14 ago 2020

Do ponto de vista biológico, somos iguais “de fábrica”: no lobo frontal do cérebro está a região responsável pela tomada de decisões, pela moral e o respeito às regras. Mas essa é a última região do cérebro humano a amadurecer. Como ela vai se desenvolver é parte de um processo complexo de educação, formação familiar, construção social e outras influências, que não são as mesmas para todos.

É nesse emaranhado de fatores biológicos, psicológicos e sociais que residem as respostas para algumas perguntas que vieram à tona na pandemia. Por que é tão difícil para algumas pessoas respeitarem regras de prevenção e cuidado, como o uso de máscaras e distanciamento social, em meio ao número expressivo de casos e óbitos por Covid-19 no país? E, sobretudo, por que outras acreditam que um diploma ou um cargo as eximem de obedecer normas que valem para o resto da sociedade?

“Uma coisa é como aprendemos as regras de forma geral, e outra é como as tornamos nossas e as obedecemos de forma autônoma” explica o psicanalista Christian Dunker, do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).

Pesquisadores associam o comportamento à ideia de narcisismo: a lei foi feita não para todo mundo, mas para punir alguns e privilegiar outros. “É um entendimento atrasado”, diz Dunker. “Mas bastante presente na sociedade brasileira”.

Na última semana, chamou a atenção o caso do desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, do Tribunal de Justiça de São Paulo, que rasgou uma multa e insultou guardas municipais que o advertiram por circular sem máscara em Santos, no litoral paulista. Ele pediu desculpas cinco dias depois, após forte repercussão negativa do caso.

“Para ele, a decisão de não usar a máscara possivelmente estava certa, porque essa foi a construção mental que o levou a agir assim. O fato de existir uma punição para andar sem máscara poderia até ter o levado a seguir a regra. Mas existe ainda outro fator que altera o comportamento humano, que se chama poder”, explica a biomédica Liana Guerra Sanches, coordenadora de Neurociências do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein, em SP.

Segundo ela, ao lado da formação do entendimento de regras e de conceitos individuais e coletivos, a sensação de poder também pode levar a diferentes caminhos de decisão. “Não parte do cérebro a atitude de seguir as regras”, diz Liana. “Essa ação é modulada pela construção daquele indivíduo. E por isso é tão variada e difícil. Aí entram experiências, influências e memórias”.

Um estudo de 2018 da Universidade de Cornell e da Harvard Medical School já mostrava que pessoas que se consideram especiais ou com mais direitos que outras têm maior tendência a desconsiderar normas aceitas pela maioria.

O comportamento se devia a uma espécie de visão narcísica sobre como o mundo deveria trabalhar para essas pessoas, que encaram as regras como uma imposição “injusta”. A ideia se mantinha mesmo entre as que eram ameaçadas com punições.

Só 37,5% seguem as normas

No início do mês, no Rio, um casal discutiu com fiscais ao serem abordados sem máscara em um bar. A resposta dada ao agente da prefeitura (“Cidadão não, engenheiro civil , formado, melhor do que você”) gerou enxurrada de críticas. Junto com o caso do desembargador de Santos, expõe desacato, mas também não faltam nas ruas cenas de desrespeito, como bares lotados, pessoas sem máscaras e alheia às recomendação de distanciamento e higiene.

Uma pesquisa recente do Ministério da Saúde mostra que apenas 37,5% dos brasileiros afirmam seguir todas as práticas recomendadas para a prevenção da Covid-19, como fazer isolamento social, lavar as mãos ou trocar roupas e sapatos ao chegar em casa. Divulgado no mês passado, o estudo Vigitel Covid-19 ouviu 2.007 pessoas em diferentes regiões do país. Entre os que afirmaram ter seguido todas as recomendações, 40,9% eram mulheres e 33,9%, homens.

Especialistas do campo da mente dizem que podemos viver momentos diferentes de interiorização da lei. Isso explica, inclusive, por que adultos podem reagir a regras de forma aparentemente infantil.

“Alguns vão dizer “quem manda na minha vida sou eu”. Outros vão desobedecer porque exigem um contexto especial da lei e acham que as regras não são para eles. E há ainda os que vão desobedecer porque ponderaram todas as razões e, ao fazerem a análise de risco, consideram que podem assumi-lo”, diz Dunker.

Num sentido mais amplo, a interiorização de leis e regras depende também da identificação com as autoridades que as simbolizam. Nesse ponto, frisa o especialista, o Brasil tem sido todo um contraexemplo na pandemia:

“A autoridade simbólica não mostrou unidade. Os estados estabeleceram uma política, os municípios, outra, e o governo federal emitiu mensagem ambígua. E muitas ações foram contra a regra sanitária”.

O desenrolar da pandemia no país reforça ainda outra base de estudos na psicologia, que mostra como interdições feitas teoricamente para o bem comum nos afetam individualmente.

“A lei é uma fonte permanente de sacrifício. Como a quarentena: nos sacrificamos agora por um bem maior, a preservação da nossa vida e da dos outros. Mas, mesmo querendo, não conseguimos obedecer a sacrifícios que ultrapassem demais nossa compreensão psíquica. Isso envolve momentos de vulnerabilidade”, explica Dunker.

Incremento de neuroses

Para a psicanálise, uma das consequências de uma privação excessiva e longa, baseada em uma lei mal incorporada, é o incremento das neuroses. O tema foi estudado largamente na psicopatologia psicanalítica clássica de Freud. Ela dividia as posições subjetivas entre neurose, psicose e perversão.

“No terreno das neuroses, os neuróticos obsessivos tendem a se identificar mais com a lei. Eles têm prazer em sua imposição delas e se fazem agentes dela. São os que dizem agora: ‘Não falei que era para lavar as mãos dez vezes ao dia?'”, explica o psicanalista e psiquiatra Jorge Forbes.

Na neurose histérica, continua, a frase típica é “sei que é para fazer assim, mas quero fazer assado”. Já nas psicoses, as pessoas encaram as leis de forma tirânica e vivem tormentos exagerados em relação a elas.

Por fim, estão os perversos. “(O psicanalista francês) Lacan dizia que era a “père version”, a versão do pai. É aquele que não cumpre a lei, uma vez que ele é a própria lei. A lei não é para ele. Temos exemplos abundantes nos quadros políticos e policiais”, diz Forbes.

Por Elisa Martins

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