{"id":4877,"date":"2014-07-03T19:45:18","date_gmt":"2014-07-03T19:45:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/?p=4877"},"modified":"2018-09-13T14:47:15","modified_gmt":"2018-09-13T17:47:15","slug":"v5n1a7","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/v5n1a7\/","title":{"rendered":"V5N1A7"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong>O corpo que dan\u00e7a: a linguagem art\u00edstica como forma de express\u00e3o e tomada de consci\u00eancia, uma leitura da abordagem fenomenol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">The dancing body: the artistic language as a form of expression and awareness, a reading of the phenomenological approach.<\/p>\n<div>\n<div id=\"ftn3\">\n<p><strong><br \/>\nMariana Soares<\/strong><\/p>\n<p><a style=\"color: #1155cc; font-family: arial, sans-serif; font-size: 13px;\" href=\"mailto:mariana.siham@bol.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mariana.siham@bol.com.br<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Universidade S\u00e3o Marcos<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"left\"><strong>RESUMO<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">O objetivo deste artigo \u00e9 abordar a quest\u00e3o da dan\u00e7a como forma de linguagem e express\u00e3o do ser, discutindo-a por meio de uma vis\u00e3o fenomenol\u00f3gica baseada no conceito de corpo desenvolvido na obra <em>Fenomenologia da Percep\u00e7\u00e3o<\/em> de Merleau-Ponty, bem como outros estudiosos do tema. Por esta forma art\u00edstica de linguagem, pode-se experienciar e expressar conte\u00fados referentes a quest\u00f5es existenciais. Para realizar tal discuss\u00e3o, se faz necess\u00e1rio pensar para al\u00e9m da pr\u00f3pria dan\u00e7a, mas tamb\u00e9m nas no\u00e7\u00f5es de corpo, de movimento, de express\u00e3o e de significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<p><strong>Palavras-Chave:\u00a0<\/strong>dan\u00e7a; corpo; movimento; significa\u00e7\u00e3o; express\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<p align=\"left\"><strong>ABSTRACT<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>The purpose of this article is to approach the question of dance as a form of language and expression of self, discussing it through a phenomenological vision based on the concept of body developed in the work <em>Phenomenology of Perception<\/em> of Merleau-Ponty, as well as other scholars of the theme. Through this artistic form of language, one can experience and express content, referring to existential questions. To accomplish this discussion, it is necessary to think beyond the dance itself, the notions of body, movement, expression and meaning.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><strong>Key-Words:\u00a0<\/strong><\/span>dance; body; movement; meaning; expression.<span lang=\"en-US\" xml:lang=\"en-US\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<div>\n<div id=\"ftn4\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A dan\u00e7a \u00e9 uma forma de express\u00e3o art\u00edstica, que compreende um processo que vai para al\u00e9m da mera repeti\u00e7\u00e3o de passos, gestos e movimentos aprendidos, que ser\u00e3o discutidos neste artigo. A dan\u00e7a pode ser executada com diferentes objetivos: o de produzir ou reproduzir uma coreografia ou o de executar uma dan\u00e7a livre. H\u00e1 ainda uma varia\u00e7\u00e3o nesses passos, gestos e movimentos que variam de acordo com o estilo da dan\u00e7a e da cultura, compreendendo os h\u00e1bitos, os gestuais, os costumes, a qual ela representa. Neste artigo ser\u00e1 dada aten\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento da dan\u00e7a livre, independentemente do estilo ou da cultura que ela represente, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, \u00e0 express\u00e3o de uma ideia, de um sentimento, de uma emo\u00e7\u00e3o, de uma inten\u00e7\u00e3o, de uma experi\u00eancia e de uma percep\u00e7\u00e3o individual e \u00fanica de um ser e de seu corpo que se comunica e se expressa atrav\u00e9s dessa linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partindo do desenvolvimento de conceitos e ideias levantados pela Fenomenologia, o fil\u00f3sofo Merleau-Ponty, em &#8220;\u0080\u009cFenomenologia da Percep\u00e7\u00e3o&#8221;\u0080\u009d (1945\/1999), busca desenvolver o estudo da percep\u00e7\u00e3o propondo uma volta \u00e0s pr\u00f3prias experi\u00eancias, para que se possa, enfim, redefini-las. Ele trata das rela\u00e7\u00f5es de uni\u00e3o existentes entre sujeito, seu corpo e o mundo, considerando o corpo, como o &#8220;\u009cve\u00edculo do ser no mundo&#8221;\u0080\u009d (p. 122), como mediador e express\u00e3o do ser no mundo e \u00e9 no corpo que aprendemos a conhecer o n\u00f3 que se d\u00e1 entre a ess\u00eancia e a exist\u00eancia do ser. Sendo assim, \u00e9 desenvolvendo uma ideia de unidade, que Merleau-Ponty (1945\/1999) discute os dualismos de conceitos como os de consci\u00eancia e corpo, de sujeito e objeto e de sujeito da sensa\u00e7\u00e3o e sens\u00edvel. \u00c9 por entender a experi\u00eancia do ser atrav\u00e9s dessa no\u00e7\u00e3o de unidade, que n\u00e3o se pode separar o corpo da consci\u00eancia, j\u00e1 que um n\u00e3o se limita ao outro, estando todo movimento corporal entrela\u00e7ado na consci\u00eancia, conforme suas palavras:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque n\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 movimento em um corpo vivo que seja um acaso absoluto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s inten\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas, nem um s\u00f3 ato ps\u00edquico que n\u00e3o tenha encontrado pelo menos seu germe ou seu esbo\u00e7o geral nas disposi\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas. (p. 130)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensando na quest\u00e3o da exist\u00eancia e da historicidade do ser como intrincada ao corpo, percebe-se, ent\u00e3o, que deve haver uma rela\u00e7\u00e3o entre o corpo e a mem\u00f3ria do sujeito, pois sua exist\u00eancia foi vivida e apreendida por interm\u00e9dio do corpo, \u00e9 preciso, ent\u00e3o, compreender o papel do corpo na mem\u00f3ria, como aponta Merleau-Ponty (1945\/1999):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 se compreende o papel do corpo na mem\u00f3ria se a mem\u00f3ria \u00e9 n\u00e3o a consci\u00eancia constituinte do passado, mas um esfor\u00e7o para reabrir o tempo a partir das implica\u00e7\u00f5es do presente, e se o corpo, sendo nosso meio permanente de &#8220;tomar atitudes&#8221; e de fabricar-nos assim pseudopresentes, \u00e9 o meio de nossa comunica\u00e7\u00e3o com o tempo, assim como com o espa\u00e7o (p. 246).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A explica\u00e7\u00e3o de Merleau-Ponty (1945\/1999) para a sustenta\u00e7\u00e3o da unidade, que se d\u00e1 entre os sentidos e a intelig\u00eancia, assim como, entre a sensibilidade e a motricidade, \u00e9 de que \u00e9 feita por um &#8220;arco intencional&#8221;\u0080\u009d (p. 190) que projeta em torno de n\u00f3s os aspectos sob os quais estamos situados, como nosso passado, nosso futuro e nosso meio humano. O corpo \u00e9 entendido como mediador de um mundo, e sua experi\u00eancia motora nos d\u00e1 uma forma de acess\u00e1-lo. Mov\u00ea-lo significa visar este mundo atrav\u00e9s do corpo, dessa forma, um movimento aprendido \u00e9 compreendido e incorporado pelo corpo ao seu &#8220;mundo&#8221;. O autor procura compreender e explicar a no\u00e7\u00e3o do corpo e a partir dela, a de movimento, diferenciando-o em concreto e abstrato. A cada momento do movimento experimenta-se a realiza\u00e7\u00e3o de uma inten\u00e7\u00e3o. Segundo Merleau-Ponty (1945\/1999):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada momento do movimento abarca toda a sua extens\u00e3o, e em particular o primeiro momento, a inicia\u00e7\u00e3o cin\u00e9tica, inaugura a liga\u00e7\u00e3o entre um aqui e um ali, entre um agora e um futuro, que os outros momentos se limitar\u00e3o a desenvolver. (p. 195)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apoiado na no\u00e7\u00e3o da Gestalt de figura e fundo, o autor diz que todo o movimento tem um fundo e que ambos s\u00e3o &#8220;momentos de uma totalidade \u00fanica&#8221; (Merlau-Ponty, 1945\/1999, p. 159). Dessa forma, temos que todo movimento tem seu fundo imanente, que &#8220;\u0080\u009co anima e o mant\u00e9m a cada momento&#8221;\u0080\u009d (Merlau-Ponty, 1945\/1999, p. 159). O autor compreende os movimentos corporais como concretos ou abstratos. A distin\u00e7\u00e3o entre ambos se d\u00e1 no sentido de que o movimento concreto ocorre no ser ou no atual, aderindo a um fundo que \u00e9 o mundo dado. O movimento abstrato acontece no poss\u00edvel ou no n\u00e3o-ser. Ao contr\u00e1rio do movimento concreto, seu fundo \u00e9 constru\u00eddo, sendo que ele mesmo o desdobra. A fun\u00e7\u00e3o de &#8220;proje\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 o que o torna poss\u00edvel. Por meio dessa, o corpo projeta no exterior as suas significa\u00e7\u00f5es dando a elas um lugar, portanto, o &#8220;\u0080\u009csujeito do movimento prepara diante de si um espa\u00e7o livre onde aquilo que n\u00e3o existe naturalmente possa adquirir um semblante de exist\u00eancia&#8221; (Merleau-Ponty, 1945\/1999, p. 161).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, acenar o bra\u00e7o a um amigo \u00e9 um movimento concreto, o movimento \u00e9 a figura desta situa\u00e7\u00e3o, ou seja, de um fundo, que \u00e9 o mundo dado. Por\u00e9m, pode-se acenar o bra\u00e7o, por brincar, ou por imaginar uma situa\u00e7\u00e3o, sem que esta exista de fato, o que faz desse, um movimento abstrato. Neste caso, \u00e9 o pr\u00f3prio corpo que se volta para si mesmo. Quando se executa um movimento abstrato, esse busca uma zona de reflex\u00e3o e de subjetividade, na profundidade do mundo onde se desenrolava o movimento concreto, sobrepondo ao espa\u00e7o f\u00edsico um espa\u00e7o virtual ou humano. No caso da dan\u00e7a, os movimentos s\u00e3o abstratos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dan\u00e7a se d\u00e1 a partir de movimentos, de passos, de gestos aprendidos, que s\u00e3o primeiramente compreendidos pelo artista atrav\u00e9s de seu corpo, pela experimenta\u00e7\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o dos mesmos. Tais movimentos s\u00e3o baseados em uma t\u00e9cnica, que \u00e9 influenciada por uma cultura \u00e0 qual est\u00e1 ligada, utilizando-se geralmente da m\u00fasica para a sua execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Merleau-Ponty (1945\/1999) descreve a dan\u00e7a como um h\u00e1bito motor. Sobre todo h\u00e1bito, coloca que nessa aquisi\u00e7\u00e3o \u00e9 o corpo que &#8220;\u0080\u009ccompreende&#8221;\u0080\u009d. \u00c9 preciso pensar nessa compreens\u00e3o, sem dissociar o corpo do pensamento, de forma que ela se d\u00e1 atrav\u00e9s do corpo. Segundo o autor, &#8220;\u0080\u009co h\u00e1bito n\u00e3o reside nem no pensamento nem no corpo objetivo, mas no corpo como mediador de um mundo&#8221;\u0080\u009d (p. 201). O autor traz para ilustrar essa afirma\u00e7\u00e3o o exemplo de um organista que utiliza um \u00f3rg\u00e3o desconhecido por ele. A fim de cumprir seu programa, o m\u00fasico realiza um ensaio. &#8220;O que ele aprende para cada tecla e para cada pedal n\u00e3o s\u00e3o posi\u00e7\u00f5es no espa\u00e7o objetivo, e n\u00e3o \u00e9 \u00e0 sua &#8216;\u0080\u0098mem\u00f3ria&#8217;\u0080\u0099 que ele os confia&#8221; (p. 201). \u00c9 experimentando o instrumento com seu corpo, que ele vai apreender a dist\u00e2ncia e posi\u00e7\u00f5es entre teclas e pedais, que &#8220;\u0080\u009cs\u00f3 lhe s\u00e3o dados como as pot\u00eancias de tal valor emocional ou musical, e suas posi\u00e7\u00f5es s\u00f3 lhe s\u00e3o dadas como os lugares onde esse valor aparece no mundo&#8221;\u0080\u009d (p. 201). De tal forma que se estabelece, segundo o autor, uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o direta entre m\u00fasica, instrumento e m\u00fasico, que seu corpo e instrumento, s\u00e3o considerados apenas como o lugar de passagem dessa rela\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel referir-se \u00e0 dan\u00e7a da mesma maneira, observando-se a rela\u00e7\u00e3o direta entre m\u00fasica e execu\u00e7\u00e3o de passos que correspondam a essa. Sendo os movimentos a express\u00e3o da apreens\u00e3o de valores emocionais, musicais do ser atrav\u00e9s de seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aquisi\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito deve-se, ent\u00e3o, a uma &#8220;apreens\u00e3o motora de uma significa\u00e7\u00e3o motora&#8221;\u0080\u009d (Merleau-Ponty, 1945\/1999, p. 198), atrav\u00e9s da qual, o corpo manifesta atrav\u00e9s de gestos um novo n\u00facleo de significa\u00e7\u00e3o compreendido por ele e passa dos sentidos pr\u00f3prios dos gestos, a um sentido figurado dos mesmos. O corpo como n\u00facleo significativo deixa-se penetrar por uma nova significa\u00e7\u00e3o, assimilando a si um novo n\u00facleo significativo. O ato de express\u00e3o realiza a significa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o se limita a traduzi-la. Segundo o autor, tamb\u00e9m a fala vem consumar um pensamento, e n\u00e3o traduzi-lo &#8220;\u0080\u009ca palavra, longe de ser o simples signo dos objetos e das significa\u00e7\u00f5es, habita as coisas e veicula as significa\u00e7\u00f5es&#8221;\u0080\u009d (p. 242).<\/p>\n<p>A significa\u00e7\u00e3o motora possibilita o desdobramento do pensamento de um movimento em movimento efetivo e segundo Merleau-Ponty (1945\/1999) existe entre eles uma antecipa\u00e7\u00e3o ou uma apreens\u00e3o do resultado assegurada pelo pr\u00f3prio corpo como pot\u00eancia motora, um &#8220;projeto motor&#8221;, uma &#8220;intencionalidade motora&#8221;. Segundo o autor, &#8220;\u0080\u009cadquirir o h\u00e1bito da dan\u00e7a \u00e9 encontrar por an\u00e1lise a f\u00f3rmula do movimento e recomp\u00f4-lo, guiando-se por esse tra\u00e7ado ideal, com o aux\u00edlio dos movimentos j\u00e1 adquiridos&#8221;\u0080\u009d (Merleau-Ponty 1945\/1999, p. 198).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa quest\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o dos gestos \u00e9 tamb\u00e9m descrita por Dantas (1996, citado por Diniz, Araujo, Ant\u00f4nio, Castro &amp; Oliveira, 2009) que considera que a especificidade da dan\u00e7a est\u00e1 na transforma\u00e7\u00e3o de movimentos comuns em gestos de dan\u00e7a, sendo que estes adquirem assim caracter\u00edsticas extraordin\u00e1rias, tornando diferentes seus fatores espaciais, temporais e r\u00edtmicos.<\/p>\n<p>Em alguns tipos de dan\u00e7a, o dan\u00e7arino pode dar uma tonalidade totalmente diferente ao mesmo passo. Pode-se partir de uma ideia pr\u00e9-definida de se trabalhar sobre um tema escolhido, podendo transmitir com o mesmo movimento uma infinidade de emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es que se tenha a inten\u00e7\u00e3o de comunicar. Tais sensa\u00e7\u00f5es podem ser de amor, de alegria, suavidade, ou sensualidade, sendo essas, apenas algumas, entre tantas possibilidades que v\u00e3o variar de acordo com o humor da m\u00fasica, da percep\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o que o artista tem da mesma. Assim, a dan\u00e7a \u00e9 a express\u00e3o de um corpo que se direciona em um sentido, habita um mundo e se relaciona com ele. Por\u00e9m, alguns exerc\u00edcios utilizados no estudo da improvisa\u00e7\u00e3o e da busca da express\u00e3o atrav\u00e9s da dan\u00e7a n\u00e3o possuem uma defini\u00e7\u00e3o anterior de tema, ou por vezes, nem mesmo o conhecimento anterior de qual m\u00fasica ser\u00e1 utilizada. Observa-se neste caso o surgimento espont\u00e2neo de movimentos, que s\u00e3o a express\u00e3o espont\u00e2nea atrav\u00e9s do corpo, das sensa\u00e7\u00f5es percebidas pelo sujeito que dan\u00e7a e vivencia a experi\u00eancia em sua totalidade, conforme o descreve Fernandes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os passos t\u00eam vindo sempre de algum outro lugar- nunca das pernas [&#8230;] \u00c9 simplesmente uma quest\u00e3o de quando \u00e9 dan\u00e7a e quando n\u00e3o \u00e9. Onde come\u00e7a? Quando chamamos de dan\u00e7a? Tem de fato algo a ver com consci\u00eancia, com consci\u00eancia corporal, e a maneira pela qual formamos as coisas (Fernandes, 2006, p. 191, citado por Diniz, Araujo, Ant\u00f4nio, Castro &amp; Oliveira, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao realizar uma improvisa\u00e7\u00e3o de dan\u00e7a, o sujeito percebe atrav\u00e9s de seu corpo e sentidos as qualidades oferecidas pela m\u00fasica, seus ritmos, suas pausas, sua melodia. \u00c9 por meio dessa troca que acontece na percep\u00e7\u00e3o do sens\u00edvel, no caso a m\u00fasica, que vem de encontro a ele, sujeito da sensa\u00e7\u00e3o, que ir\u00e1 a interpretar. Tal interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e1 repleta de significa\u00e7\u00e3o, a m\u00fasica quer dizer algo, ela comunica algo ao sujeito, que responde a ela, expressando-se atrav\u00e9s de seu corpo pela dan\u00e7a, combinando os passos, os gestos, e movimentos que percebe e sente como sendo os correspondentes \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es despertadas em seu ser, pela m\u00fasica percebida. Trata-se, portanto, de uma rela\u00e7\u00e3o de troca entre o sujeito da rela\u00e7\u00e3o e o sens\u00edvel. Entendendo, ent\u00e3o, as diferen\u00e7as entre as subjetividades dos sujeitos e considerando que no momento da dan\u00e7a acessa-se, atrav\u00e9s da express\u00e3o dos movimentos do corpo, a totalidade do ser, pode-se considerar, que no caso da improvisa\u00e7\u00e3o em dan\u00e7a, a escolha moment\u00e2nea de um movimento entre todos que est\u00e3o dispon\u00edveis e que fazem parte de seu repert\u00f3rio, \u00e9 tamb\u00e9m uma escolha afetiva, que diz da totalidade do ser. Tal escolha abarca a sua exist\u00eancia, sua hist\u00f3ria de vida, suas emo\u00e7\u00f5es, inten\u00e7\u00f5es e sua consci\u00eancia, que s\u00e3o partes indissoci\u00e1veis da totalidade de seu ser e que acontecem e se expressam atrav\u00e9s de seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Merleau-Ponty, o sentido enra\u00edza-se na fala, sendo ela mesma a exist\u00eancia exterior do sentido. Pode-se notar que se estabelece, assim, uma rela\u00e7\u00e3o entre dan\u00e7a e fala como gestos, como linguagens, que se referem ao sentido, \u00e0s significa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto o pensamento e a express\u00e3o constituem-se simultaneamente&#8230; assim como nosso corpo repentinamente se presta a um gesto novo na aquisi\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito. A fala \u00e9 um verdadeiro gesto e cont\u00e9m seu sentido, assim como o gesto cont\u00e9m o seu. \u00c9 isso que torna poss\u00edvel a comunica\u00e7\u00e3o (Merleau-Ponty, 1945\/1999, p. 249).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frequentemente, ouve-se falar tanto de espectadores como dos pr\u00f3prios dan\u00e7arinos, sobre a sensa\u00e7\u00e3o de que alguns desses artistas dan\u00e7am com a alma. Esta \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de uma uni\u00e3o entre alma e corpo, n\u00e3o se tratando enfim de &#8220;\u0080\u009cdois termos exteriores, um objeto, outro sujeito. Ela se realiza a cada instante no movimento da exist\u00eancia&#8221;\u0080\u009d (Merleau-Ponty, 1945\/1999, p. 131), j\u00e1 que o ser \u00e9 atrav\u00e9s do corpo. O que se d\u00e1 pela sensibilidade do artista que dan\u00e7a e vivencia atrav\u00e9s da experi\u00eancia vivida, uma percep\u00e7\u00e3o direta de sua totalidade. A dan\u00e7a \u00e9 a express\u00e3o do ser por interm\u00e9dio do corpo, este, que como ve\u00edculo do ser no mundo, realiza movimentos carregados de intencionalidade, significa\u00e7\u00e3o, consci\u00eancia e sentimentos que dizem da sua maneira de perceber e de estar no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando essa sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 percebida e despertada no espectador, pode-se pensar na rela\u00e7\u00e3o de troca estabelecida, existente atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o da dan\u00e7a. Quando se refere ao corpo como express\u00e3o, Merleau-Ponty (1945\/1999) aponta que &#8220;obt\u00e9m-se a comunica\u00e7\u00e3o ou a compreens\u00e3o dos gestos pela reciprocidade entre minhas inten\u00e7\u00f5es e os gestos do outro&#8221;\u0080\u009d (p. 251).\u00a0 Sendo assim, quando estou no lugar de espectador:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O gesto est\u00e1 diante de mim como uma quest\u00e3o, ele me indica certos pontos sens\u00edveis do mundo, convida-me a encontr\u00e1-lo ali. A comunica\u00e7\u00e3o realiza-se quando minha conduta encontra neste caminho o seu pr\u00f3prio caminho. H\u00e1 confirma\u00e7\u00e3o do outro por mim e de mim pelo outro (Merleau-Ponty, 1945\/1999, p. 251-252).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre esta comunica\u00e7\u00e3o, referindo-se tanto \u00e0 m\u00fasica quanto \u00e0 pintura, o Merleau-Ponty (1945\/1999) diz que &#8220;\u0080\u009ctoda linguagem se ensina por si mesma e introduz seu sentido no esp\u00edrito do ouvinte&#8221; (p. 244) criando desta forma a seu p\u00fablico, &#8220;\u0080\u009cpor secretar ela mesma sua significa\u00e7\u00e3o&#8221;\u0080\u009d (Merleau-Ponty, 1945\/1999, p. 244).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto maior \u00e9 a entrega, o comprometimento do sujeito na execu\u00e7\u00e3o dos movimentos da dan\u00e7a, maior \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o desta totalidade, igualmente, quanto mais se est\u00e1 engajado no projeto de realizar o movimento, maior ser\u00e1 o primor na execu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do movimento de dan\u00e7a, observa-se um direcionamento em toda a musculatura e articula\u00e7\u00f5es, uma inten\u00e7\u00e3o, que se volta para o sentido ao qual se destina o movimento. Em rela\u00e7\u00e3o a essa quest\u00e3o, observa-se acontecer no corpo e por interm\u00e9dio dele, um momento de percep\u00e7\u00e3o do ser no mundo.\u00a0 Quando se realiza um movimento, o sujeito que dan\u00e7a sente o despertar de diferentes sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es ligadas n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 experi\u00eancia corporal da dan\u00e7a, mas que, partindo da concep\u00e7\u00e3o de unidade entre o corpo e o ser, diz respeito \u00e0 experi\u00eancia de todo o ser. Sendo que essas foram primeiramente vivenciadas, mas que, podem ser reelaboradas, se trazidas \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 reflex\u00e3o atrav\u00e9s de outro exerc\u00edcio de simboliza\u00e7\u00e3o e nomea\u00e7\u00e3o de tais sensa\u00e7\u00f5es percebidas. Sendo assim, alguns exerc\u00edcios de dan\u00e7a podem servir para trazer estas quest\u00f5es \u00e0 reflex\u00e3o do sujeito, fazendo com que este compreenda a si mesmo. Verifica-se, ent\u00e3o, que a dan\u00e7a representa uma forma de percep\u00e7\u00e3o da totalidade do ser por interm\u00e9dio de seu corpo, e, com ela, surge a possibilidade de utilizar-se da dan\u00e7a como um instrumento de tomada de consci\u00eancia, de percep\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o de si mesmo, podendo o sujeito, atrav\u00e9s desta experi\u00eancia, vir a pensar sobre seu projeto, sua exist\u00eancia e seu acontecer no mundo.<\/p>\n<div><\/div>\n<div>\n<div id=\"ftn1\"><\/div>\n<div id=\"ftn29\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"ftn8\"><\/div>\n<div>\n<div id=\"ftn2\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<p>Diniz, I. C. V. C., Araujo, S. P., Ant\u00f4nio, C.Q. , Castro, C. K. e Oliveira, A.C.P.(2009, abril). A Dan\u00e7a Experimental e a Dan\u00e7a Teatro. <em>Anais do I Semin\u00e1rio e Mostra Nacional de Dan\u00e7a-Teatro, Caminhos da Dan\u00e7a-Teatro no Brasil,<\/em>Vi\u00e7osa, MG, Brasil.<\/p>\n<p>Merleau-Ponty, M. (1999) <em>Fenomenologia da Percep\u00e7\u00e3o <\/em>(2\u00aa Ed.)S\u00e3o Paulo: Martins Fontes. (Originalmente publicado em 1945).<\/p>\n<div>\n<div>\n<div id=\"ftn6\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote1\"><\/div>\n<div id=\"sdfootnote4\"><\/div>\n<div id=\"sdfootnote10\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O corpo que dan\u00e7a: a linguagem art\u00edstica como forma de express\u00e3o e tomada de consci\u00eancia, uma leitura da abordagem fenomenol\u00f3gica The dancing body: the artistic language as a form of expression and awareness, a reading of the phenomenological approach. Mariana Soares mariana.siham@bol.com.br Universidade S\u00e3o Marcos &nbsp; RESUMO O objetivo deste artigo \u00e9 abordar a quest\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":7,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[13,279],"tags":[],"class_list":["post-4877","page","type-page","status-publish","hentry","category-publicacoes","category-revista-transformacoes"],"acf":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4877","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4877"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4877\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24664,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4877\/revisions\/24664"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4877"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4877"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4877"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}