e3o da reflex\u00e3o freudiana sobre a cultura para a teoriza\u00e7\u00e3o do superego que parece ser particularmente importante \u00e9 este: a hist\u00f3ria dos conceitos de consci\u00eancia moral e sentimento de culpa mostra que as express\u00f5es da inst\u00e2ncia cr\u00edtica no n\u00edvel coletivo s\u00e3o, muitas vezes, mais elucidativas do que suas express\u00f5es no campo da psicopatologia. No trajeto que culmina na teoriza\u00e7\u00e3o do superego, Freud se volta para os sintomas melanc\u00f3licos, que apontam uma divis\u00e3o no psiquismo entre ego cr\u00edtico e o ego alterado por identifica\u00e7\u00e3o, e situa um tra\u00e7o constituinte do aparelho ps\u00edquico: a divis\u00e3o ego\/superego. Na esfera do funcionamento normal essa divis\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de ser identificada. O mesmo ocorre com os exemplos que nos brindam os estudos da neurose obsessiva, do sadismo e do masoquismo, da rea\u00e7\u00e3o terap\u00eautica negativa observada no espa\u00e7o cl\u00ednico e considerada um dos maiores obst\u00e1culos ao andamento da an\u00e1lise. Dito de outro modo, os efeitos da a\u00e7\u00e3o do superego no \u00e2mbito das neuroses de transfer\u00eancia e das neuroses narc\u00edsicas sempre se mostraram de dif\u00edcil apreens\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 de Albert\u00edn (2006) a afirma\u00e7\u00e3o segundo a qual \u201cos sonhos punitivos, a necessidade de castigo, a necessidade de fracasso, e a rea\u00e7\u00e3o terap\u00eautica negativa no tratamento s\u00e3o testemunhas mudas das vicissitudes do superego\u201d (p. 293). S\u00e3o numerosas as passagens na obra freudiana que exprimem incertezas e d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s fun\u00e7\u00f5es desta inst\u00e2ncia cr\u00edtica e suas formas de express\u00e3o. Tem-se sempre a impress\u00e3o de que a consci\u00eancia moral \u00e9 um tema espinhoso para o fundador da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>No contexto desta discuss\u00e3o, a seguinte afirma\u00e7\u00e3o de Freud em <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o <\/em>(1930\/2010) adquire sentido. Referindo-se \u00e0s severas exig\u00eancias ideais cujo n\u00e3o-cumprimento resulta em castigo, ele afirma:<\/p>\n<p style=\"margin-left: 120px;\">Se produz aqui o fato assombroso de que os processos ps\u00edquicos correspondentes \u2013 as exig\u00eancias s\u00e3o mais familiares e acess\u00edveis \u00e0 consci\u00eancia visto do lado da massa que do lado do indiv\u00edduo. Neste \u00faltimo, s\u00f3 as agress\u00f5es do superego em caso de tens\u00e3o se tornam aud\u00edveis como acusa\u00e7\u00f5es, enquanto as exig\u00eancias mesmas permanecem inconscientes. Se s\u00e3o levadas ao conhecimento consciente, se demonstra que coincidem com os preceitos do superego da cultura respectiva. Neste ponto os dois processos, o do desenvolvimento cultural da massa e do pr\u00f3prio indiv\u00edduo, podem andar juntos, por assim dizer. Por isso in\u00fameras exterioriza\u00e7\u00f5es e propriedades do superego podem ser discernidas com maior facilidade em seu comportamento dentro da comunidade cultural que no indiv\u00edduo (Freud, 1930\/2010, p. 109).<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de superego cultural parece revelar tra\u00e7os in\u00e9ditos da inst\u00e2ncia cr\u00edtica, antes teorizada em um n\u00edvel individual. Nota-se, aqui, que a distin\u00e7\u00e3o entre superego cultural e superego individual \u00e9 artificial, feita apenas para tornar mais claro alguns aspectos do superego. Ao assumir o superego cultural como uma inst\u00e2ncia que repousa sobre a impress\u00e3o que deixaram grandes personalidades de lideran\u00e7a, o pai primordial e homens de for\u00e7a espiritual avassaladora e, ao afirmar que uma na\u00e7\u00e3o, um povo ou uma ra\u00e7a podem partilhar de um mesmo superego, Freud identifica ao menos dois pontos de concord\u00e2ncia entre superego cultural e superego individual: a origem de ambos e a semelhan\u00e7a das exig\u00eancias ideais, sempre severas, cujo n\u00e3o-cumprimento resulta em castigo da consci\u00eancia moral.<\/p>\n<p>Os superegos, individual e cultural, s\u00e3o similares, n\u00e3o equivalentes. Kaufman (2003) nota uma diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 origem do superego individual ao observar que, neste caso, os pais n\u00e3o s\u00e3o maltratados na maior parte das vezes, diferentemente das figuras que originariam o superego cultural. Ele diz: \u201cOs grandes homens conhecem sempre um destino tem\u00edvel, seja o desprezo, a rejei\u00e7\u00e3o ou a elimina\u00e7\u00e3o. Em \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d (Freud, 1930\/2010), Freud cita Jesus Cristo; em Mois\u00e9s y la \u00a0religi\u00f3n monote\u00edsta\u201d ele ir\u00e1 elaborar uma hip\u00f3tese da morte de Mois\u00e9s pelo povo hebreu (citado por Kaufman, 2003, p. 417). O superego da cultura revelaria, portanto, tra\u00e7os no \u00e2mbito individual invis\u00edveis porque inconscientes.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese do superego cultural divide com a hip\u00f3tese filogen\u00e9tica a responsabilidade da transmiss\u00e3o da inst\u00e2ncia moral atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es. Se no primeiro caso, por\u00e9m, \u00e9 colocada a quest\u00e3o da transmiss\u00e3o biol\u00f3gica, gen\u00e9tica, de esquemas herdados, explicando, em parte, a concep\u00e7\u00e3o de um superego como ve\u00edculo da tradi\u00e7\u00e3o;no segundo caso o que parece estar em jogo \u00e9 uma transmiss\u00e3o de outra ordem, baseada inteiramente no mecanismo da identifica\u00e7\u00e3o. O conceito de superego cultural favorece, em suma, que a cultura seja pensada, a um s\u00f3 tempo, como fen\u00f4meno herdado e palco no qual surgem as v\u00e1rias faces do superego, da ideal \u00e0quela produtora, no limite, de neurose, rebeldia e mal-estar.<\/p>\n<p>Le Rider (2002) retoma uma opini\u00e3o de Freud acerca do superego americano publicada por Ilse Grubrich-Simitis em <em>Freud: retour aux manuscrits<\/em> como parte do p\u00f3sf\u00e1cio que Freud escreveu em 1927 \u00e0 <em>Question \u00a0de an\u00e1lise leiga<\/em>. Vale a pena reproduzi-la:<\/p>\n<p style=\"margin-left: 120px;\">\u00c9 incontest\u00e1vel que o n\u00edvel de cultura geral e de receptividade intelectual, mesmo nas pessoas que freq\u00fcentaram uma escola americana, seja mais baixo que na Europa \u00a0&#8230;. O americano n\u00e3o tem tempo&#8230;.Tudo que se desenvolve psiquicamente entre consciente e inconsciente possui suas condi\u00e7\u00f5es temporais particulares que n\u00e3o combinam muito bem com a exig\u00eancia americana. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, em tr\u00eas ou quatro meses, transformar um homem que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o tenha compreendido nada com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 analise em um analista capaz, \u00e9 menos poss\u00edvel ainda, em um tempo t\u00e3o curto, provocar em um neur\u00f3tico modifica\u00e7\u00f5es que possam restituir sua capacidade de trabalho e gozo &#8230;.. O superego americano parece ser menos severo em rela\u00e7\u00e3o ao eu quando se trata daquilo que diz respeito ao lucro ( Le Rider, 2002, p. 110).<\/p>\n<p>Este coment\u00e1rio ilustra o sentido de que a no\u00e7\u00e3o de superego da cultura parece se revestir para Freud. Trata-se de uma esp\u00e9cie de categoria que revela particularidades de um comportamento coletivo. Nesse coment\u00e1rio, tal no\u00e7\u00e3o \u00e9 utilizada no plano macro e comparativo e parece auxili\u00e1-lo a explicar o sentido de uma atitude que ele sup\u00f5e ser homog\u00eanea entre os americanos.<\/p>\n<p>Se o conceito de superego enriquece-se com as considera\u00e7\u00f5es do superego cultural n\u00e3o \u00e9 sem reconhecer que no registro individual h\u00e1, certamente, transmiss\u00e3o cultural. Nota-se que desde suas primeiras defini\u00e7\u00f5es o superego \u00e9 anunciado como portador das tradi\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, supor a exist\u00eancia de um superego da cultura n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o refor\u00e7ar a ideia de transmiss\u00e3o cultural em um panorama que inclui uma coletividade e n\u00e3o apenas um n\u00facleo familiar. As impress\u00f5es dos grandes l\u00edderes s\u00e3o comuns a um dado agrupamento social e imprimem uma marca que contribui para homogeneizar os padr\u00f5es de comportamento e favorecer um sentimento de identidade entre as pessoas.<\/p>\n<p>Assim como o superego cultural, o sentimento de culpa produzido pelo superego \u00e9 melhor elucidado tendo em vista sua fun\u00e7\u00e3o cultural. A economia do sentimento de culpa, como observa Ricoeur (1965\/1977), s\u00f3 aparece inteiramente ap\u00f3s a necessidade de puni\u00e7\u00e3o ser recolocada em uma perspectiva cultural, e assumida a ideia de que a civiliza\u00e7\u00e3o desarma a agressividade do indiv\u00edduo instalando um dispositivo-espi\u00e3o interno de controle e alerta. O car\u00e1ter inconsciente da culpa ou sua manifesta\u00e7\u00e3o como mal-estar e descontentamento s\u00e3o reportadas ao conflito de ambival\u00eancia, por sua vez enraizado no dualismo pulsional e atuado como amor e \u00f3dio. O jogo da ambival\u00eancia, pr\u00f3prio \u00e0 situa\u00e7\u00e3o edipiana, participa do jogo mais vasto entre as puls\u00f5es de vida e as puls\u00f5es de morte, e a explica\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica sobre a inevitabilidade do sentimento de culpa parece atenuar-se ao ser subordinada aos grandes conflitos culturais.<\/p>\n<p style=\"margin-left: 120px;\">A fam\u00edlia que serve de quadro cultural ao epis\u00f3dio edipiano n\u00e3o \u00e9 ela pr\u00f3pria sen\u00e3o uma figura da grande empresa de Eros de ligar e unir; conseq\u00fcentemente, o epis\u00f3dio edipiano n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica via poss\u00edvel da institui\u00e7\u00e3o do remorso (Ricoeur, 1965\/1977, p. 253).<\/p>\n<p>Diferentemente da culpa individual que \u00e9 empregada incansavelmente para anular um erro, a culpabilidade coletiva aparece como a condi\u00e7\u00e3o da convers\u00e3o da puls\u00e3o destrutiva em atividade de civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nNotas finais<\/strong><\/p>\n<p>Juntamente com a dimens\u00e3o cl\u00ednica, a dimens\u00e3o cultural encontra-se na origem da forma\u00e7\u00e3o do conceito de puls\u00e3o de morte. A hip\u00f3tese filogen\u00e9tica amplia o lugar destinado \u00e0 destrutividade na teoria freudiana e, por isso, influencia a introdu\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte em 1920. \u00c9 de maneira insuficiente que \u00a0<em>M\u00e1s all\u00e1 del princ\u00edpio de placer<\/em> (Freud, 1920\/1989)teoriza esse conceito. As contribui\u00e7\u00f5es da cultura oferecem uma demonstra\u00e7\u00e3o suplementar dos efeitos desse grupo de puls\u00f5es. Ap\u00f3s a virada de 1920, a cultura sobrep\u00f5e-se \u00e0 cl\u00ednica no que tange \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es que fornece \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o do conceito. Ela se torna o terreno privilegiado de a\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es de morte e o solo sobre o qual ser\u00e3o identificados novos fen\u00f4menos que carregam o sinal da viol\u00eancia. Com isso, Freud amplia o campo de atua\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es e torna mais fidedigna sua hip\u00f3tese de trabalho.<\/p>\n<p>O papel determinante que a esfera cultural assume na elabora\u00e7\u00e3o do conceito de puls\u00e3o de morte parece ser semelhante ao papel que assume na conceitua\u00e7\u00e3o do superego. Na origem de ambos h\u00e1 uma fonte que \u00e9 pulsional. No entanto, os dois conceitos se fazem presentes nas condi\u00e7\u00f5es oferecidas pela cultura, no campo das rela\u00e7\u00f5es humanas e sociais. A dimens\u00e3o cultural amplia seus alcances, garantindo-lhes um estatuto universal. Se os fen\u00f4menos nos quais Freud identifica as puls\u00f5es de morte e o superego s\u00e3o pass\u00edveis de uma transcri\u00e7\u00e3o cultura, \u00e9 pelo fato de se verificarem em todos os homens. Tal \u00e9 a premissa sustentada em <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (Freud, 1930\/2010)<em>, <\/em>que, ao lado de <em>T\u00f3tem e tab\u00fa<\/em> (Freud, 1913\/1989), \u00e9 central na demonstra\u00e7\u00e3o de nossa tese. O texto coloca as puls\u00f5es de morte, ao lado de Eros, como respons\u00e1veis pela regula\u00e7\u00e3o da vida do homem em estado de civiliza\u00e7\u00e3o. Muito embora sejam dotadas de um car\u00e1ter desconstrutivo e operem no sentido da desuni\u00e3o e da desintegra\u00e7\u00e3o, s\u00e3o fundamentais para a cultura como for\u00e7a geradora de conflitos, e como elemento que interv\u00e9m no efeito \u201cmort\u00edfero\u201d que Eros pode produzir, por exemplo, quando se mant\u00e9m no registro do mesmo.<\/p>\n<p>A g\u00eanese do conceito de superego situa-se nas investiga\u00e7\u00f5es cl\u00ednica e cultural. A quest\u00e3o da moral \u00e9 necessariamente uma quest\u00e3o cultural e \u00e9 <em>\u00a0T\u00f3tem y tab\u00fa<\/em> (Freud, 1913\/1989)que elabora uma explica\u00e7\u00e3o capaz de associar o fato inaugural da cultura e a edifica\u00e7\u00e3o da lei e da moral ao complexo de \u00c9dipo, delimitando as bases da no\u00e7\u00e3o de superego. Ap\u00f3s a introdu\u00e7\u00e3o propriamente dita do conceito em 1923, <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> (Freud, 1930\/2010)alavanca seu processo de elabora\u00e7\u00e3o. O superego, considerado o agente de interioriza\u00e7\u00e3o da cultura, \u00e9 fundamental para a regula\u00e7\u00e3o da conduta humana e para a manuten\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio da civiliza\u00e7\u00e3o. Assimila a puls\u00e3o de morte, evitando que uma grande parcela sua se exteriorize. Produz o sentimento de culpa, impedindo a satisfa\u00e7\u00e3o imediata das puls\u00f5es. E \u00e9, a um s\u00f3 tempo, inst\u00e2ncia ps\u00edquica e forma\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o sen\u00e3o os efeitos patol\u00f3gicos do superego que a esfera cl\u00ednica p\u00f5e em evid\u00eancia: seu tra\u00e7o impiedoso na melancolia, a culpa na neurose obsessiva, o masoquismo moral, a necessidade de castigo observada na cl\u00ednica, etc. A cultura encarrega-se de mostrar seus efeitos na esfera coletiva: nas forma\u00e7\u00f5es grupais evidencia-se o lado ideal do superego, nas religi\u00f5es soma-se o lado \u201clegislador\u201d e \u201cprotetor\u201d e os efeitos positivos do superego, como a afabilidade com o ego no caso das \u201cexce\u00e7\u00f5es\u201d. Cabe observar que a cultura n\u00e3o mostra somente em n\u00edvel macro os mesmos processos identificados no \u00e2mbito do psiquismo individual. Em outros termos, o plano cultural n\u00e3o \u00e9 somente an\u00e1logo ao plano individual ou elucidado mediante uma transposi\u00e7\u00e3o de categorias forjadas no plano individual. A cultura vai al\u00e9m de um campo privilegiado de ilustra\u00e7\u00e3o e exemplifica\u00e7\u00e3o das concep\u00e7\u00f5es examinadas.<\/p>\n<p>Seria err\u00f4nio supor, por exemplo, que a no\u00e7\u00e3o de fantasia \u2013 que influenciou a concep\u00e7\u00e3o freudiana de est\u00e9tica e esclareceu as bases do conceito de sublima\u00e7\u00e3o &#8211; deve-se t\u00e3o-somente \u00e0s observa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas e \u00e0 auto-an\u00e1lise de Freud. Ou em afirmar que as formas pelas quais o superego aparece objetivado na cultura s\u00e3o formas de ilustra\u00e7\u00e3o das teses freudianas em n\u00edvel macro. Do mesmo modo, seria simplificar demasiado o corpo de princ\u00edpios psicanal\u00edticos sustentar que os grandes l\u00edderes e o modo pelo qual o ideal de ego \u00e9 projetado neles equivale \u00e0 no\u00e7\u00e3o de superego, definido em termos t\u00f3picos e econ\u00f4micos, \u201caplicado \u00e0 cultura\u201d. O superego n\u00e3o ilustra o mito de \u00a0<em>T\u00f3tem y tab\u00fa<\/em> (Freud, 1913\/1989),mas depende das premissas desse mito para ser concebido. A concep\u00e7\u00e3o de superego cultural n\u00e3o transp\u00f5e para o plano macro as hip\u00f3teses do superego individual, mas revelam outros aspectos da inst\u00e2ncia cr\u00edtica n\u00e3o identificados na sua express\u00e3o individual.<\/p>\n<p>Talvez se possa arriscar uma hip\u00f3tese e afirmar que a cultura exprime as duas faces do superego, a face exigente\/ideal e a face censora, ao passo que as manifesta\u00e7\u00f5es individuais \u2013 patol\u00f3gicas ou n\u00e3o \u2013 parecem exprimir fundamentalmente a segunda face: a face cr\u00edtica ou condenat\u00f3ria. No \u00e2mbito das neuroses e do funcionamento ps\u00edquico normal, a inst\u00e2ncia cr\u00edtica parece ser revelada em momentos precisos nos quais a severidade do superego \u00e9 incrementada e sobre o eu \u00e9 depositada uma grande quota de destrutividade: nos sintomas obsessivos e melanc\u00f3licos, nas pervers\u00f5es s\u00e1dicas e masoquistas, nos sujeitos que descompensam diante dos infort\u00fanios da vida ou diante de conquistas gloriosas<a id=\"_ftnref14\" title=\"title\" href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"> <\/a>14. Ou mesmo pelo simples sentimento de mal-estar e descontentamento do homem moderno sem causa aparente. O comportamento do indiv\u00edduo dentro da comunidade cultural, em contrapartida, exterioriza outras propriedades ps\u00edquicas do superego. As figuras do totem, de Deus, dos l\u00edderes, e outras formas de objetifica\u00e7\u00e3o do superego na cultura como a Provid\u00eancia, p\u00f5em em evid\u00eancia sua face ideal, que, a um s\u00f3 tempo, imp\u00f5e modelos de conduta e pune o sujeito diante do n\u00e3o cumprimento de tais ins\u00edgnias.<\/p>\n<p>Assim, como \u201clente de aumento\u201d dos fen\u00f4menos mentais, a cultura parece ampliar a compreens\u00e3o do superego, vista de maneira imprecisa ou fragmentada no \u00e2mbito da psicologia do indiv\u00edduo. O mandamento de \u201camar ao pr\u00f3ximo como a si mesmo\u201d, o mais importante proceder apsicol\u00f3gico do superego cultural segundo Freud, figura um bom exemplo nesse sentido. No curso do conflito edipiano, a crian\u00e7a \u00e9 obrigada a renunciar \u00e0 agressividade em nome da conserva\u00e7\u00e3o do p\u00eanis e do amor narc\u00edsico.<\/p>\n<p>Ao ser transposta para o dom\u00ednio das forma\u00e7\u00f5es coletivas, esta mesma opera\u00e7\u00e3o reaparece na obriga\u00e7\u00e3o imposta ao fiel de ter que amar o pr\u00f3ximo \u00e0 custa do represamento da parcela destrutiva de suas puls\u00f5es. Trata-se de uma exig\u00eancia supereg\u00f3ica capaz de associar e colocar em evid\u00eancia a rela\u00e7\u00e3o entre ser obrigado a amar o pr\u00f3ximo \u2013 via amor narc\u00edsico &#8211; e ter que renunciar \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o de todo \u00f3dio de que esse pr\u00f3ximo \u00e9 merecedor.<\/p>\n<p>Isto dito, a problem\u00e1tica da cultura deve se desvincular da concep\u00e7\u00e3o de \u201cpsican\u00e1lise aplicada\u201d. A teoria de Freud n\u00e3o \u00e9 um corpo de conhecimento acabado que lan\u00e7a luz sobre o dom\u00ednio dos fatos culturais. \u00c9 um corpo em permanente transforma\u00e7\u00e3o, que se nutre da investiga\u00e7\u00e3o em tr\u00eas dom\u00ednios diferentes: no dom\u00ednio das forma\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas patol\u00f3gicas, no dom\u00ednio das forma\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas normais individuais e no dom\u00ednio das forma\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas coletivas e culturais. Trata-se, pois, de um sistema aberto, que implica abandonos tempor\u00e1rios, oscila\u00e7\u00f5es, retifica\u00e7\u00f5es. Como diz Monzani (1989, p. 302), \u201ca Psican\u00e1lise freudiana parece ter sido muito mais uma lenta gesta\u00e7\u00e3o conceitual, onde as no\u00e7\u00f5es foram retificadas, precisadas, repensadas ou explicitadas umas em fun\u00e7\u00e3o das outras e em fun\u00e7\u00e3o das novas aquisi\u00e7\u00f5es fornecidas pela pr\u00e1tica cl\u00ednica\u201d. Ao que acrescentar-se-ia: e pela dimens\u00e3o cultural.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"ftn2\"><strong><br \/>\nRefer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Albert\u00edn, M. G. (2006). <em>Imperativos do superego: testemunhos cl\u00ednicos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escuta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assoun, P. L. (2005). <em>Freud, la philosophie et les philosophes <\/em>(2a ed). Paris: PUF .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chau\u00ed, M. (1997). <em>Convite \u00e0 filosofia<\/em>. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enriquez E. (1996). <em>Da horda ao Estado &#8211; Psican\u00e1lise do v\u00ednculo social <\/em>(3\u00aa ed).Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud, S. (1989). <em>El chiste y su relaci\u00f3n con lo inconciente.<\/em> Buenos Aires: Amorrortu Editores, VIII (1\u00aa ed.) (\u201cOriginalmente publicado em 1905).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________<span style=\"text-decoration: underline;\">(1989) <\/span><em>T\u00f3tem y tab\u00fa<\/em>. Buenos Aires: Amorrortu Editores, XIII (1\u00aa ed.). (\u201cOriginalmente publicado em 1913)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________ (1989). <em>Algunos tipos de car\u00e1cter dilucidados por el trabajo psicoanal\u00edtico.<\/em> Buenos Aires: Amorrortu Editores, XIV (1\u00aa ed.). (\u201cOriginalmente publicado em 1916).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________ (1989) <em>M\u00e1s all\u00e1 del princ\u00edpio de placer<\/em>. Buenos Aires: Amorrortu Editores, XVIII (1\u00aa ed.). (\u201cOriginalmente publicado em 1920).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________ (1989) <em>Psicolog\u00eda de las massas y an\u00e1lisis del yo.<\/em> Buenos Aires: Amorrortu Editores, XVIII (1\u00aa ed.). (\u201cOriginalmente publicado em 1921).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________ (1989) <em>El problema econ\u00f3mico del masoquismo.<\/em> Buenos Aires: Amorrortu Editores, XIX (1\u00aa ed.) (\u201cOriginalmente publicado em 1924).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________ (1989) <em>El yo y el ello<\/em>. Buenos Aires: Amorrortu Editores, XIX (1\u00aa ed.). (\u201cOriginalmente publicado em 1923).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________ (1989) <em>Inhibici\u00f3n, s\u00edntoma e angustia<\/em>. Buenos Aires: Amorrortu Editores, XX (1\u00aa ed.), (\u201cOriginalmente publicado em 1926).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________ (1989) <em>El humor.<\/em> Buenos Aires: Amorrortu Editores, XXI (1\u00aa ed.) (\u201cOriginalmente publicado em 1989).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________ (1989) <em>O futuro de uma ilus\u00e3o. <\/em>Companhia das Letras, XII (1\u00aa ed.). (\u201cOriginalmente publicado em 1927).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________ (2010) <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o.<\/em> Companhia das Letras, XII (1\u00aa ed.). (\u201cOriginalmente publicado em 1930).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________ (1989) <em>32\u00aa Nuevas Confer\u00eancias de introducci\u00f3n al psicoan\u00e1lisis<\/em>. \u201cAngustia y vida pulsional\u201d. Buenos Aires: Amorrortu Editores, XXII (1\u00aa ed.) (\u201cOriginalmente publicado em 1932-36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gabbi JR, O. F (1991). A origem da moral em Psican\u00e1lise. In: <em>Cadernos de hist\u00f3ria e filosofia das ci\u00eancias<\/em>, S\u00e9rie 3 1(2). Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas. Campinas: Unicamp.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Groddeck G. (1969). <em>La maladie, l\u00b4art et le symbole<\/em>. Paris: Gallimard.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kaufman P. (1979). <em>L\u2019inconscient du politique.<\/em> Paris: PUF.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">________ (2003), <em>L\u00b4apport freudien \u2013 \u00c9lements pour une encyclopedie de la psychanalyse<\/em>.Paris: Bordas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kuperman, D. (2003). <em>Ousar rir: humor, cria\u00e7\u00e3o e psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laplanche \u00a0J. &amp; Pontalis J. B. (1985). <em>Vocabul\u00e1rio da Psican\u00e1lise <\/em>(7\u00aa ed). S\u00e3o Paulo: Martins Fontes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Le Rider, J. (org.) (2002). <em>Em torno de O mal-estar na cultura, de Freud. <\/em>S\u00e3o Paulo: Escuta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Loureiro I. R. B. (2002). <em>O carvalho e o pinheiro: Freud e o estilo rom\u00e2ntico<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escuta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcuse H. (1972). <em>Eros e Civiliza\u00e7\u00e3o &#8211; Uma interpreta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do pensamento de Freud <\/em>(5\u00aa ed).Rio de Janeiro: Jorge Zahar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mezan, R. (1997). <em>Freud: pensador da cultura <\/em>(4\u00aa ed). S\u00e3o Paulo: Brasiliense<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Monzani, L. R. (1989). <em>Freud, o movimento de um pensamento. <\/em>Campinas: Unicamp.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ricoeur, P. (1977). <em>Da Interpreta\u00e7\u00e3o: ensaio sobre Freud <\/em>(2\u00aa ed). Rio de Janeiro: Imago.<\/p>\n<p id=\"ftn6\" style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn1\" title=\"title\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"> <\/a>1 A quest\u00e3o da depend\u00eancia e desamparo havia sido amplamente trabalhada em \u00a0<em>Inhibici\u00f3n, s\u00edntoma e angustia<\/em> (Freud, 1926\/1989).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn2\" title=\"title\" href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"> <\/a><br \/>\n2 O imperativo categ\u00f3rico vincula-se \u00e0 id\u00e9ia de dever que, segundo Chau\u00ed (1997), \u00e9 imperativo e, portanto, n\u00e3o admite hip\u00f3teses (\u201cse&#8230; ent\u00e3o\u201d). Este dever, sem exce\u00e7\u00f5es e incondicionalmente, deve valer para todas as a\u00e7\u00f5es morais e se submeter \u00e0 lei moral. E \u00e9 aqui que nos interessa particularmente: \u201cO dever \u00e9 um imperativo categ\u00f3rico. Ordena incondicionalmente. N\u00e3o \u00e9 uma motiva\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, mas a lei moral interior&#8230;. \u00a0As m\u00e1ximas deixam claras a interioriza\u00e7\u00e3o do dever&#8230;. \u00a0Ao agir devemos indagar se nossa a\u00e7\u00e3o est\u00e1 em conformidade com os fins morais, isto \u00e9, com as m\u00e1ximas do dever\u201d (Chau\u00ed, , 1997, p. 346).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn3\" title=\"title\" href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"> <\/a><br \/>\n3 Assoun (1976) lembra-nos que Freud j\u00e1 havia utilizado o termo \u201cimperativo categ\u00f3rico\u201d em <em>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos <\/em>(1900), situando-o nas forma\u00e7\u00f5es on\u00edricas como um acompanhante insepar\u00e1vel do sonhador do qual ele n\u00e3o pode se desvencilhar; o que indicaria uma liga\u00e7\u00e3o entre desejo e interdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn4\" title=\"title\" href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><br \/>\n<\/a>4 Laplanche e Pontalis (1985) situam as forma\u00e7\u00f5es reativas como uma defesa bem-sucedida que exclui da consci\u00eancia &#8211; em proveito de virtudes morais elevadas ao extremo &#8211; a representa\u00e7\u00e3o sexual e a recrimina\u00e7\u00e3o suscitada por ela. \u201cQuando mais tarde vier a ser introduzida a no\u00e7\u00e3o de superego, uma parte importante, na sua g\u00eanese, ser\u00e1 atribu\u00edda ao mecanismo de forma\u00e7\u00e3o reativa\u201d (Laplanche &amp; Pontalis, 1985, p.261)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn5\" title=\"title\" href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><br \/>\n<\/a>5 Deslocamentos semelhantes aos que ocorrem no apaixonamento e na altern\u00e2ncia entre mania e melancolia. No primeiro caso, o ego se esvazia e preenche o objeto. No segundo, o superego sufoca cruelmente o ego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn6\" title=\"title\" href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><br \/>\n<\/a>6 Freud ilustra o fen\u00f4meno do humor, retomando uma hist\u00f3ria contada em \u00a0<em>El chiste y su relaci\u00f3n con lo inconciente<\/em> (Freud, 1905\/1989) na qual um condenado que, levado para a execu\u00e7\u00e3o em uma segunda-feira, comenta: \u201c\u00e9, a semana est\u00e1 come\u00e7ando otimamente\u201d (Freud, 1927, p. 157).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn7\" title=\"title\" href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><br \/>\n<\/a>7 O riso se apoiaria na mesma fonte prim\u00e1ria de obten\u00e7\u00e3o de prazer encontrada nos jogos e nos gracejos, tal como Freud descreve em <em>El chiste y su relaci\u00f3n con lo inconciente <\/em>(1905\/1989).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn8\" title=\"title\" href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><br \/>\n<\/a>8 Kupermann (2003) contrap\u00f5e as formula\u00e7\u00f5es acerca do papel af\u00e1vel desempenhado pelo superego no procedimento humor\u00edstico \u00e0 figura do superego s\u00e1dico e da op\u00e7\u00e3o masoquista, que considera, baseando-se nos \u00faltimos escritos de Freud, o destino inexor\u00e1vel para as subjetividades. \u201cA \u2018grandeza\u2019 e a \u2018eleva\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e9ticas atribu\u00eddas por Freud ao humor indicam para o autor \u2013 com quem n\u00f3s concordamos &#8211; que h\u00e1 efetivamente outras op\u00e7\u00f5es \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do sujeito frente ao peso do real, que n\u00e3o a resigna\u00e7\u00e3o masoquista, desde que este disponha da pot\u00eancia er\u00f3tica necess\u00e1ria para afirmar sua rebeldia criativa, investindo seu pr\u00f3prio ideal do ego de modo a reajustar os elementos do seu mundo de uma forma que lhe seja satisfat\u00f3ria\u201d (Kupermann, 2003, p.28).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn9\" title=\"title\" href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><br \/>\n<\/a>9 A originalidade da concep\u00e7\u00e3o freudiana de ilus\u00e3o consiste, segundo Kaufman (1979), em ruptura com Nietzsche, \u201cem deriv\u00e1-la n\u00e3o mais de uma economia de defesa da vida, mas de tentativa de resolu\u00e7\u00e3o, no n\u00edvel da cultura, dos impasses aos quais s\u00e3o confrontados os sujeitos dada sua escravid\u00e3o a um estado de acultura\u00e7\u00e3o\u201d (Kaufman, 1979, p. 68).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn10\" title=\"title\" href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><br \/>\n<\/a>10 A autora acrescenta que a religi\u00e3o \u00e9 considerada por Freud o paradigma das ilus\u00f5es: possuem o estatuto pr\u00f3ximo ao do engano e se colocam como nocivas ao homem pois o afastam daquilo que \u00e9 inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana. \u201c<em>Afastamento da verdade<\/em>: eis o cerne do processo que Freud move contra as ilus\u00f5es\u201d (Loureiro, 2002, p. 315).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn11\" title=\"title\" href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><br \/>\n<\/a>11 Em <em>Para a genealogia da moral<\/em>, h\u00e1 uma afirma\u00e7\u00e3o de Nietzsche (1887) que se aproxima da hip\u00f3tese freudiana e que diz o seguinte: \u201cTodos os instintos que n\u00e3o se descarregam para fora <em>voltam-se para dentro<\/em> \u2013 \u00e9 isto que eu denomino a <em>interioriza\u00e7\u00e3o <\/em>do homem \u201d (Nietzsche, 1887, 311), e, mais adiante: \u201cAqueles terr\u00edveis baluartes com que a organiza\u00e7\u00e3o estatal se protegia contra os velhos instintos de liberdade \u2013 os castigos fazem parte, antes de tudo, destes baluartes \u2013 acarretaram que todos aqueles instintos do homem selvagem, livre, errante, se voltassem para tr\u00e1s, <em>contra o homem<\/em> <em>mesmo. <\/em>A hostilidade, a crueldade, o gosto pela persegui\u00e7\u00e3o, pelo assalto, pela mudan\u00e7a, pela destrui\u00e7\u00e3o \u2013 tudo isso se voltando contra os possuidores de tais instintos: <em>essa <\/em>\u00e9 a origem da \u201cm\u00e1 consci\u00eancia\u201d\u201d (Nietzsche, 1887, 311).<\/p>\n<p><a id=\"_ftn12\" title=\"title\" href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><br \/>\n<\/a>12 Na <em>32\u00aa das Nuevas Confer\u00eancias de introducci\u00f3n al psicoan\u00e1lisis<\/em>. \u201cAngustia y vida pulsional, Freud (1933\/1989) retoma as quest\u00f5es colocadas neste texto e afirma: \u201cO temor ao superego normalmente jamais deve cessar, pois, sob a forma de ansiedade moral, \u00e9 indispens\u00e1vel nas rela\u00e7\u00f5es sociais, e somente em casos muito raros pode um indiv\u00edduo tornar-se independente da sociedade humana\u201d (Freud, 1933, p. 79). Em outro trecho, ele afirma: \u201cA institui\u00e7\u00e3o do superego, que toma conta dos impulsos agressivos perigosos, introduz um destacamento armado, por assim dizer, nas regi\u00f5es inclinadas \u00e0 rebeli\u00e3o. Mas, por outro lado, se a encaramos exclusivamente do ponto de vista psicol\u00f3gico, devemos reconhecer que o ego n\u00e3o se sente feliz ao ser sacrificado \u00e0s necessidades da sociedade, ao ter que se submeter \u00e0s tend\u00eancias destrutivas da agressividade que ele teria tido a satisfa\u00e7\u00e3o de empregar contra os outros\u201d (Freud, 1933, p. 102).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn13\" title=\"title\" href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><br \/>\n<\/a>13 Assim ele explica seu racioc\u00ednio: \u201cQuando o superego foi institu\u00eddo pela primeira vez, para equipar essa inst\u00e2ncia fez-se uso da parcela de agressividade infantil dirigida contra os pais, pelo que lhe foi imposs\u00edvel efetuar uma descarga para fora devido a sua fixa\u00e7\u00e3o er\u00f3tica, bem como em virtude de dificuldades externas; e por esse motivo a severidade do superego n\u00e3o corresponde necessariamente \u00e0 rigidez da cria\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a. \u00c9 bem poss\u00edvel que, quando h\u00e1 subseq\u00fcentemente ocasi\u00e3o para suprimir a agressividade, o instinto possa tomar o mesmo caminho que lhe esteve aberto naquele momento decisivo\u201d (Freud, 1933, p. 102).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"_ftn14\" title=\"title\" href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><br \/>\n<\/a>14 Como se pode ver em \u00a0<em>Algunos tipos de car\u00e1cter dilucidados por el trabajo psicoanal\u00edtico <\/em>(Freud, 1916\/1989).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para uma genealogia do superego: contribui\u00e7\u00f5es da reflex\u00e3o freudiana da cultura For a genealogy of the superego: contribuitions of the freudian reflection of culture Maria Vilela Pinto Nakasu marianakasu@hotmail.com Universidade de S\u00e3o Paulo RESUMO O objetivo da presente pesquisa foi oferecer respostas, sob a \u00f3tica de mulheres divorciadas ou que est\u00e3o em processo de div\u00f3rcio, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":10,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[13,279],"tags":[],"class_list":["post-4874","page","type-page","status-publish","hentry","category-publicacoes","category-revista-transformacoes"],"acf":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4874","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4874"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4874\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24661,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4874\/revisions\/24661"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}