{"id":5448,"date":"2015-12-12T20:09:17","date_gmt":"2015-12-12T20:09:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/?p=5448"},"modified":"2018-09-13T15:35:45","modified_gmt":"2018-09-13T18:35:45","slug":"v5n1a2-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/v5n1a2-2\/","title":{"rendered":"V6N1A2"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\" align=\"center\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 10pt;\"><strong style=\"font-size: 10pt; background-color: transparent;\">Considera\u00e7\u00f5es sobre a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva e o corpo em Jacques Lacan<br \/>\n<\/strong><\/span><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><em><span style=\"line-height: 115%;\">Considerations on the subjective destitution and the body in Jacques Lacan.<\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong><span style=\"line-height: 115%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Abenon Menegassi\u00b9<\/span><\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong><span style=\"line-height: 150%;\">Resumo: <\/span><\/strong><span style=\"line-height: 150%;\">O objetivo deste trabalho \u00e9 promover uma articula\u00e7\u00e3o entre a no\u00e7\u00e3o de corpo e a no\u00e7\u00e3o de destitui\u00e7\u00e3o subjetiva, termo introduzido por Jacques Lacan na d\u00e9cada de 1960. Nessa \u00e9poca, Lacan problematiza o final de an\u00e1lise enquanto tempo de reconhecimento intersubjetivo do desejo mediado pelo registro do simb\u00f3lico. Para Lacan, esta estrat\u00e9gia encontra seu limite no interior da pr\u00e1xis psicanal\u00edtica devido ao fato de que a dimens\u00e3o do simb\u00f3lico apaga o sujeito, suporte da estrutura significante. A partir desta reflex\u00e3o propomos que o corpo pode ser pensado enquanto superf\u00edcie que engendra a jun\u00e7\u00e3o entre o ser e o des-ser da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva do final de an\u00e1lise, ponto este em que passa a ser considerado mais em seu aspecto de opacidade do que em sua boa forma egoica totalizadora.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong><span style=\"line-height: 150%;\">Palavras-chave: <\/span><\/strong><span style=\"line-height: 150%;\">Destitui\u00e7\u00e3o subjetiva. <\/span><span style=\"line-height: 150%;\">Real. Final de an\u00e1lise. Corpo.<br \/>\n<\/span><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong><span style=\"line-height: 150%;\">Abstract: <\/span><\/strong><span style=\"line-height: 150%;\">The objective of this work is to promote a link between the notion of the body and the notion of subjective destitution, a term introduced by Jacques Lacan in the 1960s. At this time, Lacan discusses the end of analysis as a time of intersubjective recognition of desire mediated by the symbolic order. For Lacan, this strategy finds its limits within the psychoanalytic praxis due to the fact that the symbolic dimension turns off the subject, supported by significant structure. From this discussion, we propose that the body can be thought of as a surface that engenders the junction between being and des-being of subjective destitution of the end ofl analysis, a point where the body is regarded more in its aspect of opacity that in their fitness totalizing ego.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong><span style=\"line-height: 150%;\">Keywords:<\/span><\/strong><span style=\"line-height: 150%;\"> Subjective destitution. Real. <\/span><span style=\"line-height: 150%;\">End of analysis. Body.<br \/>\n<\/span><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%;\"><br \/>\n<\/span><\/span><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O objetivo deste trabalho \u00e9 o de tecer algumas considera\u00e7\u00f5es em torno de um estatuto poss\u00edvel a ser dado ao corpo a partir das reflex\u00f5es que Jacques Lacan promove, particularmente em textos como <em>Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967<\/em> e <em>Discurso na Escola freudiana de Paris<\/em>.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Segundo Safatle (2003; 2005), a partir da d\u00e9cada de 1960 Jacques Lacan empreende uma reviravolta conceitual no que se refere \u00e0s formaliza\u00e7\u00f5es da cl\u00ednica psicanal\u00edtica acerca do final da an\u00e1lise. At\u00e9 ent\u00e3o, sua proposta pautava-se pelo reconhecimento intersubjetivo do desejo enquanto mediado pelo registro do simb\u00f3lico. No Semin\u00e1rio VII, por exemplo, Lacan (1988) expressa que \u201cpodemos tentar definir o campo do sujeito na medida em que ele n\u00e3o \u00e9 apenas o sujeito intersubjetivo, o sujeito submetido \u00e0 media\u00e7\u00e3o significante, mas o que est\u00e1 por tr\u00e1s deste sujeito\u201d. (p. 130). Este programa, portanto, encontra seu limite a partir da constata\u00e7\u00e3o de que o simb\u00f3lico, pela via de uma consci\u00eancia reflexiva, seria insuficiente para solucionar o problema da emerg\u00eancia do desejo j\u00e1 que a partir destas coordenadas este registro n\u00e3o situaria o sujeito em seu descentramento, sujeito este que, uma vez aspirado pelo desejo do Outro, restaria localizado para al\u00e9m de suas fronteiras.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Por isso, dentro da proposta maior de retorno a Freud, com a consequente extra\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as que este autor prop\u00f5e com a no\u00e7\u00e3o de inconsciente, Lacan, neste momento de seu ensino, se depara com a quest\u00e3o sobre como simbolizar o desejo no interior da reflexividade intersubjetiva sem cair, tanto na cl\u00ednica quanto na sociedade, nos diagramas performativos impostos pelo Outro.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Neste contexto, inclusive, pensando a quest\u00e3o do la\u00e7o social, que a priori est\u00e1 submetida ao simb\u00f3lico, a proposta de Lacan nos anos sessenta \u00e9 a de constituir a ci\u00eancia da psican\u00e1lise como abertura que procura n\u00e3o incorrer nas armadilhas forjadas pelas pol\u00edticas utilitaristas, totalizadoras e universalizantes que o sujeito encarna a partir da causa\u00e7\u00e3o de seu desejo pelo Outro.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Nesta via, a no\u00e7\u00e3o de destitui\u00e7\u00e3o subjetiva aparece como sendo a mudan\u00e7a estrutural privilegiada que estaria no cerne do tratamento psicanal\u00edtico e que, no final da an\u00e1lise, promoveria, pela via de um ato \u00e9tico, a passagem do psicanalisante a psicanalista.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Essas reflex\u00f5es s\u00e3o, assim, desenvolvidas a partir da introdu\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de destitui\u00e7\u00e3o subjetiva em seu efeito de ser salubre enquanto paradigma do que ocorre com o sujeito que, ap\u00f3s o final de sua an\u00e1lise, aspira, com seu corpo, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma nova identidade, com a qual se prop\u00f5e outra maneira de fazer la\u00e7o com o social<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong><span style=\"line-height: 150%;\">O corpo em Lacan e a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva na contemporaneidade<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Sobre o corpo, no texto <em>O est\u00e1dio do espelho como formador do eu (je) tal como se nos revela a experi\u00eancia psicanal\u00edtica,<\/em> Lacan (1998) compreende o est\u00e1dio do espelho enquanto identifica\u00e7\u00e3o que \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o que se produz no sujeito quando este assume com j\u00fabilo uma imagem especular. Lacan (1998) apreende esta experi\u00eancia enquanto uma matriz simb\u00f3lica onde o eu e o corpo antes mesmo de objetivarem-se na dial\u00e9tica da identifica\u00e7\u00e3o com o outro \u201cse precipitam em uma forma primordial\u201d (p.96-103), onde o corpo \u00e9 o que resta sob as vestimentas das boas formas das imagens narc\u00edsicas da identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria. Por sua vez, na contrapartida, Lacan (1993) declara que \u201co desejo do homem \u00e9 o desejo do Outro\u201d (p. 12) e que \u201co gozo do corpo simboliza o Outro\u201d. (p.13). Nesta linha, Lacan (2003c) afirma que \u201capoiamos o fato de que esse lugar do Outro n\u00e3o deve ser buscado em parte alguma sen\u00e3o no corpo\u201d (p.327).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Quanto a estas cita\u00e7\u00f5es, h\u00e1 que se dizer que no mundo contempor\u00e2neo, tamb\u00e9m considerado como p\u00f3s-moderno, as representa\u00e7\u00f5es da corporeidade v\u00e3o desde as tatuagens, os piercings, os anabolizantes veterin\u00e1rios e as cirurgias modeladoras e bari\u00e1tricas pautadas pelo discurso m\u00e9dico cl\u00ednico e est\u00e9tico at\u00e9 o extremo onde a ci\u00eancia se infiltra no c\u00f3digo gen\u00e9tico para transform\u00e1-lo ao mesmo tempo em que apaga o sujeito.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Sob esta \u00f3tica, constata-se que os diversos sentidos dados ao corpo pela cultura derivam de um campo cada vez mais impulsionado por uma realidade que se tornou radicalmente virtual onde, por exemplo, de acordo com Baudrillard (1997), a cibern\u00e9tica controla o corpo desde o interior jogando com o signo, com o c\u00f3digo ou com as suas modalidades gen\u00e9ticas. Recentemente foi lan\u00e7ado o filme \u201cA pele que habito\u201d (2011) do diretor e roteirista espanhol Pedro Almod\u00f3var que retrata bem esta ideia de corpo copulado pelo desejo do outro e do Outro, onde a ci\u00eancia interv\u00e9m de forma decisiva na sua manipula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Nesta via, Lacan (1998) define o conceito de Outro como sendo o lugar a partir do qual o sujeito se coloca \u201ca quest\u00e3o de sua exist\u00eancia\u201d (p. 547). Neste questionamento est\u00e1 colocada a interroga\u00e7\u00e3o sobre o que \u00e9 de seu corpo, ou seja, de sua sexualidade, de seu desejo, de sua identidade, de seu destino. No mesmo texto, Lacan se refere ao Outro para dizer que ele tamb\u00e9m \u00e9 o \u201clugar do tesouro dos significantes\u201d (p. 563). Com estas defini\u00e7\u00f5es, Lacan explicar\u00e1 que o essencial \u00e9 que n\u00e3o existe qualquer correspond\u00eancia entre o significante e os seus significados e que, por isso, as mensagens chegam de forma invertida do lugar do Outro. Trata-se, portanto, de um lugar a partir do qual, ao se interrogar acerca de seu ser, o sujeito receber\u00e1 a resposta sempre na forma caracter\u00edstica de uma invers\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Nesta perspectiva, \u00e9 por meio deste questionamento que o corpo sexuado entra na exist\u00eancia, passando assim a situar-se, tamb\u00e9m, em um lugar que o firma como suporte dos discursos vindos do Outro que se projetam sobre ele.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Ao ocupar o lugar deste suporte (a \u2013 A), o corpo se torna tamb\u00e9m um anteparo que reflete esta proje\u00e7\u00e3o. Desse modo, o eu\/corpo se forma como uma esp\u00e9cie de ilus\u00e3o virtual (derivada da invers\u00e3o do significante), ou seja, como uma exterioridade e uma expressividade em que o sujeito se aliena quando pensa totalizar-se atrav\u00e9s dos des\u00edgnios da boa forma.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Nesta via, para Dunker (2006), uma das no\u00e7\u00f5es que se pode estabelecer sobre o corpo a partir dos discursos da modernidade \u00e9 que tanto o cartesianismo quanto o anti-cartesianismo incorrem no mesmo equ\u00edvoco que \u00e9 o de pensar a corporeidade em forma de saco (e n\u00e3o de superf\u00edcie), no quadro de uma topologia dominada pela altern\u00e2ncia entre as modalidades interior e exterior co-extensivas da emerg\u00eancia hist\u00f3rica da categoria de indiv\u00edduo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Esta forma de objetiva\u00e7\u00e3o do eu \u00e9, portanto, o lugar onde este eu, ao se apreender como tal, enuncia a sua aliena\u00e7\u00e3o radical. Na via de pensar o corpo a partir de uma topologia que privilegia a no\u00e7\u00e3o de superf\u00edcie, Lacan (2007) afirma que a concep\u00e7\u00e3o de corpo como um saco de \u00f3rg\u00e3os exclui o n\u00f3 como aquilo que ex-siste e n\u00e3o constitui uma corda-consist\u00eancia. Para Lacan (2007) \u201co corpo decerto n\u00e3o se evapora e, nesse sentido \u00e9 que ele \u00e9 consistente\u201d (p\u00e1g. 64). A consist\u00eancia \u00e9 justamente esta insensatez simb\u00f3lico-imagin\u00e1ria que permite \u00e0 mentalidade, que mente, a ilus\u00e3o que d\u00e1 ao corpo uma unidade, ou seja, aquilo que se mant\u00e9m junto, em conjunto, na identidade, no eu, na verdade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em decorr\u00eancia da efetiva\u00e7\u00e3o dessesdiscursos da modernidade sobre o corpo na forma\u00e7\u00e3o do eu, tem-se o que se poderia chamar de uma dupla destitui\u00e7\u00e3o subjetiva encaminhada pela cultura, uma vez que tanto o eu quanto o corpo s\u00e3o subprodutos usinados por esses discursos. Dessa forma, o corpo, ao ser institu\u00eddo como suporte do Outro, passa a ser um objeto destitu\u00eddo de autonomia na medida em que seu interior se torna an\u00f3dino, quer dizer, indiferente a qualquer exterioridade, desde a qual, na sua imagem, o corpo s\u00f3 se subjetiva na propor\u00e7\u00e3o inversa desta indiferen\u00e7a ao seu interior.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A ideia \u00e9 que quanto mais o corpo, enquanto objeto inacess\u00edvel que escapa ao sujeito, torna-sesubjetivado pelo indiv\u00edduo, mais indiferente ou alienado (no sentido de alheio) \u00e0 sua interioridade este indiv\u00edduo fica, j\u00e1 que na tens\u00e3o desta subjetiva\u00e7\u00e3o o que ocorre \u00e9 a radical aliena\u00e7\u00e3o (no sentido de ader\u00eancia<span style=\"color: #1f497d;\">)<\/span> \u00e0s imagens corporais (projetivas e virtuais) que lhe servem como vestes alienantes. Por outro lado, uma das consequ\u00eancias resultantes desses modos de subjetiva\u00e7\u00e3o \u00e9 que passa a existir uma discord\u00e2ncia radical e constitutiva entre o eu e as suas formas, pois n\u00e3o existe a boa forma para o eu, pois a apreens\u00e3o de sua corporeidade \u00e9 sempre vacilante e desconexa uma vez que \u00e9 dependente do olhar do Outro e nunca \u00e9 apreens\u00edvel imediatamente, mas, sempre, mediada pela imagem e pelo significante.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O que acontece ao sujeito quando ele se deixa capturar, alienando-se assim \u00e0 imagem corporal cedida pelo Outro, \u00e9 que esta imagem antecipa a imagem total que ele acredita ser\u00e1 garantida pelo Outro na constitui\u00e7\u00e3o de sua unidade. Isto significa que ao ser mediado pelo Outro o sujeito insere-se no campo de seu desejo (do Outro) e passa a instituir-se como objeto deste Outro constituindo, deste modo, o seu pr\u00f3prio desejo a partir do desejo do Outro. Trata-se, portanto, de um sujeito que ao alienar-se na imagem corporal em que se constitui o eu institui-se, no mesmo movimento, como objeto do Outro j\u00e1 que \u00e9 o Outro que fornece as imagens e os discursos da media\u00e7\u00e3o entre o corpo e o eu.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Esta aliena\u00e7\u00e3o aos modos de subjetiva\u00e7\u00e3o e de forma\u00e7\u00e3o do corpo e do eu acontece porque o homem, desde sempre, projeta no imponder\u00e1vel as imagens de seus ideais sendo o corpo uma dessas telas para-imagens-totais, quer dizer, suporte sobre o qual o sujeito se aliena capturado pela miragem de um eu advindo do Outro, a partir do qual ele se apreende, <em>moto continuum<\/em>, na sua aposta \u00e0 totalidade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Por sua vez, e partindo-se das in\u00fameras defini\u00e7\u00f5es que se pode dar ao corpo em psican\u00e1lise, tais como a concep\u00e7\u00e3o de corpo er\u00f3geno e sexuado, corpo despeda\u00e7ado, corpo historicizado e imagem inconsciente do corpo, \u00e9 poss\u00edvel dizer que, de forma geral, para Lacan, segundo Cukiert e Priszkulnik (2002), o corpo \u00e9 aquilo que \u00e9 \u201cmarcado pelo significante e habitado pela libido. Corpo de desejo e, portanto, de gozo\u201d (p.143).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Diante do panorama apresentado, em que \u00e9 poss\u00edvel constatar n\u00edveis de incid\u00eancia da institui\u00e7\u00e3o do sujeito aspirado em sua aliena\u00e7\u00e3o pelos des\u00edgnios do Outro, cabe perguntar se na cl\u00ednica psicanal\u00edtica, com as suas estruturas psicopatol\u00f3gicas pr\u00f3prias, existem formas de destitui\u00e7\u00e3o do sujeito e, se a resposta for afirmativa, quais seriam essas formas. Situada neste contexto, com sua proposta de pensar a cultura e tamb\u00e9m de oferecer um m\u00e9todo eficaz para promover a cura (sem nos atermos \u00e0 discuss\u00e3o sobre o que seria cura em psican\u00e1lise),dos mal-estares por ela produzidos nos indiv\u00edduos, uma das tarefas da psican\u00e1lise seria, em sentido amplo, a de circunscrever as incid\u00eancias desses mal-estares causados por estas discursividades do corpo enquanto tela de um espa\u00e7o virtual eg\u00f3ico, para, em seguida, buscar alternativas salubres tanto para a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o seu corpo quanto para a inser\u00e7\u00e3o deste corpo no la\u00e7o social.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong><span style=\"line-height: 150%;\">Lacan, destitui\u00e7\u00e3o subjetiva e des-ser<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">As no\u00e7\u00f5es de subjetividade, identidade e corpo foram articuladas at\u00e9 aqui tendo como refer\u00eancia as coordenadas estabelecidas pelos registros do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio. Face \u00e0s formula\u00e7\u00f5es indicadas acima para a compreens\u00e3o da identifica\u00e7\u00e3o desde a media\u00e7\u00e3o desses dois registros, o que se prop\u00f5e na sequ\u00eancia \u00e9 a ideia de que o registro do real expressa um potencial cr\u00edtico de outra ordem, o que permite um novo olhar para a dimens\u00e3o da corporeidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Assim, na continuidade do que foi exposto a<\/span><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">t\u00e9 agora, a quest\u00e3o que se coloca no escopo do objetivo deste trabalho \u00e9 como repensar a localiza\u00e7\u00e3o da corporeidade articulada com o registro do real na cl\u00ednica psicanal\u00edtica, no interior da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva. Mas, para fazer a articula\u00e7\u00e3o entre destitui\u00e7\u00e3o subjetiva e real cabe, antes, compreender a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva na sua articula\u00e7\u00e3o com o termo des-ser.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A no\u00e7\u00e3o de destitui\u00e7\u00e3o subjetiva adquire v\u00e1rias conota\u00e7\u00f5es na obra de Lacan. Como j\u00e1 vimos, uma delas \u00e9 a que se refere \u00e0 destitui\u00e7\u00e3o que acontece com o sujeito na cultura, quando tanto o eu quanto o corpo se instituem desde a aliena\u00e7\u00e3o radical ao Outro.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">No que se refere ao tema proposto sobre a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva no interior da psican\u00e1lise, duas defini\u00e7\u00f5es ser\u00e3o suficientes. Elas est\u00e3o nos textos <em>Proposi\u00e7\u00e3o de 09 de outubro de 1967 <\/em>e <em>Discurso na Escola freudiana de Paris<\/em>.\u00a0 A primeira defini\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de destitui\u00e7\u00e3o subjetiva trata da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o seu desejo ao fim da rela\u00e7\u00e3o transferencial, no momento em que o decaimento da fantasia faz com que as op\u00e7\u00f5es que o sujeito at\u00e9 ent\u00e3o levantara se reduzam a resto. Para Lacan (2003b),<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 35.4pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">a estrutura, assim abreviada, permite-lhes ter uma ideia do que acontece ao termo da rela\u00e7\u00e3o transferencial, ou seja, quando havendo resolvido o desejo que sustentara em sua opera\u00e7\u00e3o o psicanalisante, ele n\u00e3o tem mais vontade, no fim, de levantar sua op\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, o resto que, como determinante de sua divis\u00e3o, o faz decair de sua fantasia e o destitui como sujeito ( p.257).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-top: 0cm; margin-right: 0cm; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Nesta cita\u00e7\u00e3o, o termo \u201cdestitui\u00e7\u00e3o subjetiva\u201d \u00e9 tratado como dado de estrutura naquilo em que ele possui clara conota\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, referido \u00e0s mudan\u00e7as que acontecem com o sujeito na situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do final de an\u00e1lise, instante em que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel \u00e0s suas op\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, o resto, entenda-se modos de gozo, deca\u00edrem porque, como veremos a seguir, o des-ser o afeta.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-top: 0cm; margin-right: 0cm; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Ent\u00e3o, o que acontece neste processo s\u00e3o mudan\u00e7as estruturais resultantes da afec\u00e7\u00e3o do des-ser sobre o sujeito. Trata-se, para n\u00f3s, de entender que o gozo \u00e9 aquilo que aprisiona o sujeito e que a destitui\u00e7\u00e3o do sujeito deste gozo \u00e9 a sua liberta\u00e7\u00e3o. De qu\u00ea? De ser este resto em que se v\u00ea aprisionado ao reduzir-se \u00e0quilo que goza das sobras na rela\u00e7\u00e3o senhor-escravo, sobras que tornar\u00e3o o sujeito fraco e doente. Estamos, portanto, falando de dois n\u00edveis de destitui\u00e7\u00e3o do sujeito: aquela que o enfraquece na rela\u00e7\u00e3o com o Outro na fantasia e, por outro lado, aquela destitui\u00e7\u00e3o subjetiva que adv\u00e9m livre no final de uma an\u00e1lise. Lacan (2008), nos explica o que \u00e9 ser livre: \u201cLivre n\u00e3o quer dizer outra coisa sen\u00e3o <em>mandando embora o sujeito.<\/em>\u201d (p. 45). \u00c9 disso que se trata. Mas, mandar embora de qu\u00ea? Do gozo. E o que \u00e9 o gozo? Ao retomar Freud, Lacan (2008) explicita que \u00e9 a puls\u00e3o de morte que no masoquismo se colore num rebaixamento da vida, pois identific\u00e1vel com a regra do prazer. Assim,<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 35.4pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">o gozo conduz a uma diminui\u00e7\u00e3o do limiar necess\u00e1rio \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da vida, limiar este que o pr\u00f3prio principio do prazer define como um <em>infimum, <\/em>isto \u00e9, a mais baixa das eleva\u00e7\u00f5es, a mais baixa tens\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o da vida (p. 111).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Na destitui\u00e7\u00e3o subjetiva do final de an\u00e1lise, \u00e9 de ser este resto que o sujeito se liberta, vai embora, no des-ser. \u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Uma terceira defini\u00e7\u00e3o de destitui\u00e7\u00e3o subjetiva aparece em \u201cDiscurso na Escola Freudiana de Paris\u201d. Nela, ap\u00f3s indicar que no t\u00e9rmino de cada psican\u00e1lise o psicanalista \u00e9 afetado pelo des-ser, Lacan (2003c) se refere \u00e0 destitui\u00e7\u00e3o subjetiva para afirmar que \u201caquilo de que se trata \u00e9 de fazer com que se entenda que n\u00e3o \u00e9 ela que faz des-ser, antes ser, singularmente e forte\u201d (p. 278). Ou seja, o efeito do advento da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva do final de an\u00e1lise \u00e9, paradoxalmente, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de ser.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%;\">A ideia contida na afirma\u00e7\u00e3o de Lacan \u00e9 mais enigm\u00e1tica do que precisa.<\/span> <span style=\"line-height: 150%;\">Ela parece indicar a necessidade de se distinguir dois momentos importantes da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva do final de an\u00e1lise. Uma que acontece ao termo da rela\u00e7\u00e3o transferencial com o analista e outra que, em decorr\u00eancia da primeira continua, exercendo seus efeitos.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Primeiro, tratar-se-ia da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva pensada numa linha de continuidade temporal dentro da cl\u00ednica, na qual se verificaria efeitos diferentes com suas consequentes modifica\u00e7\u00f5es qualitativas conquistadas a partir das mudan\u00e7as subjetivas, naquilo que o sujeito vai, desde as entrevistas preliminares, dessubjetivando-se de suas ilus\u00f5es fantasm\u00e1ticas, culminando com o des-ser do final. Depois, no la\u00e7o social, portanto, <em>strictu senso<\/em>, n\u00e3o mais na cl\u00ednica (a n\u00e3o ser que do lado do analista, caso o psicanalisado decida exercer esta profiss\u00e3o), trataria-se da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva que, ao portar o des-ser, engendra um ser singular e forte. Se a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva n\u00e3o faz des-ser \u00e9 porque ela, neste n\u00edvel, \u00e9 des-ser. Assim, sendo des-ser, o que ela permite \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de um ser, outro ser, singular e forte.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A distin\u00e7\u00e3o a ser feita aqui se refere a que se trata, de um lado, da mesma destitui\u00e7\u00e3o subjetiva (<em>via di levare<\/em>) com diferentes conota\u00e7\u00f5es qualitativas, dependendo do momento em que \u00e9 articulada na cl\u00ednica e, de outro lado, da destitui\u00e7\u00e3o do sujeito do des-ser desde a sobreposi\u00e7\u00e3o (<em>via di porre<\/em>) de formas temporais exercidos nas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan (2003a) afirma que o ser do sujeito \u00e9 \u201ca sutura de uma falta\u201d (p.207). Por outro lado, o ser singular e forte seria aquele que ap\u00f3s a travessia do fantasma participaria do la\u00e7o social de modo bem diferente, pois foi afetado pelo des-ser e o suporta. Tratar-se-ia, portanto, de um ser que n\u00e3o mais sutura a falta e que se sustenta na falta-a-ser. Com esta afirma\u00e7\u00e3o, Lacan indica a coexist\u00eancia do des-ser e do ser em uma identidade que suporta sustentar-se como queda do objeto <span style=\"text-decoration: underline;\">a<\/span> enquanto suporte do desejo do Outro.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Quanto ao conceito de des-ser acima referido, este aparece tanto no texto da <em>Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967<\/em> <em>\u00a0<\/em>quanto no texto <em>Discurso na Escola freudiana de Paris<\/em>. Por sua vez, em O ato psicanal\u00edtico, resumo do Semin\u00e1rio de 1967-1968, texto da mesma \u00e9poca que os outros dois anteriores, Lacan aborda o assunto sobrepondo-o a um fundo de claras conota\u00e7\u00f5es hegelianas no que tange \u00e0 dial\u00e9tica do senhor e do escravo. Lacan (2003d) afirma que na destitui\u00e7\u00e3o subjetiva do final \u201co em-si do objeto a esvazia-se no mesmo movimento pelo qual o psicanalisante cai, por ter verificado neste objeto <span style=\"text-decoration: underline;\">a<\/span> a causa do desejo\u201d (p. 371). Neste momento, ele fala do ser como o que \u00e9 em-si e que o des-ser \u00e9 a queda que promove a liberta\u00e7\u00e3o (retirada, sa\u00edda, ir embora) do ser de seu em-si ao se tornar para-si mediado pelo outro. O des-ser \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o do em-si do ser e de tudo o que o objeto <span style=\"text-decoration: underline;\">a<\/span> como desejo do Outro comporta de ideal.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Desse modo, ao se reportar nestes textos, especificamente \u00e0quilo que acontece com o sujeito no final de an\u00e1lise, Lacan refere-se ao des-ser para indicar o que se passa com o sujeito quando ele se desvencilha das seguran\u00e7as fornecidas pela fantasia enquanto aquilo que possibilitava ao sujeito, por um lado, defender-se do real e, por outro, tamb\u00e9m, desejar. Segundo Lacan (2003b),\u00a0<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 35.4pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">nessa reviravolta em que o sujeito v\u00ea so\u00e7obrar a seguran\u00e7a que extraia da fantasia em que se constitui, para cada um, sua janela para o real, o que se percebe \u00e9 que a apreens\u00e3o do desejo n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o a de um des-ser (p.259).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Ent\u00e3o, agora, \u00e9 o des-ser que constitui a janela para o real, e n\u00e3o a antiga forma de estruturar a fantasia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Para Lacan, a subst\u00e2ncia do ser sexuado que \u00e9 o homem \u00e9 o gozo. Lacan (2003c): \u201cCom essa refer\u00eancia ao gozo inaugura-se a \u00fanica \u00f4ntica admiss\u00edvel para n\u00f3s\u201d (p\u00e1g. 327). Nestes termos, a caracter\u00edstica fundamental do gozo \u00e9 que ele exige do Outro, atrav\u00e9s da varia\u00e7\u00e3o de seus modos, a sua perman\u00eancia infinita e absoluta no tempo. Nesta via, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel compreender o que \u00e9 o des-ser lacaniano se o tomarmos como a afec\u00e7\u00e3o que o sujeito apreende enquanto resultante dos desligamentos l\u00f3gicos dos seus modos de gozo operados pela an\u00e1lise. O des-ser \u00e9, assim, aquilo que afeta o sujeito no final da an\u00e1lise, sendo esta afec\u00e7\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o para a passagem do psicanalisante a psicanalista dado que ele \u00e9 o que abre a porta que franqueia esta passagem. Lacan (2003b) diz que o que o sujeito apreende \u00e9 o seu desejo, que \u201cn\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o o des-ser\u201d (p. 259) e \u201ccom que ele \u00e9 afetado\u201d (p. 279). Lacan diz isso com todas as letras. O des-ser n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a apreens\u00e3o do desejo advindo do processo de separa\u00e7\u00e3o do Outro, no que isso implicava de ades\u00e3o aos modos de gozo exigidos do Outro.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Para abordar o termo \u201capreens\u00e3o do desejo\u201d que Lacan introduz ao falar da qualidade do des-ser, recorro \u00e0 ontologia conectiva de Espinoza (1983) que no livro I, defini\u00e7\u00e3o V \u201cda \u00c9tica\u201d, ao falar da subst\u00e2ncia, estabelece uma teoria dos modos em sua rela\u00e7\u00e3o com os afetos. Assim, ele afirma que \u201cos modos s\u00e3o afec\u00e7\u00f5es de uma subst\u00e2ncia, ou seja, o que \u00e9 em outra coisa (in alio, acidentes), e que tamb\u00e9m se concebe por essa outra coisa\u201d (p.90).<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Nessa linha, chamo a aten\u00e7\u00e3o para a palavra \u201capreens\u00e3o\u201d. \u201cApreender\u201d significa aqui ser afetado, onde a \u201cafec\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 a incid\u00eancia de um afeto, que pode ser um tra\u00e7o, uma marca que se produz de certo modo quando um corpo \u00e9 afetado por outro atrav\u00e9s de um suporte que o veicula, e que pode ser uma ideia, um saber. Lacan (1988) frisa que a \u201cdire\u00e7\u00e3o na qual se envereda o pensamento freudiano \u00e9 sempre a de colocar o afeto na rubrica do sinal\u201d (p.130), e que a ang\u00fastia \u00e9 o sinal que n\u00e3o engana. Esta afec\u00e7\u00e3o, por conseguinte, pode produzir um efeito negativo, que rebaixa o movimento mas, de outro modo, pode produzir tamb\u00e9m um efeito positivo que pode ser a pot\u00eancia de agir, de pensar. Esta ideia ser\u00e1 importante ao tratarmos da terceira no\u00e7\u00e3o de destitui\u00e7\u00e3o subjetiva,quando veremos que ela se articula com a no\u00e7\u00e3o de ser singular e forte no momento em que o psicanalista faz liame com o social.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Dessa forma, sofrer a apreens\u00e3o ou ser afetado pelo des-ser implica deixar de ser afetado pelos modos dos afetos que copulavam as ideias do ser na fantasia, aquelas ideias doentes que rebaixavam a vida, no gozo.\u00a0 Perceba-se que as ideias s\u00e3o os suportes representacionais que sustentam os afetos. E caber\u00e1 perguntarmos como na destitui\u00e7\u00e3o subjetiva do final e ap\u00f3s o final da an\u00e1lise os afetos e as representa\u00e7\u00f5es se co-ligam, uma vez que o des-ser implica justamente desligamentos e rearranjos entre afetos e representa\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Assim, a partir destas coordenadas, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a senten\u00e7a de Lacan de que a apreens\u00e3o do desejo n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a de um des-ser \u00e9 equivalente \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de que o sujeito \u00e9 afetado pelo des-ser e que, desse modo, ele est\u00e1 se referindo a este des-ser como um afeto forte e que continuar\u00e1 forte o suficiente para desalojar os outros afetos que parasitavam as ideias anteriores com seus respectivos modos de gozo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Percebe-se, ent\u00e3o, que o des-ser \u00e9 um afeto bem diferente dos demais. Primeiro, porque ele \u00e9 um afeto que ao advir faz com que os demais afetos saiam de moda, quer dizer, tornem-se <em>de mod\u00e9<\/em>, ou seja, quando o des-ser afeta o sujeito, ele suprime os outros afetos que copulavam as ideias. Para que isso ocorra, ou seja, para que o afeto do des-ser advenha, \u00e9 necess\u00e1rio que ele se torne em sua negatividade um afeto mais forte que todos os outros afetos reunidos em conjunto. Quando isso acontece, o afeto do des-ser continua forte no interior do efeito de ser do novo sujeito e, nele, desenvolve a pot\u00eancia salubre de agir. Cumpre ressaltar que em sua negatividade, o des-ser comporta um modo de afec\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 in alio, ou seja, o ser esvaziado quanto ao objeto a n\u00e3o \u00e9, no que se refere ao seu desejo, em outra coisa, quer dizer, n\u00e3o \u00e9 alienado aos modos de gozo no sintoma. Por isso, nesses termos, ele n\u00e3o \u00e9 acidente.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Segundo, porque o des-ser \u00e9 um afeto que esvazia o sujeito e causa o luto. \u00c9 por isso que no final da rela\u00e7\u00e3o transferencial o psicanalisante n\u00e3o tem mais vontade de levantar a sua op\u00e7\u00e3o, pois a pot\u00eancia do des-ser a dissolveu e a dissipou uma vez que o advento desta pot\u00eancia se d\u00e1 justo no momento em que o sujeito se v\u00ea reduzido ao significante qualquer que sustentava em ag\u00e1lma e decai (o que n\u00e3o quer dizer que ele deixa de existir) de sua fantasia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Portanto, se, por uma lado, os modos de gozo s\u00e3o afetos que substancializam o ser, ent\u00e3o, por outro lado, o des-ser \u00e9 o deixar de afetar-se por esses modos.O des-ser \u00e9 o apagar dos afetos que transitavam atrav\u00e9s das ideias que suportavam estes modos de substancializar o ser. Assim, des-ser pode ser entendido como afec\u00e7\u00e3o que tira os modos de gozo de moda no mesmo golpe em que adv\u00e9m como desejo. Por isso, para Lacan, retirar os afetos produz o efeito de des-substancializar o ser e seu gozo, o que desvela o sujeito como suporte sem o posto, logo, condi\u00e7\u00e3o para conduzi-lo a novas formas de se manifestar. Como diz Lacan (2003c) \u201cno des-ser revela-se o inessencial do sujeito suposto saber\u201d (p. 259). O que \u00e9 este inessencial? O seu posto, o seu saber, o que antes era acidente.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O des-ser do primeiro momento traz este tra\u00e7o, esta marca da apreens\u00e3o, que adv\u00e9m quando o sujeito \u00e9 afetado pelo seu desejo. Mas, que desejo? Aquele do qual ele n\u00e3o sabia ainda a causa, por ser sexuado, hi\u00e2ncia e fratura? Desejo advindo da reviravolta em que este sujeito v\u00ea so\u00e7obrar a seguran\u00e7a extra\u00edda da fantasia, diz Lacan (2003b) \u201cnaquilo que a fantasia \u00e9 o que promove a entrada do sujeito no real\u201d (p. 259). Assim, o desejo apreendido, que \u00e9 o do des-ser, adv\u00e9m quando o sujeito extrai as suas modalidades de ser, de gozar, da fantasia.\u00a0 \u201cExtrai\u201d significa aqui: deduz e transforma. Ent\u00e3o, veja-se, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel haver desejo l\u00e1 onde ele adv\u00e9m como consequ\u00eancia da afec\u00e7\u00e3o do des-ser, no que este \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para que os gozos se dissipem. Fica claro assim que gozar n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de desejar ou de exercer as vias deste desejo. O desejo que adv\u00e9m no final \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica da equa\u00e7\u00e3o posta na estrutura do sujeito suposto saber.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Desse modo, para Lacan (2003b), no final da travessia, o psicanalisante fica sabendo o que era do ser do objeto de seu obscuro desejo, ou seja, do gozo na fantasia (do gos-sou) que sobrou ao ser separado como resto na rela\u00e7\u00e3o senhor-escravo e, ent\u00e3o, ele adv\u00e9m ao outro ser do final da an\u00e1lise, ou seja, ao ser salubre do saber sobre este gozo, e se apaga (<em>gomme<\/em>), no sentido de passar a borracha (p. 259), ou no sentido de Santo Thomas de Aquino para quem, refere-se a ele Lacan (2003b) na <em>Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967<\/em>, no final de sua vida, sua obra se tornou <em>sicut palea,<\/em> ou seja, esterco, dejeto, lixo, estrume (p. 259).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00c9 o que Lacan (2003b) ensina quando diz que a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva deste momento equivale ao des-ser enquanto aquilo que acontece com o sujeito ap\u00f3s o decaimento da fantasia, desde onde o desenlace da an\u00e1lise ocorre com a solu\u00e7\u00e3o do desejo a partir da evolu\u00e7\u00e3o de ag\u00e1lma dentro da estrutura do sujeito suposto saber. A destitui\u00e7\u00e3o subjetiva enquanto des-ser \u00e9 a des-essencializa\u00e7\u00e3o, des-substancializa\u00e7\u00e3o do sujeito de gozo. Por isso, Lacan (1993) diz no Semin\u00e1rio XX que \u201conde est\u00e1 o ser h\u00e1 exig\u00eancia de infinitude\u201d (p. 19), quer dizer, sob os des\u00edgnios do supereu, o ser faz exig\u00eancia do gozo do Um que sai do Outro, mas, tamb\u00e9m, o ser exige o gozo do Um, do Um do corpo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O gozo narc\u00edsico busca este Um atrav\u00e9s dos objetos parciais que nunca fecham uma totalidade e que dariam a sua ess\u00eancia de gos-sou. Nisto reside o impasse a que o ser \u00e9 obrigado a incorrer e, com ele, o sujeito. Em Arist\u00f3teles a ess\u00eancia de um ser, que \u00e9 a subst\u00e2ncia d\u00e1-lhe a sua unidade regular no decorrer do tempo. Para ele, a subst\u00e2ncia \u00e9 o que estabelece a ess\u00eancia de um ser, sendo a ess\u00eancia o que d\u00e1 a unidade deste ser.\u00a0 A ess\u00eancia \u00e9 a unidade de um ser, porque ela d\u00e1 ao ser as suas propriedades necess\u00e1rias. Assim em Arist\u00f3teles, a infinitude \u00e9 a principal caracter\u00edstica da subst\u00e2ncia essencial de um ser.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em Lacan, o que d\u00e1 ess\u00eancia e, de certa maneira, a unidade ao ser \u00e9 o gozo, e s\u00f3 o gozo, porque nenhum predicativo (a totalidade predicativa \u00e9 imposs\u00edvel) pode dar unidade ao ser sexuado que \u00e9 divis\u00e3o. Por isso, o que o ser exige enquanto Um, enquanto unidade, \u00e9 a infinitude do gozo, seja do corpo ou do Outro. Por outro lado, o des-ser, ao afetar o sujeito, desmonta este Um. O que adv\u00e9m, ent\u00e3o, decorrente da an\u00e1lise, \u00e9 outro momento da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong><span style=\"line-height: 150%;\">Destitui\u00e7\u00e3o subjetiva e ser singular e forte<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Quanto a este outro momento, a partir do qual o psicanalisante passa a psicanalista e, por isso mesmo, assume para si o desejo de engajar-se de outra maneira no la\u00e7o social, pois bem, \u00e9 preciso entender que nele a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva, diz Lacan (2003c), \u201cn\u00e3o \u00e9 o que faz des-ser, antes, ser singularmente e forte\u201d (p.279).\u00a0 Observe-se que Lacan fala em \u201cser\u201d da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva, e n\u00e3o mais em des-ser. Toda aten\u00e7\u00e3o deve ser dada aos termos \u201csingular\u201d e \u201cforte\u201d. Estes termos n\u00e3o indicam um retorno ao ser da filosofia. N\u00e3o indicam, tamb\u00e9m, a recorr\u00eancia a um ser com um ego forte refletido ao psicanalista, de acordo com a tradicional psicologia do ego. Indicam, ao contr\u00e1rio, que para que o psicanalista fa\u00e7a la\u00e7o social sem, contudo, perder a especificidade de seu desejo de analista, \u00e9 necess\u00e1rio que este psicanalista produza em si um ser, e este ser n\u00e3o pode ser qualquer um, mas ser singular e forte nos termos que Lacan conceitua ao dizer que a passagem a psicanalista implica que o psicanalisante abandonou os outros discursos e entrou no discurso anal\u00edtico.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Assim, singular \u00e9 tudo aquilo que n\u00e3o \u00e9 plural, quer dizer, \u00e9 tudo aquilo que n\u00e3o participa de um universal a partir de pelo menos um modo comum e que, portanto, n\u00e3o \u00e9 o particular deduzido deste universal. Por exemplo, a frase \u201cS\u00f3crates \u00e9 mortal\u201d, deduzida do silogismo aristot\u00e9lico, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque o particular \u201cmortal\u201d em S\u00f3crates participa, ou \u00e9 comum, ao universal \u201cTodo homem \u00e9 mortal\u201d. Veja-se, portanto, que a ess\u00eancia socr\u00e1tica de mortalidade nada mais \u00e9 que aquilo que \u00e9 comum a todos os homens, quer dizer, plural.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00a0Lacan (2003d) denuncia a universaliza\u00e7\u00e3o que a l\u00f3gica aristot\u00e9lica permite introduzir no seio das ideologias de massas. O perigo reside no fato de que o termo m\u00e9dio \u201cS\u00f3crates \u00e9 mortal\u201d do silogismo aristot\u00e9lico direciona o homem singular que \u00e9 S\u00f3crates a participar com seu gozo do universal que a premissa maior afirma (p.377). Que todo homem seja mortal desde sempre e, talvez, para sempre, eis a\u00ed uma verdade que n\u00e3o implica as formas de seu gozo para al\u00e9m de sua formaliza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em contraste a esta defini\u00e7\u00e3o de plural, o que \u00e9 o singular? \u00c9 aquilo que n\u00e3o sendo plural, \u00e9 \u00fanico, quer dizer, n\u00e3o dedut\u00edvel de uma universalidade. O singular \u00e9 a diferen\u00e7a absoluta. Nada mais \u00fanico que os desfiladeiros a que o sintoma leva o sujeito em suas vicissitudes de gozo, logo, nada mais \u00fanico que os seus modos de sair deste desfiladeiro e, ao seu estilo, desejar.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Aprendemos desde Freud que a maneira de se extrair os modos de gozo \u00e9 de outra ordem de dedu\u00e7\u00e3o, a saber, a que rearticula a rela\u00e7\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es com os afetos.\u00a0 Portanto, a for\u00e7a associada ao advento do singular s\u00f3 pode ser a pot\u00eancia \u00fanica que se manifesta quando esta singularidade liberta o seu desejo das amarras do ser alienado \u00e0 fantasia. Aliena\u00e7\u00e3o (<em>in alio<\/em>: no caso, a modos de agrega\u00e7\u00e3o de ideias impotentes). Assim, no ser singular e forte da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva causada pelo discurso anal\u00edtico, o sujeito, ao contr\u00e1rio do ser gozante dos discursos alienados, ao se manifestar em sua hi\u00e2ncia, ou seja, naquilo que causa o seu desejo, ele resolve o impasse de um gozo que exigia o Um imposs\u00edvel justo porque os objetos parciais do mundo n\u00e3o permitem a totalidade exigida ao Outro pelo supereu. No Semin\u00e1rio 16, Lacan ensina acerca da ingenuidade que \u00e9 acreditar que o Outro responde ao sujeito desde uma consist\u00eancia que garante que o outro \u00e9 como eu. Pergunta ele, Lacan (2008): \u201cQue \u00e9 o Outro? \u00c9 o campo da verdade que defini como sendo o lugar em que o discurso do sujeito ganharia consist\u00eancia, e onde ele se coloca para se oferecer a ser ou n\u00e3o refutado\u201d (p. 24).\u00a0 Na sequ\u00eancia, diz Lacan, nada pode responder como grito da verdade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Quanto ao terceiro momento da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva, ao inserir-se no la\u00e7o social, enquanto constitu\u00eddo por uma rede ilus\u00f3ria de sentidos necess\u00e1rios para a sustenta\u00e7\u00e3o e o amparo de seus indiv\u00edduos, o sujeito destitui-se daquilo que o afetara como advindo da queda de sua fantasia: o des-ser. Destitui-se deve ser entendido num sentido bem espec\u00edfico. N\u00e3o significa que ele se desvincula do des-ser, que ele se despoja, se livra, joga fora ou manda embora, porque o des-ser se tornou fraco e cedeu lugar (in alio) aos modos antigos de ser. Significa ir mais al\u00e9m, ou seja, que para inserir-se no la\u00e7o social ele d\u00e1 um passo adiante. Ele porta o des-ser, mas n\u00e3o fica parado nele. Ele persevera e avan\u00e7a afirmando um efeito de ser que porta o des-ser em sua interioridade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A partir do instante em que o des-ser afeta o sujeito n\u00e3o h\u00e1 mais volta. Portanto, o efeito de ser da terceira destitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa destituir a segunda destitui\u00e7\u00e3o para voltar \u00e0 primeira institui\u00e7\u00e3o do sujeito para que ele volte a desejar na aliena\u00e7\u00e3o da fantasia primordial. \u00a0Aquilo de que se trata agora \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 interessante para o sujeito que ele se instale na depress\u00e3o, na melancolia, na tristeza, na paralisia causada pela falta de sentido, e que, por isso, permane\u00e7a na indiferen\u00e7a ap\u00e1tica de um eterno domingo da vida, como, por exemplo, os dois xadrezistas do poema de Fernando Pessoa (1916) que se mant\u00eam jogando indiferentemente enquanto as mulheres e as crian\u00e7as morrem nas chamas da cidade que estava sendo atacada pelos invasores (Pessoa\/Reis em \u201cOuvi contar que outrora\u201d, <em>Odes de Ricardo Reis<\/em>, 1916).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Trata-se, portanto, de um ser que porta o des-ser. Para Lacan (2003b) as duas destitui\u00e7\u00f5es se encontram na jun\u00e7\u00e3o onde \u201co ser do desejo une-se ao ser do saber para renascer, no que eles se atam\u201d (p.260). Assim, este novo ser singular e forte, forjado desta jun\u00e7\u00e3o, possui um efeito de ser que revela o sujeito na sua inser\u00e7\u00e3o no la\u00e7o social de forma salubre quando, antes, era de seu mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o que se tratava.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%;\">A destitui\u00e7\u00e3o subjetiva do final de an\u00e1lise se refere ao movimento de transforma\u00e7\u00e3o constitutivo do sujeito do des-ser, momento em que ele se separa do Outro na fantasia e redefine os seus modos de gozo. Na continuidade, a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva em seu efeito de ser salubre no la\u00e7o social trata de uma transformatividade resultante do movimento de forma\u00e7\u00e3o de um sujeito cujo eu, logo o corpo, como resto, se reporta ao real deixando-se atravessar num processo de aprendizado que alcan\u00e7a uma posi\u00e7\u00e3o muito particular ante o saber, que \u00e9 a de que nada pode preencher o vazio constitutivo do sujeito (os objetos n\u00e3o totalizam o ser) e que, portanto, n\u00e3o se pode mais se enganar diante da promessa sempre tra\u00edda de completude realizada pelos objetos emp\u00edricos do mundo em suas ilus\u00f5es de objetos f\u00e1licos ideais que recobrem o objeto a. Isto porque nenhuma infinitude de predicados preenche o ser. O ser \u00e9 fratura, hi\u00e2ncia, falta a ser<\/span> <span style=\"line-height: 150%;\">quer dizer, ser que subjetiva o objeto <span style=\"text-decoration: underline;\">a<\/span> como falta e n\u00e3o como objeto parcial que sutura uma totalidade em suas identifica\u00e7\u00f5es narc\u00edsicas.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong><span style=\"line-height: 150%;\">Gozo, desejo e ato<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%;\">Desse modo, no Semin\u00e1rio VIII, ao se referir \u00e0 \u00e9tica do gozo e denunciar que o que mais se v\u00ea \u00e9 que o desejo encontra no ato antes o seu colapso que a sua realiza\u00e7\u00e3o e que, al\u00e9m, na melhor das hip\u00f3teses, o ato s\u00f3 apresenta ao desejo a sua proeza e o seu gesto heroico, Lacan (1992) pergunta sobre \u201ccomo preservar do desejo a este ato, aquilo a que se pode chamar de uma rela\u00e7\u00e3o simples, ou salubre?\u201d (p. 14). De outro modo, como preservar o desejo do ato insalubre,<\/span> <span style=\"line-height: 150%;\">ou seja, daquele ato que cai nas armadilhas existentes na toca i(a) (identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria ao Outro) do Outro?<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Tratar-se-ia aqui, de uma rela\u00e7\u00e3o entre desejo e ato sem media\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que simples, ou de uma rela\u00e7\u00e3o cujo estatuto seria de outra ordem? Uma leitura poss\u00edvel desta frase \u00e9 que Lacan pergunta como preservar a rela\u00e7\u00e3o simples e salubre entre o desejo e o ato, no que se refere ao que se espera de um analista, onde este ato s\u00f3 pode ser o ato anal\u00edtico, do outro ato que s\u00f3 apresenta ao desejo as proezas e as perip\u00e9cias que, na sua media\u00e7\u00e3o, introduzem afec\u00e7\u00f5es doentes na fantasia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%;\">Assim, este efeito de ser salubre seria a rela\u00e7\u00e3o simples que pode haver entre o desejo e o ato anal\u00edtico. Ent\u00e3o, o que se espera de um psicanalista \u00e9 que ele se sustente no desejo do analista que \u00e9 o de perseverar na fun\u00e7\u00e3o de uma ess\u00eancia cuja exist\u00eancia implica afirmar uma rela\u00e7\u00e3o simples do sujeito com o seu ato. E esta rela\u00e7\u00e3o simples \u00e9 aquela que n\u00e3o est\u00e1 mediada pelos modos (acidentes) de gozo dos devaneios ditos plat\u00f4nicos, sendo estes devaneios entendidos como aquilo que se delineia enquanto proje\u00e7\u00e3o do sujeito no campo do al\u00e9m da miragem, quer dizer, como diz Lacan (1992) \u201cproje\u00e7\u00e3o do sujeito no campo do ideal, desdobrada entre, de um lado, o alter ego especular, o eu ideal, e, de outro, o que est\u00e1 mais al\u00e9m, o ideal do eu\u201d (p. 335).<\/span> <span style=\"line-height: 150%;\">A media\u00e7\u00e3o de que se trata \u00e9 a que, por outro lado, se refere ao objeto <span style=\"text-decoration: underline;\">a<\/span> naquilo que seu esvaziamento comporta a possibilidade de o sujeito sustentar-se o m\u00e1ximo poss\u00edvel em sua opacidade face ao Outro e ao real.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O que Lacan explicita no Semin\u00e1rio VIII, na via de uma cr\u00edtica ao idealismo &#8211; inclusive plat\u00f4nico, porque este reflete o dualismo metaf\u00edsico que se insinuou para dentro da psicologia atrav\u00e9s de um dualismo psicof\u00edsico &#8211; e a tudo que ele promoveu na terra desde sua apari\u00e7\u00e3o como mal-estar, (porque o ideal \u00e9 o que o supereu exige ao Outro, e a exig\u00eancia do ideal destacado ao Outro pelo supereu implica agressividade), pois bem, a todo idealismo Lacan op\u00f5e o termo salubridade para designar a sa\u00fade que se origina da liberta\u00e7\u00e3o desta infec\u00e7\u00e3o que est\u00e1 no limiar de todas as agressividades que est\u00e3o na base das atividades humanas. Quanto \u00e0 cura do idealismo, Lacan afirma que a salubridade est\u00e1 na erradica\u00e7\u00e3o dessa matriz que se desdobra numa ontologia metaf\u00edsica idealista que busca substancializar e essencializar patologicamente o ser a partir das perip\u00e9cias que n\u00e3o cumprem a fun\u00e7\u00e3o de totaliz\u00e1-lo, comprometimento a que Lacan (1992) nos exorta \u00e9 que:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 35.4pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">&#8230;deixemos de rodeios quanto ao significado de salubre no sentido da experi\u00eancia freudiana. Significa livre, t\u00e3o livre quanto poss\u00edvel desta infec\u00e7\u00e3o, que \u00e9, aos nossos olhos, &#8211; mas n\u00e3o somente aos nossos olhos, aos olhos desde sempre, desde que se abrem \u00e0 reflex\u00e3o \u00e9tica \u2013 a base movedi\u00e7a de todo estabelecimento social enquanto tal (p.14).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Assim, a quest\u00e3o de se saber que lugar o corpo passa a ter a partir do momento em que, no processo anal\u00edtico, o sujeito do inconsciente constitui um novo saber sobre o sintoma, logo, acarreta uma nova identifica\u00e7\u00e3o, ganha a sua relev\u00e2ncia e dimens\u00e3o a partir do programa que Lacan formaliza na d\u00e9cada de sessenta para o final de an\u00e1lise, no qual apresenta a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva em seu efeito de ser salubre como um paradigma que reserva ao corpo a fun\u00e7\u00e3o de, ap\u00f3s atravessar o fantasma, buscar a forma\u00e7\u00e3o de um novo eu que, ca\u00eddo como resto, tem no objeto a o ponto de refer\u00eancia para um outro romance. Abordo aqui o conceito de objeto a como o termo que Lacan forjou para se referir \u00e0quilo que ele chama de resto n\u00e3o simboliz\u00e1vel. Este resto pode ser o gozo, o real, o corpo, ou tudo o que est\u00e1 fora do significante.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Isto significa que o objeto a, no que tange ao des-ser, \u00e9 uma forma de produ\u00e7\u00e3o que est\u00e1 no horizonte da mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o subjetiva causada pela an\u00e1lise. Lacan (2003d) \u201c\u00c9 a isso que responde o objeto a. O psicanalista se faz do objeto a. Ele se faz, entenda-se: faz-se produzir; do objeto a: com o objeto a\u201d (p. 375). Desse modo, o objeto a est\u00e1 relacionado com o saber que o inconsciente constr\u00f3i. Saber que, por ter como n\u00facleo o real n\u00e3o simboliz\u00e1vel do objeto a, \u00e9 da ordem do n\u00e3o solid\u00e1rio com a verdade. Trata-se, portanto, de uma mudan\u00e7a do saber inconsciente, no sentido de arrancar as ra\u00edzes profundas do que era do gozo como involucrado pelo simb\u00f3lico. Lacan (2003d):<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 35.4pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Ser\u00e1 que o psicanalisante, ao t\u00e9rmino da tarefa que lhe foi \u00a0 atribu\u00edda, sabe \u201cmelhor do que ningu\u00e9m\u201d da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva a que ela reduziu justamente aquela que lha ordenou? Ou seja: o em-si do objeto a que, nesse t\u00e9rmino, esvazia-se no mesmo movimento pelo a qual o psicanalisante\u00a0 cai, por ter verificado nesse objeto a a causa do desejo\u201d (p. 371).<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Esta mudan\u00e7a de saber, que resulta num des-ser que se prop\u00f5e a uma outra rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o saber e \u00a0com o desejo, produz, a meu ver, o que eu entendo como sendo o sil\u00eancio, sil\u00eancio (da puls\u00e3o) em rela\u00e7\u00e3o ao velho fantasma, sil\u00eancio que n\u00e3o \u00e9 nem paralisia, nem conformismo, muito menos aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o de objeto mas, antes, uma maneira muito especifica de sustentar-se com o corpo, mediado pelo objeto a, no real. Esta singularidade se manifesta na personagem que apresento a seguir atrav\u00e9s da maneira como ele atravessa o fantasma com seu corpo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Jacque Maast, um sujeito singular e forte<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Para a compreens\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o subjetiva da personagem que ilustra o corpo como real face ao real da guerra, do Outro, do outro e, sobretudo, do gozo no seu sintoma, \u00e9 preciso introduzir uma defini\u00e7\u00e3o do conceito de real em Lacan. Esta defini\u00e7\u00e3o \u00e9 estrat\u00e9gica, uma vez que ser\u00e1 a partir dela que, para nosso prop\u00f3sito, retomaremos a cita\u00e7\u00e3o desta personagem a que Lacan se refere em (2003b) para ilustrar o que \u00e9 a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva em seu efeito de ser salubre.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A partir do momento em que Lacan deixa de apostar no simb\u00f3lico como sendo o essencial da experi\u00eancia psicanal\u00edtica e sua \u00e9tica, ele passa a articular o real com o vazio. Assim, no Semin\u00e1rio VII, sobre a \u00e9tica da psican\u00e1lise (1960), Lacan articula o real com <em>das Ding<\/em>, a Coisa que governa o mundo, ou seja, com a puls\u00e3o de morte, com o gozo que se presentifica no simb\u00f3lico e que, contudo, est\u00e1 al\u00e9m dele sendo que \u00e9, portanto, muito dif\u00edcil de apreend\u00ea-lo. Lacan (1988) ao situar o que \u00e9 o real, afirma que seu sentido tem rela\u00e7\u00e3o com aquilo que faz oposi\u00e7\u00e3o entre princ\u00edpio de prazer e princ\u00edpio de realidade tal como definiu Freud: \u201cPara al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer aparece-nos essa face opaca \u2013 t\u00e3o obscura que pode parecer, para alguns, a antinomia de todo pensamento, n\u00e3o apenas biol\u00f3gico, mas at\u00e9 mesmo simplesmente cient\u00edfico \u2013 que se chama \u2018instinto de morte\u2019\u201d (p.31). Por ser assim, o real \u00e9 o registro que <em>ex-siste<\/em> ao imagin\u00e1rio e ao simb\u00f3lico. \u00c9, tamb\u00e9m, aquilo que \u00e9 sem fissura, que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever. O real n\u00e3o pode ser simbolizado. Ele \u00e9 o que caracteriza a impossibilidade da rela\u00e7\u00e3o sexual: se o real \u00e9 indescrit\u00edvel, ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Partindo destas defini\u00e7\u00f5es de real, cabe perguntar sobre como um sujeito sustentaria o seu eu a partir da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva naquilo que ela se caracteriza por um despojamento justo daquilo que este sujeito recobre atrav\u00e9s do sistema simb\u00f3lico-imagin\u00e1rio, uma vez que a\u00ed o de que se trata \u00e9 de manter-se com o seu corpo a descoberto no interior do la\u00e7o social, lugar em que, como j\u00e1 foi afirmado, se d\u00e1 a amarra\u00e7\u00e3o entre o corpo e os discursos do Outro?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Aqui, \u00e9 preciso interpolar tamb\u00e9m uma considera\u00e7\u00e3o sobre a no\u00e7\u00e3o de la\u00e7o social. Para Askofar\u00e9 (2010) \u201co la\u00e7o \u00e9 o que assegura a coexist\u00eancia sincr\u00f4nica de dois ou mais termos\u201d (p.5). Para este autor, a amarra\u00e7\u00e3o de que se trata na coexist\u00eancia de termos no la\u00e7o social \u201cn\u00e3o s\u00e3o puros significantes mas sim corpos\u201d (p. 5). Por outro lado, uma vez que a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe, como o sujeito da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva poderia sustentar, com seu corpo e sob o primado do objeto, uma inser\u00e7\u00e3o no la\u00e7o social enquanto campo aberto para a coexist\u00eancia\u00a0 entre o ser, em sua singularidade desejante, e os discursos do Outro que amarra esses corpos?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%;\">Para responder esta quest\u00e3o, quero partir, como j\u00e1 anunciamos, de uma personagem que Lacan introduz como sua ilustra\u00e7\u00e3o<\/span> <span style=\"line-height: 150%;\">daquilo que acontece com o sujeito da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva que se prop\u00f5e a atravessar o real dos discursos do Outro levando consigo apenas o real do seu pr\u00f3prio corpo, justamente porque, tendo atravessado o fantasma, apreende este corpo para al\u00e9m de um eu que se constitui numa fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o recai mais numa ontologia porque n\u00e3o mais se ilude com as miragens advindas do Outro, e que, no in\u00edcio, alimentavam o seu gozo.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Referimo-nos a Jacques Maast, personagem do livro \u201cO Guerreiro Aplicado\u201d de Jean Paulhan (1982), que tomo aqui como ilustra\u00e7\u00e3o de um sujeito p\u00f3s-anal\u00edtico. Este personagem foi indicado por Lacan em \u201cDiscurso na Escola freudiana de Paris\u201d (2003c) como a ilustra\u00e7\u00e3o da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva em seu efeito de ser salubre, no que a salubridade se refere ao ser singular e forte produzido pela psican\u00e1lise. Para Lacan (2003c), \u201cno que concerne ao efeito de ser, aborda-se melhor o assunto em Jean Paulhan. <em>Le Guerrier Appliqu\u00e9<\/em> \u00e9 a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva em sua salubridade\u201d (p. 279).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Nesta frase, tanto o termo \u201cefeito de ser\u201d quanto o termo \u201csalubridade\u201d aparecem, assim como anteriormente o termo des-ser, de forma enigm\u00e1tica. Na esteira do debate sobre a cura e sobre a \u00e9tica em psican\u00e1lise no interior mesmo da controv\u00e9rsia sobre o que \u00e9 o normal e o patol\u00f3gico, Lacan introduz o termo \u201csalubridade\u201d, dando, desse modo, continuidade a este debate. Assim, neste contexto, o ser como efeito de ser salubre \u00e9 o que resulta do des-ser.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%;\">Ao racioc\u00ednio desenvolvido at\u00e9 aqui sobre a no\u00e7\u00e3o de \u201cefeito de ser salubre\u201d, cabe acrescentar que a salubridade \u00e9<\/span><span style=\"line-height: 150%;\">a <\/span><span style=\"line-height: 150%;\">capacidade do ser em estabelecer atrav\u00e9s do esfor\u00e7o do pensamento, rela\u00e7\u00f5es causais entre ideias inicialmente desconexas para interliga-las a partir de pontos comuns.<\/span> <span style=\"line-height: 150%;\">No contexto que estamos considerando a salubridade \u00e9, assim, a capacidade do ser em sustentar o ato do desejo, ou seja, de perseverar neste ser e no seu ato.<\/span> <span style=\"line-height: 150%;\">Esta capacidade adv\u00e9m, portanto, como efeito do estabelecimento dessa rede de conex\u00f5es causais promovidas pela inteligibilidade do sujeito descentrado. As passagens sobre a trajet\u00f3ria de Jacques Maast que ser\u00e3o apresentadas a seguir ilustrar\u00e3o a ideia apresentada.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Maast \u00e9 um estudante franc\u00eas de dezoito anos que se engaja voluntariamente como zuavo (soldado da infantaria francesa) na guerra de 1914. Seu engajamento implica ir ao encontro de um ferimento e de uma morte muito prov\u00e1vel. Mas Maast, escreve Paulhan (1982), integrando \u201cum grupo de refor\u00e7o de cinquenta homens, parte de Saint-Denis silenciosamente\u201d (p.13). Uma primeira leitura do livro de Paulhan pode dar a impress\u00e3o de um Maast cabisbaixo, depressivo, tolo e \u00e0 merc\u00ea da situa\u00e7\u00e3o. Contudo, o seu ato de engajamento volunt\u00e1rio na guerra n\u00e3o \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o qualquer. No seu ato \u00e9 poss\u00edvel captar o que para ele \u00e9 a alegria: um entusiasmo que \u00e9 o efeito do aumento da pot\u00eancia para agir, ou seja, a capacidade de desalinhavar-se e realinhavar-se (em desapego) em novas maneiras de viver os modos de gozo no sintoma com o qual, agora, ele sabe o que fazer.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Assim, este sil\u00eancio seria uma met\u00e1fora poss\u00edvel do estatuto do eu ante o real da ang\u00fastia e do gozo, pode-se dizer, no corpo de Maast ap\u00f3s o final da an\u00e1lise. Ang\u00fastia gerada pela quest\u00e3o acerca do que o Outro quer de mim. Trata-se, portanto, o m\u00e1ximo poss\u00edvel, do sil\u00eancio da n\u00e3o inscri\u00e7\u00e3o do Outro no corpo. Por isso, Jacques Maast \u00e9, segundo Soler (1995), este \u201csujeito que n\u00e3o tem medo, n\u00e3o tem ang\u00fastia nem ideal\u201d (p. 16), e que aceita ir de encontro a outro real, a guerra (das balas e obuses que silvam sobre a sua cabe\u00e7a inesperadamente, de um modo que n\u00e3o deixam d\u00favidas quanto ao que \u00e9 preciso fazer uma vez mergulhado naquela realidade), como modo de instituir-se enquanto sujeito descentrado e desejante que avan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao cinismo de sua \u00e9poca, superando-o em dire\u00e7\u00e3o a uma posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica diante da hist\u00f3ria de seu sintoma (compromisso de gozo), da guerra (Outro) e do outro (la\u00e7o social). Veja que aqui mantemos, como condi\u00e7\u00e3o essencial, a institui\u00e7\u00e3o do sujeito do des-ser, que era, por sua vez, o sujeito destitu\u00eddo do ser alienado (in alio) da fantasia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>O guerreiro aplicado, corpo e real<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Esta ideia do corpo silencioso, no real, efeito resultante do advento do des-ser, corpo ejetado do fantasma ap\u00f3s o final da an\u00e1lise, coaduna-se com o eu de um sujeito que resolve o problema do j\u00fabilo e da ang\u00fastia, em outras palavras, de sua exist\u00eancia, do gozo. Mas, aqui, \u00e9 preciso n\u00e3o confundir este sil\u00eancio com o mutismo hist\u00e9rico ou com a complac\u00eancia psic\u00f3tica e, principalmente, com a indiferen\u00e7a contemplativa dos heremitas. Nada disso interessa \u00e0 psican\u00e1lise que v\u00ea a\u00ed antes o cinismo e o mal uso de sua contribui\u00e7\u00e3o do que o encaminhamento saud\u00e1vel e forte dos efeitos dela decorrentes. Trata-se, antes, do sil\u00eancio de um eu, n\u00e3o sem gozo, mas de um eu que n\u00e3o ontologiciza a sua fun\u00e7\u00e3o. Assim, trata-se de um corpo que participa ativamente do processo de forma\u00e7\u00e3o perseverante do ser singular e forte que aspira a manter os modos decididamente escolhidos de sua exist\u00eancia. E esta \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que o conceito de real em Lacan pode oferecer, j\u00e1 que ele permite fazer face aos registros de Simb\u00f3lico e Imagin\u00e1rio como aquilo que envolvia o corpo como suporte das agrega\u00e7\u00f5es das ideias terceiras (fantasia) que o parasitavam.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"line-height: 150%;\">Deste modo, o corpo participa da forma\u00e7\u00e3o desta nova identidade. Por forma\u00e7\u00e3o entenda-se a constru\u00e7\u00e3o erigida pela tens\u00e3o dial\u00e9tica entre opostos que se encaminham para a afirma\u00e7\u00e3o que \u00e9, por sua vez, a pot\u00eancia de agir a qual requer um esfor\u00e7o em que se articulam a raz\u00e3o e os afetos<\/span> <span style=\"line-height: 150%;\">tendo como refer\u00eancia o vazio do objeto a. \u00c9 neste sentido que formar este corpo significa afirmar este corpo como opacidade que existe sem se deixar substancializar pelas ideias que portavam afetos tristes, deprimidos, portanto, fracos e doentes.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O livro de Paulhan (1982) O Guerreiro Aplicado, cujo t\u00edtulo j\u00e1 indica esta ideia de esfor\u00e7o para perseverar no ser enquanto aplica\u00e7\u00e3o de sua fun\u00e7\u00e3o existencial da ess\u00eancia, apresenta v\u00e1rios momentos que ilustram este ponto em que encontramos Maast indo adiante no seu alistamento volunt\u00e1rio, \u201ccom tanta for\u00e7a que n\u00e3o havia com o que se preocupar, por isso nos abandon\u00e1vamos\u201d (p. 53), com seu corpo num ato que inclui a adequa\u00e7\u00e3o entre um pensar e agir sustentado por ele enquanto sujeito desejante e descentrado, cuja condi\u00e7\u00e3o para tal \u00e9 a de se manter na tens\u00e3o que direciona o pensamento num dever \u00e9tico que requer dele estar numa posi\u00e7\u00e3o subjetiva muito espec\u00edfica, e n\u00e3o qualquer uma, face ao outro, ao Outro e ao seu sintoma.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Desse modo, \u00e9 poss\u00edvel entender o adjetivo \u201caplicado\u201d atribu\u00eddo a Maast por Paulhan como sendo este esfor\u00e7o, exercido durante a sua jornada, de perseverar na fun\u00e7\u00e3o existencial de sua ess\u00eancia, diga-se, neste ser que comporta o des-ser\/efeito de ser, que sustenta o descentramento do seu desejo ap\u00f3s a travessia do fantasma. Basta ver que Maast engaja-se na guerra como volunt\u00e1rio, quer dizer, por vontade pr\u00f3pria, mas n\u00e3o por capricho, e sim para afirmar, diga-se, sustentar, a ess\u00eancia que escolheu para a sua exist\u00eancia nos modos particulares em que a realidade se apresenta. N\u00e3o \u00e9 disso que se trata quando falamos em sustenta\u00e7\u00e3o do desejo de analista em sua \u00e9tica e ato psicanal\u00edtico?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00c9 assim quando Maast, por exemplo, encontra-se diante de uma mo\u00e7a que o convida para jantar em sua casa. Ele v\u00ea neste convite a possibilidade de obter momentos agrad\u00e1veis, contudo, renuncia \u00e0 oportunidade porque se v\u00ea advertido de seu novo estado em que \u00a0\u201cmais que cansado ou \u00e1vido de cuidados, estava desejoso de abandono e de cansa\u00e7o\u201d (Paulhan, 1982, p. 16), ou seja, encontrava-se num estado de alma em que crescia a consci\u00eancia guerreira que estava se formando nele.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Cabe aqui fazer ver que se \u201caplicado\u201d refere-se ao esfor\u00e7o que Maast sustenta para ir adiante, por sua vez, o adjetivo \u201cGuerreiro\u201d enfatiza justamente o car\u00e1ter de algu\u00e9m que \u201cvai \u00e0 luta\u201d como se diz comumente atrav\u00e9s do prov\u00e9rbio. Como dissemos, Guerreiro aplicado \u00e9 uma varia\u00e7\u00e3o de aluno aplicado. Mas, sua guerra n\u00e3o \u00e9 a da Fran\u00e7a frente aos alem\u00e3es que est\u00e3o em seu territ\u00f3rio. Sua \u201cguerra\u201d \u00e9 a de algu\u00e9m que se coloca em face de si mesmo, naquilo que ele reconhece necess\u00e1rio fazer frente, atrav\u00e9s de sua salubridade (em franc\u00eas, <em>guerrier<\/em> tem homofonia com <em>guer\u00e9<\/em> (nega\u00e7\u00e3o), \u00e0quilo que mesmo depois da travessia do fantasma, insiste em se presentificar, a saber, a assombra\u00e7\u00e3o fantasmag\u00f3rica daquilo que j\u00e1 morreu e que n\u00e3o sabe que est\u00e1 morto: o desejo agregado aos modos insalubres de gozo. Consequ\u00eancia desta opera\u00e7\u00e3o \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o simples que o sujeito passa a ter com seus afetos. Em certo momento (Paulhan, 1982, p. 59), Maast explicita o que se tornou para ele os afetos:<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 35.4pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Parecia que nossos sentimentos de afeto ou de antipatia tinham passado a um segundo plano e tinham sido submetidos pela guerra ao conhecimento da for\u00e7a ou da debilidade de cada um de n\u00f3s, &#8211; conhecimento firme e que dava a nova ordem que sent\u00edamos ter alcan\u00e7ado uma grande simplicidade (tradu\u00e7\u00e3o Menegassi, 2010, p\u00e1g. 161).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em outro momento:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 35.4pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00c9 dif\u00edcil fazer compreender a natureza dos sentimentos que eu havia experimentado nestas duas ocasi\u00f5es e a estranha semelhan\u00e7a que adquiriram para mim: ela n\u00e3o se relacionava com os acontecimentos mesmos, mas com uma qualidade particular como a que, se se quiser, \u00e9 para o lago o seu n\u00edvel de \u00e1gua (tradu\u00e7\u00e3o:Menegassi, 2010, p\u00e1g. 148).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-top: 0cm; margin-right: 0cm; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O que o n\u00edvel da \u00e1gua \u00e9 para o lago, logo, a natureza dos sentimentos de Maast? Resposta poss\u00edvel: aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o com os acontecimentos, embora toque-os; uma vez que estes sentimentos refiram-se \u00e0s coisas como qualidades particulares delas e n\u00e3o como ligadas ou pertencentes essencialmente a elas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Por isso Maast n\u00e3o corresponde ao perfil de um homem t\u00edpico da bela \u00e9poca francesa do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, cuja tend\u00eancia era a de se engajar oportunamente nos movimentos dos ideais coletivos em progresso. Na p\u00e1gina 3 do livro ele tem um pensamento que \u00e9 a reuni\u00e3o racional de no\u00e7\u00f5es comuns acerca de sua insist\u00eancia em suportar-se numa certa posi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Quando ele afirma que ficaria embara\u00e7ado (<em>embarrass\u00e9<\/em>) se pensassem dele como \u201co \u00fanico galo da vila\u201d (Paulhan, 1982, p.3), ele s\u00f3 o faz porque j\u00e1 se antecipa racionalmente ao poss\u00edvel posicionamento das pessoas, mas, sobretudo, porque se antecipa a si pr\u00f3prio, j\u00e1 que sua raz\u00e3o comp\u00f4s ideias claras e distintas sobre o estado de sua exist\u00eancia essencial, e se barra.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">E a\u00ed est\u00e1, descrito por este \u201cembara\u00e7o\u201d, o afeto que marca a sua rela\u00e7\u00e3o simples com o desejo, a que \u00e9 suficiente para barrar o desejo do ato insalubre. O mesmo sentimento de embara\u00e7o adv\u00e9m novamente quando algum tempo depois, j\u00e1 a caminho do front, ele se v\u00ea em situa\u00e7\u00e3o semelhante de poder decidir entre duas dire\u00e7\u00f5es: ir por um caminho que lhe tiraria da trajet\u00f3ria da perseveran\u00e7a. Isto acontece quando, ap\u00f3s ter tomado ch\u00e1 com a amiga que o convidara para ir \u00e0 sua casa, ele se pergunta se se deixava levar pela conversa\u00e7\u00e3o e pela ternura ou n\u00e3o. Ent\u00e3o, neste instante ele pensa: \u201cN\u00e3o foi sem um embara\u00e7o (embarras), nem sem certo remorso. Eu me vi advertido, assim, de meu novo estado\u201d (Paulhan, 1982, p. 15). Este \u201cnovo estado\u201d \u00e9 demarcado pelo significante \u201czuavo\u201d que ele op\u00f5e ao significante \u201cgalo\u201d. E \u00e9 porque ele \u00e9 capaz de racionalmente antecipar esta tens\u00e3o e afirm\u00e1-la atrav\u00e9s dessa barra de embara\u00e7amento, que ele constata que sua for\u00e7a cresce e que, com ela, uma imensa alegria e entusiasmo se apoderam dele, caracter\u00edsticas que refletem o estado de esp\u00edrito que, quanto mais avan\u00e7a, mais forte e saud\u00e1vel fica. A coisa acontece quando ele recebe uma ordem de derrubar um ref\u00fagio que havia cavado na parede da trincheira para se proteger da chuva. Ent\u00e3o Paulhan (1982), ele pensa:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 35.4pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">N\u00e3o sei por que esta ordem me deu uma alegria, dura como um golpe \u2013 depois esse sentimento, no in\u00edcio incerto, que come\u00e7ou a apropriar-se de mim e que n\u00e3o era nem satisfa\u00e7\u00e3o nem inquietude, mas uma tentativa de entusiasmo. (Paulhan, \u00a0p.19-20).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Ele diz que assim seria obrigado a permanecer sob a chuva num frio que o impedia at\u00e9 de mover-se. Esse estar sob a chuva, no frio, \u00e9 o emblema de um sujeito que avan\u00e7a na sua forma\u00e7\u00e3o, com o corpo como um resto que sustenta o desejo. No final do livro, ap\u00f3s receber uma bala, seu lamento n\u00e3o ser\u00e1 pela dor e pelo ferimento situados \u201cna velha carca\u00e7a\u201d (Paulhan, 1982, p. 85), mas por terem-no socorrido e o tirado do front e da guerra.\u00a0 No momento em que \u00e9 ferido, Maast se sente feliz, livre: \u201cAlegria que me parece maior que toda uma exist\u00eancia. Na trincheira a que logo me levam, &#8211; quem me levou? N\u00e3o sei -, sinto a princ\u00edpio decepcionado. Tudo acabou, a porta est\u00e1 fechada\u201d (p. 85). Na \u00faltima ora\u00e7\u00e3o do livro, ele fala de sua experi\u00eancia externa e interna como uma esp\u00e9cie de segredo. Neste segredo pode-se ver o de que se trata na singularidade de cada um.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Corpo e carne como paradigmas de uma nova identidade<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Por sua vez, como refer\u00eancia sobre o real do corpo, Safatle (2006), prop\u00f5e a carne como paradigma de uma identidade que faz frente ao outro, onde o sujeito coloca-se no ponto de ex\u00edlio, de opacidade entre o eu e este outro, justo porque seria poss\u00edvel para Lacan, segundo Safatle,<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 35.4pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">fazer o objeto sair da cena fantasm\u00e1tica. Por meio dessa sa\u00edda de cena, o sujeito pode ter uma experi\u00eancia do real do corpo, ou seja, do corpo como carne opaca que n\u00e3o se deixa submeter \u00e0s formas fetichizadas do imagin\u00e1rio, nem se corporificar por meio do significante com seu primado f\u00e1lico (p. 210).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">E \u00e9 exatamente neste sentido que \u00e9 poss\u00edvel entender a ren\u00fancia de Maast a estar com a sua amiga e sua escolha para continuar rumo ao front. Sua avidez de abandono e de cansa\u00e7o \u00e9 o modo como se manifesta esta retirada de seu corpo como objeto da cena do fantasma, \u00e9 a opacidade da carne que n\u00e3o se deixa submeter ao fetiche nem ao primado f\u00e1lico expostos na frase de Safatle. Mas \u00e9 tamb\u00e9m, em seu sil\u00eancio, o pensamento e o ato com o corpo. No in\u00edcio do livro algu\u00e9m diz que a guerra acabar\u00e1 antes que cheguem ao front. Ent\u00e3o Maast pensa: \u201cContanto que eu tenha alguns dias para combater\u201d (Paulhan, 1982, p. 13).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Dunker (2006), por sua vez, ressalta que a carne, enquanto corpo fora do corpo, pode ser uma figura te\u00f3rica daquilo que Lacan chamou de real, e ela representa uma contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 dial\u00e9tica entre simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio que pode compor as formas de identidade n\u00e3o narc\u00edsicas do eu ao outro. A carne \u00e9 aquilo que falta ao corpo para se totalizar e que por defini\u00e7\u00e3o deve ser n\u00e3o especulariz\u00e1vel, ou seja, n\u00e3o caber na imagem. Para Dunker, esta ideia permite pensar a corporeidade como uma situa\u00e7\u00e3o permanente de duplo descentramento, entre o sujeito e o seu corpo, e entre o corpo e a carne. Trataria-se de pensar o corpo como \u201ccorporeidade imagin\u00e1ria\u201d (p. 119) compat\u00edvel com a no\u00e7\u00e3o de eu em Lacan, onde esta corporeidade, em acordo com a fun\u00e7\u00e3o do eu, ganharia um estado cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 de um valor formativo. O argumento aqui \u00e9 que o eu \u00e9 s\u00f3 uma fun\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma ontologia ou uma estrutura. Assim, trata-se de como partir de tal fun\u00e7\u00e3o formadora no quadro da experi\u00eancia psicanal\u00edtica sem incorrer no erro de identificar o eu com a totalidade do subjetivo e com a totalidade do ser.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A meu ver, Jacques Maast nos d\u00e1 algumas destas coordenadas. Nele, o corpo, como condi\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva em seu efeito de ser salubre ganha, assim, os contornos de um eu que busca sempre novas forma\u00e7\u00f5es nas quais este eu como fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o se deixa apanhar e alienar pelas proje\u00e7\u00f5es ideais.\u00a0 O efeito de ser \u00e9 o pensamento e o ato, ou seja, \u00e9, ao mesmo tempo, uma aspira\u00e7\u00e3o a este ser e o seu pr\u00f3prio movimento de forma\u00e7\u00e3o a este eu que n\u00e3o se coagula, que n\u00e3o ganha consist\u00eancia ontol\u00f3gica e que, portanto, n\u00e3o se essencializa. N\u00e3o se trata de negligenciar a import\u00e2ncia da imagem do corpo na forma\u00e7\u00e3o do eu, mas, de apreender este corpo como escreve Dunker (2006) em acordo com a fun\u00e7\u00e3o do eu, quer dizer, menos em uma ontologiza\u00e7\u00e3o do que em uma constante metamorfose (p. 120).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00c0 guisa de conclus\u00e3o, para Safatle (2006):<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 35.4pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Os homens s\u00f3 s\u00e3o humanos quando eles se reconhecem naquilo que n\u00e3o tem os contornos auto-id\u00eanticos de um eu. Pois s\u00f3 h\u00e1 um sujeito l\u00e1 onde h\u00e1 a possibilidade de reconhecer uma experi\u00eancia interna de n\u00e3o-identidade. Uma experi\u00eancia cujo espa\u00e7o privilegiado de reconhecimento n\u00e3o parece mais ser a rela\u00e7\u00e3o intersubjetiva da consci\u00eancia de si, mas a confronta\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica entre sujeito e objeto (p.220).\u00a0 <\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><br \/>\nEsta pode ser uma sa\u00edda interessante para o corpo ap\u00f3s o final da an\u00e1lise em sua articula\u00e7\u00e3o com a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva em seu efeito de ser salubre. Volto \u00e0 frase de Lacan (1993) do Semin\u00e1rio XX de que \u201co gozo do corpo&#8230;. simboliza o Outro\u201d\u00a0 (p. 13), para afirmar que se o corpo \u00e9 o real, o que concerne ao gozo enquanto sexual \u00e9 que ele \u00e9 marcado por um furo \u201cque n\u00e3o lhe deixa outra via sen\u00e3o a do gozo f\u00e1lico\u201d (p. 16). Lacan (1993) tamb\u00e9m diz que \u201cno gozo dos corpos, o gozo sexual tem esse privilegio de ser especificado por um impasse\u201d (p. 17). O impasse refere-se ao furo que n\u00e3o deixa outra via sen\u00e3o a do gozo f\u00e1lico.\u00a0 \u00c9 porque a mulher \u00e9 n\u00e3o-toda, quer dizer, comporta um furo, que \u00e9 preciso o falo. A mulher \u00e9 n\u00e3o-toda devido a uma exig\u00eancia l\u00f3gica da linguagem. Como n\u00e3o-toda, a linguagem como Outro encarna o corpo e decide a sua sexualidade. Cumpre lembrar que quanto \u00e0 ang\u00fastia, no Semin\u00e1rio X. Lacan (2005) afirma que esta \u201cjaz na rela\u00e7\u00e3o fundamental do sujeito&#8230;com o desejo do Outro\u201d (p.304). Em outras palavras, o sujeito se angustia diante do desejo <em>x<\/em> do Outro. Traduza-se este <em>x<\/em> como desconhecido e teremos que o desejo do Outro, ao demandar um objeto, interroga o sujeito quanto \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, seu gozo f\u00e1lico, na via do \u201cser\u00e1 que eu posso dar o que Ele quer de mim e, por outro lado, seu desejo n\u00e3o me arrancar\u00e1 o meu objeto f\u00e1lico de gozo\u201d?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Assim, na destitui\u00e7\u00e3o subjetiva, quando o corpo se reduz ao resto, ao objeto a, n\u00e3o \u00e9 sem esta incid\u00eancia do furo. A\u00ed, contudo, o sujeito n\u00e3o se faz todo, ele permanece n\u00e3o-todo e, portanto, comporta o furo. Desse modo, a recorr\u00eancia ao gozo f\u00e1lico, na via do ainda falta, mas, tamb\u00e9m, da falta a ser, encontra o seu limite naquilo que \u00e9 a opacidade do outro. Na destitui\u00e7\u00e3o subjetiva o corpo serve como suporte (Hypokeimenon) das ins\u00edgnias de gozo do Outro, contudo, na medida mesma em que este sujeito de modo algum goza em ser este suporte, embora n\u00e3o se furte a s\u00ea-lo. Ca\u00eddo que est\u00e1 do Outro, o sujeito da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva n\u00e3o goza de ser o objeto f\u00e1lico do Outro, ao contr\u00e1rio, ele realiza o seu desejo na medida em que encontra a sua liberdade fora do regime das formas narc\u00edsico-imagin\u00e1rias. Como infinito que se transfere sempre para al\u00e9m da possibilidade de qualquer apreens\u00e3o fantasm\u00e1tica diante do outro, do Outro e do pr\u00f3prio eu, o corpo \u00e9 este negativo diante do qual a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva se det\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; line-height: 150%;\"><span style=\"line-height: 150%; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Almod\u00f3var A. &amp; Almod\u00f3var P. (Produtor). \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pedro Almod\u00f3var (director), (2011). <em>A pele que habito<\/em> (FILME). Espanha. Produ\u00e7\u00e3o: El Deseo. Distribuidor brasileiro (Lan\u00e7amento) FOX Filmes. <\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Baudrillard, J. (1997). <em>Tela Total. <\/em><em>Mito-ironias da era do virtual e da imagem<\/em>. Ed. Sulina. Porto Alegre.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Cukiert, M. ; Priszkulnik, L. (2002). <em>Considera\u00e7\u00f5es sobre o eu e o corpo em Lacan<\/em>. Estudos de Psicologia (Natal), Natal : UFRN, v. 7, n. 1, p. 143-149. Recuperado de <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S1413-294X2002000100014&amp;script=sci_arttext\">http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S1413-294X2002000100014&amp;script=sci_arttext<\/a>.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Dunker, C. I. L. (2006). Identidade e a degrada\u00e7\u00e3o da carne. <em>Revista Mal-estar<\/em>, VI (01), 111-124.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Espinoza, B. (1983). A \u00c9tica. <em>Os Pensadores <\/em>(cole\u00e7\u00e3o). S\u00e3o Paulo: Abril Cultural.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (1999). <em>O Semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/em>. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (1988). <em>O Semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (1992). \u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 8: a transfer\u00eancia<\/em>. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (2005). <em>O Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/em>. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (2008). <em>O Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro<\/em>. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (1993). <em>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/em>. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (2007). <em>O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma<\/em>. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (1998). De uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose.\u00a0 In J. Lacan, <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (1998). O est\u00e1dio do espelho como formador do eu (je) tal como se nos revela a experi\u00eancia psicanal\u00edtica<em>.<\/em> In J. Lacan, <em>Escritos<\/em> (Comunica\u00e7\u00e3o feita ao XVI Congresso Internacional de Psican\u00e1lise, Zurique, 17 de julho de 1949, pp. 96-103). Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (2003a). Problemas cruciais para a psican\u00e1lise. In J. Lacan, <em>Outros escritos<\/em>. Editora Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (2003b). Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967. In J. Lacan, <em>Outros escritos<\/em>. Editora Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (2003c). Discurso na Escola freudiana de Paris. In J. Lacan, <em>Outros escritos<\/em>. Editora Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Lacan, J. (2003d). O ato psicanal\u00edtico. In J. Lacan, <em>Outros escritos<\/em>. Editora Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Menegassi, A. (2010). Anexo: Sobre o conceito de destitui\u00e7\u00e3o subjetiva em Jacques Lacan (Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado, Instituto de Psicologia, Universidade de S\u00e3o Paulo). Recuperado de \u00a0<a href=\"http:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/47\/47133\/tde...\/menegassi_me.pdf\">www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/47\/47133\/tde&#8230;\/menegassi_me.pdf<\/a>.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Paulhan, J. (1982). <em>Le Gurerrier Appliqu\u00e9.<\/em> Paris: Gallimard.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Paulhan, J. (1999). <em>El Guerrero aplicado<\/em> (Maria Pascual, Jorge Santiago Perednik e Hugo Saviano Trad.). Barcelona: Tres Haches.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Pessoa, F. (1916). Ouvi contar que outrora. In F. Pessoa, <em>Odes de Ricardo reis<\/em>. Recuperado de <a href=\"http:\/\/www.insite.com.br\/art\/pessoa\/ficcoes\/rreis\/337.php\">http:\/\/www.insite.com.br\/art\/pessoa\/ficcoes\/rreis\/337.php<\/a>.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Safatle, V. (2005). <em>A Paix\u00e3o do negativo<\/em>. S\u00e3o Paulo: UNESP.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Safatle, V. (2003). O ato para al\u00e9m da Lei: Kant com Sade como ponto de viragem do pensamento lacaniano. In V. Safatle, <em>Um limite tenso, Lacan entre a filosofia e a psican\u00e1lise<\/em>. S\u00e3o Paulo: UNESP.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0.0001pt 14.2pt; text-align: justify; text-indent: -14.2pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00b9 Mestre em Psicologia Cl\u00ednica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo, Bacharel em Filosofia\u00a0 pela\u00a0 Universidade de S\u00e3o Paulo\u00a0 e\u00a0 possui\u00a0 Licenciatura\u00a0 Plena, Bacharelado e Forma\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica em Psicologia pela Universidade de Mogi das Cruzes. Email para contato: <a href=\"mailto:abl.menegassi@ig.com.br\">abl.menegassi@ig.com.br<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Considera\u00e7\u00f5es sobre a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva e o corpo em Jacques Lacan Considerations on the subjective destitution and the body in Jacques Lacan. &nbsp; Abenon Menegassi\u00b9 &nbsp; Resumo: O objetivo deste trabalho \u00e9 promover uma articula\u00e7\u00e3o entre a no\u00e7\u00e3o de corpo e a no\u00e7\u00e3o de destitui\u00e7\u00e3o subjetiva, termo introduzido por Jacques Lacan na d\u00e9cada de 1960. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":1,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[13,279],"tags":[],"class_list":["post-5448","page","type-page","status-publish","hentry","category-publicacoes","category-revista-transformacoes"],"acf":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/5448","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5448"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/5448\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24673,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/5448\/revisions\/24673"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ip.usp.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}