28 set 2020

“Hoje alcei voo com o sol.

Não imaginava poder realizar algum dia o que os monges do século 19 afirmavam ser a melhor maneira de escrever: acompanhando o nascimento do sol.”

É assim que Margherite começa a narrar a história de Arthur, um Autista no Século XIX. Através dessa personagem, a professora Maria Cristina Kupfer, do Instituto de Psicologia da USP, sintetiza a sua trajetória de mais de quatro décadas como uma das pioneiras no Brasil na pesquisa e no tratamento do autismo infantil sob a visão psicanalítica.

O livro é muito diferente do inovador Educação para o Futuro: Psicanálise e Educação, também de sua autoria, já na quarta edição e referência para os estudos de educadores e psicanalistas. Na nova obra, Maria Cristina deixa a linguagem acadêmica para abrir espaço para um romance com uma narrativa poética, sensível, mas, ao mesmo tempo, com muita ciência. “Minha primeira motivação foi a de oferecer uma outra visão do autismo, diferente da que está dominando atualmente”, explica Maria Cristina. “Mas depois fui me animando com a escrita mais livre. Comecei a gostar de ver as ideias surgirem no próprio ato de escrever.”

Esse ato, segundo a professora, foi movido por um desejo de reparação. “Foram muitas as crianças ditas autistas fechadas que vi em minha vida profissional, mas não foram muitas as que vi retomarem o desenvolvimento rumo a uma vida no interior da comunidade dos homens e mulheres de nosso tempo”, observa. “Tive então vontade de recriá-las na ficção, já que não pude ajudar seus pais a reinventá-las. Para imaginar Arthur, fiz um amálgama de tudo que vi, das intervenções bem e mal-sucedidas que fiz ou vi fazerem, dos traços, idiossincrasias, das manifestações subjetivas que tive a alegria de presenciar. E dei a ele um destino de escritor, que sonhei para muitos. Precisava, para justificar seus atos e transformações, de uma teoria norteadora. Mas não queria engessar minha ficção com ela, estava decidida a falar sobre minhas ideias de modo livre.”

 

A literatura transmite mais do que a linguagem científica, porque usa mais nossa própria linguagem.”

 

Arthur, um Autista no Século XIX convida o leitor a peregrinar por 268 páginas, caminhar na quietude de Laterre, uma vila na França, observar as pessoas, a natureza, refletir sobre o tempo. E a buscar nessa criança autista, que no século 19 é chamada de “idiota ou filho do diabo”, a compreensão de um ser que não fala, que parece não ouvir, aparentemente ausente, que se ilumina quando ouve Dois Arabescos, de Claude Debussy, ou quando folheia livros contemplando as gravuras e as letras.

Certo é que Arthur intriga o leitor com suas crises de fúria ou com o seu silêncio. Impossível parar de ler. Com suas diferenças, o menino, quinto filho de Jeanne, camponesa e empregada de Marguerite, sempre surrada pelo marido Henri, mesmo quando estava grávida, vai – como diria Cora Coralina – tocando o coração.

Autora de diversos artigos e livros sobre psicanálise e educação, Maria Cristina Kupfer surpreende com o seu primeiro romance. Trilhar a literatura – mesmo não tendo tempo para se dedicar atentamente à leitura dos grandes escritores – é um desafio, mas que flui diante do seu conhecimento e pesquisa sobre a história e o comportamento do ser humano. “Acho que a literatura transmite mais do que a linguagem científica, porque usa mais nossa própria linguagem, sendo a ciência um artifício que engessa, quantifica, esquarteja em partes minúsculas a experiência humana”, justifica. “E aprendi isso com Freud, um homem que se serviu bastante da literatura, do teatro e da mitologia para transmitir seus conceitos. Penso nessa questão há muito tempo.”

 

Uma das personagens centrais, Marguerite tem, é claro, muito de minha trajetória como psicanalista de crianças.”

 

Para escrever o romance, Maria Cristina buscou o formato dos diários, que permite escrever em uma linguagem livre e, ao mesmo tempo, intimista, deixando fluir o cotidiano do narrador na sua essência. Os três personagens  – Marguerite, Arthur e Charlotte – se revelam através de seus diários. É o leitor quem vai descobrir a história, os sentimentos, as percepções e o pensamento diante do mundo de cada um deles cruzando os diários separados por capítulos.

“Uma das personagens centrais, Marguerite tem, é claro, muito de minha trajetória como psicanalista de crianças. Mas foi interessante o exercício de situá-la no século 19”, conta a professora. “Isso me obrigava a criá-la dentro de um ambiente religioso, em uma época em que pouco se sabia sobre crianças, e ainda menos sobre autistas. Tentei mostrar o processo de apropriação que Marguerite foi fazendo da compreensão de Arthur, devagar, pensando, envolvendo-se com ele, cheia de dúvidas.”

Em seu diário, Marguerite, que escreve ao nascer do sol, conta sobre a sua decisão de não se casar, de não ter filhos, e a necessidade de acolher Arthur, que fica órfão de pai e mãe e distante dos irmãos. “Havia situado a ação no final do século 19 porque pretendia sustentar a ideia de que o autismo já está entre nós na Idade Moderna, é filho dela, embora só tenha frutificado depois da segunda metade do século 20, uma época propícia à sua proliferação. Isso fez com que fosse obrigada a falar de minha teoria de modo livre e limpo dos jargões e mentalidades do início do século 21. Foi divertido colocar ideias avant la lettre na boca de uma mulher culta, mas religiosa, numa época que era a mesma de Freud.”

Todos os personagens do livro foram inspirados em pessoas reais. E Arthur, em seu diário, escreve a sua história com detalhes que, ao ser observada também no diário de Marguerite e de Charlotte – sua amiga de infância que também ficou órfã e foi adotada pela narradora -, ganha uma nova dimensão.

Arthur, ao contrário do que a maioria imagina, percebe o mundo. Aficionado por pedras desde criança, ele, nas suas diferenças, compara: “Sou um diamante”. Também registra seu interesse pela literatura. Em seu diário, comenta: “Já havia lido Eneida, de Virgílio, e depois A Divina Comédia, de Dante, mas jamais consegui abarcar tamanho amor nutrido por uma mulher que ele havia encontrado uma única vez!”.

 

Espero que todos gostem de ler Arthur e que o livro ajude a trazer de volta a psicanálise para os cursos de Psicologia.” 

 

Maria Cristina Kupfer explica que integrar Arthur no século 19 e em uma comunidade na França é uma tentativa de oferecer um recuo no tempo e no espaço ao leitor. “Acredito que essa estratégia permite que as pessoas vejam o autista de uma perspectiva diferente daquela organicista e reducionista, que é dominante nos dias atuais”, comenta. “Assim, Arthur tem de certa forma um caráter político, no sentido de que faz resistência à supressão do sujeito no discurso da ciência.”

A professora avalia os estudos sobre o autismo no Brasil: “Temos tido, em primeiro lugar, uma grande expansão dos estudos que abordam o autismo da perspectiva comportamental e neurodesenvolvimental. Temos muitos especialistas de orientação psicanalítica no Brasil, que estudam e escrevem mostrando progressos importantes na compreensão e tratamento de autistas. Também as instituições com uma orientação psicanalítica vêm se expandindo”.

Em 1990, a professora criou, dentro do Serviço de Psicologia Escolar do Instituto de Psicologia da USP, um centro de atendimento e pesquisas denominado Pré-Escola Terapêutica Lugar de Vida. “Esse centro teve como modelo uma instituição, situada em Bonneuil-Sur-Marne, na periferia de Paris, descrita pela psicanalista francesa Maud Mannoni no livro Lieu pour Vivre, onde fiz um estágio”, conta. “Hoje independente, o Lugar de Vida é um centro de educação terapêutica, conceito que desenvolvi ao longo do tempo, que atende crianças e seus pais. Oferece cursos de formação e dá assessoria a serviços públicos e escolas privadas.”

Maria Cristina ressalta que outras instituições estão surgindo no cenário brasileiro. Ela espera que o livro Arthur, um Autista no Século XIX possa contribuir para essa expansão. “Minha expectativa é que todos gostem de ler Arthur e que o livro ajude a trazer de volta a psicanálise para os cursos de Psicologia, pelas mãos dos estudantes que o terão lido e ficarão com vontade de entender melhor como é essa visão. Gostaria também de alcançar pais de crianças autistas.”

 

Por Jornal da USP

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