{"id":5378,"date":"2015-10-25T19:04:46","date_gmt":"2015-10-25T19:04:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/?p=5378"},"modified":"2018-09-13T15:15:45","modified_gmt":"2018-09-13T18:15:45","slug":"v6n1","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/v6n1\/","title":{"rendered":"V6N1A1"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ang\u00fastia e Psican\u00e1lise no Hospital: Uma possibilidade de haver sujeito<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Anxiety and Psychoanalysis in the hospital: a subject&#8217;s possibility of existence<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Daniel Bruno dos Reis\u00b9<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Resumo<\/strong><strong>:<\/strong> Este artigo tem como objetivo abordar a ang\u00fastia a partir do que a psican\u00e1lise ensina, buscando compreender seu significado, surgimento e quais s\u00e3o seus efeitos no sujeito. Para tal, tomou-se como base textos de Freud e Lacan sobre o conceito, al\u00e9m de outros autores, leitores daqueles, que contribu\u00edram para a compreens\u00e3o deste. \u00c9 discutido qual o papel do analista no ambiente hospitalar e quais as possibilidades da psican\u00e1lise neste contexto diferenciado de trabalho anal\u00edtico. Este trabalho \u00e9 fruto de atendimentos realizados a pacientes hospitalizados no\u00a0 Centro de Terapia Intensiva \u00a0\u2013 CTI de um Hospital Geral e de seus familiares que acompanham e sofrem com a hospitaliza\u00e7\u00e3o. Estes atendimentos foram realizados em est\u00e1gio curricular do curso de Psicologia do Centro Universit\u00e1rio Newton Paiva.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Ang\u00fastia. Psican\u00e1lise. Hospital. Sujeito.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Abstract: This article discusses the anxiety based on what psychoanalysis teaches, trying to understand its meaning, emergence and effects on the subject. To attain this objective, we based this study on the texts from Freud and Lacan about this concept, and also others authors who contributed to the understanding of the concept. We discuss the analyst&#8217;s role within the hospital environment and the possibilities of psychoanalysis in this different context of analytical work. This work is the result of care provided to patients and their\u00a0families who accompany and suffer with the hospitalization in the Intesive care unity \u2013 ICU\u00a0\u00a0 of a General Hospital and their families. That accompany and suffer with this hospitalization. Attendances took place during an undergraduate psychology program internship at Centro Universit\u00e1rio Newton Paiva.<\/p>\n<p><strong>Keywords: <\/strong>Anguish. Psychoanalysis. Hospital.\u00a0Subject.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201cVosso mais alto saber \u00e9 apenas uma quimera, v\u00e3os e insensatos<br \/>\nm\u00e9dicos. N\u00e3o podeis curar com vossos grandes nomes latinos a dor<br \/>\nque me desespera\u201d. Moli\u00e8re.<\/p>\n<p>Pensar a morte \u00e9 algo que traz ang\u00fastia ao sujeito, especialmente ao que adoece, aos que acompanham a sua dor ou os que ficam depois de uma morte. Um paciente hospitalizado num Centro de Tratamento Intensivo &#8211; CTI se v\u00ea diante da morte, sendo levado a encarar o real de sua finitude como sujeito e, tamb\u00e9m, sua incapacidade, o n\u00e3o ter o que fazer frente ao adoecimento e ao risco de morte. Ou seja, diante de sua castra\u00e7\u00e3o, da forma mais real poss\u00edvel, um sujeito hospitalizado se depara com a ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Deve-se pensar, tamb\u00e9m, no que fazer a este sujeito que, ali no hospital, busca um saber que n\u00e3o aquele sobre o sujeito, mas o da medicina que pode lhe dar respostas. Respostas essas que n\u00e3o d\u00e3o conta de seu sofrimento, apenas de sua dor f\u00edsica, que acarreta outras consequ\u00eancias que podem ser nomeadas como ps\u00edquicas. Pisetta (2008) nos aponta que este apelo do sujeito se traduz numa demanda dirigida ao profissional, geralmente da medicina, j\u00e1 que se trata do ambiente hospitalar, que deve ser entendido como o Outro do saber, da cura e do poder. Ao qual, \u00e9 claro, demanda-se que seja dado o al\u00edvio \u00e0 toda aquela dor sentida, \u00e0quele sofrimento, \u00e0quela ang\u00fastia ali presente no corpo do paciente.<\/p>\n<p>Analisando essas quest\u00f5es e chegando \u00e0 psican\u00e1lise, vemo-nos diante de enigmas que carecem algum trabalho de elabora\u00e7\u00e3o. Que rela\u00e7\u00e3o pode ser feita entre a institui\u00e7\u00e3o que recebe os profissionais ali presentes, o sujeito e sua ang\u00fastia? Quais s\u00e3o as possibilidades para abordar este sujeito? E o que a psican\u00e1lise pode oferecer para fazer borda ao real provocador de ang\u00fastia e a ela mesma?<\/p>\n<p>Estas quest\u00f5es impulsionaram o trabalho em um est\u00e1gio feito num CTI de um Hospital Geral de Belo Horizonte. Tal pr\u00e1tica tinha como objetivos o atendimento aos pacientes hospitalizados que se encontravam em condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas para tal; atendimentos aos familiares e acompanhamento nas visitas e boletins m\u00e9dicos; e, em alguns casos, atendimentos a outras alas do hospital e \u00e0 equipe t\u00e9cnica envolvida.<\/p>\n<p>Os atendimentos eram discutidos em reuni\u00e3o semanal no hospital com a equipe de Psicologia composta por uma psic\u00f3loga respons\u00e1vel, duas estagi\u00e1rias do hospital e outros estagi\u00e1rios curriculares do Centro Universit\u00e1rio Newton Paiva que possu\u00eda parceria com o hospital em quest\u00e3o. Al\u00e9m deste grupo de discuss\u00f5es, os atendimentos tamb\u00e9m eram supervisionados por uma professora, semanalmente, no pr\u00f3prio Newton Paiva, a fim de regular a pr\u00e1tica e promover conhecimento te\u00f3rico essencial aos alunos integrantes do est\u00e1gio.<\/p>\n<p>Existe, h\u00e1 um tempo, a preocupa\u00e7\u00e3o dos analistas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise designada como aplicada e se esta seria realmente uma forma de psican\u00e1lise. Este assunto vem sendo discutido principalmente quando se trata do hospital enquanto lugar em que se tenta fazer psican\u00e1lise. Ser\u00e1 poss\u00edvel? Neste lugar in\u00f3spito, sem o famoso <em>setting <\/em>anal\u00edtico, o div\u00e3, o que podemos pensar em termos de possibilidades de an\u00e1lise no hospital? Quando se pensa em hospital, logo se tem em mente o tema da ang\u00fastia, j\u00e1 que esta \u00e9 a principal queixa dos pacientes em rela\u00e7\u00e3o aos seus diversos sofrimentos. E, \u00e9 claro, a Psican\u00e1lise pensa sobre isso e o que fazer com ela em rela\u00e7\u00e3o ao sujeito para que possam \u00a0advir \u00a0como \u00a0sujeitos \u00a0desejantes, \u00a0fazendo \u00a0borda \u00a0ao \u00a0real \u00a0da \u00a0castra\u00e7\u00e3o. \u00a0Para compreender melhor o lugar onde a psican\u00e1lise pode aparecer no hospital e o que ela tem a oferecer ao sujeito hospitalizado e angustiado, faz-se necess\u00e1rio, primeiramente, compreender a ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Freud (1976), no texto \u201cInibi\u00e7\u00e3o, Sintoma e Ang\u00fastia\u201d, define a ang\u00fastia como um estado afetivo que tem um car\u00e1ter muito acentuado de desprazer, mas deixa claro que isto n\u00e3o \u00e9 o todo de sua qualidade, pois nem todo desprazer pode ser chamado de ang\u00fastia. No mesmo texto, ele acrescenta que a ang\u00fastia \u00e9 sempre acompanhada de sensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas de certa forma definidas, que de alguma maneira podem ser referidas a determinadas partes do corpo, que se tornam percep\u00e7\u00e3o para o sujeito. Chemama (1995) acrescenta que este estado de desprazer se manifesta no lugar de algo da ordem do inconsciente na espera de algo que n\u00e3o se pode nomear.<\/p>\n<p>Ainda pensando na ang\u00fastia como um estado de desprazer, pode-se dizer que ela se d\u00e1 por atos de descarga que seguem caminhos espec\u00edficos, baseando-se num aumento da excita\u00e7\u00e3o que produz certo desprazer no aparelho ps\u00edquico, mas que, paradoxalmente, tamb\u00e9m encontra al\u00edvio devido aos atos de descarga da mesma. Freud (1976) tamb\u00e9m prop\u00f5e que a ang\u00fastia surge como uma rea\u00e7\u00e3o a um estado de perigo, que pode ser o trauma do nascimento \u00e0 situa\u00e7\u00e3o protot\u00edpica. Da\u00ed em diante, situa\u00e7\u00f5es do tipo se repetem e a ang\u00fastia toma forma novamente, como um sinal em busca de ajuda (Freud, 1976).<\/p>\n<p>O conceito de <em>Ang\u00fastia Autom\u00e1tica <\/em>seria uma rea\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea do sujeito diante de uma situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica, ou seja, quando se encontra diante de um afluxo de excita\u00e7\u00f5es variadas e intensas demais, de origem externa e n\u00e3o da conta de domin\u00e1-las (Laplanche\u00a0&amp; Pontalis, 1992).<\/p>\n<p>A ang\u00fastia tem uma extrema rela\u00e7\u00e3o com a expectativa, ou seja, uma apreens\u00e3o por algo que estaria por acontecer (Freud, 1976). O paciente internado no ambiente hospitalar, no CTI, sobretudo, \u00e0 merc\u00ea da doen\u00e7a que implica a possibilidade do fim de sua vida, est\u00e1 nesta posi\u00e7\u00e3o do sujeito que espera por algo da ordem do imprevis\u00edvel: a cura ou a morte.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia, da mesma forma, tamb\u00e9m vive uma apreens\u00e3o frente ao desconhecido ou ao perigo da morte, como visto em casos acompanhados no est\u00e1gio no CTI. Durante os boletins m\u00e9dicos, por vezes os familiares demonstram claramente uma vontade de saber sobre o quadro cl\u00ednico, outras vezes nada querem saber sobre a evolu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, mas somente visitar a pessoa internada e ir embora. Algumas vezes, os familiares, depois do boletim m\u00e9dico, n\u00e3o entram no CTI, alegando n\u00e3o aguentar ver o que o m\u00e9dico descreveu como o estado do paciente. Em qualquer uma das expectativas destes sujeitos, eles se p\u00f5em em um estado de ang\u00fastia, principalmente pelo fato de que, de algum modo, est\u00e3o diante das quest\u00f5es relativas a sua pr\u00f3pria morte n\u00e3o elaborada.<\/p>\n<p>Rodrigues (2007) tenta estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o entre ang\u00fastia e saber, destacando que Freud afirma estar a ang\u00fastia ligada a uma puls\u00e3o de saber a verdade do sujeito, e mostra tamb\u00e9m que Lacan, por sua vez, afirma que a mesma ang\u00fastia seria movida por uma puls\u00e3o do n\u00e3o querer saber. A mesma autora estabelece que a causa da ang\u00fastia estaria relacionada ao objeto <em>a<\/em>, pois este \u00e9 o<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">operador de nossas a\u00e7\u00f5es [&#8230;] mas o objeto <em>a <\/em>pode vir como resposta no fantasma $&lt;&gt;<em>a<\/em>, como tamb\u00e9m pode vir<br \/>\ncomo falta, constituindo a rocha onde Freud coloca o limite da experi\u00eancia anal\u00edtica. Portanto quem sabe da causa \u00e9<br \/>\no objeto <em>a <\/em>(Rodrigues, 20007, p. 140).<\/p>\n<p>J\u00e1 Lacan\u00a0 (2005)\u00a0 afasta \u00a0qualquer \u00a0ideia de \u00a0que \u00a0a ang\u00fastia \u00a0seja \u00a0uma emo\u00e7\u00e3o, preferindo trat\u00e1-la como um afeto, e, acrescentando ao que Freud j\u00e1 havia proposto, afirma que a ang\u00fastia n\u00e3o existe sem objeto. Ao contr\u00e1rio do que muitos pensam, que a ang\u00fastia vem aplacar a falta de um objeto, na verdade ela tem seu objeto de apoio, que est\u00e1 ligado ao objeto <em>a<\/em>. Este que pode funcionar n\u00e3o como defesa \u00e0 ang\u00fastia, mas como isca para a mesma.<\/p>\n<p>Retomando Freud, Lacan (2005), a partir da frase <em>angst vor etwas<\/em>, afirma que a ang\u00fastia \u00e9 diante de algo, ou de alguma coisa. N\u00e3o de algo amea\u00e7ador, mas da ordem daquilo que desperta o desconhecido do que se manifesta. Ele afirma que esta formula\u00e7\u00e3o sobre a ang\u00fastia exprime algo da rela\u00e7\u00e3o de subjetividade que est\u00e1 impl\u00edcito. Portanto, assim como o sintoma, diz do pr\u00f3prio sujeito e da sua rela\u00e7\u00e3o com seu desejo.<\/p>\n<p>Muitos autores falam sobre a ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o como o principal impasse nos neur\u00f3ticos, mas Lacan (2005) ensina que n\u00e3o \u00e9 por esse lado que devem ser encaminhadas as preocupa\u00e7\u00f5es na Psican\u00e1lise. A grande quest\u00e3o \u00e9 que a castra\u00e7\u00e3o, a partir do Nome- do-Pai, que nomeia o desejo do Outro, vai provocar um corte no sujeito, assim como no Outro apontando sua falta. Esta opera\u00e7\u00e3o divide o Outro no significante da falta do Outro\u00a0\u2013 S(A\u0338)\u00a0e objeto <em>a<\/em>, deixando, assim, a marca da falta no sujeito que carrega consigo o objeto <em>a<\/em>, podendo alavancar em dire\u00e7\u00e3o a sua subjetividade.<\/p>\n<p>O verdadeiro impasse do sujeito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ang\u00fastia est\u00e1 relacionado a uma falha nesta opera\u00e7\u00e3o de castra\u00e7\u00e3o, de nomea\u00e7\u00e3o do desejo do Outro. Dessa maneira, o sujeito se v\u00ea desamparado, diante do desejo do Outro sem nomea\u00e7\u00e3o, enquanto Outro completo, sem a barra da castra\u00e7\u00e3o. Para evitar esse desamparo, o sujeito tenta colocar algo no lugar dessa falta estruturante que lhe falta. A ang\u00fastia est\u00e1 ligada a qualquer coisa que possa aparecer no lugar da falta que falta, ou seja, quando n\u00e3o h\u00e1 falta, quando o sujeito tenta supri-la de alguma forma. \u00c9 sinal de alguma situa\u00e7\u00e3o que permite entrever que voltaremos ao colo.<\/p>\n<p>Lacan (2005) ensina que, para a crian\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 a altern\u00e2ncia entre presen\u00e7a- aus\u00eancia da m\u00e3e que causa ang\u00fastia, pois \u00e9 a possibilidade de aus\u00eancia que pressup\u00f5e a presen\u00e7a. \u00c9 justamente a falta da m\u00e3e que vai tranquilizar a crian\u00e7a, j\u00e1 que isso pressup\u00f5e seu retorno. Portanto, \u00e9 justamente quando a possibilidade dessa rela\u00e7\u00e3o de altern\u00e2ncia \u00e9 perturbada que a crian\u00e7a se angustia. Ou seja, quando a possibilidade de que o que deve faltar est\u00e1 presente, a ang\u00fastia aparece.<\/p>\n<p>Em \u00a0rela\u00e7\u00e3o\u00a0 a isto,\u00a0 toma-se \u00a0como\u00a0 exemplo\u00a0 uma cena em \u00a0que \u00a0uma \u00a0paciente internada ap\u00f3s uma ces\u00e1rea chora ao ver um familiar que entra para visit\u00e1-la. Imediatamente este diz: pare de chorar mulher, chorar pra que, isso n\u00e3o \u00e9 nada, voc\u00ea est\u00e1 bem, vamos parar com isso. Calligaris (2007) afirma que este fen\u00f4meno se chama reavalia\u00e7\u00e3o, no qual as pessoas fazem uma reavalia\u00e7\u00e3o positiva de cat\u00e1strofes. O autor afirma, tamb\u00e9m, que as reavalia\u00e7\u00f5es, sobretudo, aliviam a vida de quem as sugere, pois estas pessoas n\u00e3o est\u00e3o muito dispostas a se debru\u00e7ar sobre o desespero que veem diante de si quando se encontram com algu\u00e9m que sofre. Assim, deturpa-se a possibilidade da falta no sujeito hospitalizado, ficando desamparado diante da falta de falta, diante do real da ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Mas qual \u00e9, ent\u00e3o, o papel da psican\u00e1lise no hospital, diante do sujeito angustiado com o real da falta que lhe faz sua rela\u00e7\u00e3o de fantasia com o objeto <em>a<\/em>? Essa com certeza \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise. Mas existem, ainda a este respeito, preocupa\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 atua\u00e7\u00e3o dos analistas no hospital. Discuss\u00f5es s\u00e3o feitas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 postura dos analistas em rela\u00e7\u00e3o ao <em>setting <\/em>e sobre as possibilidades da psican\u00e1lise nesse ambiente diferenciado.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o lacaniana das possibilidades da Psican\u00e1lise ultrapassa os limites do <em>setting <\/em>anal\u00edtico, do consult\u00f3rio particular mobiliado, apontando que o inconsciente n\u00e3o est\u00e1 nem dentro nem fora, mas ali justamente onde o sujeito fala, onde lhe \u00e9 permitido falar. Dessa forma o obst\u00e1culo da psican\u00e1lise n\u00e3o est\u00e1 na institui\u00e7\u00e3o propriamente dita, mas na falta de um analista que proporcione a fala aos\u00a0 sujeitos internados, no caso do hospital (Moretto, 2001). Ocupar este lugar, o de um analista no hospital, e oferecer o dispositivo da escuta aos pacientes, pode traduzir a ang\u00fastia que ali aparece enquanto sofrimento, no seu al\u00e9m, apontando o sujeito para seu desejo.<\/p>\n<p>Mohallem (2003) aponta que cabe ao psicanalista no hospital sustentar esse novo campo de atua\u00e7\u00e3o, implicar-se na tarefa de adequar a Psican\u00e1lise \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es, como prop\u00f4s Freud. \u00c9 preciso saber o que o paciente precisa e o que, enquanto analista, \u00e9 poss\u00edvel oferecer, sustentando a dire\u00e7\u00e3o e os efeitos deste trabalho anal\u00edtico. Pisetta (2008) aponta que os pacientes v\u00e3o aos hospitais para se livrarem de algum sofrimento reconhecido ou n\u00e3o e que, portanto, \u00e9 poss\u00edvel identificar dois momentos de ang\u00fastia: o primeiro, da ang\u00fastia com todas as suas caracter\u00edsticas de indefini\u00e7\u00e3o e falta de objeto; e um segundo, mais tardio, que aparece com a interven\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, da retifica\u00e7\u00e3o subjetiva que possibilita ao sujeito se posicionar diante da sua ang\u00fastia e n\u00e3o mais simplesmente queixar-se dela. Mas o que torna isso poss\u00edvel no contexto do hospital?<\/p>\n<p>No momento de desamparo em rela\u00e7\u00e3o a falta, que falta, \u00e9 preciso que haja, ainda, um outro que aposte neste sujeito e se coloque a ouvi-lo. Este, ent\u00e3o, \u00e9 o papel do analista: ocupar o lugar de Outro, enquanto <em>a<\/em>, para ouvir falar o sujeito calado. \u00c9 preciso ocupar uma postura criativa diante da urg\u00eancia, e isso implica trazer \u00e0 luz, l\u00e1 onde antes n\u00e3o havia nada, fazer contorno ao vazio (Mohallem, 2003). O analista vai, portanto, extrair deste sujeito queixoso, de seus sintomas e ang\u00fastia, a demanda que vai apontar o caminho da an\u00e1lise. Diante das demandas apresentadas pelo sujeito angustiado, Laurent (2003, citado por Dutra &amp; Ferrari, 2007) \u201censina que [&#8230;] a psican\u00e1lise deve fazer com estas o mesmo que faz com o SuperEu da civiliza\u00e7\u00e3o: descompact\u00e1-las, torn\u00e1-las inconsistentes\u201d (p.\u00a0277).<\/p>\n<p>Mas onde est\u00e1 a demanda na urg\u00eancia hospitalar? Retomando a vis\u00e3o lacaniana, Moretto (2001) aponta que existe a rela\u00e7\u00e3o entre oferta e demanda em sentido duplo. O analista deve oferecer sua escuta, pois, al\u00e9m do seu desejo de analista existe j\u00e1 ali, no paciente hospitalizado, a demanda de que algu\u00e9m escute, ou seja, existe ali o analista porque, reciprocamente, existe o analisando que precisa ser ouvido, ter sua demanda escandida. Assim, mant\u00e9m-se a escuta anal\u00edtica baseada na exist\u00eancia de uma demanda de escuta. Por isso, a m\u00e1xima de Lacan: com a oferta de escuta se cria demanda.<\/p>\n<p>Para que haja a possibilidade de fala deste sujeito, e \u00e9 exatamente este o trabalho da Psican\u00e1lise dentro do ambiente hospitalar, Dutra e Ferrari (2007) afirmam que \u00e9 preciso que a urg\u00eancia m\u00e9dica do sujeito abra espa\u00e7o para a urg\u00eancia subjetiva, ou seja, \u00e9 importante acolher o sujeito com o dispositivo da escuta, oferecendo espa\u00e7o de fala e condi\u00e7\u00f5es para a mesma. Nas situa\u00e7\u00f5es de urg\u00eancia surge uma poss\u00edvel transfer\u00eancia, dispositivo de trabalho do analista que:<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da interpreta\u00e7\u00e3o, manobra a passagem dessa transfer\u00eancia para a transfer\u00eancia anal\u00edtica. Isto \u00e9, colocar-se em uma posi\u00e7\u00e3o onde o sujeito adentrado na psican\u00e1lise \u00e9 levado a produzir, por sua pr\u00f3pria palavra, o saber inconsciente (Mohallen &amp; Souza, 1996, p. 32).<\/p>\n<p>\u00c9 a partir desta transfer\u00eancia que o analista vai poder fazer a escuta do paciente hospitalizado, pois, segundo Calligaris (2007), quem est\u00e1 no desespero necessita falar de sua dor e pede que esta seja reconhecida. Este reconhecimento d\u00e1 \u00e0 queixa do paciente o car\u00e1ter de demanda, tornando o paciente duvidoso em rela\u00e7\u00e3o a si mesmo e suas lamenta\u00e7\u00f5es. Isso devido \u00e0s respostas que o analisando espera, mas que o analista jamais as tem. De acordo com Pisetta (2008), essa rela\u00e7\u00e3o vai fazer com que o paciente se questione \u201cporque eu sofro?\u201d. O que transforma a demanda de al\u00edvio numa demanda de deciframento, possibilitando, assim, ao sujeito questionar a si mesmo elaborando sua falta e encarar seu pr\u00f3prio desejo desprendido do Outro.<\/p>\n<p>Portanto, para a psican\u00e1lise h\u00e1 possibilidades no hospital. Um lugar de dif\u00edcil acesso, mas que garante possibilidades de an\u00e1lise. Sobre isso \u00e9 poss\u00edvel pensar nas hist\u00e9ricas de Freud que fizeram, de certa forma, a psican\u00e1lise com suas demandas. No hospital, tem-se a hospitaliza\u00e7\u00e3o e o saber m\u00e9dico que mant\u00eam um furo no saber completo proposto por essa ci\u00eancia e, assim, abre espa\u00e7o para o surgimento de uma demanda de an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Cabe aos analistas, mesmo dentro do hospital, basearem-se na \u00e9tica da psican\u00e1lise ensinada por Lacan (1998) no texto \u201cA dire\u00e7\u00e3o da tratamento e os princ\u00edpios do seu poder\u201d, abordando o sujeito a partir de sua falta, se fazendo de <em>a<\/em>, a fim de resgatar o desejo a esse sujeito pela transfer\u00eancia. Tornando, assim, poss\u00edvel uma psican\u00e1lise no hospital, tal como em um consult\u00f3rio particular, na qual o sujeito \u00e9 esperado como reposta aos sintomas abordados.<\/p>\n<p>Para isso, \u00e9 claro, o analista dever\u00e1 sustentar sua posi\u00e7\u00e3o anal\u00edtica n\u00e3o somente diante do paciente, mas tamb\u00e9m da institui\u00e7\u00e3o que demanda dele esse lugar, mas busca contrariamente uma psicologiza\u00e7\u00e3o do sofrimento ali encontrado. Assim, ao analista, ao abordar a ang\u00fastia no hospital, cabe consider\u00e1-la, escut\u00e1-la, oferecer os dispositivos anal\u00edticos para que cada sujeito ali hospitalizado, congelado diante do saber m\u00e9dico, possa reencontrar seu ponto de falta, sustentar seu desejo e sua condi\u00e7\u00e3o de sujeito.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Calligaris, C. (2007). Depress\u00e3o e terapia.\u00a0 <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>. Caderno Ilustrada. Recuperado em 27 de setembro, 2007, de:<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq2709200728.htm\">\u00a0http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq2709200728.htm.<\/a><\/p>\n<p>Chemama, R.. (1995). Ang\u00fastia. In R. Chemama (Org.), <em>Dicion\u00e1rio de psican\u00e1lise: Larousse <\/em>(pp. 14-15). Porto Alegre: Artes M\u00e9dicas.<\/p>\n<p>Dutra, A. G. C. &amp; Ferrari, I. F. (2007, dezembro). Um estudo sobre a psican\u00e1lise aplicada em um hospital geral<em>. Arquivos Brasileiros de Psicologia<\/em>, 59(2), 270-282.<\/p>\n<p>Freud, S. (1926). Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ansiedade. In S. Freud, <em>Um estudo autobiogr\u00e1fico, inibi\u00e7\u00f5es, sintomas e ansiedade, a quest\u00e3o da an\u00e1lise leiga e outros trabalhos. <\/em>(Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 20. J. Salom\u00e3o, Trad., pp. 107 \u2013 198). Rio de Janeiro: Imago, 1976.<\/p>\n<p>Lacan, J. (2005). <em>O semin\u00e1rio, livro 10: ang\u00fastia. <\/em>Rio de janeiro: Zahar.<\/p>\n<p>Lacan, J. (1998). A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios do seu poder. In Lacan, J. <em>Escritos <\/em>(pp. 591 \u2013 625). Rio de Janeiro: Zahar.<\/p>\n<p>Laplanche, J. &amp; Pontalis, J. B. (1992). <em>Vocabul\u00e1rio da psican\u00e1lise: Laplanche e Pontalis <\/em>(2a Ed). S\u00e3o Paulo: Martins Fontes.<\/p>\n<p>Mohallem, L. N. (2003). Psican\u00e1lise e hospital: um espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o. In L. N. Mohallem. M. D. Moura (Orgs.). <em>P<\/em><em>sican\u00e1lise e hospital &#8211; 3: tempo e morte, da urg\u00eancia ao ato anal\u00edtico. <\/em>Rio de Janeiro: Revinter.<\/p>\n<p>Mohallen, L. N. &amp; Souza, E. M. C. D. (1996).Nas vias do desejo. In: Moura, M. D. (Org.). <em>P<\/em><em>s<\/em><em>ic<\/em><em>an\u00e1lise e Hospital <\/em>(pp. 21-37). Rio de Janeiro: Revinter.<\/p>\n<p>Moretto, M. L. T. (2001). <em>O que pode um analista no hospital?<\/em>. S\u00e3o Paulo: Casa do Psic\u00f3logo.<\/p>\n<p>Pisetta, M. A. A. de M. (2008). Ang\u00fastia e demanda de an\u00e1lise: reflex\u00f5es sobre a psican\u00e1lise no hospital. <em>Boletim de Psicologia<\/em>, 58 (129), 171-183.<\/p>\n<p>Rodrigues,\u00a0G.\u00a0V. (2007).\u00a0Ang\u00fastia\u00a0e\u00a0saber.\u00a0In\u00a0G.\u00a0V. Rodrigues,\u00a0<em>Pe<\/em><em>rcursos\u00a0na\u00a0transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise\u00a0<\/em>(pp. 137-144).\u00a0Belo\u00a0Horizonte:\u00a0Ophicina\u00a0de\u00a0Arte\u00a0&amp;\u00a0Prosa.<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00b9\u00a0Psic\u00f3logo pelo Centro Universit\u00e1rio Newton Paiva. Especialista em Teoria Psicanal\u00edtica (UFMG)\u00a0e\u00a0Mestrando do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da UFMG, na linha de pesquisa Estudos psicanal\u00edticos. E-mail para contato:\u00a0 <a href=\"mailto:danielreis.psic@gmail.com\">danielreis.psic@gmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ang\u00fastia e Psican\u00e1lise no Hospital: Uma possibilidade de haver sujeito Anxiety and Psychoanalysis in the hospital: a subject&#8217;s possibility of existence Daniel Bruno dos Reis\u00b9 Resumo: Este artigo tem como objetivo abordar a ang\u00fastia a partir do que a psican\u00e1lise ensina, buscando compreender seu significado, surgimento e quais s\u00e3o seus efeitos no sujeito. 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