01 set 2020

Para ajudar professores e outros profissionais da Educação a atravessarem este período excepcional, NOVA ESCOLA, em parceria com a Fundação Tide Setubal, criou o movimento “Saúde Emocional de A a Z”. No canal de NOVA ESCOLA no YouTube, você encontra o webinar “Professores na pandemia: quais os cuidados para a saúde emocional?”, uma conversa que reúne o psicanalista Christian Dunker, a psicóloga Roberta Federico e os professores Raysner de Paula, da EE João Paulo I, em Betim (MG), e Sunaydi de Cássia, da Escola de Referência em Ensino Médio Frei Orlando, em Itambé (PE). Foram separados os pontos mais importantes dessa jornada e apresentadas algumas dicas práticas para você se cuidar melhor. Porque cuidar do equilíbrio mental dos professores é cuidar também da Educação.

O que está acontecendo comigo?

Por conta da crise sanitária causada pelo coronavírus, o campo da Educação foi amplamente impactado por mudanças na maneira de ensinar e de aprender para as quais gestores, professores e alunos não estavam preparados. O psicanalista Christian Dunker comenta que foi necessária uma “reinvenção do modo de transmitir o saber”, não uma mera adaptação, como se tem falado. Ele salienta que a escola é um ambiente que sempre lidou com o futuro, com a preparação dos estudantes para uma realidade que virá, dos planejamentos, e, de repente, nada mais vale. “Tudo o que está presente no nosso cotidiano escolar é ainda mais afetado quando o futuro se torna incerto”, diz o autor do recém-lançado A Arte da Quarentena para Principiantes (Pandemia Capital). “É muito angustiante para um professor estar diante da incerteza, se vamos voltar [à escola] em setembro ou se vai ser em outubro, se a aula é presencial ou não.”

Este é um contexto extremamente propício para o aumento da ansiedade, que é justamente o desejo de ter algum controle do futuro. Na pesquisa “A Situação dos Professores no Brasil Durante a Pandemia”, realizada por NOVA ESCOLA em maio, 30% dos docentes avaliaram sua saúde mental como ruim ou péssima em relação ao período pré-pandemia, enquanto 27% a definiram como boa e apenas 5% como excelente. Foram ouvidos mais de 8 mil professores. Esses dados são mais um indicador da saúde emocional dos professores, que tiveram de passar por uma aprendizagem rápida de ferramentas digitais, dedicação quase exclusiva, somadas às incertezas e receios que a situação em si já impõe, tudo isso baseado em um crivo de avaliação individual que acaba gerando sentimentos de culpa e cansaço.

“Os professores estão, sim, em risco de sofrer com depressão, angústia e uma série de outros males na tentativa de dar conta do impossível: fazer com que a escola seja normal no período totalmente anormal que vivemos hoje”, afirma a psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar, que oferece tratamento e desenvolve pesquisas na área de bem-estar mental. “É preciso haver uma conversa entre educadores, pais, alunos e instituições para redução de danos psíquicos de todos os envolvidos na Educação.”

É normal?

Dentro de um contexto tão desafiador, é recorrente escutarmos: “É normal sentir-se assim?” Mas até que ponto não foi extrapolado o limite do saudável? Christian Dunker afirma que é importante estar atento a si mesmo. “Observar apetite, sono, libido, o aumento na frequência de adoecimentos crônicos é essencial neste momento”, recomenda, para emendar em seguida: “A gente se alerta. Basta estar atento e perceber os sinais”.

O problema é que doenças emocionais dificultam a nossa capacidade de nos escutar e nos abrir para o outro, fazendo com que o nosso foco esteja somente no relatório que precisa ser entregue, no aluno que não tem acesso à internet, no planejamento de aula que precisa ser feito, na dificuldade de gerir o tempo etc. Nesse turbilhão de acontecimentos é essencial trabalhar a escuta tanto de si mesmo quanto do outro. “Escutar o que as pessoas próximas dizem sobre você também pode ser um bom termômetro”, reforça a psicóloga Roberta Federico, diretora do Núcleo de Psicologia Educacional da Secretaria de Educação da Prefeitura de Itaboraí (RJ).

Eleger alguns parceiros para funcionar como esse “termômetro” é um bom caminho, com conversas honestas que podem tocar em pontos difíceis e incluir questionamentos, tais como:

– Como você está lidando com o isolamento social? Ouça o que eles dizem e conte como está sendo para você.
– O que mais te incomoda? Ao falar de forma aberta, ficará mais claro que é uma questão que afeta a todos.

Nesse processo entra o exercício das competências socioemocionais, com atenção para o autocuidado e cuidado coletivo. “Ao olhar para dentro de si mesmo e perceber o que está sentindo, você amplia o repertório de emoções. E ao nomear suas angústias, seus medos, a gente impede que eles se tornem maiores e nos paralisem”, explica a psicóloga Ana Carolina C. D’Agostini, mestre em Psicologia da Educação pela Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos. “É importante, neste momento, encorajar as pessoas para que falem desse medo e ouvir os outros. Sempre com compaixão.”

Esse, aliás, é um ponto essencial a considerar, ainda mais neste momento. Levar em consideração o que você sente, mas também o que o outro está sentindo, de forma ética. Olhando para o pensamento do filósofo francês Paul Ricoeur, é a busca por uma vida digna, uma vida boa, com e para o outro. “Quando pensamos no ‘com o outro’, quer dizer que eu preciso estar bem e ‘para o outro’ implica que eu preciso pensar em como vou falar com o outro. O jeito que vou falar com ele não é jogando tudo em cima dele, mas é fazendo com que ele também fique bem”, diz Luciene Tognetta, professora de psicologia escolar da Universidade Estadual Paulista (Unesp). E por vida digna, é sustentar os chamados marcos civilizatórios, as conquistas contra o racismo e a desigualdade, entre outros. “O que as pessoas chamam de compaixão é essa maneira de considerar o que eu sinto, mas também o que o outro sente, sustentando esses marcos e construindo esse olhar todos os dias.”

Chega!

A criação para uma nova linguagem, a aprendizagem do uso de ferramentas digitais, a disponibilidade por meio de redes sociais, o exercício da profissão integralmente de dentro de casa. Tudo isso tornou mais complexa a criação das fronteiras entre a vida pessoal e a profissional. Com um grupo de WhatsApp em que alunos tiram dúvidas, como não responder na hora uma mensagem que você viu durante a noite? Situações como essa cresceram e têm se repetido na vida do professor. Mas é necessário impor limites, então valem algumas sugestões para seguir melhor com a vida e as aulas:

– Que tal silenciar o grupo dos alunos no seu horário de descanso e estabelecer um combinado com eles sobre em qual horário receberão respostas?;
– Intervalos de 10 a 15 minutos a cada duas horas para levantar e fazer um pequeno alongamento podem ajudá-lo a arejar a cabeça e evitar dores no corpo;
– Combine consigo mesmo qual será o seu horário de trabalho, busque respeitá-lo;
– Separar um momento do dia para fazer algo prazeroso, como escutar uma música. Bater papo com amigos também é uma forma de autocuidado;
– Praticar atividades físicas, alimentar-se bem e preservar suas horas de sono ajudam na sensação de bem-estar.

Tantas horas em frente à tela são prejudiciais à nossa saúde e ainda costumam atrapalhar na gestão do tempo, por isso, vale criar momentos de desconexão.

O estabelecimento de uma rotina que visa cuidar da sua saúde física e emocional e não só de dar conta de um punhado de tarefas será essencial para atravessar este momento que estamos vivendo. “Além de tudo isso, é essencial ter paciência para atravessar este período que vai passar, por mais que não vejamos o seu fim”, diz Roberta Federico.

Hora de repensar as autocobranças

A vida mudou. Isso é um fato. Ainda que haja a possibilidade de um retorno à antiga dinâmica de sala de aula presencial, não é possível prever quando acontecerá. É preciso ter isso em mente e não colocar sobre si e os demais uma cobrança de desempenho e paridade com o que se tinha anteriormente. “O mais saudável agora é dar uma aula on-line e compreender que vai errar várias coisas no manuseio dessa tecnologia. Nada está perfeito e não precisa estar”, diz o psiquiatra Rodrigo Bressan, presidente do Instituto Ame sua Mente e organizador do livro Saúde Mental na Escola (Artmed).

O chamado “novo normal” — uma grade de aulas exclusivamente remotas ou atividades entregues em papel na escola — escancarou a falta de um planejamento para a virada digital. O professor não pode se sentir culpado pela internet ruim ou por ainda não dominar uma nova linguagem. Para tudo, há uma curva de aprendizado. “Devemos acolher nossas próprias vulnerabilidades e considerarmos que, de fato, não estávamos prontos para o que estamos enfrentando. Por isso, é importante diminuir a exigência neste momento”, recomenda Ana Carolina D’Agostini.

A equipe escolar necessita, portanto, repensar o planejamento de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), priorizar conteúdos e decidir o que pode ser ensinado on-line e o que precisa esperar a volta ao presencial. “É impossível manter, neste momento, o mesmo cronograma de aulas e saberes. É preciso ser flexível e compreender a situação como atípica”, explica Marilda Lipp, psicóloga e diretora do Centro Psicológico do Controle do Stress, em São Paulo.

Este trabalho exige uma grande parceria entre docentes e gestores. “Faça o seu melhor, não sinta culpa, porque não existe um modelo a ser seguido. Prepare-se para o que vier olhando para o histórico de vitórias que você já vivenciou”, aconselha Alair de Carvalho das Neves, psicóloga nas secretarias municipais de Educação de Roncador e de Mato Rico, no Paraná. Para lidar com esse sentimento de frustração, que parece eterno, é importante olhar o problema de forma diferente. Algumas dicas:

– Ter em mente que  este é um período excepcional e que, portanto, aplicam-se novas regras pode ajudá-lo a navegar mais tranquilo pelas mudanças que vivemos;
– Calibrar as expectativas é essencial! Se continuar comparando o seu trabalho hoje ao que fazia antes da chegada da covid-19, dificilmente conseguirá cumpri-las;
– Comparações não ajudam. Você hoje e toda a situação ao seu entorno são diferentes de antes da pandemia –  nem melhor nem pior, mas diferente;
– Quando se sentir perdido, vale buscar novos olhares sobre a situação. Questionar-se pode ajudá-lo a encontrar um ângulo que não foi explorado. Além disso, lembre-se de que crise é sinônimo de movimento. Que lugar você quer construir a partir da pandemia? Onde você quer estar quando tudo isso passar?;
– Para o bem e para o mal, podemos aprender muito com a pandemia. Procure refletir sobre quais são ao escrever num diário, criar seu próprio vlog ou numa roda de conversa com amigos e colegas. Ao materializar a experiência, fica mais fácil entender e lidar com os sentimentos.

Este momento também é perfeito para uma reflexão. Muitos professores têm se queixado de que “o ano está perdido”, mas não é bem assim. “Eu ouço professores dizerem ‘eu não consegui ensinar nada, meus alunos não aprenderam nada’. Não é verdade! Nós aprendemos outras coisas, talvez não o que estava no plano do professor”, reflete Luciene Tognetta. Segundo ela, todos nós aprendemos, de saída, a dar conta de várias demandas ao mesmo tempo. Mas há ganhos humanos. “Nós aprendemos muito sobre como conviver, suportar o outro, e essas são aprendizagens extremamente necessárias. É uma aprendizagem enorme de competências que precisamos formar para este novo momento.”

Não estou sozinha(o)

Todos estão passando por dificuldades neste período de pandemia. Professores, gestores e famílias tentam lidar com este cenário e com as sensações que ele nos impõe da melhor maneira. Mas a verdade é que ninguém precisa nem deve passar por isso sozinho. Compartilhar os desafios e encontrar soluções coletivamente ajuda a criar empatia pelos colegas e dividir as responsabilidades, diminuindo a carga emocional individual. “Esse é o efeito do grupo, a identificação do que há em comum e do que pode ser construído junto. Quando as dificuldades são colocadas, é possível pensar em saídas e estratégias coletivas”, explica Luísa Meirelles de Souza Modesto, psicóloga escolar, especialista em Teoria da Clínica Psicanalítica e mestranda em Educação pela Universidade de Brasília (UnB). Nessa dinâmica, todos são convidados a reconhecer as similaridades e trabalharem juntos para acolher uns aos outros e encontrar soluções. Isso pode acontecer por meio de um grupo de WhatsApp ou um encontro virtual, por exemplo.

Ainda mais em tempos de distanciamento social, poder contar uns com os outros amplia os laços do que nos torna mais empáticos. “A colaboração e a ajuda recíprocas fortalecem as relações pessoais e profissionais, auxiliam a construir e manter laços sociais, valorizam a circulação da palavra e amenizam os sentimentos de solidão, de desamparo e de impotência em face das incertezas”, confirma Sandra Francesca Conte de Almeida, psicanalista e doutora em Ciências da Educação (Psicologia).

Outras possibilidades são criar projetos de mentorias e orientação em que profissionais mais experientes atuam em parceria com os docentes com menos experiência. Fortalecer a gestão democrática e a escuta ativa de toda a comunidade escolar também colabora para a construção de uma alternativa mais saudável para que seja realizada coletivamente. É possível, ainda, acionar o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) ou o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) da sua cidade e verificar se há um profissional disponível para participar de uma reunião on-line com a equipe, por exemplo.

É importante dizer que não há vergonha em procurar ajuda profissional quando ela se faz necessária. “A gente lida com muito preconceito. É essencial entender que procurar um psicólogo é tão importante quanto buscar um cardiologista, por exemplo”, explica Roberta Federico. Faculdades de Psicologia e o Sistema Único de Saúde (SUS) costumam oferecer serviço de apoio psicológico e são uma boa opção para este momento. Essencial é não ficar sozinho. Encontrar um ambiente seguro em que você possa desabafar e ser acolhido ajuda a elaborar melhor o que está sentindo, identificando as situações que trazem essas sensações e criando estratégias para lidar com elas.

Reflexões fundamentais para este momento

Separamos alguns ensinamentos essenciais para passar por este momento da maneira mais saudável possível.

“É importante acolher esses sentimentos considerados ruins, como desânimo, frustração ou tristeza, mas não alimentá-los.”
Débora Bicudo Faria Schützer, doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

“A mudança de linguagem muda tudo pro bem e pro mal. Por isso é importante reduzir a expectativa e a idealização, entendendo que nada será como era.”
Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da USP e autor de Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma.

“Temos vivido múltiplos processos de luto, seja por pessoas, seja pela dinâmica de vida que tínhamos. É importante dar um sentido para isso e assim conseguir elaborar e serenar o coração.”
Roberta Federico, psicóloga e diretora do Núcleo de Psicologia Educacional da Secretaria de Educação da Prefeitura de Itaboraí

“É importante tecer redes de apoio para nos amparar pessoalmente e também buscar parceiros, pessoas, amigos, parentes e na rede social meios de elaborar e digerir esses desafios.”
Gláucia Tavares, psicóloga clínica

“Temos muita lição para tirar deste momento e podemos incluir as crianças nessa reflexão. A pandemia nos obrigou a exercitar uma série de competências sociais e reflexões sobre cidadania e sociedade que não podem ser desperdiçadas.”
Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar e autora do livro Criar Filhos no Século XXI, em entrevista a NOVA ESCOLA

“As pessoas que não fazem a olhada para dentro não refletem e não veem a própria imagem, porque essa imagem pode te desagradar, e quando te desagrada, você tem de tomar uma decisão. (…) O autoconhecimento favorece para que as decisões e a vida no seu sentido por cada um e cada uma construídos perca a noção superficial, banal.”
Mario Sergio Cortella, filósofo e doutor em Educação, autor de Viver, a que se destina, em entrevista à CNN

 

Por Anna Rachel Ferreira

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